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pareyson:1995:1.3

1.3 Liberdade e negação

PAREYSON, Luigi. Ontologia della libertà: il male e la sofferenza. Torino: G. Einaudi, 1995.

1. Tendo considerado no outro dia a liberdade como início, início absoluto, passo agora a considerar a liberdade como escolha, partindo de uma análise do ato absoluto e arbitrário da liberdade.

2. A liberdade é, entre outras coisas, o poder de tornar indiferente aquilo que em si não é de modo algum indiferente, isto é, apresenta-se a ela como indiferente aquilo que não é indiferente: apresenta-se como uma igual possibilidade de fazer uma coisa ou outra, de proceder a uma afirmação de si ou a uma negação de si; uma igual possibilidade de fidelidade e traição; uma igual possibilidade de escolher o ser ou o não ser, o bem e o mal.

  • é um agir sem razão intrínseca, isto é, ilimitado e arbitrário, sem lei ou critério que lhe seja imposto (como dizia, melhor o mal livre que o bem imposto). A escolha é decidida, portanto, não por um critério ou por uma lei, mas unicamente pela vontade
  • a liberdade é indiferente no sentido de que o ser livre pode escolher, depende dele: ele é essa escolha. Uma qualquer das duas alternativas; não uma em vez da outra: tanto uma quanto a outra, dois esforços contrários entre os quais a vontade se divide. A vontade incerta se divide, a vontade segura escolhe

3. Reconhece-se aqui o ato instantâneo, imperioso da liberdade. Nesse sentido, o ato de liberdade é início, autoposição, criação de si por si, passagem do não ser ao ser, mas de modo que a liberdade possa também pôr-se como não ser.

  • autopõe-se, passando assim do não ser ao ser, mas se autopõe de tal modo que também pode, em certo sentido, voltar atrás, pôr-se como não ser, autonegar-se. É uma peripécia dramática esta da liberdade, que no ponto culminante pode inverter o rumo, pervertendo sua própria imagem de liberdade, de modo que a afirmação se faz negação, ou melhor, destruição
  • essa saída do não ser pode chegar ao ponto de fazer retorno ao não ser: mal saiu do não ser já pode voltar a ele; e esse não ser já não se apresenta mais apenas, neste caso, como não ser, mas como nada, ou melhor, algo pior: como destruição. Pois de permeio esteve a escolha, esteve o ato da liberdade, que converteu esse não ser em algo muito mais grave
  • o ato de liberdade que, afirmando-se e realizando-se, sai do não ser (vence o não ser) mantém a possibilidade de voltar a ele e de nele morrer, sucumbir. Passado o ponto fatal, o não ser de que emerge, ao realizar-se, torna-se o nada em que pode voltar a perder-se
  • o sair do não ser é certamente uma afirmação de si, que pode ser porém também a negação de si, isto é, o entrar no nada. Eis como o início se torna escolha. É sempre um ato de liberdade (isto é, de afirmação de si) tanto o ato com que se confirma e reafirma no ser, quanto o ato com que se nega escolhendo o não ser de que emergiu; e esse não ser, tendo estado de permeio o ato de liberdade, torna-se “nada”
  • a negação, essa afirmação de si apresentando-se como negação, faz-se aniquilamento, destruição, autodestruição. O que Barth chama das Nichtige, não simplesmente o Nein

4. Assim o ato da liberdade é o ser da alternativa, o início se torna por si mesmo uma escolha, o começo absoluto se torna um dilema, o ato que parecia único apresenta-se afinal em dois termos.

  • duplo, mas não dividido, indivisível; dois termos entre os quais é preciso escolher um ou outro, e precisamente porque eles são juntos um e outro, precisamente porque não há um sem o outro, trata-se de escolher entre um e outro. Eis essa duplicidade, essa ambiguidade da liberdade, que é conflito, contraste, contradição que luta consigo mesma
  • o ato de liberdade é o ato da escolha, que é a escolha de um ato; a escolha de um ato é o ato da escolha. Nasce a alternativa: o próprio início é a escolha; a afirmação da liberdade como início realiza a liberdade como escolha, o puro início se mostra como pura escolha. Iniciativa e alternativa, iniciativa dupla, geminada; liberdade por si mesma dupla, ambígua, ancípite, isto é, liberdade positiva e liberdade negativa

5. A liberdade é tão livre que é uma autoposição e se realiza com seu próprio ato, que está sempre em ato e não pode estar em potência. Uma liberdade potencial não existe; aliás, é tão livre que é livre de não ser livre, que se afirma e se realiza não só no ato em que precisamente se afirma e se realiza, mas também no ato em que se nega.

  • em suma, quando se afirma, afirma-se justamente como liberdade, que é também possibilidade de negar-se. A liberdade como início é escolha, a ponto de continuar a existir mesmo que escolha negar-se, isto é, afirma-se também na negação e com a negação, ainda que tal negação a exponha à destruição de si
  • mas é tão forte sua força afirmante e seu ímpeto de afirmação que mesmo essa sua negação tem algo de positivo: não é simplesmente negar, mas destruir; é uma força negativa, ou melhor negadora, ou melhor destrutiva, que se torna ao mesmo tempo autodestrutiva e onidestrutiva
  • o não ser escolhido pela liberdade, quando a liberdade escolhe não ser, escolhe voltar atrás — esse não ser escolhido pela liberdade torna-se o nada; a negação que a liberdade faz de si torna-se destruição, porque — repito — há de permeio o ato da liberdade
  • não ser (ou negação) + liberdade (início, ímpeto, escolha) = nada (destruição, mal). O não ser mais a escolha é o mal. O que é o mal? O não ser + a escolha. O mal é o não ser escolhido

6. Essas duas possibilidades contempladas pela liberdade se realizaram historicamente, não no sentido da história temporal, mas no sentido da história da liberdade, que é história enquanto presente e idêntica à liberdade.

  • há a liberdade que, mal se afirma, volta ao nada de que acaba de sair; há a liberdade que, entre a autoafirmação e a autonegação, escolhe a autonegação; há a liberdade que só se afirma para negar-se e só se afirma negando-se; há a liberdade que transforma o não ser em nada e a negação em aniquilamento; há a liberdade de onde nasceu a força negativa da destruição, da oni e autodestruição; há a liberdade que prefere o mal: e essa é a liberdade do homem
  • não que ela seja a liberdade perdedora como “essência” do homem, não: é a liberdade tal como historicamente se verificou no homem. A primeira escolha que o homem fez foi a da liberdade negativa, a liberdade do homem que desde o início se nega e se perverte

7. Há, em contrapartida, a liberdade que se afirma e que, ao afirmar-se, pretende apenas realizar-se; e além disso não só realizar-se, mas também reafirmar-se, confirmar-se, assegurar-se na liberdade; que se põe e quer manter-se nessa sua autoposição, que, saindo do não ser, não apenas o derrota, mas lhe impede de instituir-se como um nada, como um nada real, como o nada real.

  • há a liberdade que de algum modo entra em contato com o nada, mas no ato de vencê-lo; que é conhecimento do nada, mas como vitória sobre ele; que sente o nada, mas quando já o superou, subjugou, derrotou, expugnou
  • há a liberdade que quer realizar-se e existir como vitória sobre o nada, que, diante da possibilidade de voltar ao não ser (que seria justamente não vir sequer à existência, mas também negar-se como existente), prefere a vitória sobre o nada, prefere o bem: e essa é a liberdade de Deus, que desde o início se confirma e se realiza como existência, e mais, é Deus como liberdade — a liberdade originária, a liberdade positiva

8. Eis como se verificou, como se realizou a duplicidade da liberdade. Há liberdade positiva e liberdade negativa, mas propriamente não são duas liberdades, e sim uma só, que pode ser positiva ou negativa.

  • a liberdade é única, mas dupla e ambígua: é isso que a institui em sua natureza de liberdade como escolha, alternativa, pura escolha, liberdade que, como escolha, é escolha entre liberdade positiva e negativa, e que é livre de ser livre ou de não ser livre
  • essas duas possibilidades, a positiva e a negativa, são inseparáveis: não se pode falar da mera liberdade negativa independentemente da liberdade positiva, e vice-versa; só se pode falar da liberdade em sua duplicidade, isto é, da liberdade que pode ser negativa ou positiva
  • a liberdade só se qualifica por sua duplicidade, isto é, pela possibilidade de decidir-se positiva ou negativamente, e cada uma das duas escolhas só é real na presença da possibilidade da outra. A liberdade positiva só existe na presença da possibilidade negativa; e a liberdade negativa só existe na presença da possibilidade positiva
  • dizer liberdade positiva ou dizer liberdade negativa são duas expressões elípticas para designar a escolha negativa ou positiva no exercício da única liberdade

9. Não se me oponha, como já se me opôs, que a liberdade negativa não é liberdade, e que por isso não deveria falar de “liberdade negativa”. Certamente, ela não é liberdade, pois é supressão da liberdade: autodestruiu-se. Mas é a própria liberdade que se nega como liberdade, e é sempre um ato de liberdade aquele pelo qual, mediante a escolha negativa, a liberdade suprimiu a si mesma.

  • (perdoem se repito todas essas formulações, mas preciso escavar de todos os lados, para mostrar o que quero dizer sob todos os aspectos). Como liberdade negativa, a liberdade ao mesmo tempo se nega e se afirma. Certamente, só se afirma negando-se e para negar-se, mas ao negar-se se afirma
  • essa contradição interna é o conflito que caracteriza a liberdade negativa ou o exercício negativo da liberdade: é uma laceração interna, altamente dramática; é uma situação trágica… por outro lado, é uma das possibilidades da liberdade em seu exercício

10. E aqui é preciso notar um fato: não há equipolência nem equivalência entre a liberdade positiva e a liberdade negativa. A duplicidade da liberdade (que, como liberdade, pode ser negativa ou positiva) apresenta-se sempre sobre o pano de fundo do primado do positivo: é a positividade que predomina.

  • pois o negativo se qualifica por sua necessária referência à positividade, seja porque não se pode conceber a positividade senão como superação da negatividade, seja porque ela é negação, transgressão da positividade, sendo por isso também um reconhecimento dela, o reconhecimento
  • em relação à escolha positiva, a escolha negativa permanece uma possibilidade, apenas uma possibilidade (não alcançada ou superada, de todo modo não realizada, e relegada ao posto de mera possibilidade). Já na escolha negativa, a liberdade, no próprio ato de negar-se, se afirma: só pode negar-se com um ato de liberdade com que se afirma, e que é sempre positivo; põe-se, exerce-se, realiza-se positivamente
  • em suma, escolha positiva, afirmativa, realizadora: para ela a escolha negativa permanece mera possibilidade; a escolha negativa nega, e ao mesmo tempo põe e afirma. O positivo predomina a tal ponto que o próprio ato de negação só pode exercer-se com um ato positivo com que a liberdade afirma a si mesma, isto é, como positivo ato de negação, no qual a liberdade coloca toda a própria energia para negar; revelando-se assim não mera negação, mas verdadeiro e próprio aniquilamento, isto é, força contrária, força negadora, destrutiva

11. Explica-se assim a realidade do mal, o mal como realidade. O negativo só pode existir como realidade “positiva”, como positividade do negativo, como negatividade positiva, como realidade negativa animada pela mesma afirmação da liberdade.

  • o mal é movido pela mesma energia que move o bem; o mal só se realiza através da energia que anima o bem. Nisso consiste o caráter imitativo, ou melhor, paródico do negativo, o diabo como simia dei
  • a liberdade negativa é destrutiva, emprega a própria força e todas as próprias energias para negar; quer destruir algo, mas, como não pode destruir o ser, isto é, a positividade, só se afirma destruindo a si mesma como liberdade
  • sua intenção seria destruir o ser, destruir a positividade, mas seu resultado não é outro senão a destruição de si mesma como liberdade; é liberdade que destrói a si mesma, que se reduz à escravidão, que se converte pelo avesso
  • quem exerce a liberdade negativamente crê destruir ou poder destruir a positividade, sua intenção é transgredir a positividade, mas não faz senão destruir a si mesmo. Portanto, entre a liberdade positiva e a liberdade negativa não há equipolência maniqueísta
  • aliás, nem mesmo no maniqueísmo há verdadeira equipolência entre o termo positivo e o termo negativo, mas aqui menos ainda: a positividade reduz a negatividade a mera possibilidade, a negatividade precisa da positividade para sustentar-se, mas essa energia positiva que a anima não faz senão aumentar sua força destrutiva

12. A concepção que proponho não é uma acentuação da negatividade ou da liberdade negativa (o que seria puro pessimismo), mas é um sublinhar da ambiguidade e da duplicidade da liberdade (com o que fica excluído o otimismo).

  • “pessimismo” e “otimismo” não são categorias ontológicas, são categorias psicológicas, e portanto de todo inadequadas para representar a realidade. A única categoria que nesse campo pode caracterizar, pode representar uma visão, uma concepção da realidade, é o pensamento trágico, que não é nem otimista nem pessimista
  • segundo essa concepção que proponho, o universo, a realidade, a vida não estão à mercê da negatividade, mas são marcados pela ambiguidade, por mais que se dê conta da enorme, imensa importância da presença do mal e do sofrimento no mundo
  • não vejo, porém, o mundo abandonado ao mal e ao sofrimento, mas vejo que essa presença é imensa, enorme, desproporcionada, e nisso vejo a ambiguidade que percorre a realidade. A ambiguidade em Deus, que é liberdade originária e centro do universo; a ambiguidade no homem, que em sua liberdade é coexistência de positivo e negativo, conflito entre bem e mal
  • e esse é o pensamento trágico, pois é trágico e angustiante que o homem não possa fazer o bem senão com o mesmo ato com que pode fazer o mal, e não possa chegar à alegria senão através da dor, e que muitas vezes a virtude floresça sobre o vício, e que a alegria não tenha outra sede senão o sofrimento

13. São livres tanto o homem quanto Deus. Mas o homem escolheu a liberdade negativa; Deus escolheu a liberdade positiva. O homem escolheu o mal; Deus escolheu o bem. Entendamo-nos, porém, sobre o que significa essa escolha!

  • não que a alternativa preexista à liberdade: não se pode identificar o ser com o bem e o não ser com o mal; há de permeio a liberdade e sua duplicidade, como escolha. Não é que a escolha positiva consista na escolha do bem e a escolha negativa consista na escolha do mal, mas é que a escolha positiva é ela mesma a escolha do bem e a escolha negativa é ela mesma a escolha do mal
  • dizer positividade não significa dizer posição do bem, dizer negatividade não significa apenas dizer negação, isto é, mal, mas significa dizer que a positividade é vitória sobre o nada e sobre o mal, e que a negação é renegação, traição do bem
  • o bem e o mal, porém, não preexistem à escolha: vêm depois da escolha, são o bem e o mal escolhidos, começam a existir depois da escolha como escolha positiva ou negativa, como bem escolhido ou mal escolhido
  • o que disse sobre a escolha de Deus e a escolha do homem, que a escolha divina foi a escolha do bem e a escolha do homem foi a escolha do mal, deve ser visto à luz da seguinte observação: não que deva necessariamente ser assim, que esteja no ser de Deus escolher o bem e que esteja no ser do homem, na essência do homem, escolher o mal; não, foi um ato de liberdade e portanto um fato indedutível, inexplicável, imprevisível, indemonstrável
  • foi um evento histórico: evento não de uma história temporal, de nossa história temporal humana, mas de uma história eterna, de uma história intemporal. Não se pode fazer disso um sistema, com deduções, demonstrações, nexos lógicos, senão à custa de fazer disso um sistema necessário, que já por si nega a liberdade
  • só se pode fazer disso um relato, uma narração, um mito; e esse relato e esse mito nós o temos, é o relato do Gênesis bíblico, que é o único modo pelo qual se podem dizer essas coisas. Mito não no sentido de “fábula” ou “lenda”, mas no sentido de relato revelador de coisas que só assim se podem dizer

14. Dito em termos histórico-narrativos, o ato da liberdade é o seguinte. No homem a primeira escolha foi uma escolha negativa; em Deus a primeira escolha foi uma escolha positiva.

  • a primeira escolha do homem é a escolha do mal, que não é em si irreversível, mas se repetirá até que o homem seja posto em condição de restaurar o funcionamento da liberdade
  • já a primeira escolha de Deus, a primeira escolha em absoluto na cena do mundo, não foi outra coisa senão o fato de que Deus é por si mesmo vitória sobre o nada e sobre o mal, isto é, dizer “Deus existe” quer dizer “foi escolhido o bem”, “o mal foi derrotado”
  • e também aqui essa escolha primeira e definitiva é irreversível: o mal permaneceu como simples possibilidade, vencido ab aeterno, e a existência de Deus significa justamente o mal vencido (que o mal permanece simples possibilidade)
  • constatamos que a existência histórica do homem corresponde a essa escolha, isto é, a primeira e única escolha do homem foi o mal, que se repetirá até que se restaure em sua integridade a liberdade do homem. A escolha negativa feita pelo homem não é irremediável, mas é progressiva: o mal se agrava não por necessidade, mas por força das coisas, por atos, pelos fatos contínuos de escolhas negativas que se acumulam
  • a primeira escolha de Deus foi o bem, e assim serão as outras: e de fato logo vem outra, a saber a criação, irreversível, definitiva, eterna

15. Chamamos “Deus” e “existência de Deus” a positividade, a escolha positiva. Deus é a liberdade que escolhe a liberdade; é o ser, o bem, a verdade, mas não enquanto tais.

  • dizer que Deus é “o ser”, dizer que Deus é “o bem”, dizer que Deus é “a verdade” são afirmações que implicam uma metafísica do ser, uma metafísica ôntica, objetiva, especular, demonstrativa. Deus é o ser, o bem, a verdade, ou o positivo em geral, mas enquanto querido e escolhido, vitória sobre o nada possível, sobre o erro
  • Deus é o ato permanente da liberdade positiva. Eis as consequências incalculáveis da liberdade, as consequências incalculáveis da primeira escolha feita pelo homem e as consequências incalculáveis da primeira escolha feita por Deus. Da parte de Deus, a criação com tudo o que se segue; da parte do homem, a queda com tudo o que se segue

16. E se Deus tivesse escolhido o mal? E se o homem tivesse escolhido o bem? São problemas mal colocados, pois de fato essas possibilidades não ocorreram e por isso é inútil demorar-se a examiná-las; farei, porém, uma menção.

  • se a escolha de Deus tivesse sido negativa, não teria havido um “Deus mau”: não teria havido nada, isto é, Deus não teria vindo a ser, não teria havido Deus, teria havido a inexistência de Deus (o Deus mau é a inexistência de Deus)
  • aliás, uma vez que existimos, quando dizemos “Deus não existe”, queremos dizer que o mundo é absurdo, reconhecendo assim que a inexistência de Deus é o vazio do mundo
  • e se o homem tivesse escolhido o bem? Também aqui, o que podemos dizer? É inútil demorar-se a examinar o que disso poderia ter resultado, pois antes de tudo não teria havido história: a história nasceu com a queda
  • o primeiro ato, o primeiro momento da história, é justamente aquela escolha feita pelo homem: se não tivesse havido aquela escolha negativa do homem, ele não teria saído da identidade originária da escolha divina do bem, isto é, o homem retornaria diretamente à apocatástase
  • não teria havido história, não teria havido separação de bem e mal, pois o mal não se teria realizado; real era apenas o bem, e não havia por isso senão a perspectiva final, escatológica, da apocatástase

17. De toda essa análise que fiz até aqui, queria que resultasse isto: que a liberdade é ao mesmo tempo poder de origem (e portanto início absoluto) e escolha negativa ou positiva, e isso em absoluto, onde quer que haja liberdade.

  • em todo ponto a liberdade indivisível, ainda que diversa em intensidade e em potência, apresenta esses dois caracteres: brota impetuosamente e se divide duplamente. Em todo ponto a liberdade é início e escolha

18. Examinaremos agora o problema do mal. O mal como realidade e o mal como possibilidade.

19. O mal em sua realidade se encontra no mundo histórico-humano, onde foi realizado pelo homem. Mas se pode realmente atribuir ao homem tanta criatividade, tanta capacidade inventiva a ponto de inventar o mal?

  • por mais poderoso que se possa imaginar o homem, é difícil atribuir-lhe potência tal e inventividade tal a ponto de inventar o mal. Uma potência para realizá-lo, depois de ter encontrado seu rastro, sim; mas a potência de realizá-lo depois de já ter esgotado todas as suas eventuais energias em buscá-lo e conseguir inventá-lo, não: a finitude do homem não dá para tanto
  • é preciso que o homem tenha encontrado a ideia do mal, um vislumbre de mal, e que o considere como uma possibilidade a traduzir em realidade. E onde pôde encontrar essa possibilidade? O que há antes do homem? Não há senão seu criador, isto é, Deus. Não pôde encontrá-la senão em Deus
  • mas em Deus o mal não pode ser real, pois Deus é o bem escolhido, Deus foi a realização do bem. Mas era possível realizar o bem senão escolhendo-o? E escolher o bem é possível senão operando essa escolha com a possibilidade da escolha oposta, isto é, da escolha do mal? Não
  • se escolha é escolha, é dupla (pois, se Deus não tivesse tido senão a unívoca possibilidade do bem, não teria sido escolha a sua, e ele não seria o bem escolhido) — ele não seria o que é, a vitória sobre o mal
  • portanto, dizer que o bem é escolhido significa dizer que essa escolha foi operada em oposição, na presença da possibilidade da escolha oposta, isto é, da escolha do mal, da escolha negativa. Está, portanto, em Deus o mal — naturalmente como possibilidade
  • a positividade originária é a escolha do bem na possibilidade da escolha do mal: é a vitória do bem entendida como vitória sobre o mal, que era no entanto possível

20. A escolha do bem se identifica sem resíduo com o repúdio do mal e com a derrota do nada, e em Deus o mal e o nada permanecem como possibilidades postas de lado, inatuais, inoperantes, adormecidas, dormentes, latentes, mas nem por isso menos inquietantes.

  • na afirmação divina o mal é uma possibilidade não realizada, aliás excluída para sempre, que permanece (ainda que latente e adormecida no abismo divino) não como realidade, mas ainda assim como uma possibilidade, disponível
  • disse que a meontologia é, embora como outra vertente da ontologia, sua inseparável acompanhante. O fato de que, para existir, Deus tenha tido de derrotar o nada, isto é, repudiar o negativo, deixa nele um traço, ainda que ineficaz, de negatividade, como algo de irresolvido
  • é o que Barth chama a “sombra em Deus”, ou a “mão esquerda” de Deus. Em Deus há os dois aspectos: aquele pelo qual o bem é escolhido e o mal repudiado com um ato irreversível, e aquele pelo qual o mal, como alternativa descartada, permanece ainda assim como pano de fundo da positividade

21. O mal é instituído como possibilidade no próprio ato em que é vencido. A vitória sobre o mal só pode configurar-se como relegação do mal à possibilidade.

  • o mal e o nada, nascidos já vencidos, irrevogavelmente, na definitividade da existência de Deus, permanecem, com essa mesma irrevogabilidade, presentes como possibilidade ameaçadora, pois pode sempre encontrar a circunstância, a ocasião, o autor que a realiza
  • dizer isso, falar da presença do mal em Deus, é expressão certamente desconcertante, mas a meu ver inevitável, também porque disso não resulta comprometida nem arranhada a positividade divina: não é de modo algum uma demonização de Deus
  • a positividade divina se afirma justamente como aquela redução do bem que já é, por si mesma, redução do mal a possibilidade. Sim, é preciso admitir que, ao dizer “o mal em Deus”, alude-se a um aspecto obscuro na essência divina — que é confirmação da ambiguidade originária, que é um aspecto opaco, que se inscreve na insondável abissalidade de Deus
  • a própria positividade de Deus tem um aspecto opaco; direi mais: a própria positividade de Deus é uma provocação, é causa indireta do mal, é um desafio ao homem, é uma tentação, é um incentivo

22. Admito que essas afirmações são um tanto fortes, mas, se olharmos para a essência do mal no homem, veremos que é justamente a resposta a esse desafio divino com um desafio, que é o do orgulho humano diante de Deus.

  • chame-se Prometeu ou Capaneu ou o que for, é o homem que não só se rebela contra Deus, mas quer mesmo igualar-se a ele. Diz Nietzsche que o homem não pode reconhecer Deus sem querer sê-lo: a expressão é minha, mas o conceito nietzschiano é este
  • nas Ilhas Bem-aventuradas do Zaratustra diz: “se existissem os Deuses, como poderia eu suportar não ser Deus?… Deus é uma hipótese, mas quem poderia suportar toda a dor dessa hipótese sem morrer dela?” O orgulho humano é desmedido e imenso, mas a provocação divina foi forte
  • na terceira seção da Genealogia da Moral diz Nietzsche: “Hybris ist unsre Stellung zu Gott”. Que outra posição podemos ter diante de Deus senão a da ὕβρις? Essa é a atitude do homem diante de Deus

23. Assim também Dostoiévski: o homem em seu orgulho não pode deixar de querer ser Deus; o homem não pode reconhecer Deus sem querer pôr-se em seu lugar. Não há outro reconhecimento além da revolta, o próprio reconhecimento já é uma revolta, já é uma rebelião.

  • sabe-se que Dostoiévski pretendia escrever um livro intitulado Hagiografia de um Pecador, onde se vê logo o oxímoro, a contradição: do pecador faz-se uma hagiografia. E rabiscou tantos apontamentos dos quais não nasceu o livro A Hagiografia de um Pecador, que não escreveu, mas nasceram vários livros: Os Demônios, depois O Adolescente e também parte de Os Irmãos Karamázov
  • ora, Dostoiévski diz que o grande pecador não se limita a negar Deus, não quer negar Deus: quer pôr-se em seu lugar; o seu não é o inócuo ateísmo de dizer “Deus não existe”; é algo bem mais grave: quer pôr-se em seu lugar
  • à moral entendida como “imitação de Cristo” substitui um imoralismo que consiste em substituir-se a Deus: pecado não de descrença, mas, por assim dizer, de lesa-majestade. Um de seus apontamentos diz: “sonhos ilimitados, até derrubar Deus para tomar-lhe o lugar”
  • contestação de Deus não em sua existência, mas em seu poder. Deus como rival, adversário, objeto de admiração e inveja. É um reconhecimento da positividade divina, que, em virtude do negativo que contém, se torna tentação, e mais, instigação. Eis como a blasfêmia, como todas essas coisas de caráter blasfemo, se convertem num reconhecimento da positividade de Deus

24. Estamos aqui, naturalmente, não no nível da mediocridade humana, a mediocridade tanto no bem quanto no mal: aquele mal tão pequeno que nem chega a ser mal, aquele bem tão pequeno que nem chega a ser bem, em que vive a maior parte da humanidade — estamos aqui naqueles pontos de altíssima elevação em que o mal é satânico, em que o bem é o de um santo.

  • e não é por acaso que estão tão próximos o homem diabólico e o santo, não é por acaso que o caminho do santo sempre roça o caminho do dragão, como diz são Jerônimo, e o caminho do homem diabólico está sempre a ponto de inverter-se: é muito mais fácil a conversão de um homem diabólico do que a conversão de um homem medíocre, que é incapaz até de conversão
  • estamos, portanto, no nível em que há uma única energia moral, que é a da liberdade, tanto dentro do homem satânico quanto dentro do homem excepcional do ponto de vista do bem, como aliás ensinam todos os romancistas desse tipo, como Bernanos, como Mauriac e outros. Para Bernanos, sob o céu de Satanás quem vive? Vive o extremo pecador e o santo, unidos por esse único céu que é o céu de Satanás

25. A própria positividade divina é, portanto, um estímulo à rebelião, e foi isso que ocorreu no pecado original: com sua queda, o homem despertou de novo, na positividade divina, aquela negatividade que, vencida e subjugada, ali permanecia adormecida.

  • Deus é a possibilidade de que o mal exista, isto é, seja realizado: isso quer dizer que Deus é a escolha do bem. Dizer “Deus é a escolha do bem”, “Deus é o bem escolhido”, significa dizer: “Deus é a possibilidade de que o mal exista”, isto é, seja realizado pelo homem, isto é, que se realize o pecado original. E então, por contraste, o homem… também ele, à sua pequena medida, é a possibilidade de que o bem exista, venha a realizar-se através da salvação

26. É, portanto, o homem quem desperta de novo o mal. E dessa maneira creio ter dito o essencial do que queria dizer, dizendo apenas que o discurso sobre a negatividade não estaria completo sem falar do sofrimento; mas, como o sofrimento não é só negatividade, mas uma reviravolta tal na realidade que converte o negativo em positivo, falarei dele na próxima lição, pois isso já faz parte daquela tragédia cosmoteândrica que é a história universal.

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