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0.8 A Gente

ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.

Introdução

VIII. DE REPENTE APARECE A GENTE

1. Cabe perguntar se as grandes categorias do mundo mineral, vegetal, animal e humano interindividual esgotam o conteúdo das circunstâncias ou se há alguma outra realidade irredutível a elas, sobretudo ao interindividual, pois, se não houvesse, o social e a sociedade não seriam uma realidade peculiar e, a rigor, não haveria sociedade.

2. Ao sair à rua e querer atravessar de uma calçada a outra fora das esquinas, o guarda de trânsito impede a passagem, e é preciso saber a que classe pertence essa ação, esse fato, esse fenômeno.

3. Não se trata de um fato físico, pois o guarda não impede a passagem como a rocha que intercepta o caminho, mas de uma ação humana, que difere profundamente, porém, da ação do amigo que toma pelo braço e leva a um canto de intimidade, ação que não só é executada por ele, mas nasce nele, por razões que ele vê claras e pelas quais é responsável, e que se refere à individualidade inconfundível do amigo.

4. O sujeito da ação humana de proibir ou mandar legalmente não é o homem guarda, nem o homem prefeito, nem o homem chefe de Estado, mas o Estado, que, no entanto, não é um homem, já que toda ação humana deveria provir de um sujeito determinado, e Luís XIV padeceu uma ilusão grave ao crer que o Estado era ele, tão grave que custou a cabeça a seu neto, pois nunca, nem na mais extrema autocracia, um homem foi o Estado, mas no máximo aquele que exerce uma de suas funções.

5. Resta saber quem é esse Estado que manda e impede passar de uma calçada a outra.

6. Quem é interrogado sobre isso começa por abrir os braços num gesto natatório, próprio de quem vai dizer algo muito vago, e responde que o Estado é tudo, a sociedade, a coletividade.

7. Quem saísse à rua vestido de elmo, lança e cota de malha dormiria provavelmente num manicômio ou na delegacia, porque não é uso nem costume, enquanto no carnaval talvez ganhasse o primeiro prêmio de máscaras, porque é uso disfarçar-se nessa festa, de modo que uma ação tão humana como vestir-se não é feita por inspiração própria, mas porque se usa, e o usual se faz porque se faz, e quem faz o que se faz é a gente, todos, ninguém determinado, o que revela que uma enorme porção da vida se compõe de coisas feitas não por gosto ou conta própria, mas porque a gente as faz, e que, como o Estado, a gente força a ações humanas que provêm dela e não de nós.

8. Além disso, a conduta se orienta por pensamentos sobre o que as coisas são, mas um balanço dessas ideias e opiniões revela com surpresa que muitas, talvez a maioria, nunca foram pensadas por conta própria com evidência responsável de sua verdade, mas pensadas porque foram ouvidas e ditas porque se dizem, e esse estranho impessoal, o se, aparece instalado dentro de nós, pensando ideias que nós apenas pronunciamos.

9. Quem diz o que se diz é cada um, mas o diz como o guarda impede a passagem, não por conta própria, mas por conta desse sujeito inapreensível, indeterminado e irresponsável que é a gente, a sociedade, a coletividade, e na medida em que se pensa e fala repetindo o que se diz e se opina, a vida deixa de ser própria, deixa-se de ser o personagem individualíssimo que se é e se age por conta da sociedade, como autômato social, socializado.

10. Desde o fim do século XVIII se quis supor misticamente que haveria uma consciência ou espírito social, uma alma coletiva, o Volksgeist dos românticos alemães, herdeiro não devidamente sublinhado da ideia lançada por Voltaire em seu genial Ensaio sobre a história geral e sobre os costumes e o espírito das nações, mas essa alma coletiva é misticismo arbitrário, pois não há alma que seja sujeito responsável de seus atos e faça o que faz por ter para ela sentido claro, o que leva a perguntar se o característico da gente, da sociedade, da coletividade não será justamente ser desalmada.

11. À alma coletiva, ao espírito nacional e à consciência social foram atribuídas as qualidades mais elevadas, às vezes divinas, como em Durkheim, para quem a sociedade é verdadeiro Deus, e no católico De Bonald, inventor efetivo do pensamento coletivista, no protestante Hegel e no materialista Karl Marx, para quem ela é algo infinitamente superior e mais humano que o homem, mais sábio por exemplo, enquanto a análise, sem buscá-lo nem precedentes conhecidos, revela algo desconcertante e até terrível, que a coletividade é algo humano, mas o humano sem o homem, sem espírito, sem alma, o humano desumanizado.

12. Há, pois, ações humanas a que faltam os caracteres primordiais do humano, sem sujeito determinado, criador e responsável para o qual tenham sentido, ações irracionais e desalmadas em que se age como o gramofone que toca um disco que não entende, como o astro que gira cego em sua órbita, o átomo que vibra, a planta que germina ou a ave que faz ninho, estranha realidade que parece humana, mas desumanizada, mecanizada e materializada.

13. A sociedade seria então uma realidade peculiar intermediária entre o homem e a natureza, nem uma coisa nem outra, mas um pouco de uma e muito da outra, uma quase natureza cega, mecânica, sonâmbula, irracional, brutal e desalmada, contrária ao espírito e justamente por isso útil e necessária ao homem, algo como natureza, matéria ou mundo, de modo que talvez acabe por ter sentido formal o nome que sempre se lhe deu informalmente de mundo social.

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