0.7 O Outro e Eu
ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.
Introdução
VII. O PERIGO QUE É O OUTRO E A SURPRESA QUE É O EU
1. Para averiguar de verdade o que é a sociedade e as coisas essencialmente ligadas a ela, sem confiar no que dizem os sociólogos, que deixaram insatisfeitos por não irem aos fenômenos mais elementares da realidade social, fez-se uma lenta batida, cada um em seu mundo primordial de solidão radical, e só se encontrou algo a que convém o sentido corrente de relação social no encontro com o Outro reconhecido como semelhante, o outro Homem, cujo atributo primário é responder, de fato ou em capacidade, à ação, obrigando-a a contar antecipadamente com sua reação, numa ação de dois sujeitos interpenetrada, interação, de modo que a ação é social quando conta com a eventual reciprocidade do Outro, que é ab initio o reciprocante e portanto social, e quem não é capaz de reciprocar, favorável ou adversamente, não é ser humano.
2. Essa capacidade de reciprocar pressupõe que o Outro seja vida humana como a própria, com seu eu e seu mundo exclusivos e transcendentes, de modo que os únicos seres capazes de corresponder e conviver, dos quais se poderia esperar a saída da solidão, são por isso mesmo radicalmente incomunicáveis, cabendo entre eles só uma comunicação relativa, indireta e problemática, e o Outro é fundamentalmente o Estranho, o estrangeiro essencial, e o mundo comum inferido da convivência, longe de romper as duas solidões, representa o contrário, pois o mundo próprio, embora resista e negue, é seu, patente, íntimo e cálido como o doméstico, gemütlich, cosy ou, num regionalismo asturiano, atopadizo, incluindo até as dores, que têm uma dimensão positiva de afeto porque nelas é sempre o eu que dói a si mesmo, enquanto o mundo objetivo, que não é meu nem teu, é uma imensa conjectura problemática alcançada às apalpadelas, cheia de enigmas, alçapões e armadilhas, sobre a qual se projeta a estranheza do Outro, sendo por isso o autêntico não-eu, a grande estranheza e a formal estrangeiridade, correlato da sociedade e, em última instância, da humanidade.
3. Há um motivo ainda mais profundo para que o mundo objetivo e comum, o Universo, seja absolutamente estranho e inóspito, pois, enquanto o mundo próprio se compõe de coisas cujo ser é servicialidade, pura referência ao eu, o mundo comum se compõe de coisas que pretendem existir independentes e indiferentes a todos, com um ser seu, não patente, mas presumido e conjectural, de modo que nele se convive como no estrangeiro, num enigma radical que dá origem às ciências e filosofias para arrancar-lhe o segredo, sendo o homem constitutivamente decifrador de enigmas, e por trás de todos os ruídos da história ouve-se o ranger de facas afiadas no esmeril, a mente humana amolando seu fio contra a pergunta pelo que é o Ser, tarefa a retomar a fundo noutra ocasião, pois nada separa mais dos dois últimos séculos que a tendência a evitar a presença patética do enigma, fazendo da cautela a única virtude intelectual, enquanto hoje se escuta Hegel ao recomendar a coragem de errar, e o gosto renascente pelo enigmático é, contra os sinais superficiais de fadiga, penhor de juventude, como se sobreviesse à alma do Ocidente uma inesperada mocidade.
4. Nesta data da história cabe tentar a solução desse colossal hieróglifo partindo do homem, e para isso é preciso esclarecer de verdade sua condição social, tarefa a que por ora se restringe a investigação.
5. O primeiro com que se tropeça no mundo próprio são os outros homens entre os quais se nasce e se começa a viver, um mundo humano ou sociedade, palavra que pode ser usada informalmente, sem compromisso, no sentido de encontrarem-se os homens entre si e o eu entre eles, embora ainda não se tenha nenhuma ideia clara do que seja a sociedade.
6. Como o mundo humano ocupa o primeiro plano da perspectiva, todo o resto do mundo, a própria vida e o próprio eu são vistos através dos Outros, cujas ações e falas se projetam sobre a realidade radical, cobrindo-a com uma crosta do que se recebe deles, de modo que se vive normalmente num mundo presumido e verossímil criado por eles e tomado pela própria realidade, e só quando essa docilidade leva a situações absurdas ou catastróficas se pergunta o que há de verdade nisso, retirando-se momentaneamente da pseudorrealidade convencional para a autenticidade da solidão radical, vivendo-se assim uma vida dupla, cada uma com sua ótica, em dosagem diferente em cada indivíduo, desde quem vive quase só a pseudovida convencional até quem é energicamente fiel à sua autenticidade, numa equação vital entre convencional e autêntico que se calcula instintivamente desde o primeiro trato com o Outro.
7. Mesmo no caso de máxima autenticidade, o indivíduo vive a maior parte da vida no pseudoviver da convencionalidade social, e como os Outros são os homens, nome genérico que na solidão não se poderia aplicar a si, o mundo, a vida e o próprio eu são vistos segundo as fórmulas deles, humanizados em sentido neutro, mundo que não é autêntico nem incontestável, mas verossímil e em muitas partes ilusório, impondo o dever vital de depurá-lo periodicamente para pôr cada coisa com seu coeficiente de realidade ou irrealidade, técnica inexorável que é a filosofia.
8. A análise da realidade radical revelou que normalmente não se vive nela, mas se pseudovive ao conviver com o mundo dos homens, na sociedade, e por isso, sendo esse o grande tema do curso, convém ver passo a passo, sem pressa, como aparecem os componentes desse mundo humano ou social e qual é sua textura.
9. Já se avançou muito ao advertir o altruísmo básico pelo qual se está a nativitate aberto ao outro, o homem indeterminado, o semelhante capaz de corresponder e reciprocar em nível aproximadamente igual, ao contrário do animal, mas a mera abertura não é ainda relação social, que exige agir sobre ele e provocar sua resposta, surgindo então a relação nós, forma primária de socialidade, qualquer que seja seu conteúdo, o beijo ou a paulada, em que já não se vive, mas se convive, nostridade ou trato, no qual, se frequente, o Outro vai se perfilando por graus até a proximidade extrema, a intimidade, em que se torna único e insubstituível, o Tu, e como isso ocorre com muitos, o mundo humano aparece como um horizonte de homens cujo círculo mais próximo está cheio de Tus e cujas zonas mais afastadas, até a linha do horizonte, abrigam os indivíduos quaisquer e intercambiáveis, numa perspectiva de humanidade próxima e distante.
10. Daqui é preciso partir para um novo avanço, representando com clareza a situação a que se chegou nesta altura da análise.
11. O eu de cada um está rodeado de outros homens, com muitos dos quais vive a reciprocidade do Nós, dentro da qual se precisam os Tus conhecidos e identificáveis, e além deles ficam os que se veem no horizonte como semelhantes, com quem há uma socialidade potencial que qualquer acaso pode atualizar, como na amizade inesperada ou, de modo mais cortante, no amor, em que a mulher de quem um minuto antes nada se sabia, indivíduo feminino qualquer, como o soldado desconhecido, o indivíduo vago dos escolásticos, se transmuta às vezes instantaneamente na mulher única, uma das cenas mais deliciosamente dramáticas da vida.
12. É preciso tratar mais seriamente do tu, de como o Outro se converte em Tu e do que acontece com ele já tuizado, o mais dramático que ocorre na vida, pois até agora apareceram apenas o Outro, Ele, a chamada terceira pessoa, e o Tu, segunda pessoa, mas não a primeira, o eu concreto de cada um, que é o último personagem a aparecer na tragicomédia da vida, sendo inexato dizer que o Homem vive, já que o Homem originário é o Outro, que convive, realidade segunda e presumida, e também que o eu vive, cabendo antes falar de X ou do vivente, questão decisiva para compreender a sociedade e vista aqui de forma aproximadamente inversa à de Husserl e seus discípulos Fink, Schütz e Löwith.
13. Na perspectiva de humanidade, diante do Outro com intimidade zero nada se conhece de único nele, apenas que é semelhante e sente, sem saber o que sente, quer ou almeja, e ao entrar em relação ativa com ele é preciso antecipar sua reação recorrendo à experiência geral dos homens, a ideia prática de suas possibilidades de conduta, cujo conteúdo é terrível, pois o homem é capaz de tudo, do egrégio e do mais depravado, do generoso e do ladrão de objetos ou de ideias, do assassino, do invejoso e do imbecil, de modo que diante do desconhecido é preciso pôr-se no pior e prever até uma punhalada, já que ele é igualmente amigo e inimigo em potência, possibilidade contraposta que é a raiz de todo o social e que a fórmula tradicional do homem como animal sociável obscureceu, pois relação social é tanto o beijo de uma mulher bonita quanto a punhalada de um transeunte, e toda sociedade é ao mesmo tempo dissociedade, convivência de amigos e inimigos, embora ainda não apareça o X subjacente que torna possíveis essas duas possibilidades e que é a própria sociedade, e a compreensão do próximo combina a intuição direta de seu corpo e gestos com o saber teórico da experiência geral do Homem, predominando este na intimidade zero e aquela nos graus maiores de intimidade.
14. Diante da possibilidade de que o outro seja feroz, já que o homem é por um de seus lados literalmente um mamífero da ordem das feras, o trato tem de começar por uma aproximação cautelosa, recíproca, por uma ação em si inútil destinada apenas a sondar intenções, que teve enorme importância na história e em alguns povos ainda dura meia hora com gestos rigorosamente ritualizados, técnica da mútua aproximação chamada saudação, da qual hoje só resta uma forma residual e que merecerá uma meditação na próxima lição.
15. Do Outro puro e indeterminado se tem um conceito ao mesmo tempo enorme e oco, pois, por não saber como é, atribuem-se a ele em potência todas as possibilidades humanas, inclusive as mais extremas e contrapostas, mas em pura abstração, nada positivo, o oco das possibilidades humanas, como ter o alvéolo para toda espécie de vasilha sem nenhuma delas.
16. À medida que se trata o outro, produz-se uma progressiva eliminação, convencendo-se de que é incapaz de certas façanhas e capaz de outros comportamentos, bons ou perversos, até convertê-lo num sistema definido de possibilidades e impossibilidades concretas, que é o que cada tu é, podendo-se fazer um fichário com a lista do possível e do impossível em cada próximo, até com o mais e o menos de cada qualidade, o mais importante no conhecimento do próximo, já que quase todos têm as mesmas qualidades, mas em estratos diferentes da personalidade, como Pedro, generoso no fundo de seu ser, e João, generoso só na superfície, e seria fértil para o Conhecimento do Homem desenhar esquemas de estruturas humanas típicas, tarefa em que já trabalhou Teofrasto, o discípulo de Aristóteles assim apelidado por seu falar divino, cujos Caracteres restam como breve e ilustre extrato.
17. O Tu se perfila quando a ilimitação de possibilidades se concentra num sistema preciso, o que ocorre no trato frequente, em que se leem na fisionomia, nos gestos e nos movimentos boa parte do que se passa em sua intimidade, como tristeza ou alegria nos músculos do rosto, ou como os atos de comprar uma mala e ir a uma agência de viagens, que têm por si um sentido vital, vai viajar, sem revelar o porquê e o para quê, que exigem recorrer ao conhecimento anterior de sua vida e aos gestos do momento, incluindo na gesticulação a própria linguagem.
18. Atos externos, fisionomia e gesticulação permitem presenciar a vida do outro, sobretudo quando já é um Tu cotidiano, parente, amigo ou colega, presenciar que filosoficamente é entrever ou tornar copresente, mas praticamente é ver fluir sua vida em corrente contínua de vivências, só interrompida no sono e às vezes nem nele, pela misteriosa vida do sonho, não por inteiro, restando zonas opacas e recantos impenetráveis, formando-se uma figura de seu caráter que se modifica constantemente porque o novo nunca coincide exatamente com o prognosticado, característica de todo saber vital, pois por mais que se conheça alguém, ao prever sua conduta num assunto importante a convicção vacila, ao contrário das leis físicas, biológicas e matemáticas, de modo que o saber científico é fechado e firme e o saber vital aberto, nunca firme e de contorno flutuante.
19. A razão disso é que o homem não tem um ser fixo, mas é liberdade de ser e pode sempre ser distinto do que foi, sendo de fato sempre mais ou menos distinto, e o passado inclina, mas não acorrenta, de modo que só quando o tu morreu tem um ser fixo, o que foi e já não pode reformar, sentido do célebre verso em que Mallarmé vê Edgar Poe finalmente transformado em si mesmo pela Eternidade.
20. A vida é mudança, e em cada instante se é algo distinto, sem nunca ser definitivamente si mesmo, e só a morte, ao impedir nova mudança, converte o homem no si mesmo definitivo e imutável e o eterniza, e ver fluir as vivências do próximo é ver correr seu tempo vital de horas contadas, contemporâneo do próprio, de modo que, como diz Schütz, com os Tus se envelhece junto, e o homem desde que nasce não faz senão envelhecer, o que talvez não seja tão triste quanto ensina uma educação inveterada, pois os inconvenientes de uma imortalidade cismundana, nunca considerados, revelariam as graças da mortalidade, da brevidade da vida e da morte que desde o início intervém em sua substância, a comprime e densifica e a faz ser pressa, iminência e necessidade de fazer o melhor em cada instante, sendo uma vergonha de todas as culturas não terem ensinado o homem a ser bem o que constitutivamente é, mortal, doutrina estritamente inversa da existencialista.
21. A ideia de que o tu presente é contemporâneo faz perceber que há tus que já não são ou nunca foram contemporâneos e não estão no contorno, os mortos, Outros nunca vistos que no entanto se fazem presentes pelas lembranças familiares, ruínas, velhos documentos, narrações e lendas, sinais de vidas anacrônicas que é preciso saber ler, vidas latentes além do horizonte, a Antiguidade, e a história é o esforço para reconhecê-la, a técnica do trato com os mortos, curiosa modificação da relação social atual.
22. O Outro desconhecido obriga a pôr-se no pior e a antecipar sua possível reação hostil, isto é, é constitutivamente perigoso, palavra magnífica, pois o perigoso não é resolutamente mau, podendo ser benéfico, mas mantém igualmente possíveis ambas as contingências, e para sair da dúvida é preciso prová-lo, ensaiá-lo, experimentá-lo, sentido original do latim periculum, de onde vem perigo, cujo radical per é o mesmo de experimentar, experiência, experto e perito, sendo o sentido originário de experiência ter passado perigos.
23. O outro homem é essencialmente perigoso, caráter superlativo no desconhecido que perdura em grau decrescente no Tu e rigorosamente nunca desaparece, pois todo ser humano é perigoso a seu modo e em sua dose, a começar pela criança inocente, que incendeia a casa com um fósforo, dispara a espingarda brincando, derrama ácido na panela e ela mesma corre o risco de cair da varanda ou engolir a roda do trenzinho, e se a esse ser se chama inocente, calcule-se o que serão os que perderam a inocência.
24. A consciência da periculosidade básica do outro atravessa viva toda a história, salvo breves etapas em que se obscurece ou desvanece, como nos dois primeiros terços do século XVIII e de 1830 a 1914, entorpecimento que foi a causa maior dos sofrimentos e catástrofes dos últimos trinta e cinco anos, ao fazer os europeus perderem o alerta sem o qual os humanos não podem nem têm direito de viver, daí a surpresa injustificada com que viram abrir-se de súbito em suas nações um abismo de criminalidade e ferocidade.
25. Interessam aqui, porém, não as formas extremas e melodramáticas da periculosidade, mas as mínimas e cotidianas, tão constantes que não são reconhecidas como perigos, como quem vive junto a uma catarata deixa de ouvi-la, pois o fundo habitual do trato diário, mesmo com os familiares mais próximos, só pode chamar-se luta, e a harmonia exemplar de uma família unida pelos laços mais ternos é apenas um equilíbrio resultante, uma acomodação mútua alcançada depois de inúmeros choques miúdos, nos quais se aprenderam as esquinas do modo de ser do Outro e os pequenos perigos da convivência, como certa palavra que não se lhe pode dizer porque o irrita, fere ou desconcerta.
26. Descobre-se assim o último e mais substancial estrato da periculosidade do Outro, que já não é a eventualidade de ser hostil ou fera, mas o simples fato de que Tu és Tu, de que tens um modo de ser próprio, não coincidente com o meu.
27. Do tu emergem frequentemente negações do próprio ser, do modo de pensar, sentir e querer, e às vezes a negação consiste justamente em querer o mesmo, um quadro, um êxito, uma posição social ou uma mulher, pelos quais é preciso lutar, e esse choque constante faz descobrir os limites e fronteiras com o mundo do tu, revelando que o eu da infância e o usado até aqui no curso era um conceito abstrato e sem conteúdo preciso, pois na solidão radical e na infância tudo parecia eu ou meu, os outros idênticos a mim e eu a eles, e o próprio corpo parecia chegar ao horizonte até que os tropeços nos móveis da casa, mesas e cômodas, primeiros pedagogos mudos, ensinaram os limites do ser corporal, embora esse mundo de móveis, distinto do eu, ainda fosse meu, enquanto as ideias e convicções do tu são alheias e às vezes contrárias, de modo que diante dos tus se vê que há no mundo anti-eus e que o eu não passa de uma porciúncula do mundo, essa pequeníssima parte que se começa a chamar com precisão eu.
28. É preciso distinguir dois significados da palavra eu, o que se tornará claro com três imaginações sucessivas muito simples.
29. Se existisse no mundo um único ser humano e, por impossível, ele tivesse linguagem, a palavra eu, cuja função seria diferenciá-lo, não poderia distingui-lo de outros homens, que não há, mas apenas do mundo e das coisas em que vive, significando estritamente o sujeito que vive no mundo, e não o que vive de certa maneira diferente de outro.
30. Se existissem tantos homens quantos há hoje, mas cada um na solidão radical, sem comunicação, a situação não mudaria, mas todos usariam a palavra eu com o mesmo significado, cada um enquanto vivente distinto de seu mundo, como um substantivo comum, à maneira de mesa, que vale para todas as mesas sem diferenciar a de pinho da de mogno.
31. Quando alguém bate à porta e, à pergunta sobre quem é, responde eu, a palavra não tem aquele sentido genérico, mas exclui todos os demais e condensa toda a biografia individualíssima de quem fala, supostamente conhecida de quem ouve, e como isso pode ocorrer com muitos outros, trata-se de uma palavra que, em cada caso em que alguém a emprega, significa uma realidade distinta, a individualidade exclusiva de cada um, mudança de sentido radical em relação ao eu da segunda imaginação, que vale para todos, enquanto este exclui formalmente todos menos quem o diz.
32. Algo semelhante ocorre com palavras como aqui, que, dita por várias pessoas numa sala, designa lugares diferentes, razão pela qual a gramática criou a categoria das palavras de significação ocasional, embora se possa discutir se não seriam antes inúmeras palavras distintas com significado único, já que quem responde eu atrás da porta sabe que todos podem dizê-lo, e o que permite reconhecê-lo não é o vocábulo, mas a voz conhecida com seu tom e timbre, de modo que poderia ter dito abracadabra, hipotenusa ou estreptomicina, ou sílabas sem sentido, qualquer pretexto para que uma voz humana soasse, fato que os linguistas notaram como particulares e não como linguistas, pois levá-lo a sério os obrigaria a reformar radicalmente a noção de palavra e de linguagem.
33. A palavra eu tem, pois, dois sentidos, um genérico, abstrato e de nome comum, o que vive no mundo, que mais ocupou os filósofos desde Descartes e sobretudo desde Kant, nas filosofias do eu, cujo eu nunca chegava a ser o concreto e único de cada um, e outro concreto e único, o de quem bate à porta e responde eu.
34. É importante para essa doutrina mostrar algo inesperado, que o eu concreto e único que cada um se sente ser não é algo possuído e conhecido desde logo, mas vai aparecendo como qualquer outra coisa, passo a passo, por experiências ordenadas, e se averigua que se é eu depois e graças a ter conhecido antes os tus, no choque e na luta com eles, que é a relação social.
35. A palavra Eu escrita em letras de imprensa num quadro-negro só pode significar algo abstrato e geral, mas se alguém num teatro gritasse eu, todos voltariam a cabeça para o ponto de onde saiu o grito, pois todo som traz consigo a indicação do lugar de onde foi emitido, fenômeno ainda não estudado devidamente pelos psicólogos, como nota Bühler na Teoria da linguagem ao lembrar que o cego percebe numa conversa quando alguém se dirige a ele, de modo que toda palavra pronunciada é já um advérbio de lugar e descarrega no ouvido a própria realidade emissora, e quando o som é eu, introduz no ouvinte a pessoa que o gritou e, se sua voz é conhecida, dispara toda a sua autobiografia, assim como dizer tu a alguém lhe dispara à queima-roupa a biografia que dele se formou, o que torna esses pronomes disparos de humanidade, superconcretos e explosivos, e explica a frase de Michelet de que o eu é odioso e a cortesia que procura poupar seu uso, técnica social que suaviza o choque da socialidade criando molas em torno de cada indivíduo e que alcançou suas formas mais refinadas nos países de maior densidade populacional, China e Japão, onde os homens vivem quase uns sobre os outros e o europeu parece rude e mal-educado, e onde a língua japonesa substituiu esses dois pistoletaços por fórmulas cerimoniosas, como a maravilha que há aí em vez de tu e a miséria aqui presente em vez de eu.
36. O carnaval, hoje moribundo, perpetuou nas sociedades cristãs ocidentais a grande festa pagã de Dioniso, deus orgiástico, de origem presumivelmente oriental, que convida a despersonalizar-se, apagar o eu diferencial e mergulhar na unidade anônima da natureza, e cujo navio sem marinheiros nem piloto, transportado num carro entre a multidão delirante, o carrus navalis, deu origem à palavra carnaval, festa em que as máscaras e a voz em falsete fazem desaparecer o eu, permitindo aos homens, um pouco fartos de se conhecer demais, brincar de se desconhecer, descansar um momento de si mesmos e livrar-se por algumas horas dos tus cotidianos.
37. Fechando o círculo, o outro homem, o tu, é constitutivamente perigoso e a relação social com ele é sempre choque e luta, na qual se descobrem os próprios limites e a figura concreta do eu, que aparece lentamente ao longo da vida como pavorosa redução daquele eu imenso, difuso e sem limites da infância, podado pelo conhecimento dos tus, cujo talento matemático, graça no dizer ou vontade firme revelam as próprias carências, assim como seus defeitos destacam os próprios dons, de modo que é no mundo dos tus que se modela o eu, descoberto como um tu entre tantos, distinto deles, com dons, deficiências e caráter exclusivos, como alter tu, o que inverte a doutrina tradicional, na forma refinada de Husserl e de discípulos como Schütz, segundo a qual o tu seria um alter ego, pois o ego concreto nasce como alter tu, posterior aos tus e entre eles, não na vida como realidade radical e solidão radical, mas no plano de realidade segunda que é a convivência.
