0.5 Vida interindividual
ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.
Introdução
V. A VIDA INTERINDIVIDUAL. NÓS-TU-EU
1. Realidade radical não é a única, nem a mais importante, nem a mais sublime, mas aquela realidade primária em que todas as demais têm de aparecer e enraizar-se, e nesse sentido vida humana significa exclusivamente a de cada um, cujo eu e cujo mundo lhe são patentes, presentes ou copresentes e lhe acontecem em sua solidão radical, de modo que, se aparecer nesse mundo algo que convenha chamar vida humana além da própria, o será em sentido secundário, derivado e suposto, como ocorre quando nos corpos de forma humana se advertem copresentes outros quase-eus com seus mundos próprios e incomunicáveis, aparecimento decisivo porque, enquanto a própria vida é imanente a si mesma, a copresença da vida alheia confronta com algo transcendente, que está na vida sem propriamente estar.
2. O que é patente na própria vida é apenas a notícia ou o sinal de que há outras vidas humanas, que, sendo de outros, estão fora ou além dela e por isso são transcendentes, primeiro exemplo de realidades não radicais, presumidas, infinitamente verossímeis mas não incontestáveis, o que revela que a realidade radical contém muitas realidades de segunda ordem sem perderem por isso seu valor de realidades e que a atribuição de realidade admite uma gradação, como nas queimaduras, a exemplo do mundo físico, resultado de uma teoria cambiante e questionável, em que ao mundo de Newton sucede o de Einstein e de Broglie, realidade de quarto ou quinto grau, mas ainda realidade, entendida como tudo aquilo com que se tem de contar, pois dele dependem a medicina, as máquinas e o futuro de todos, como nunca o porvir dependeu tanto de uma teoria, a intra-atômica.
3. Essas realidades presumidas, para não serem confundidas com a realidade radical, chamam-se interpretações ou ideias sobre a realidade, isto é, presunções ou verossimilhanças.
4. Impõe-se agora uma grande mudança de ótica, para uma perspectiva nova neste curso, mas que é justamente a normal em todos, sendo insólita a usada até aqui, e o aparecimento do outro homem, com a copresença de um eu como o próprio, com uma vida e um mundo seus, é o primeiro exemplo de realidade não radical, pois o corpo do outro é realidade incontestável, mas que nele habite um quase-eu, uma quase-vida humana, já é interpretação, realidade de segundo grau em comparação com a vida, o eu e o mundo próprios.
5. Essa averiguação faz perceber que dentro da vida há uma imensidade de realidades presumidas, não necessariamente falsas, mas questionáveis, não patentes nem radicais, como o mundo físico apresentado pela ciência, tão distinto do mundo vital primário, onde não há elétrons nem nada parecido.
6. Normalmente se vivem essas presunções como realidades radicais, sendo o eu e a vida do outro tão reais quanto a própria vida, de modo que se vive ao mesmo tempo a vida em sua realidade primária e uma vida que trata como primárias muitas realidades de segundo ou terceiro grau, e em geral não se percebe a vida autêntica em sua solidão e verdade, mas se vive entre interpretações inventadas e acumuladas pelo contorno social e pela tradição, das quais algumas merecem ser tidas por verdadeiras, sempre com reserva, pois como interpretações podem ser errôneas e ilusórias, e de fato a imensa maioria das coisas vividas são não só presumidas, mas ilusórias, ouvidas dos outros e aceitas sem análise, tema dorsal do resto do curso.
7. Se a vida normal consiste em ocupar-se com pseudocoisas que são meras interpretações irresponsáveis dos outros ou próprias, ela é um pseudofazer, um fazer que se faz, um fazer que se vive sem viver efetivamente o viver autêntico, aquele que se viveria se, desfazendo-se das interpretações recebidas da sociedade, se tomasse de quando em quando contato enérgico com a vida como realidade radical, solidão, prestando contas do negócio da vida pelo qual só cada um é responsável, já que na solidão o homem é sua verdade e na sociedade tende a ser convencionalidade ou falsificação, e essa retirada periódica ao fundo solitário de si, em que se exige das verossimilhanças e ilusões suas credenciais de realidade, chama-se com nome amaneirado e confuso filosofia, anábase, acerto de contas consigo na pavorosa nudez diante de si mesmo, nudez impossível diante do outro, cujo olhar já cobre, como mostra o rubor, que parece cobrir a carne nua com um pano rosado.
8. A filosofia não é uma ciência, mas antes uma indecência, pois põe as coisas e o próprio eu nus, no que puramente são, e por isso é, se possível, conhecimento autêntico, o que as ciências nunca são em sentido estrito, sendo meras técnicas úteis para o aproveitamento refinado das coisas, enquanto a filosofia é a verdade terrível, desolada e solitária das coisas, como indica o grego alétheia, desnudar, e o latim veritas, provavelmente de uma raiz indo-europeia que designava o dizer solene do juramento, em que se põe Deus por testemunha, Deus que não é um terceiro entre a realidade e o homem, porque sua presença é feita de ausência essencial, o imenso ausente que brilha em todo presente, e seu papel é deixar o homem só com a realidade sem nada que a vele ou oculte, o que é a verdade, razão pela qual o mestre Eckhart chama Deus o deserto silente.
9. Que esse recurso da pseudovida convencional à realidade mais autêntica exija uma técnica intelectual mais rigorosa que a de qualquer ciência é questão distinta, pois a filosofia é também técnica filosófica, mas apenas em segundo lugar e porque precisa dela para sua missão primigênia, e se em meados do século passado e começo deste ela pretendeu, sob o apelido de positivismo, ser ciência, tratou-se apenas de um breve ataque de modéstia.
10. A filosofia é a crítica da vida convencional, inclusive e sobretudo da própria, que o homem precisa fazer de quando em quando, levando-a ao tribunal de sua vida autêntica e de sua inexorável solidão, ou a partida dobrada que precisa manter para que os negócios a que dedicou sua vida não sejam ilusões demais e cada um, contrastado com a pedra de toque da realidade radical, fique no grau de realidade que lhe corresponde.
11. Neste curso se cita diante desse tribunal tudo o que se costuma chamar social, para ver o que é em sua verdade, recorrendo constantemente da vida convencional e cotidiana à realidade primária e à sua ótica insólita e severa, como se fez desde a observação sobre a maçã, que resultou um tanto fraudulenta, pois metade dela nunca é presente com a outra, e depois sobre o mundo sensível, cuja porção presente oculta o resto e o deixa apenas copresente, como o aposento que encobre a cidade e esta a nação e a Terra.
12. O réu mais importante citado a juízo foi o outro homem, cujo corpo e gestos são presentes, mas cujo caráter de homem, de outro eu e de outra vida humana se revelou mera realidade interpretada, a grande presunção e verossimilhança.
13. Para o tema do curso o outro homem é a realidade decisiva, pois a busca de fatos evidentemente sociais fracassou com a pedra e a planta, e com o animal pareceu transparecer algo como uma relação social porque a ação humana tem de contar com que ele a prevê e se prepara para responder, um tipo novo de realidade, uma ação que inclui antecipadamente a resposta do outro e emana de dois, autêntica colaboração, como o coice previsto do mulo que convida a manter distância, de modo que ambos contam um com o outro e coexistem, e suas ações se interpenetram, mútuas e recíprocas, interação, sentido que toda uma linha da tradição idiomática dá ao social e que cabe aceitar por ora.
14. A relação com o animal, porém, é limitada e confusa, o que sugere buscar fatos em que a reciprocidade seja clara, ilimitada e evidente, isto é, em que o outro ser possa responder tanto quanto o eu, o que só ocorre com o outro, considerado tal justamente por ser par igual no poder responder, já que alter em latim é o termo de um par, o correspondente ao unus, e por isso a relação entre ambos se chama em espanhol alternar, e dizer que não se alterna com alguém é dizer que não se tem com ele relação social, como não se alterna com a pedra nem com a hortaliza.
15. O homem aparece como o outro, aquele com quem se pode e se tem de alternar, pois mesmo que se preferisse que não existisse, o eu existe para ele e precisa contar com suas intenções, talvez aviesas, e esse mútuo contar com, a reciprocidade, é o primeiro fato que permite chamá-lo social, possível porque o outro tem, como o eu, sua alma em seu armário, pensa, sente, quer e tem seus fins, o que se descobre porque ele responde e reciproca, de modo que o homem aparece originariamente como o reciprocante, atributo originário e não acidental, pois na solidão não se poderia usar o nome genérico homem, que, como diz Husserl, implica uma existência recíproca de uns para os outros, uma comunidade, uma sociedade, de modo que falar do homem fora da sociedade é contraditório, o que explica as reservas em chamar homem ou eu o vivente na solidão radical, já que o homem não aparece na solidão, embora esta seja sua verdade última, mas na socialidade, como o Outro que alterna com o Um.
16. A língua revela que houve um tempo em que os homens não distinguiam genericamente entre seres humanos e não humanos, julgando-se entendidos e respondidos também pela pedra, pela planta e pelo animal, como mostram as expressões indo-europeias equivalentes a como se chama essa coisa, pois saber o nome permite chamá-la para que acuda e reaja, sentido que têm appello, calo, os verbos gregos correspondentes, o espanhol llamar, derivado de clamare, e o alemão heissen.
17. A ordem analítica do inventário, que foi da pedra ao animal e só depois ao homem, não corresponde à ordem real, que é a inversa, pois o primeiro que cada um encontra são os outros homens, já que nasce numa família, que nunca existe isolada nem é a célula social, ideia que rebaixa essa instituição maravilhosa, embora incômoda como tudo o que é humano, de modo que o mundo começa por ser um mundo de homens, no sentido de ser homem de mundo, e precede o animal, o vegetal e o mineral, que são vistos como através das grades de uma prisão, através desse mundo humano, cujos membros, ao falar, injetam suas ideias sobre todas as coisas, pelas quais o mundo inteiro passa a ser visto.
18. O aparecimento do Outro fica sempre às costas da vida, pois ao surpreender-se vivendo pela primeira vez já se está entre os outros e habituado a eles, o que leva ao primeiro teorema social, o de que o homem está a nativitate aberto ao outro, ao ser estranho, e antes de perceber a si mesmo já teve a experiência básica de que há os que não são eu, sendo assim, queira ou não, altruísta, palavra que não determina se essa abertura é favorável ou desfavorável, algo prévio à boa ou má disposição, pois roubar ou assassinar o outro supõe estar aberto a ele tanto quanto beijá-lo ou sacrificar-se por ele.
19. Estar aberto aos outros é um estado permanente e constitutivo do homem, não uma ação determinada, e ainda não é relação social propriamente, mas simples coexistência, matriz de todas as relações sociais possíveis, mera presença e sobretudo copresença do Outro no horizonte, em que nem o comportamento se condensou em ação nem o conhecimento do outro se concretizou, sendo ele apenas uma realidade abstratíssima, o capaz de responder aos próprios atos, o homem abstrato.
20. Dessa relação partem duas linhas conectadas de progressiva concreção, uma em que se vai conhecendo melhor o outro, decifrando sua fisionomia, gestos e atos, e outra em que a relação se torna ativa e cada um age sobre o outro, sendo que a primeira costuma progredir ao fio da segunda.
21. Convém começar pela segunda dessas linhas.
22. Se diante do outro se aponta um objeto e ele vai até ele, o pega e o entrega, conclui-se que nos mundos exclusivos de cada um parece haver um elemento comum, existente para ambos com leves variações de perspectiva, e como isso ocorre com muitas coisas e muitos homens, embora às vezes por engano, forma-se a ideia de um mundo presumido e comum a todos, o mundo objetivo, que se precisa nas conversações, e embora às vezes um detalhe revele que a coincidência era ilusória e faça submergir de novo no mundo da solidão radical, a dose de coincidências consolidadas basta para entender-se sobre as grandes linhas do mundo e para colaborar nas ciências, a ponto de um laboratório na Alemanha aproveitar observações feitas na Austrália, construindo-se assim a imagem de um mundo que, não sendo só meu nem só teu, mas de todos, será o mundo.
23. Isso demonstra o grande paradoxo de que não é o mundo único e objetivo que torna possível a coexistência, mas a relação social que faz aparecer um mundo comum e objetivo, o mundo universalmente válido de Kant, fundado na unanimidade dos sujeitos, o que confirma que o primeiro que aparece é o grupo humano em que se nasce, através do qual aparece o resto do mundo, e embora Kant e Husserl, que deu ao raciocínio sua forma mais depurada, utopizem essa unanimidade, já que os homens só coincidem em componentes grosseiros do mundo e coincidências e discrepâncias se compensam, basta aquele tronco de coincidências para que todos creiam viver num mesmo mundo, atitude natural e cotidiana pela qual o viver é conviver.
24. Para haver convivência é preciso sair da simples abertura passiva ao outro, o altruísmo básico, e agir sobre ele com sua resposta, seja curando-lhe uma ferida, seja dando-lhe um soco que ele retribua, vivendo juntos em reciprocidade, relação expressa pelo mos de vivimos, o nós, em que um e outro fazem algo juntos e mutuamente se são, o que se deve chamar nostrismo ou nostridade, primeira forma de relação concreta com o outro e primeira realidade social no sentido mais vulgar, que é também o da maioria dos sociólogos, mesmo os melhores, como Max Weber.
25. Com a rocha não há nostridade, e com o animal há apenas uma nostridade muito limitada, confusa, difusa e problemática.
26. À medida que se convive na realidade nós, o outro, até então um homem indeterminado, um semelhante capaz de reciprocar, vai se precisando e distinguindo dos demais, e quando a proximidade de trato e conhecimento chega a forte dose, chama-se intimidade, em que o outro se torna próximo e inconfundível, não um outro qualquer, mas o Outro como único, o TU, que não é simplesmente um homem, mas um homem único e inconfundível.
27. É no âmbito de convivência aberto pela relação nós que aparece o tu, indivíduo humano único, com quem se interage de indivíduo a indivíduo, e uma das ações mais típicas dessa reciprocidade é falar, inclusive dele ou deles, os que ficam fora dessa proximidade, e a língua espanhola, diferentemente do português e do francês, que dizem nos e nous, plural inclusivo de mera convivência, diz nosotros, plural exclusivista que enuncia uma comunidade entre eu, tu e outros tus formando uma unidade coletiva diante, fora e de certo modo contra os outros, de modo que no nos-otros se declara união, mas sobretudo se reconhece ser outros que os Outros, que Eles.
28. Advertido o altruísmo básico do homem e visto como o Outro entra na relação Nós, dentro da qual o indivíduo indeterminado se torna único, o TU, com quem se fala do distante, ele, a terceira pessoa, falta descrever o embate com o TU, no choque com o qual se faz a descoberta mais estupenda e dramática, a de descobrir-se como sendo eu e nada mais que eu, pois, contra o que se poderia crer, a primeira pessoa é a última a aparecer.
