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lacoue-labarthe:1979:4.5
4.5 Estratégia
LACOUE-LABARTHE, Philippe; LACOUE-LABARTHE, Philippe. Le Sujet de la philosophie. Paris: Aubier : Flammarion, 1979.
Acesso (2): Jogando Fora a Salvaguarda
- A estratégia do pensamento é a obliteração, e agora começamos a entender como e por que é assim.
- Mas o significado de obliterar é ambíguo no mínimo: significa ao mesmo tempo apagar e sobrecarregar, superimpor.
- Em cada caso, é obviamente uma questão de fazer uma inscrição desaparecer, mas em cada caso a rasura e o sentido da operação são completamente diferentes.
- Eis o que nossos dicionários, que seria ingênuo nesse caso não consultar, por mais tedioso que seja, dizem ou pensam sobre o assunto.
- Obliterar, segundo Littré: apagar letras, marcas, o tempo obliterou esta inscrição; por extensão, fazer esquecer, o tempo obliterou esta opinião.
- Quanto mais avançam para o futuro, mais fácil lhes é obliterar o passado, ou dar-lhe o aspecto que desejam, J.-J. Rousseau, Terceiro Diálogo.
- Fechar a cavidade de um conduto; por extensão, obliterar um órgão, fazê-lo desaparecer; ser obliterado, v. ref., ser apagado, ser obstruído.
- Sinônimo: riscar, obliterar, riscar um selo é anulá-lo completamente, remover todo valor dele marcando-o com o carimbo cancelador.
- Histórico: século XVI, é tão obliterado que não se pode de modo algum lê-lo, Paslgr. p. 740.
- Etimologia: latim obliterare, de ob, sobre, e littera, no sentido de um traço de escrita.
- Obliterar, segundo Robert: obsoleto e arcaico, fazer desaparecer progressivamente, mas de modo a deixar alguns traços, ver apagar, a circulação da moeda oblitera imperceptivelmente as figuras e letras impressas nela, ver desgastar.
- Especialmente: tornar ilegível, incompreensível, obliterar um texto, cobri-lo de rasuras; figuradamente: suprimir, apagar, imagens, memórias, obliteradas pelo tempo.
- É claro a partir dessa breve amostra que há mais que uma simples ambiguidade, e seria sem dúvida fácil, mas fácil, levar em conta quase todos os sentidos da palavra.
- Mas limitar-nos-emos à ambiguidade, que será, para nossos propósitos precisos aqui, largamente suficiente, mas por quê exatamente.
- Porque fomos levados de volta, no fim, à questão que teve de ser feita no começo, mas que tivemos de deixar suspensa, e que ainda aguarda, ao menos em princípio, uma resposta.
- Essa questão foi formulada mais ou menos do seguinte modo: a que, se não simplesmente ao pensamento, devemos ter acesso em Heidegger mesmo.
- Esta era, recordamos, uma questão preliminar, que deveria ela mesma abrir o caminho para Nietzsche, e deveria, no mínimo, permitir-nos fazer aquela outra questão, a saber, em que medida, como e por que direito é possível reconsiderar a interpretação de Heidegger de Nietzsche, isto é, do pensamento de Nietzsche.
- Isso obviamente exigiu passar por, ou antes esboçar, nos traços mais amplos, o movimento de passar por essa interpretação mesma.
- Foi inevitavelmente necessário empreender a leitura dessa interpretação, e nela nos deixar guiar pela necessidade de pôr em questão a estratégia do pensamento mesma.
- Um ardil obrigatório, mas grosseiro, e a resposta já era conhecida: tratava-se apenas do texto, da escrita.
- Ora, isso não é de modo algum o caso, ou ao menos essa aparência é enganosa, e é aqui que a ambiguidade da obliteração entra em jogo.
- As aparências enganam porque nunca se tratou em tudo isso de pregar o truque da escrita em Heidegger, e menos ainda o do sujeito ou da loucura, nada poderia ter sido mais irrelevante.
- Ou, se quisermos, esse ardil teria sido tão grosseiro que não poderia ter deixado de se voltar contra si mesmo imediatamente, precisamente como pudemos dizer do estratagema do é-loignement, cuja relação com a obliteração, com a rasura da letra, agora se conhece, que ele é afinal reversível.
- O ardil teria se voltado contra si mesmo, se tivéssemos cedido a ele, pela simples razão de que teria acabado apenas opondo a escrita, ou o sujeito, ou a loucura, ao pensamento.
- Sabemos muito bem o que é uma oposição, ou antes como funciona: a oposição como tal nunca se mantém, pelo contrário, um dos termos que a constituem, porque eles a constituem, sempre já subla o outro.
- E a sublação sempre ocorre na direção, sens, da idealidade, isto é, no sentido, Sens, ponto final.
- Tanto mais se se trata de opor o pensamento a algo mais: o termo que subla nunca pode ser nada além do pensamento mesmo, seja negativamente ou sob outro nome, por exemplo, como vemos todos os dias, sob o nome de escrita, de texto, de significante, de loucura, de desejo.
- Mas o poder, e o desejo, de decisão pertencem ao pensamento, é mesmo seu traço distintivo, como Heidegger não se cansa de repetir.
- Poderíamos, portanto, muito bem ter insistido em falar de escrita, e nada além de pensamento estaria de fato em jogo.
- O que, então, tudo isso foi, uma operação, certamente, e mesmo, se quisermos, uma contra-operação, mas desde que concordemos sobre o valor desse contra.
- Pois é precisamente sobre esse valor que toda a operação mesma terá incidido.
- Simplesmente tentamos, e nada é de fato menos claro, menos definido, nada se parece menos com uma crítica, uma refutação, um contrapor, tornar suspeita a prática da contradição, isto é, a utopia da decisão, que é a utopia, e no entanto o único topos, da hermenêutica, do comentário.
- Sem dúvida, a questão de qual poderia ser o outro do pensamento que o pensamento não teria de antemão subladо, ou teria sido impotente para reappropriar, nunca deixou de ser levantada, com o risco, e isso é um fato, do absurdo, da insânia, l'insense.
- Sem dúvida, foi necessário trazer em jogo, ao vagar por essa questão, o que em Nietzsche tem alguma chance, como Bataille teria dito, de resistir ao pensamento como tal, isto é, a incoerência ou violência extrema, ou a fraqueza, a queda, o naufrágio do pensamento, tudo o que comunica, no fundo, com a virulência empirista, ingênua, com certo tipo ou estilo de escrita, do qual Derrida falou em Da Gramatologia, e precisamente para opô-lo à interpretação de Heidegger.
- Mas como tudo isso concerne à ambiguidade da obliteração.
- Na medida em que, contrariamente a todas as expectativas, efetivamente nada mais está acontecendo na interpretação heideggeriana de Nietzsche.
- É verdade que Heidegger mesmo, aceitemos uma última vez essa ficção, não sabe disso.
- É verdade que para ele trata-se de fato de evitar, em Nietzsche, uma ameaça, de impedir a irrupção daquele outro do pensamento que não seria o pensamento mesmo ou não seria, como o impensado que deve ser escrito impensado, da ordem do pensamento.
- Uma ameaça muito pior, provavelmente, que a do niilismo, que pode ser pensado e portanto dominado.
- A incoerência, o excesso, a falta de controle, a fuga ou perda irreversível do pensamento mesmo em todos os pensamentos, na multiplicidade frenética de palavras, linguagens e nomes, filosofia e filologia desencadeadas, todo esse movimento de um motor em corrida, uma máquina louca, que é o do último Nietzsche, isso de fato escapa ao domínio.
- Ou então é preciso opor-lhe, cegamente, por assim dizer, com todos os recursos mais profundos, mais profundamente enterrados do pensamento.
- Parar o pensamento, ou removê-lo, por um passo atrás, desse perigo: recuar.
- E assim medir, manter, economizar.
- Salvar e salvaguardar: a terra para o mundo, Dichtung contra a literatura, a verdade contra tudo o que poderia abalá-la.
- Nada é acidental se salvaguarda é o nome próprio da verdade, a própria verdade de aletheia, a palavra mestra: um dia aprenderemos a pensar nossa palavra exausta para verdade, Wahrheit, em termos da guarda, Wahr, a experimentar a verdade como a salvaguarda, Wahrnis, do Ser, e a entender que, como presentificação, o Ser pertence a essa salvaguarda.
- E no entanto, uma vez que tudo isso foi reconhecido, uma vez que tudo isso foi entendido como o que governa e impõe, dentro da interpretação de Nietzsche, a obliteração do texto nietzschiano, devemos observar que essa obliteração se oblitera a si mesma, isto é, assume a forma de uma sobrecarga interminável ou de uma superimposição interminável.
- A rasura do texto engendra sua proliferação, força-o.
- A interpretação é escrita, e não só é escrita como é como se a escrita, a partir do momento em que começa, levasse a interpretação para fora de seus próprios limites, obrigasse a retomá-la, a recomeçá-la, a repeti-la de todas as maneiras possíveis, sem, precisamente, poder parar.
- O pensamento que não quer ouvir nada sobre o texto, ou que quer ouvir o mínimo possível sobre ele, nunca para de produzir texto, e um texto sobre o qual se terá dito muito pouco se nos contentarmos em ridicularizar sua allure incantatória, arcaizante ou laboriosamente poetizante.
- Seria melhor tentar entender: qual necessidade de escrita, percebida aliás desde o início, desempenhou um papel na ruptura de Sein und Zeit.
- Por que essa ruptura, no momento em que o pensamento parecia se fixar no tema da verdade, desencadeou a passagem pela questão da linguagem e da Dichtung e pela leitura de Hölderlin e Nietzsche.
- Por que essa passagem confirmou ou consagrou definitivamente uma ausência de obra radical, a proliferação de múltiplos textos que constantemente se sobrepõem uns aos outros, se resumem uns aos outros, se chamam uns aos outros, como se o cruzamento do texto nietzschiano tivesse contaminado o próprio Heidegger.
- Por que, apesar de todas as negações, esse tipo de aventura textual é tão atento e concertado, como evidencia o labirinto ininterrupto de prefácios, posfácios, preâmbulos, notas, esclarecimentos, datações, localizações.
- Por que o impulso foi tão forte para tentar tal trabalho sobre a linguagem, vocabulário e sintaxe, e sobre a forma ou estilo, formas e estilos, o curso, o ensaio, o poema, o diálogo.
- Pode-se sempre atribuir a escrita, especialmente quando é precaucional, a uma mania exorcizante ou à compulsão de repetição.
- Mas talvez seja estritamente impossível escrever qualquer outra coisa senão isto: o que me força a escrever, suponho, é o medo de enlouquecer.
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