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2 Desvio
LACOUE-LABARTHE, Philippe; LACOUE-LABARTHE, Philippe. Le Sujet de la philosophie. Paris: Aubier : Flammarion, 1979.
- Nietzsche ocupou-se, portanto, da retórica: ensinou-a, considerou dedicar-lhe um livro e, acima de tudo, assumiu seu vocabulário, ao menos as grandes categorias da teoria dos tropos, num certo número de textos filosóficos que se tornaram bem conhecidos embora todos permaneçam no estado de esboços ou fragmentos.
- Usando a retórica, Nietzsche buscava questionar as pretensões de verdade feitas pela linguagem da filosofia e da ciência, seu desejo de uma literalidade pura e simples, sua vontade de ser própria, por assim dizer.
- Tratava-se de uma tarefa dupla: por um lado, voltar contra a filosofia aquilo contra o que ela alegava erigir-se, como o mito, a poesia, a eloquência, qualquer uso abertamente “dóxico” da linguagem; por outro lado, como condição indispensável da primeira, determinar a linguagem como originariamente figurada, como tropo, de tal modo que nenhuma linguagem verdadeira pudesse escapar disso a não ser esquecendo, ignorando ou ocultando de si mesma suas próprias origens.
- Em sua inspiração, esse empreendimento dificilmente era original, podendo-se quase aventurar que ele surge de uma suspeita tão antiga quanto a própria filosofia e necessariamente contemporânea de sua “inauguração”, estando em todo caso ligado a uma certa era da filosofia moderna e da “ciência” da linguagem que essa filosofia governa.
- Em sua base, qualquer que seja a brutalidade ou a sutileza de suas intenções estratégicas, ele está completamente subordinado a todo um aparato conceitual metafísico de ponta a ponta, não se podendo sequer creditar Nietzsche com radicalidade ou sistematicidade.
- Mas não é esse empreendimento em si que interessa aqui, o que não significa que seja desinteressante ou que se possa ignorá-lo, mas que o essencial talvez seja, paradoxalmente, que Nietzsche não quis ou não foi capaz de levá-lo até o fim, tendo em todo caso abandonado a tarefa.
- Ele dedicou-se a ela com certa determinação durante os anos imediatamente seguintes à publicação de “O Nascimento da Tragédia”, de 1872 até pelo menos 1875, aumentando suas leituras e pesquisas, acumulando notas e planos e repetidamente esboçando projetos de vários livros.
- A retórica não foi o único foco de seu trabalho nesse período, mas não é exagero dizer que é o “centro”, ainda que oculto; no entanto, nada desse material foi completado e, ao menos na superfície, nenhum traço dele permanece na obra posterior de Nietzsche.
- Ainda se veem, aqui e ali, numerosos textos sobre eloquência, estilística, a arte de ler, a arte de falar ou escrever, persuasão; vê-se também que, apesar de algumas mudanças de terminologia, as análises de Nietzsche sobre a linguagem variarão pouco e que ele quase sempre se manterá no conhecimento adquirido nesses primeiros anos.
- Até a constante acusação de responsabilidade ontológica ou metafísica lançada contra a linguagem e a gramática representa um ressurgimento desse trabalho, mas não há nada, ao que parece, que se assemelhe a um esforço sistemático; em todo caso, não há recurso declarado e sustentado a um vocabulário propriamente retórico.
- A partir de 1875, a retórica deixou de ser um instrumento privilegiado, parecendo até que Nietzsche lhe privou de todos os seus direitos e que, para todos os efeitos práticos, ela deixou de ser um problema.
- É portanto esse abandono que precisa ser examinado, essa passagem ou esse desvio pela retórica, que é incompleto e inconclusivo e que, por essa razão, parece abrir uma estranha brecha, bastante indistinta mas impossível de selar, tanto na obra quanto na filosofia em que a obra supostamente se inscreve.
- Pois ao deixar, talvez apesar de si mesmo, essa tarefa suspensa, uma tarefa que aliás deve a Nietzsche o lugar que ainda ocupa mais ou menos no programa da “modernidade”, é bem possível que Nietzsche estivesse à frente de seu tempo e começasse a desfazer, quase sem ruído e quase invisivelmente, esse longo voltar da filosofia contra si mesma no qual, na maioria das vezes, se acredita que o próprio Nietzsche ainda pode ser encerrado.
Fatum Libellorum
- Para que se veja um pouco mais claramente, seria obviamente necessário todo um estudo empírico, toda uma história e investigação, o que talvez não fosse muito empolgante, mas pergunta-se o que poderia justificar excluí-lo.
- Ganharíamos pouco em elegância e certamente perderíamos muito ignorando ou negligenciando esse peso, essa resistência do empírico, do qual às vezes se vislumbra, mesmo sem se saber muito bem que status lhe conceder, como ele sobrecarrega o pensamento de Nietzsche de modo decisivo e sem dúvida mais do que a qualquer outro pensamento.
- É também desse modo que Nietzsche se resolveu a romper com o passado, e é talvez essa exterioridade sempre em vias de ser reduzida, essa fratura junta da vida e da prática da escrita, que é designada pela palavra dividida biografia, palavra que devemos aprender a ler.
- Não é certo, no entanto, que pudéssemos levar a cabo esse estudo, desenvolvê-lo plenamente e dar-lhe a forma completa de exposição, menos porque ainda nos falte uma divulgação completa desses textos, embora isso não seja sem importância, já que toca a questão sempre enigmática do texto de Nietzsche, isto é, de sua “obra”, do que por razões de princípio.
- Não se interroga impunemente um abandono, uma incompletude; não se expõem impunemente as razões dele, mesmo complicando sua teia para o propósito em questão, quando o que está em jogo é precisamente o choque de um pensamento com a impossibilidade de expor, de assumir o estilo de apresentação e até de manter a lógica específica de seu questionamento.
- Nesse abandono, no que ele deixa para trás como traços desorganizados e descontínuos, em sua esteira quase invisível, na obra que segue ou que já não pode, como tal, seguir, no fracasso com que “ele” está marcado, muito provavelmente desponta algo que excede, mas sem ultrapassar, as possibilidades de recuperação dialética inerentes à crítica, à interpretação, ao comentário, e que abala, ou mais precisamente erode, contamina dissimuladamente e começa implacavelmente a destruir, embora nem em seus temas nem em seus conceitos, a segurança filosófica.
- Um fracasso, uma catástrofe, especialmente quando ainda não ocorreram realmente e não podem ser expressos na linguagem do domínio; não se trata de tornar nossa relação com Nietzsche uma relação de pathos, de drama talvez, preso na repetição que sempre trai e degrada, mas de como se pode falar de impotência e entender que “o que dá o que pensar”, como se diz, não é nem um resultado nem mesmo algo que verdadeiramente mereça uma pergunta.
- Com essas limitações apontadas, e porque se deve também evitar exagerar os temores do “começo”, devemos, apesar de tudo, empreender essa história, e as circunstâncias nos obrigam a ser breves, fazendo-se simplesmente estas poucas observações externas e lacunares.
- Primeiro, o interesse que Nietzsche mostra pela retórica é, se se quiser, acidental, datando muito precisamente de sua leitura, no final de 1872, da “Exposição Sistemática da Retórica Grega e Romana” de Volkmann e especialmente de “A Linguagem como Arte” de Gerber, ambos recém-publicados.
- Antes disso, não se pode dizer que Nietzsche estivesse particularmente consciente da retórica como tal; suas alusões à retórica grega ou ao uso retórico da linguagem em “O Nascimento da Tragédia”, por exemplo, e nos textos que o acompanham, são raras e vagas, e a própria palavra é quase sempre usada em seu sentido “moderno”, isto é, distintamente pejorativo.
- Nos grandes projetos de 1871-72 concerning uma série de “Meditações sobre a Antiguidade” e um “Tratado de Estética Geral”, nada ao que parece está planejado sobre retórica; a retórica é, portanto, uma descoberta, e Nietzsche imediatamente encontrou nessas leituras o pretexto e o texto para um curso ministrado durante o semestre de inverno do mesmo ano de 1872-73.
- Nas notas iniciais para “O Livro do Filósofo”, que ele redige ao mesmo tempo, os efeitos dessas leituras são imediatamente aparentes; além disso, se examinássemos de perto a ordem e a progressão dessas notas, veríamos de fato colidir entre si os resultados mais ou menos contraditórios de duas leituras: a de Gerber e a leitura anterior do livro de Zöllner sobre a natureza dos cometas, de 1871, implicado na decisão de Nietzsche de retomar, sobre outra base, a “crítica” da racionalidade e da filosofia organizada em “O Nascimento da Tragédia”.
- A leitura de Gerber então começou a reorientar toda a análise anterior da linguagem, e não apenas da linguagem, e exigiu um reajuste que parece ter ocupado os anos seguintes de Nietzsche.
- Não apenas Nietzsche não completou esse trabalho, como nenhum plano que fez poderia ser considerado definitivo, mas ele praticamente nada escreveu dele; durante todos esses anos, assombrados pelo desejo de alcançar a “literatura”, Nietzsche nada escreveu de publicável, com exceção das quatro “Considerações Intempestivas”, sobre as quais, no entanto, muito resta a dizer.
- Nenhum livro, em todo caso; nenhum dos dois textos que ele começou foi levado até o fim: nem o curso de 1872 sobre os pré-socráticos escrito para Cosima Wagner, nem mesmo a “Introdução” de 1873 a “O Livro do Filósofo”.
- Foi somente em 1878 que um novo “livro” apareceu, “Humano, Demasiado Humano”, e era um livro de aforismos; foi aqui, sem dúvida, no momento desse desvio, talvez por causa desse desvio, que o problema da fragmentação entrou em jogo, um problema que começou, além disso, a perseguir Nietzsche como tudo o que tinha a ver com o “destino dos livros”, o fatum libellorum.
- A fragmentação dos cadernos de Nietzsche obviamente não foi intencional; seguiu-se da prática de tomar notas e, paradoxalmente, de tomar notas ininterruptas; é estranho, no entanto, que tenha acabado por engendrar a forma dos “livros” vindouros, como se tivesse se tornado uma coerção e Nietzsche tivesse tido que se resignar a “aceitar” a própria forma de sua incapacidade de dar ao seu trabalho a forma desejada.
- Pois, em si mesma, a fragmentação certamente testemunha em primeiro lugar um fracasso, e muito precisamente o fracasso de um livro, supondo que “O Livro do Filósofo” seja de fato o grande livro concebido na época para seguir ou tomar o lugar de “O Nascimento da Tragédia”; ela testemunha portanto também o fracasso do livro, do já escrito, já que não era autossuficiente, e do que Nietzsche, até o fim e de “livro” em “livro”, tentará desesperadamente escrever.
- Mas esse não foi um simples processo de decadência; no fracasso do livro descobre-se, com dificuldade e não sem resistência, outra forma de escrita, a que ele nunca deixou de praticar e nunca deixaria: essa escrita incansável que não tanto precede o livro “em andamento”, pois o “livro”, embora Nietzsche sem dúvida sempre o quisesse como organização rigorosa de fragmentos, acabará por se revelar apenas uma amostragem mais ou menos arbitrária, e em todo caso escapará a essa intenção, quanto segue todos os livros dos quais é uma leitura, uma cópia e uma interpretação, e cuja descontinuidade empírica, apesar de todos os esforços de Nietzsche para justificar o aforismo, mal disfarça sua circulação infinita, seu curso ininterrupto.
- Esse movimento subterrâneo quase invisível pelo qual a “obra” de Nietzsche começou assim a se despedaçar, ou, mais precisamente, a deslizar lentamente para fora do espaço próprio da obra e a perder-se naquilo que no entanto não é o absolutamente outro da obra mas sua alteração persistente, seu esgotamento infinito, essa desobra, como Blanchot a chamaria, foi contemporânea de um certo número de “eventos” que descrevem uma configuração complexa e que, de um modo ou de outro, estão todos ligados às questões expostas pelo encontro com a retórica.
- Esquematicamente, houve a ruptura com a filologia, praticamente consumada com a publicação de “O Nascimento da Tragédia”, e sua consequência inevitável, o modo como afetou o ensino de Nietzsche, já que é difícil, como se sabe, resistir a uma coalizão universitária, confirmando-se ano após ano o fracasso, embora isso tenha libertado Nietzsche de tudo o que o ligava à persona metafísica do homem de ciência e do professor.
- Houve também o início da doença: fadiga, fraqueza, dor, dificuldades de trabalho; finalmente, houve a ruptura com Wagner, da qual se sabe que a publicação prematura de “O Nascimento da Tragédia” já era um indício.
- Esses “eventos” não constituem, no entanto, uma ruptura efetiva: na superfície, nada ou quase nada acontece; Nietzsche prepara um panfleto contra os filólogos, por exemplo, mas não o termina; continua a ensinar; já sabe muito bem o que pensar de Wagner, mas escreve a quarta “Consideração Intempestiva”; se tudo isso se junta, junta-se obscuramente, sem alvoroço.
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