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11 Unidade da verdade

KRISTELLER, Paul Oskar; MOONEY, Michael. Renaissance thought and its sources. New York: Columbia University Press, 1979.

1. A unidade da verdade permanece um problema central do pensamento moderno, assim como do renascentista, porque a necessidade de conciliar religião, ciências naturais, investigação histórica, filosofia e saber secular se amplia com o conhecimento de outras culturas e com a busca de entendimento entre as tradições intelectuais do Oriente e do Ocidente.

2. A multiplicidade de culturas, escolas filosóficas e tradições profissionais suscita o desejo de uma síntese capaz de harmonizar suas pretensões concorrentes, mas os projetos de unificação do conhecimento variam em alcance e força persuasiva e frequentemente produzem novas divisões ao tentar superar as existentes.

3. As respostas à diversidade de opiniões oscilam entre a imposição dogmática de uma posição, a suspensão cética da certeza e o reconhecimento perspectivista de verdades parciais, encontrando em Hegel uma tentativa especialmente ambiciosa de integrar posições opostas como momentos determinados de um sistema abrangente da verdade.

4. A unidade da verdade deve ser compreendida como uma ideia reguladora em sentido kantiano, pois orienta a integração de conhecimentos dispersos e aparentemente inconciliáveis sem permitir uma conclusão definitiva, tanto pela dificuldade de harmonizar seus elementos quanto pela continuidade da descoberta de novos conhecimentos enquanto existir a humanidade.

5. O Renascimento enfrentou a unidade da verdade como uma época de fermentação intelectual, na qual a herança medieval da conciliação entre aristotelismo e teologia cristã se ampliou pela recuperação de outras filosofias e literaturas antigas, multiplicando as tentativas de restaurar doutrinas, combinar tradições e elaborar soluções para a diversidade de verdades possíveis.

6. Os pensadores renascentistas encontraram na Antiguidade diferentes modelos para enfrentar o conflito entre doutrinas, desde o ceticismo acadêmico e pirrônico até o ecletismo e as sínteses neoplatônicas e aristotélicas, que procuravam incorporar os elementos válidos das posições anteriores e rejeitar seus erros.

7. A tradição medieval ofereceu argumentos e modelos distintos para relacionar fé e razão, abrangendo a harmonia tomista, a progressiva restrição da competência racional em questões religiosas e a coexistência de domínios separados, esta última inadequadamente denominada teoria da dupla verdade e associada ao averroísmo latino apesar de sua presença em pensadores não identificáveis como seguidores de Averróis.

8. Pomponazzi distingue a verdade aceita pela fé das conclusões demonstráveis segundo a natureza e Aristóteles, sustentando que a imortalidade da alma pertence ao primeiro domínio sem poder ser estabelecida pelo segundo, de modo que sua rejeição da unidade averroísta do intelecto convive com a adoção de uma separação entre filosofia e teologia historicamente vinculada à chamada dupla verdade.

9. A separação entre fé e razão foi frequentemente interpretada como dissimulação destinada a proteger a incredulidade contra a censura eclesiástica, interpretação compartilhada por historiadores de orientações opostas que, embora concordassem na atribuição de insinceridade a Pomponazzi e aos averroístas, ora os celebravam como precursores do livre-pensamento, ora os condenavam por hipocrisia e descrença.

10. A atribuição de má-fé a Pomponazzi carece de fundamento documental suficiente, pois a investigação histórica deve apoiar-se nos registros escritos e exigir provas de quem lhes atribui intenções ocultas, reconhecendo como possibilidade legítima que a discrepância entre as conclusões filosóficas e a doutrina eclesiástica constituísse para ele um dilema efetivo.

11. O dualismo entre fé e razão representa uma resposta plausível para quem pretende conservar ambas diante de uma incompatibilidade aparentemente insolúvel, pois o dilema somente desaparece com a renúncia a uma dessas fontes de convicção, ou às duas, sem que existam razões suficientes para atribuir tal renúncia a Pomponazzi e a outros defensores dessa posição.

12. A delimitação de domínios distintos para fé e razão abre a possibilidade de um pluralismo que reconhece diferentes fontes de verdade, oferecendo uma perspectiva ainda relevante para conciliar as pretensões da religião, das ciências, da filosofia, das artes e das demais experiências que compõem a diversidade cultural do conhecimento humano.

13. Entre os humanistas, o problema da relação entre saberes aparece de maneira menos precisa nas disputas sobre a superioridade das artes e das ciências, cujas comparações entre medicina e direito, armas e letras ou pintura e outras atividades prolongam modelos retóricos antigos e medievais e frequentemente traduzem a defesa profissional de cada campo por seus representantes.

14. A defesa humanista da poesia compreendia a legitimação do estudo dos clássicos e do conjunto dos studia humanitatis diante das objeções de outras disciplinas, recorrendo à interpretação alegórica dos mitos pagãos para demonstrar sua compatibilidade com o cristianismo e antecipando, sob outra forma, a reivindicação posterior de verdades próprias da literatura e das artes.

15. O pensamento moral humanista adotou um ecletismo inspirado em Cícero, reunindo ideias, citações e exemplos de numerosos autores antigos como recursos argumentativos e retóricos, prática sistematizada nos Adágios de Erasmo que, apesar de sua frequente superficialidade, ampliou as fontes disponíveis à reflexão e exprimiu uma curiosidade intelectual menos restrita ao exame lógico de um pequeno conjunto de autoridades.

16. O ressurgimento renascentista do ceticismo favoreceu a liberdade intelectual e a adoção de opiniões consideradas apenas prováveis, mas frequentemente se associou ao fideísmo ao reservar à religião, fundada exclusivamente na fé e na autoridade, uma certeza que a crítica cética negava às doutrinas filosóficas e ao saber secular.

17. O platonismo renascentista procurou superar a separação entre religião e filosofia mediante o reconhecimento de uma verdade universal da qual participariam diferentes pensadores e escolas, conferindo fundamento positivo à diversidade e à liberdade intelectuais que o ecletismo e o ceticismo também buscavam preservar.

18. Nicolau de Cusa concebe cada ser como manifestação particular do princípio divino infinito e cada doutrina como expressão limitada de uma verdade universal inexaurível, fundamento metafísico que permite reconhecer parcelas de verdade em diferentes posições filosóficas e religiosas, inclusive no islamismo.

19. Ficino concebe filosofia e religião como expressões irmãs de uma mesma verdade e atribui à sua defesa da imortalidade a missão providencial de restaurar sua harmonia, elevando a filosofia ao nível da teologia e reconhecendo nas diferentes religiões manifestações do desejo humano por Deus, embora reserve ao cristianismo a realização mais perfeita dessa orientação.

20. A interpretação ficiniana da história intelectual apoia-se na existência de tradições paralelas de sabedoria pagã e revelação hebraico-cristã, remontando a Hermes Trismegisto e Moisés e prolongando-se até o presente, concepção sustentada pela aceitação como autênticos de escritos atribuídos a antigos sábios que a investigação posterior reconheceu como produções tardias.

21. O predomínio de Platão na filosofia de Ficino não impede a incorporação de contribuições de outras escolas, pois a utilização de Aristóteles, de seus comentadores e até de Epicuro e Lucrécio revela uma orientação predominantemente inclusiva, interessada em assimilar à síntese própria o maior número possível de elementos considerados válidos.

22. Pico della Mirandola aprofundou a concepção de uma verdade universal para além das formulações de Ficino, conferindo-lhe uma expressão clássica do pensamento renascentista cuja originalidade se esclarece quando se reconhece também a preparação intelectual proporcionada pelo platonismo de seu interlocutor mais velho.

23. A universalidade da verdade fundamenta em Pico tanto a liberdade diante de qualquer autoridade exclusiva quanto a necessidade de estudar pensadores de todas as tradições filosóficas e religiosas, pois a convicção de que cada um pode conter alguma verdade motiva e justifica sua extraordinária amplitude de interesses intelectuais.

24. A curiosidade universal de Pico reuniu formação humanista, domínio da escolástica, familiaridade com o platonismo e estudo de fontes hebraicas, aramaicas e árabes, permitindo-lhe defender os escolásticos diante de críticas humanistas e identificar na cabala uma concordância fundamental com o cristianismo, da qual se desenvolveu uma duradoura corrente de cabala cristã.

25. As novecentas teses de Pico expressam diretamente a convicção de que diferentes tradições podem contribuir para uma doutrina abrangente, pois reúnem posições próprias e proposições extraídas de escolásticos, filósofos árabes e judeus, aristotélicos e neoplatônicos gregos, antigos teólogos e cabalistas, chegando a propor a conciliação entre a unidade do intelecto e a imortalidade individual.

26. A segunda parte do Discurso e sua retomada na Apologia justificam o estudo comparativo de todas as escolas como meio de intensificar o conhecimento da verdade, pois nenhuma autoridade particular a possui integralmente e a imensidão de seu conteúdo ultrapassa a capacidade de qualquer indivíduo, sem impedir que novas contribuições sejam acrescentadas às descobertas anteriores.

27. Pico combina a recusa do exclusivismo dogmático com a seleção crítica de proposições particulares, distinguindo-se do ceticismo por enfatizar a verdade efetivamente presente nas doutrinas e do ecletismo arbitrário por orientar-se por uma convicção de matriz platônica, de modo que os erros de um pensador não anulam os enunciados verdadeiros que justificam o estudo de sua obra.

28. A aprendizagem das doutrinas anteriores favorece a originalidade porque sua combinação, crítica e reformulação já produzem sínteses novas e preparam descobertas próprias, tornando o projeto de Pico duradouramente fecundo como ideia reguladora, ainda que não tenha alcançado a realização de um sistema concreto e plenamente desenvolvido.

29. Agostino Steuco reformulou as aspirações do platonismo renascentista sob o nome de filosofia perene, concebendo uma sabedoria que atravessa a história e aproxima Platão, seus seguidores e supostos predecessores de Aristóteles e da teologia judaico-cristã, razão pela qual a posterior associação da expressão ao tomismo não deve ser projetada sobre sua orientação original.

30. A filosofia perene designa originalmente uma verdade universal que ultrapassa qualquer doutrina particular e admite a participação de diferentes tradições, impondo a tarefa contínua de recolher e sintetizar seus elementos verdadeiros e de ampliá-los mediante novas descobertas do pensamento e da experiência.

31. A dignidade humana, a imortalidade da alma e a unidade da verdade constituem aspectos relacionados de uma concepção renascentista do homem, pois articulam sua posição no universo, a projeção de sua individualidade para além da vida presente e sua obrigação de buscar a verdade, embora não esgotem a multiplicidade de ideias antropológicas e filosóficas produzidas no período.

32. O pensamento renascentista não fornece respostas prontas aos problemas atuais, mas oferece precedentes, analogias e alternativas capazes de ampliar a reflexão, exigindo um conhecimento crítico do passado que permita aproveitar suas contribuições sem convertê-lo em objeto de admiração incondicional ou descartá-lo por completo.

33. A transmissão do conhecimento não deve subordinar integralmente sua validade aos interesses imediatos de uma época ou geração, pois a criação intelectual consistente exige a assimilação prévia de saberes intrinsecamente verdadeiros e válidos, pelos quais também se avaliam a qualidade e a continuidade das realizações presentes.

34. A civilização constitui um processo acumulativo que nenhuma geração pode reconstruir integralmente desde o início, razão pela qual cada uma deve reconhecer o valor da herança recebida, preservar o que merece permanecer e transmitir aos sucessores contribuições capazes de substituir por algo melhor aquilo que inevitavelmente abandona ou destrói.

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