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Villaret II
Helene Bulla de Villaret. Introduction à la Sémantique Générale de Korzybski. Paris: Le Courrier du Livre, 1973.
I
- A primeira edição desta obra data de 1965, e desde então a entrada em cena de uma nova geração trouxe remissões em causa que abalaram de maneira salutar, ainda que por vezes desajeitada, as abstrações em que a maioria dos contemporâneos se acreditava solidamente ancorada.
- A Semântica Geral aparece cada vez mais como uma arma privilegiada no combate a ser travado, e mesmo como um fator de sobrevivência, ao chamar atenção sobre o funcionamento do sistema nervoso humano e ao fornecer os pontos de referência necessários ao exame crítico dos vários ordens de significação das palavras.
- Os romances de Alfred E. Van Vogt, “O Mundo dos Não-A” e “Os Jogadores do Não-A”, ajudaram a difundir junto ao grande público as preocupações da Semântica Geral, apresentando o homem não-aristotélico cujos pensamentos são matizados sem cair no cinismo ou na rebelião.
- A primeira parte do livro retoma a edição de 1965 e apresenta o que se compreendeu da Semântica Geral a partir dos diversos livros publicados sobre o assunto, enquanto a segunda parte foi escrita de maneira mais livre, dando maior espaço ao coeficiente pessoal do autor.
- A segunda parte não pretende transmitir as bases da Semântica Geral, mas apresentar as reflexões pessoais de um semanticista, cuja responsabilidade não pode ser atribuída a nenhum outro grupo que se reivindique da Semântica Geral.
- O livro é escrito para o grande público, procurando manter simplicidade de expressão e renunciando deliberadamente a desenvolvimentos que exigiriam cultura especializada de ordem científica ou filosófica.
- Trabalhar para divulgar a Semântica Geral pode servir a fins terapêuticos e profiláticos diante das fortes tensões que as situações contemporâneas impõem a sistemas nervosos inadequadamente treinados, além de facilitar a própria vida do semanticista ao aumentar o número de confrades treinados como ele.
II
- A distinção entre démarche aristotélica e não-aristotélica não deve se transformar em uma oposição do tipo aristotélico, já que A e não-A coexistem em muitas pessoas, que adotam atitudes não-A em certas esferas profissionais e continuam a funcionar de maneira aristotélica em outras esferas da existência.
- O termo “lógica” comporta diversas significações, desde a ciência que estuda as normas da verdade até a sequência coerente de acontecimentos, sendo hoje aplicado de forma ampla a domínios como a lógica do instinto, do sonho ou mesmo da loucura.
- A antropologia contemporânea substituiu o termo “pré-lógico” por “lógica primitiva” ou “lógica selvagem”, reconhecendo que a démarche intelectual dos povos de civilizações menos avançadas não está tão distante da nossa quanto inicialmente se supôs.
- Os trabalhos de epistemologia genética do professor Jean Piaget mostraram como as estruturas e esquemas lógicos se constroem progressivamente na criança, sendo que essas condutas tendem a parar de progredir a partir da adolescência caso não sejam sistematicamente cultivadas.
- A démarche euclidiana, a newtoniana e a aristotélica tornam-se casos particulares, respectivamente, das démarches não-euclidiana, não-newtoniana e não-aristotélica, havendo entre elas superação e englobamento, e não oposição.
- O comportamento habitual dito “aristotélico” da maioria das pessoas carece da lucidez e do rigor que caracterizam a atitude do matemático ou do físico, podendo mesmo ser qualificado de “sub-aristotélico” por conter erros de raciocínio que assustariam o próprio Aristóteles.
- A análise informática constrói corretamente o sistema de abstrações necessário através de uma démarche não-A, mas as limitações do hardware obrigam ao emprego da lógica binária, forma mais pura da lógica aristotélica, cuja aplicação só é perfeita porque se conhecem exatamente seus limites.
- A dialética constitui uma lógica aristotélica dinâmica cuja bipolaridade leva a negligenciar matizes e elementos intermediários, sofrendo de um duplo viés, interno e externo, que fragiliza as abstrações construídas com sua ajuda.
- O método cartesiano, apesar de conservar grande parte de seu valor como codificação do bom senso, exige que se conheçam seus limites, sobretudo quanto à possibilidade real de “nada omitir” ao buscar tudo o que é necessário para resolver uma questão.
- A palavra “tudo” pode ser legitimamente empregada diante de um conjunto finito, mas deve ser abandonada assim que se aborda algo infinito ou indefinido.
- A comparação de termos que não são legitimamente comparáveis, por falta de índices de tempo ou lugar, e a apresentação de falsas alternativas por meio de fórmulas lapidares constituem dois erros frequentes na conversação corrente.
III
- O modelo é definido como a representação simplificada de um processo ou de um sistema, estrutura teórica que reúne um número limitado de elementos selecionados para facilitar a descrição, o estudo, a compreensão e eventualmente a previsão de fenômenos em um campo de observação definido.
- A construção de um modelo científico se acompanha geralmente de uma nítida consciência de abstrair, de uma correlação entre a estrutura da abstração e um sistema de significações apropriado, e de uma cuidadosa delimitação de seus limites de aplicação.
- Distinguem-se três tipos de estruturas: os modelos propriamente ditos, sistemas de representação muito elaborados e construídos de maneira não-aristotélica ou com plena consciência de suas limitações; os semi-modelos, construídos segundo regras corretas mas incompletos por diversas razões; e os pseudo-modelos, estruturas explicativas construídas mais ou menos espontaneamente nas quais fatores emocionais e interesses falseiam toda a construção.
- Os pseudo-modelos reinam frequentemente como senhores na vida privada e em numerosos domínios de atividade, sendo seu autor geralmente muito mais seguro de si do que o construtor de um modelo científico, o que constitui um dos maiores perigos do comportamento aristotélico.
- Um modelo bem empregado permanece aberto, pois seu construtor, sabendo que apresenta limites e imprecisões, permanece capaz de utilizar suas faculdades de análise e sua imaginação para melhorá-lo ou ultrapassá-lo.
- Fechar um modelo, e mais ainda um semi-modelo, retira-lhe sua fecundidade, levando a manipular os dados da observação e a impor à ação limitações excessivas que se traduzem em fracassos ou em um preço demasiado elevado para o sucesso.
- Um dos principais perigos do modelo é criar uma atitude estática, uma falsa segurança intelectual e uma inaptidão à mudança que se traduzem em recusa de enfrentar de maneira nova o que se passa.
IV
- O tema da indexação, já desenvolvido na primeira parte, mostra-se útil para evitar comparações desajeitadas entre situações separadas por diferenças de lugar e tempo, mas existe ainda uma terceira dimensão constituída pelas diferenças de nível de percepção, observação e ação.
- O microscópio permite estudar níveis que escapam à percepção do olho nu e que constituem verdadeiros mundos particulares, sendo que as leis aplicáveis a uma escala não são necessariamente válidas em outra, como mostra a diferença entre as leis da macrofísica e da microfísica.
- A experiência psicodélica, apesar da oposição ao uso de drogas, revelou a necessidade de levar em conta diversos níveis de percepção, mostrando que a consciência normal e racional é apenas um tipo particular de consciência entre outras formas possíveis totalmente diferentes.
- Cada situação nasce de uma transação entre nossa estrutura psicossomática e o ambiente, transação essa esclarecida tanto pelo meio vertical, correspondente ao nosso passado histórico e ao do grupo social, quanto pelo meio horizontal, correspondente à atualidade do meio considerado.
- Um balanço extensional e não limitativo distingue diversos níveis de acesso à experiência: o mundo visível à nossa escala, os níveis físicos que vão do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, e os níveis psicológicos, que incluem o inconsciente pessoal e coletivo, as capacidades de percepção mais intensas obtidas espontaneamente ou por alucinógenos, e as experiências místicas mais profundas.
- Nenhum desses níveis é atingido sem esforço, pois mesmo o nível mais diretamente acessível à consciência de vigília exige uma integração do sistema nervoso e uma aprendizagem básica que constitui o principal trabalho dos primeiros anos de vida.
- O sentimento de “realidade” de um nível depende primeiro da coerência da transação que se opera entre nosso organismo psicossomático e o ambiente fornecido por cada nível, além de um fator mais subtil designado como “presença”.
- Distinguem-se quatro níveis de apreensão dos fenômenos, perpendiculares aos níveis de fenômenos propriamente ditos: o nível de percepção, onde tomamos consciência de que há um fenômeno; o nível de inteligibilidade, onde descobrimos certa organização no fenômeno; o nível do explicável, onde discernimos suas características sem ainda dar conta do porquê e do como; e um quarto nível, ligado à intuição, que engloba uma compreensão global não intelectual.
- O exemplo da teoria da supercondutividade, que valeu o prêmio Nobel de física de 1972 a três cientistas americanos, ilustra como um fenômeno pode permanecer por décadas no nível do explicável antes de alcançar, por meio de uma ideia-chave, o nível da explicação.
- As confusões que perturbam a compreensão dos fenômenos têm três fontes principais, além da confusão dos níveis de abstração já denunciada por Korzybski: a confusão dos níveis de experiência, a confusão das linguagens que se aplicam a esses níveis, e a confusão dos semi-modelos ou pseudo-modelos utilizados na abordagem desses níveis.
- Nossa atitude profunda diante da experiência determina se a simbolizamos corretamente, se a ignoramos por não perceber relação com nossa própria estrutura, ou se recusamos simbolizá-la de maneira deformante porque ela ameaça a estrutura de nosso eu.
- O progresso das matemáticas esteve intimamente ligado aos esforços para forjar uma linguagem matemática adequada, e hoje dispomos de noções como universo multidimensional, interseções de conjuntos, interferências e interações que nos equipam melhor do que os pensadores do século passado para abordar esses problemas.
V
- A démarche extensional constitui uma atitude ativa e uma vigilância permanente que se distingue da orientação em compreensão, a qual se guia por definições verbais e associações negligenciando as observações.
- Ao adotar a orientação extensional, não se parte da propriedade comum ou do pequeno grupo de propriedades comuns para classificar e definir os objetos, mas se lembra constantemente que cada objeto é único em seu gênero e apresenta traços que o diferenciam de todos os outros.
- A orientação extensional marca o início do controle do homem sobre seu próprio destino, exigindo que se aceite viver com a própria ignorância em vez de buscar segurança ilusória nas opiniões de pessoas “bem informadas” ou “em posição de autoridade”.
- Fala-se de referencial definido quando se conhecem todos os elementos que constituem o conjunto considerado, formando conjuntos finitos, e de referencial indefinido quando não se pode pretender conhecer todos os constituintes do conjunto.
- Ao manejar um referencial indefinido, encontramo-nos diante de elementos que nos são conhecidos, elementos que a investigação e o raciocínio corretamente conduzidos podem permitir descobrir, e elementos que nos escapam completamente.
- A qualidade de nossas avaliações depende da qualidade dos subconjuntos construídos a partir do referencial, os quais devem compreender elementos suficientemente numerosos, representativos e diferenciados.
- Devemos praticar a orientação extensional não apenas em relação ao que constitui objeto de exame, mas também em relação à maneira como conduzimos esse exame, considerando extensionalmente nossas próprias atitudes e modos de abordagem.
- Uma série de exercícios práticos é proposta para tomar consciência da insuficiência de nossos referenciais e dos julgamentos generalizados que fazemos correntemente, incluindo a descrição de sensações pessoais, a busca de exceções a julgamentos generalizados, e a redação de retratos extensionais de pessoas sobre as quais emitimos juízos apressados.
VI
- As informações que o homem precisa recolher servem a três objetivos principais: situar-se no ambiente geral proporcionado pelo país, pela cultura e pelo tipo de sociedade em que vive; apreciar corretamente suas relações com seus semelhantes; e assegurar o funcionamento do sistema de autoinformação relativo à própria pessoa.
- O coeficiente pessoal do observador é muito mais elevado no domínio das informações humanas do que no domínio científico, pois o homem está integrado no próprio desenrolar dos fenômenos por todo um jogo de relações e transações, participando de sua criação de maneira frequentemente involuntária.
- Múltiplas causas provocam o bloqueio das informações, desde o interesse deliberado de quem julga contrário aos próprios interesses transmitir certos dados, até a preguiça, a inércia e a negligência que contribuem cotidianamente para o bloqueio na origem ou durante a transmissão.
- Um grau desejado de objetividade só pode às vezes ser alcançado reunindo e organizando de maneira extensional várias subjetividades, de modo que os coeficientes pessoais dos observadores se contrabalancem quando pessoas de orientações diferentes se associam para examinar em conjunto as informações disponíveis.
- A distorção mais grave nos dados numéricos, que formam parte crescente da informação moderna, intervém no nível da inferência, pois os números devem ser interpretados, e é justamente nessa interpretação que a batalha da significação se trava.
- A informação, sendo uma transação, depende tanto de quem a fornece quanto de quem a recebe, podendo sua qualidade ser apreciada segundo um quadro normativo que estabelece regras precisas e segundo o quadro vivido que resulta do compromisso entre as tendências do informante e do informado.
- O primeiro canal a submeter à apreciação é o dos atos e da maneira como são acolhidos, sendo o ato uma testemunha que não pode mais ser recusada, ao passo que o projeto de ato resulta de um emaranhado de estruturas de abstrações que incluem modelos econômicos, sondagens de opinião pública e avaliações de forças parlamentares.
VII
- Os níveis não-verbais correspondem aos contatos sensíveis diretos que mantemos com nosso ambiente antes da elaboração verbal que conduz à construção dos níveis de abstração, distinguindo-se do domínio da expressão não-verbal como a música.
- O hábito de viver mais em função das palavras do que em função daquilo que essas palavras representam nos corta, entre outras consequências prejudiciais, das riquezas de experiência que os níveis não-verbais podem nos oferecer.
- Os níveis não-verbais contêm frequentemente elementos vividos como desconfortáveis, o que provoca uma fuga em direção aos níveis verbais e a tendência de nos tranquilizarmos com palavras, racionalizando o que sentimos.
- Uma melhor educação de nosso funcionamento nos níveis não-verbais deveria fornecer soluções a diversos problemas psicológicos enfrentados pelos contemporâneos, cuja origem pode ser encontrada na desordem, pobreza ou obscuridade da experiência não-verbal.
- A tendência a fugir do contato e a buscar conforto em outros níveis pode representar uma sã reação de defesa, mas deve-se evitar que comportamentos de defesa isolados acabem criando uma atitude de defesa quase contínua.
- Diversos exercícios são propostos para explorar a duração vivida sem preenchimento, o efeito de cadências e ritmos sobre o estado emocional, a escuta do próprio ritmo cardíaco, e a prática de nomear em voz alta, com a fórmula “aqui e agora”, aquilo que se percebe no momento presente.
- Retomar o sentimento pleno da atualidade é uma experiência transformadora que intensifica o sentido do concreto da experiência vivida, acentuando a diferença entre os dados concretos e os dados abstratos generalizados.
VIII
- O corpo não é um objeto qualquer entre os objetos exteriores, mas serve de fundo à permanência relativa dos demais objetos, sendo o meio de nossa comunicação com o mundo antes de qualquer pensamento determinante, conforme mostra Merleau-Ponty na Fenomenologia da percepção.
- O ambiente permanece presente mesmo durante os exercícios de percepção corporal, condicionando até certo ponto o que se experimenta, sendo necessário aprender a distinguir as emoções que surgem da própria experiência daquelas devidas a uma interferência do ambiente.
- O campo organismo/ambiente, quando não se opera uma dicotomia deliberada entre “o mundo exterior” e “o corpo”, constitui a unidade diferenciada que compreende a pessoa em seu mundo, sendo a experimentação desse campo sob o aspecto do valor o que constitui a emoção.
- O primeiro exercício propõe fazer o inventário do próprio corpo, sentindo nitidamente cada parte, uma vez que muitas pessoas, por falta de propriocepção adequada, substituem essa percepção pela visualização ou pela teoria de onde estão suas partes corporais.
- Passar o corpo em revista deitado e notar as tensões nele detectadas, sem preparação prévia, permite constatar que certas tensões musculares excessivas possuem componente psicológica que precisa ser descoberta e tratada, sob pena de reaparecerem rapidamente após sessões de relaxamento.
- Exercícios de contração voluntária de grupos musculares, de alongamento do corpo, e de visualização imaginativa, como imaginar o corpo cheio de ar quente ou percorrido por uma corrente de luz branca, servem para desenvolver formas de intuição que permitem sentir não-verbalmente diversos aspectos da situação psique/soma/ambiente.
- O nono exercício convida a imaginar uma forma física completamente diferente da própria, como a de um balão vermelho de matéria extensível, mantendo as características gerais do sistema nervoso humano, exercício que se situa em um nível de experiência diferente dos primeiros exercícios do capítulo.
- Práticas como a “conversa dos pés” e o “descascar uma laranja”, desenvolvidas no Instituto Esalen pelo método do “Despertar sensorial” do Dr. Bernard Günther, constituem micro-meditações que ensinam a prestar atenção novamente a atos correntes realizados mecanicamente, revelando um mundo de sensações esquecidas ou ignoradas.
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