User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
kolakowski:1999:politica-diabo

Política e diabo

KOLAKOWSKI, Leszek. Is God Happy?: Selected Essays. Introduction by Agnieszka Kołakowska. London: Penguin Books, 2012. / Por que tenho razão em tudo: e outras ideias para facilitar a vida. Tradução de Bernardo Joffily. Rio de Janeiro: Record, 2008.

  • Segundo a doutrina cristã tradicional, o diabo é incapaz de criar, sendo tudo o que existe criado por Deus e, portanto, incondicional e infinitamente bom, resumindo-se a atividade diabólica a mero parasitismo sobre a Criação perfeita, explorando o material divino ao desvirtuá-lo de seu uso correto.
  • No que se refere aos assuntos humanos, a perversão diabólica consiste em tentar-nos, valendo-se de nossa iniquidade original, a tratar bens relativos como absolutos e a venerar bens secundários como se merecessem culto divino, antepondo as criaturas ao Criador.
  • A maioria de nossos pecados reduz-se a isso: nossos impulsos e desejos naturais são bons em si e válidos desde que voltados, em última instância, para Deus, sendo o saber louvável quando serve para conhecer melhor a ordem divina, os prazeres da vida legítimos quando lembram que a vida é hino em honra do Senhor, e o amor ao próximo verdadeiro quando, através dele, amamos a Deus.
  • O mesmo se aplica à política: na medida em que se reduz à mera luta pelo poder, constitui por definição, em termos cristãos, o domínio do diabo, liberando nossa libido dominandi como impulso autoalimentado sem finalidade além de si mesmo; sendo o domínio da natureza privilégio bíblico do homem, e a ordem política necessária para assegurar paz e justiça uma forma de servir a Deus, o diabo corrompe também essa esfera assim que os bens políticos ganham autonomia e se tornam fins em si mesmos, passando a servi-lo.
  • Tomás de Aquino construiu ordem conceitual magnífica que abarcava tudo sem desprezar bens instrumentais e causas secundárias, encontrando lugar legítimo para toda atividade humana sob a abóbada da sabedoria e bondade divinas, sem distinção nítida entre lei em sentido normativo e lei como regularidade natural, devendo ambas sua validade aos veredictos infalíveis de um ser em que sabedoria e bondade se fundem; podermos violar as regras morais, ao contrário das leis naturais, em nada afeta sua validade, pois a lei natural não vale por si mesma, mas procede de uma lei eterna, sendo o modo pelo qual esta existe nos seres racionais, segundo a fórmula tomista lex est aliquid rationis, que antecipou Kant.
  • Essa ordem elegante, em que todas as esferas da vida humana, política incluída, tinham lugar assinalado na hierarquia universal, desfez-se de vez, ou assim parece, merecendo essa ruína um instante de reflexão sobre seu significado.
  • Todo o desenvolvimento da modernidade, desde suas raízes no final da Idade Média, pode ser entendido como movimento gradual pelo qual política, arte, ciência e filosofia foram afirmando sua autonomia da tutela divina e eclesiástica, tendo cada disciplina buscado seus próprios critérios de validade em vez de deduzi-los da tradição bíblica, sem que ficasse claro onde buscar novos fundamentos normativos nem como criar princípios próprios sem recorrer à escolha arbitrária ou concluir que tais princípios simplesmente não existem, grau máximo de liberação niilista alcançado plenamente na arte e, até certo ponto, na filosofia, mas não na ciência, e nunca aceito aberta e unanimemente pelas doutrinas políticas, embora Maquiavel e Hobbes tenham chegado bastante perto dessa conclusão radical.
  • Segundo a doutrina cristã, sobretudo agostiniana, toda esfera de vida que se torna autossuficiente e emite seus próprios veredictos sobre o bom e o apropriado cai vítima do diabo, ficando tais veredictos entregues à livre escolha humana, naturalmente inclinada ao mal sem a graça; assim, se a arte se converte em mero divertimento ou experimento formal em vez de edificar moralmente, alia-se necessariamente ao pecado, e se a ciência laica ignora a verdade revelada para satisfazer apenas a curiosidade humana, torna-se instrumento de impiedade, tendo São Bernardo mencionado a curiosidade como sintoma da soberba.
  • Quanto ao mal na política laica, é tão evidente do ponto de vista da sabedoria cristã tradicional que dispensa longas demonstrações: se os assuntos políticos não se enraízam na lei natural derivada da legislação divina, não há razão para antepor a justiça à injustiça, reduzindo-se a comunidade política ao movimento descontrolado de paixões cegas e antagônicas, a paz a mero equilíbrio passageiro de forças mecânicas, e a justiça a esforços intermináveis para arrancar concessões; abandonado o Evangelho, os pensadores políticos poderiam ainda citar Aristóteles, mas este, por mais venerado, não possuía autoridade divina nem era infalível.
  • Inúmeros documentos oficiais e a vasta literatura cristã sobre o tema confirmam ter sido este o pensamento dominante no ensino da Igreja, podendo-se ousar dizer que a filosofia de Hobbes constituiu espécie de triunfo do cristianismo, pois dela resultava que, privados de fundamento religioso, todos os princípios normativos da política desaparecem sem remédio, apoiando-se o tecido social apenas na distribuição de forças regida pelo medo, pela cobiça e pela ânsia de poder, simplesmente porque o mundo é assim.
  • Se a supremacia da lei divina sobre todos os aspectos da vida humana, política incluída, é parte inamovível da doutrina cristã, e se toda vida social desprovida dessa legitimação cai necessariamente nas garras de Satanás, não deveríamos inferir que a Igreja não pode renunciar a supervisionar o poder civil, ou mesmo que este deveria derivar para a teocracia a fim de não sucumbir ao Príncipe deste mundo?
  • E, sendo assim, como entender as recentes declarações da Igreja e dos papas, sobretudo após o Concílio Vaticano II, renunciando explicitamente às aspirações teocráticas e aceitando a autonomia da ciência? Não seriam meras concessões relutantes ao espírito da época, contraditórias com toda a tradição cristã?
  • É certo que alguns teóricos da lei natural entre deístas e ateístas do século dezessete argumentavam dispor, por intuição congênita, de acesso cognitivo direto à lei natural sem mediação da Revelação, sabendo instintivamente o que é justo, o que equivalia a afirmar que a presença de Deus e sua legislação nada têm a ver com os princípios da justiça, válidos independentemente da existência do Legislador Supremo.
  • Essa fé, porém, sofreu erosão natural tanto por argumentos céticos simples quanto pelo fato, cada vez mais evidente à medida que se conhecia melhor outras civilizações, de que os conceitos de justiça e lei natural não são histórica nem geograficamente universais, não podendo estar gravados a fogo no coração humano.
  • De fato, desde que a luta de reis e príncipes contra o papado deixou de traduzir-se apenas em ações políticas concretas e ganhou base teórica, espalhou-se entre os defensores da política laica certo temor diante de uma ordem política despojada de sanção celestial, temor que se concretizou na opinião de que era justo e útil que soberanos descrentes em Deus se valessem de símbolos e rituais religiosos, bem como de sanções eclesiásticas, para seu próprio interesse e para garantir a ordem social, como expuseram sem rodeios Marsílio de Pádua e, de modo ainda mais contundente, Maquiavel, seguidos por Hobbes e, em termos menos claros mas igualmente inequívocos, Espinosa, para quem o governante deveria fazer o povo sentir-se autogovernado, ou ainda Montesquieu, que pela boca de seu personagem uzbeque afirma que, se a justiça dependesse de convenções humanas, essa terrível verdade deveria ser ocultada até de si mesmo.
  • O que justificava esse uso enganoso da religião para fins políticos era o simples fato de que a maioria dos homens é estúpida, ou velhaca, ou ambas as coisas, sendo impossível refrear as paixões cegas sem a ameaça do inferno; e se Deus passava por juiz supremo, o diabo como executor de suas sentenças estimulava ainda mais a imaginação humana, partindo esses teóricos políticos da premissa de que, se o diabo não existisse, seria preciso inventá-lo.
  • O fato de esses mestres inteiramente “secularizados” corroborarem, sem o saber, a doutrina cristã tradicional segundo a qual a política não pode prescindir de justificações religiosas não significava que um padre ou papa pudesse controlar um imperador ou príncipe; pelo contrário, era o príncipe quem devia pôr o padre a seu serviço, admitindo-se assim que uma ordem política sã requer proteção divina, ainda que apenas imaginária, e revelando-se, deste modo, como uma teocracia deformada, embora não clerocracia, encontrou aliados entre os mais ferozes inimigos da Igreja.
  • Essa história, porém, tem outra face: o diabo tenta, muitas vezes com êxito, transformar o bem em mal, mas Deus não fica de braços cruzados, sabendo superar seu inimigo em astúcia ao converter o mal, a desolação e a destruição em instrumentos de seus próprios planos, de modo que, ainda que o diabo tenha logrado derrubar o sistema que mantinha a política subordinada e conceder autonomia à política, à arte, à ciência e à filosofia, aquele mundo fragmentado jamais escapou ao controle divino, emergindo do caos uma nova ordem destinada a frustrar seus propósitos.
  • Para compreender o comportamento de Deus é preciso lembrar por que Ele não pode simplesmente ordenar ao diabo que desapareça ou acorrentá-lo: razão e capacidade de praticar o mal, ou seja, a liberdade, são inseparáveis, de modo que Deus, ao criar seres racionais, teve de assumir as consequências, núcleo da teodiceia já perfeitamente formado no cristianismo primitivo, como mostra São Basílio ao observar que culpar o Criador por não nos ter feito incapazes de pecar é antepor a natureza irracional e passiva à natureza ativa e livre, e Orígenes ao afirmar que nossa fraqueza e nosso esforço para sobreviver decorrem da vontade divina de que exercitássemos nosso engenho e nossa inteligência.
  • A tese principal da teodiceia cristã reduz-se a isto: o ato de criação é ato de amor, e o amor mútuo entre criador e criaturas só se compreende se estas forem seres racionais capazes de praticar o bem por vontade própria, sendo boas obras forçadas nem sequer boas em sentido moral, de modo que o Criador amoroso só se compreende sob a condição de que o mal exista, sem o qual a própria criação seria despropósito, reconhecendo mesmo as teodiceias mais antigas que Deus, limitado pela coerência lógica, não pode criar mundos internamente contraditórios; segue-se, por necessidade lógica, que o curso dos acontecimentos seja jogo incessante entre bem e mal, prometendo apenas a Revelação a vitória final do bem.
  • Mesmo supondo ter sido o diabo quem despojou a Igreja de seu poder laico e independentizou a política de toda instituição religiosa, não é evidente que ele tenha sido o único iniciador desse processo de autonomização, condição sine qua non de todos os êxitos e fracassos da modernidade, podendo essa história ser interpretada, em termos cristãos, como nova felix culpa, renovação do pecado original sem o qual a humanidade permaneceria em inércia desesperante, sem história nem criatividade.
  • Embora o Iluminismo tenha concedido autonomia a todas as disciplinas humanas importantes, não conseguiu impedir que o mal se lhes grudasse, entrando essas atividades autônomas inevitavelmente em conflito e criando peculiar sistema metafísico de pesos e contrapesos, já que os demônios atribuídos a cada esfera não podem cooperar livremente, o que reduz a eficácia de suas ações.
  • À primeira vista, a política parece o principal território de caça do diabo, por ser diretamente responsável por guerras e perseguições, mas no processo histórico nunca podemos ter certeza de a quem atribuir a responsabilidade final, pois arte, ciência e filosofia conservam aparência relativamente inocente apenas porque operam em escala temporal muito maior, tornando suas consequências nefastas diluídas e quase imperceptíveis, sendo o mal criado por tiranos facilmente identificável e mensurável, ao passo que é muito mais difícil identificar e medir o mal surgido, ao longo dos séculos, dos esforços criativos não intencionais de grandes filósofos e artistas como Platão, Copérnico, Descartes, Rousseau ou Wagner.
  • Essa descrição poderia sugerir que a tendência à teocracia está de algum modo inscrita no próprio tecido espiritual do cristianismo, sendo as forças diabólicas as que a neutralizaram, mas isso não é certo nem sequer provável, pois, a despeito de todas as pretensões de domínio mundial da Igreja, o cristianismo nunca foi teocrático em sentido estrito, nem mesmo a Igreja dos mártires nem a Igreja triunfante no auge do poder mundano.
  • Mesmo o documento oficial mais contundente nas pretensões teocráticas, a bula Unam Sanctam de Bonifácio VIII, afirma que o poder temporal deve estar subjugado ao espiritual e submeter-se ao julgamento da Igreja apenas nas questões relativas à salvação, dependendo na prática as prerrogativas papais das circunstâncias históricas variáveis, sem jamais se saber ao certo o que constituía “assuntos espirituais”, já que toda atividade humana tem, ao menos potencialmente, aspecto moral, colidindo na prática as fórmulas “a Igreja não tem autoridade em assuntos laicos” e “a Igreja tem autoridade em assuntos espirituais”.
  • Existem, contudo, argumentos convincentes de que as aspirações semiteocráticas introduzidas no cristianismo são produto da sofística diabólica, pois mesmo as arrogações mais explícitas de poder laico, como a de Unam Sanctam, jamais pretenderam substituir o poder real ou judicial por governo clerical, nem abolir a distinção entre os dois tipos de poder.
  • A base bíblica mais citada dessa separação de poderes é a resposta de Jesus, “dai a César o que é de César”, com a qual escapou da armadilha farisaica sem comprometer-se nem com a rebelião nem com a submissão, sendo exagerada exegese deduzir daí uma teoria geral de duas fontes legítimas de poder; suas palavras, porém, conformavam-se plenamente à sua doutrina se significavam que os bens terrenos importavam pouco diante do Reino de Deus iminente, núcleo inalterável de sua mensagem apocalíptica.
  • Jesus não legou a seus discípulos aspirações teocráticas nem teoria clara da dupla fonte de poder, mas regras morais de validade universal, sendo natural que seus sucessores emitissem juízos morais sobre todas as esferas da vida, sem que a doutrina de Cristo lhes desse base alguma para recorrer à coação ou à força, sendo evidente incongruência uma boa obra moralmente realizada sob pressão física.
  • O diabo nunca dorme, mas Deus tampouco, podendo a história dessa batalha resumir-se assim: iniciada a perseguição direta dos cristãos, ineficaz segundo a profecia que fez o sangue dos mártires fecundar a Igreja, o diabo decidiu depravar o cristianismo vitorioso inoculando-lhe a tentação de dominar o mundo, convencendo-o a assumir o controle das instituições políticas sob o falso silogismo de que, devendo-se venerar apenas a Deus, a atividade política deveria submeter-se aos veredictos eclesiásticos.
  • Esse êxito, porém, não foi total, havendo no próprio cristianismo barreiras internas contra a plena teocracia, entre elas a interpretação, mesmo incorreta, da resposta de Jesus sobre a moeda romana, que concedia certa autonomia à política laica, e a fé firme no diabo, no mal e no pecado original, que impedia sonhar com utopia teocrática de mundo perfeito construído sob os auspícios eclesiásticos, lembrando tanto o legado evangélico quanto o da Igreja dos mártires que o mal jamais será eliminado e que qualquer paraíso terreno anterior à Segunda Vinda é produto supersticioso da soberba humana.
  • O sonho teocrático implica visão de humanidade desprovida de acaso e risco, mas também de liberdade, perfeição inerte que priva o homem da possibilidade de pecar e, portanto, da própria liberdade, ambas inseparáveis na doutrina cristã, devendo aceitar-se certa autonomia da política como elemento da inevitável imperfeição humana, já que sua abolição forçada produziria mal incomparavelmente maior, sendo a Igreja, como corpus mysticum, talvez infalível, mas cada sacerdote individualmente falível e pecador, sabendo disso muito bem o próprio diabo, que já havia tentado Jesus com a perspectiva de um reino terreno.
  • As tendências teocráticas foram fortes, mas nunca totais, não enraizadas na doutrina nem em leitura falsa do Evangelho, mas no simples fato histórico de a Igreja exercer também poder laico, fruto de coincidências históricas.
  • Chegamos assim à terceira fase da batalha, que abriu perspectivas totalmente novas ao futuro desenvolvimento humano, consistindo na dispersão sucessiva do poder e na concessão de autonomia crescente à política e às demais esferas da energia humana, jogo perigoso em que Deus utilizou tática já conhecida do Antigo Testamento, castigando seu povo por meio de seus próprios inimigos, valendo-se desta vez do Iluminismo.
  • O objetivo do Iluminismo era libertar a política das amarras religiosas, e, como a religião, assumindo deveres políticos e tornando-se grande poder, contaminava-se de interesses mundanos, seu segundo objetivo era depurar o cristianismo e reduzi-lo à sua dimensão essencial, tarefa que coube a um movimento reformista dentro da própria Igreja, duas faces da mesma moeda.
  • Como sempre, o diabo trabalhou em ambos os lados da barricada com considerável êxito: no âmbito do próprio Iluminismo, convenceu as pessoas de que não bastaria libertar a política da tutela religiosa e separar Igreja e Estado, devendo o progresso humano relegar ao esquecimento toda a tradição religiosa, dando ao Iluminismo forma anticristã que fez da impiedade o traço definidor do humanismo, introduzindo a ideia da política como mera luta pelo poder, bem supremo em si mesma, indo muito além da tradição aristotélica.
  • Essa, porém, foi a parte mais fácil de sua tarefa, sendo muito mais difícil aniquilar e ao mesmo tempo aproveitar o ideal de um cristianismo despojado de contaminação laica e restituído à pureza original, à altura do qual o diabo soube se colocar.
  • A saudade da pureza apostólica original foi a arma ideológica mais potente das heresias populares medievais, incluída a Reforma, cuja história futura demonstraria como o diabo utilizou em seu proveito as palavras de ordem, aparentemente incontestáveis, de uma Igreja pobre que não almejava poder laico nem glória mundana.
  • Sendo o objetivo do cristianismo a salvação da alma individual e, segundo Lutero, a salvação questão de fé, dom da graça, sem que sacerdote, papa ou Igreja tivessem poder de nos absolver, parecia natural concluir que a Igreja nada tinha a fazer e deveria ser liquidada, conclusão que alguns radicais da Reforma tiraram, acusando Lutero de inconsequente por não a assumir.
  • Lutero pensou inicialmente apenas em emendar a consciência cristã, partindo da premissa de que o mundo corrupto governado por Satanás era irreformável; decidindo, apesar disso, reformá-lo, viu-se obrigado a compromissos, pois nenhum material é perfeitamente maleável, devendo-se buscar um meio-termo entre a forma ideal sonhada e a matéria disponível; ainda que a reforma luterana aceitasse a necessidade de uma Igreja visível, ao abolir o sacramento do sacerdócio e a sucessão apostólica rompeu a continuidade amparada por Deus, transformando a Igreja em ramo da vida laica e subordinando-a às autoridades civis.
  • Foi este um triunfo espetacular do diabo: atacando inicialmente a depravação mundana do cristianismo e o poder laico da Igreja, a Reforma acabou pregando ideia que, perfidamente, invertia a teocracia, convertendo a Igreja em serva das autoridades laicas, sendo a outra face dessa moeda a santificação do próprio poder laico em todos os seus aspectos, como demonstra o tratado luterano de 1523 sobre o poder estatal, que, com lógica impecável, argumentava não ser Cristo carpinteiro ou carrasco apenas por estar ocupado com outras coisas, sendo perfeitamente imaginável como carrasco.
  • A Reforma secularizou o cristianismo não apenas como instituição, mas também como doutrina, o que equivalia a um punhal cravado no próprio coração, tendo o diabo alcançado essa meta ao rejeitar a Reforma a tradição dogmática dos papas e concílios como fonte de autoridade paralela à Bíblia, restando aberta a questão de quem estaria autorizado a interpretar as Escrituras; se qualquer um pudesse arrogar-se direito a revelação individual, a Igreja não poderia existir como comunidade organizada nem instaurar cânone algum de obediência, restando aos exegetas apenas sua própria razão, ironicamente tida por corrompida e dominada pelo diabo, criando a Reforma, contra sua intenção inicial, a ideia monstruosa de uma religião racional, semente do deísmo e do racionalismo.
  • Bossuet captou essa ideia com clareza notável em sua obra da Contrarreforma, observando que dizer que a verdadeira instância seja a consciência individual de cada um é fácil de afirmar, mas que sempre é preciso retornar a alguma autoridade que não venha de si mesma; assim, o diabo converteu a Reforma em Iluminismo, tendo Deus, para neutralizar os perigos da teocracia, afrouxado os vínculos entre religião e política, aproveitando-se o diabo desse processo para desviá-lo em duas direções convergentes: nacionalizar a religião e dar ao Iluminismo forma antirreligiosa, obrigando a política a criar suas próprias regras ex nihilo e reduzindo-a ao mero afã de poder.
  • Esses resultados, porém, ainda não satisfaziam plenamente o diabo, pois, tendo sido obrigado a favorecer a liberdade, dom divino, a política, ao renunciar à verdade como fundamento e substituí-la pelo consenso geral, base da democracia que não implica posse da verdade, não se tornou mais cruel, mas menos, contrariando todas as previsões racionais do diabo, que se viu forçado a inventar novo contrapeso, iniciando-se a quarta fase da batalha, em curso diante de nossos próprios olhos.
  • O diabo decidiu retornar à antiga concepção de política fundada na verdade, e não no contrato ou consenso, inventando os Estados ideológicos, cuja legitimidade consiste em possuírem seus proprietários a verdade, tornando-se inimigo da verdade quem a eles se opõe, fazendo do pai da mentira sua arma mais poderosa a própria ideia de verdade, universal por definição e não vinculada a nação alguma, sentindo-se tais Estados porta-vozes da verdade universal, à maneira das Cruzadas.
  • Como diziam os teólogos medievais, o diabo é o macaco de Deus, tendo inventado no Estado ideológico imitação caricatural da teocracia, mais radical e completa que qualquer Estado cristão anterior por ter dissolvido a distinção entre autoridade laica e religiosa, concentrando todo poder espiritual e físico num só lugar, concedendo-lhe não apenas instrumentos de pressão e educação, mas toda a riqueza e a própria nação, alcançando essa aleteiocracia, o governo da verdade, forma quase perfeita.
  • Isso transformou o caráter dos conflitos: após a Segunda Guerra Mundial, a maioria das guerras passou a ser travada em nome de uma verdade universal, tornando-se guerras civis sem regras, degolando-se prisioneiros ou forçando-os a mudar de lado sem que isso se considere traição, já que renunciam à falácia para abraçar a verdade, mudando-se também o conceito de traição, aplicável apenas a quem se recusa a aderir ao bando que ostenta a verdade.
  • A nova invenção parece ter saído esplêndida ao diabo, mas há indícios de que seu triunfo pode ser efêmero, tendo os Estados ideológicos, apesar de dinamismo admirável, alcançado estágio de decomposição, recorrendo cada vez menos à verdade universal e mais a sentimentos patrióticos, glória imperial, razão de Estado ou ódio racial para mobilizar seus cidadãos, revelando esses êxitos o abismo entre a realidade e o disfarce verbal, tornando-se evidência incontestável que sua verdade é falácia, o que não pode ser reconhecido em voz alta, recorrendo-se então a soluções capengas que mascaram a crise.
  • O diabo dispõe, sem dúvida, de mais recursos, tentando reintroduzir sub-repticiamente a verdade nas instituições democráticas como alternativa ao consenso geral, adotando o princípio da maioria e distorcendo-o na sugestão de que a maioria sempre tem razão e pode, portanto, até abolir o próprio princípio majoritário, problema sério que muitos pensadores, de Carl Schmitt a James Buchanan, tentaram resolver, podendo ocorrer facilmente quando se supõe que a maioria tem razão por ser maioria, merecendo a minoria, depositária por definição da falácia, ser aniquilada.
  • Não creio que o diabo consiga suprimir a liberdade por nenhum desses dois métodos, pois, embora o homem necessite de segurança espiritual, o que o torna propenso à tentação diabólica de instaurar ordem ideocrática, sente também necessidade de existir à maneira humana, questionando a ordem estabelecida e desconfiando de toda verdade estabelecida, não sendo a necessidade de segurança especificamente humana, ao contrário da necessidade de correr riscos explorando o desconhecido, como observou Clausewitz sobre a inclinação do espírito humano a abandonar a certeza pela imaginação e o acaso.
  • Esse jogo interminável não pode, sem dúvida, ser motivo de alegria intelectual; Santo Agostinho disse na Cidade de Deus que Deus embeleza a ordem dos séculos como belíssimo poema por meio de antíteses, e Hegel construiu sinfonia semelhante com sua dialética histórica, mas, após os acontecimentos testemunhados neste século, somos levados a pensar, como Kierkegaard, que buscar deleite estético e intelectual nesse panorama histórico equivale a saborear a música que emana das entranhas do touro de Fálaris, dentro do qual as vítimas eram assadas vivas enquanto seus gritos, por engenhoso dispositivo acústico, soavam do lado de fora como música agradável.
  • Não, a luta entre o diabo e Deus não é espetáculo divertido; o único consolo que nos resta é não sermos apenas espectadores passivos ou vítimas, mas também participantes, decidindo-se nossa sorte no próprio campo em que nos movemos e jogamos, verdade que soa trivial mas vale a pena repetir, como tantas outras verdades triviais.
kolakowski/1999/politica-diabo.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki