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0 Introdução

KOJÈVE, Alexandre. Introduction à la lecture de Hegel: Leçons sur la Phénoménologie de l'Esprit professées de 1933 à 1939 à l'École des Hautes Études. Reunidas e publicadas por Raymond Queneau. Paris: Gallimard, 1947.

1. O homem distingue-se essencialmente do animal por ser Consciência de si, consciência que surge quando ele diz “Eu” pela primeira vez, de modo que compreender a origem do homem equivale a compreender a origem do Eu revelado pela palavra.

2. A contemplação cognitiva absorve o sujeito no objeto e revela apenas o objeto, razão pela qual somente o Desejo, ao tornar o homem inquieto e fazê-lo “voltar a si”, constitui e revela um ser como Eu oposto ao não-Eu.

3. Como o ser consciente de si pressupõe o Desejo, a realidade humana só pode constituir-se no interior de uma vida animal, embora o Desejo animal, condição necessária, não seja suficiente, pois por si só gera apenas o Sentimento de si.

4. O Desejo impele à ação negadora, que destrói ou transforma o objeto dado e, ao assimilá-lo, cria uma realidade subjetiva cujo conteúdo depende do objeto negado, de modo que o Desejo voltado a um objeto natural produz apenas um Eu natural, animal, incapaz de Consciência de si.

5. A Consciência de si exige que o Desejo se volte para um objeto não natural, isto é, para outro Desejo, criando assim um Eu que é negatividade-negadora, devir e tempo, um indivíduo livre e histórico que se torna o que não é pela negação do que foi.

6. Como o Desejo humano deve voltar-se para outro Desejo, a realidade humana só pode surgir no seio de um rebanho e ser essencialmente social, sendo humano desejar o desejo do outro, isto é, ser amado ou reconhecido, ou desejar o que os outros desejam porque eles o desejam, de modo que a história humana é a história dos Desejos desejados.

7. Salvo essa diferença essencial, o Desejo humano é análogo ao animal, pois também busca satisfazer-se por uma ação negadora e assimiladora, alimentando-se o homem de Desejos assim como o animal se alimenta de coisas reais.

8. Para que o homem seja verdadeiramente humano, seu Desejo humano deve prevalecer sobre o desejo animal de conservar a vida, razão pela qual ele só se comprova como humano ao arriscar sua vida em função de um fim essencialmente não vital.

9. Desejar o Desejo de outro significa querer que o valor que se é seja reconhecido pelo outro como valor autônomo, de modo que todo Desejo antropógeno é, em última instância, desejo de reconhecimento, e falar da origem da Consciência de si implica falar de uma luta de morte pelo reconhecimento.

10. Sem a luta de morte por puro prestígio jamais teriam existido seres humanos, pois o encontro de dois Desejos de reconhecimento, cada um disposto a ir até o fim, só pode tornar-se uma luta mortal, na qual a realidade humana se gera e se revela como realidade reconhecida.

11. Se todos os combatentes se comportassem da mesma maneira, a luta terminaria com a morte de um ou de ambos, o que tornaria impossível a realização humana, já que o sobrevivente não pode ser reconhecido pelo morto, sendo necessário que a sociedade nascente inclua dois comportamentos essencialmente diferentes.

12. Para que ambos sobrevivam à luta, os adversários devem constituir-se como desiguais por atos livres e imprevisíveis, cedendo um deles por medo da morte e reconhecendo o outro sem ser reconhecido, isto é, reconhecendo-o como Senhor e fazendo-se Escravo.

13. Em seu estado nascente, o homem nunca é simplesmente homem, mas necessariamente Senhor ou Escravo, de modo que a sociedade humana, em sua origem, inclui um elemento de Dominação e outro de Servidão, existências autônomas e existências dependentes.

14. Se o ser humano nasce da luta que resulta na relação entre Senhor e Escravo, a história universal deve ser a história da interação entre Dominação e Servidão, interação que, se a história tem um termo final, deve culminar em sua supressão dialética.

15. A realidade humana só pode produzir-se e manter-se como realidade reconhecida, sendo o homem verdadeiramente humano, para si e para os outros, apenas ao ser reconhecido por outro, pelos outros e, em última instância, por todos.

16. A Consciência-de-si existe em e para si na medida em que existe em e para si para outra Consciência-de-si, isto é, existe apenas como entidade reconhecida.

17. O conceito puro do reconhecimento, como duplicação da Consciência-de-si no interior de sua unidade, deve agora ser considerado segundo o modo como sua evolução aparece para a própria Consciência-de-si, isto é, para o homem que reconhece ou se faz reconhecer.

18. Essa evolução manifesta primeiro a desigualdade das duas Consciências-de-si, desdobrando o termo médio do reconhecimento mútuo em dois extremos opostos, um apenas reconhecido e outro apenas reconhecedor, pois quem quer ser reconhecido não deseja, de início, reconhecer o outro.

19. De início, a Consciência-de-si é um Ser-para-si simples e idêntico a si pela exclusão de todo outro, tendo como objeto absoluto o Eu isolado e considerando o outro como coisa sem realidade essencial, marcada pelo caráter do negativo.

20. Quando um indivíduo humano se apresenta diante de outro, ambos existem um para o outro como coisas comuns, consciências imersas na vida animal que ainda não realizaram a abstração absoluta de todo ser dado imediato.

21. Por ainda não se terem manifestado como puro Ser-para-si, cada um está subjetivamente certo de si, mas não do outro, e essa certeza carece de verdade, pois só se tornaria verdade se o próprio Ser-para-si aparecesse como objeto autônomo, o que, segundo o conceito do reconhecimento, exige a atividade recíproca de ambos.

22. A certeza subjetiva que o homem isolado tem de seu valor só se torna verdade quando ele a impõe aos outros e transforma pela ação o mundo em que não é reconhecido num mundo em que o é, ação que começa necessariamente como luta de morte por puro prestígio com o primeiro outro homem encontrado.

23. Manifestar-se como abstração pura do Ser-para-si consiste em mostrar-se desligado de toda existência determinada e da própria vida, o que constitui uma atividade dupla, pela qual cada um persegue a morte do outro e arrisca a própria vida, comprovando-se ambos na luta de vida e morte.

24. Os indivíduos humanos são obrigados a travar essa luta para elevar sua certeza subjetiva à verdade, pois a liberdade só se comprova pelo risco da vida, mas a morte efetiva de um ou de ambos suprime a verdade buscada, já que é negação abstrata e natural, e não negação dialética que suprime conservando o suprimido.

25. De nada serve ao homem da Luta matar o adversário, pois deve suprimi-lo dialeticamente, deixando-o vivo e consciente e destruindo apenas sua autonomia, isto é, submetendo-o.

26. A experiência da luta mortal mostra à Consciência-de-si que a vida animal lhe é tão essencial quanto a pura consciência de si, dissolvendo a unidade do Eu isolado em duas formas opostas de consciência, a autônoma, para a qual o essencial é o Ser-para-si, que é o Senhor, e a dependente, para a qual o essencial é a vida, que é o Escravo, o vencido que preferiu a servidão à morte.

27. O Senhor é a consciência que existe para si mediada por uma consciência ligada à coisidade, relacionando-se mediatamente com o Escravo por meio do ser dado do qual este não soube libertar-se, e com a coisa por meio do Escravo, que a transforma pelo trabalho, de modo que o Senhor alcança no Gozo a pura negação da coisa que o simples Desejo não conseguia.

28. O reconhecimento do Senhor pelo Escravo realiza dois momentos do reconhecer, a autossupressão do Escravo como Ser-para-si e o fato de sua atividade ser atividade do Senhor, mas falta o terceiro momento, a reciprocidade, de modo que surge apenas um reconhecimento desigual e unilateral.

29. A relação entre Senhor e Escravo não constitui reconhecimento propriamente dito, pois o Senhor é reconhecido por alguém que ele não reconhece e que considera uma coisa, encontrando-se assim num impasse existencial que o impede de jamais ser satisfeito, razão pela qual o homem satisfeito será necessariamente aquele que passou pela Servidão e a suprimiu dialeticamente.

30. A consciência servil, que constitui a verdade da certeza do Senhor, não corresponde a seu conceito, pois o Senhor, ao realizar-se, encontra diante de si uma consciência dependente e não autônoma, de modo que sua verdade é o Escravo e seu trabalho.

31. A verdade da consciência autônoma é a consciência servil, que, embora apareça primeiro como existindo fora de si, há de converter-se, em sua realização, no contrário do que é imediatamente, transformando-se, como consciência reprimida em si, em verdadeira autonomia.

32. O homem integral, livre e definitivamente satisfeito será o Escravo que suprimiu sua servidão, pois a ociosa Dominação é um impasse, ao passo que a laboriosa Servidão é a origem de todo progresso humano, social e histórico, sendo a História a história do Escravo trabalhador.

33. A Servidão contém em si a verdade da pura negatividade e do Ser-para-si porque experimentou a angústia diante da morte, o Senhor absoluto, que dissolveu nela tudo o que era fixo, e porque realiza essa dissolução concretamente no serviço, no qual, ao trabalhar, torna-se senhora da Natureza e liberta-se de sua própria natureza servil, pertencendo assim o futuro ao Escravo trabalhador e não ao Senhor guerreiro.

34. A angústia inspirada pelo Senhor é o começo da sabedoria, mas só pelo trabalho a consciência chega a si, pois, enquanto o gozo do Senhor é evanescente e carece de permanência objetiva, o trabalho é desejo reprimido que forma e educa, imprimindo na coisa a forma do trabalhador, que nela se contempla e se realiza objetivamente como ser sobrenatural, Espírito encarnado e História objetiva.

35. O trabalho forma e educa o homem a partir do animal, de modo que o homem realizado é necessariamente o Escravo, sendo o Senhor apenas o catalisador do processo histórico, já que somente o trabalho forçado, realizado ao serviço de outro e estimulado pela angústia da morte, cria um Mundo cultural e liberta o Escravo da angústia que o ligava à Natureza.

36. O ato de formar a coisa possui também um significado negador dirigido contra a angústia, pois a consciência servil, ao destruir pelo trabalho a forma natural estranha diante da qual tremeu, põe-se como negatividade no elemento da permanência e reconhece na obra o próprio Ser-para-si, tornando-se assim sentido e vontade própria justamente no trabalho, onde parecia ser vontade alheia.

37. O homem alcança sua verdadeira autonomia somente depois de ter passado pela Servidão e superado a angústia da morte pelo trabalho realizado ao serviço de outro, sendo o trabalho libertador, de início, necessariamente o trabalho forçado de um Escravo diante de um Senhor onipotente.

38. Para essa reflexão da consciência em si mesma são necessários tanto a angústia e o serviço quanto a formação pelo trabalho, pois sem serviço a angústia permanece formal, sem trabalho permanece íntima e muda, e sem a angústia absoluta o trabalho produz apenas um capricho obstinado, uma liberdade ainda presa à servidão e uma habilidade limitada a poucas coisas.

39. Quem não sentiu a angústia diante da morte permanece ligado ao Mundo dado e pode no máximo reformá-lo, enquanto somente o Escravo, movido pelo terror absoluto inspirado pelo Senhor do Mundo, pode negá-lo em sua totalidade e, transformando-se pelo trabalho, criar as condições para retomar a Luta libertadora pelo reconhecimento, realizando por fim o ideal da Consciência-de-si autônoma.

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