0.1 Prefácio
PIEROBON, Frank. Kant et la fondation architectonique de la métaphysique. Grenoble: J. Millon, 1991.
Prefácio de Marc Richir
1. Compreender um filósofo equivale, em certa medida, a reinventá-lo, pois as questões que ele formulou só adquirem sentido para nós quando também se impuseram ao longo de nosso próprio percurso.
2. Um estudo anterior deteve-se no poder operatório da arquitetônica kantiana para esclarecer dificuldades clássicas sem abandonar o terreno da Crítica, deixando deliberadamente de lado a problemática da dedução por esta revelar uma aporia central entre o idealismo transcendental e o realismo empírico.
3. O novo estudo persegue o duplo objetivo de interpretar as duas versões da dedução transcendental das categorias à luz das exigências de rigor arquitetônico e de extrair as primeiras consequências da inexponibilidade do sistema sobre a escrita filosófica e sua interpretação.
4. A maior parte das dificuldades clássicas da obra crítica resulta de uma inadequação irredutível entre pensamento e linguagem, inadequação que a dedução torna filosoficamente significativa ao comprometer a legitimidade da arquitetônica na região limítrofe em que esta perde sua univocidade.
5. A passagem de uma redação a outra da dedução foi motivada pela consciência de que a arquitetônica não podia aspirar ao fechamento sistemático mantendo-se metodologicamente onipotente, impondo-se renunciar à sistematização unívoca e aceitar a descrição como regime ordinário da linguagem.
6. Um resumo da Crítica da razão pura mostrou-se um risco inútil e perigoso, pois seu princípio contradiz a atenção devida à obra em sua completude inexponível, na qual nada é essencial porque tudo o é.
7. As interpretações mais eminentes do problema da dedução não foram discutidas nem evocadas quando a distância que produziram em relação ao texto exigiria uma remise en situation demasiado ampla para o proveito obtido.
8. Ao longo de todo o estudo utiliza-se a tradução de Alexandre J.-L. Delamarre e François Marty, com referências clássicas às edições originais A e B da Crítica seguidas da indicação de página nessa tradução, empregada também para os demais textos de Kant.
9. O reconhecimento manifestado a Marc Richir deve-se tanto à força e subtileza de seu pensamento quanto à benevolência e à energia inesgotável com que acompanhou os trabalhos, permitindo verificar que a escrita filosófica não está necessariamente votada à vontade de potência.
