User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
jullien:1993:2.5

2.5 Conduta humana

Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)

Conduta humana e curso do mundo

1. O primeiro hexagrama, Qian, era concebido na ótica do Sábio cuja à-vontade doravante é perfeita e que segue resolutamente a Via, remetendo portanto os traços constitutivos da figura de ponta a ponta à perspectiva do dragão que, por sua progressão impecável, simbolizava a capacidade em seu estádio absoluto.

  • O segundo hexagrama, Kun, é concebido na ótica do homem de bem que se inspira nesse exemplo e procura pacientemente, por seus esforços, imitá-lo, não oferecendo por isso os traços constitutivos da figura essa continuidade temática, mas uma grande variedade de orientações e de imagens, tão dispersas, à primeira vista, quanto ainda o são todos esses esforços.
  • Duas capacidades, portanto dois regimes e, por conseguinte também, duas leituras: tanto a primeira figura nos impunha desde logo sua construção unitária e sistemática, quanto, no caso da segunda, a coerência que liga a constelação dos motivos só pode ser depreendida por associação progressiva e minuciosa.

2. Uma tal diferença, que se reencontra na série dos hexagramas, se justifica, com efeito, de modo particularmente nítido no caso dos dois primeiros.

  • O céu é um fundo uno e homogéneo, enquanto a terra se encontra esquartelada entre seus pontos cardeais, e do mesmo modo todos os seres, desde que se atualizam graças à energia materializante da Terra, não podem mais ser percebidos senão sob uma variedade de facetas.
  • No nível do céu a trajetória se deixa apreender num relâmpago, mas no nível da terra é preciso descer na particularidade das individuações e em toda a complexidade do concreto, sucedendo ao caráter talhado e decisivo da iniciativa o lento e sinuoso cumprimento das coisas.
  • O sobrevoo, a visão panorâmica não são mais possíveis, entrando nós na fragmentação do tempo e no esmigalhamento da imagem.
  • Assim caberá ao leitor jogar com essa rapsódia dos motivos, considerar sucessivamente os seus diversos aspetos e seguir no detalhe seus lineamentos.
  • E do mesmo modo que a terra põe tanta paciência em fazer germinar e amadurecer, teremos de aprender a deixar decantar o sentido.

3. Em conformidade com a significação de conjunto da figura, cabe ao primeiro traço, em sua base, nos pôr em guarda contra o risco de acumulação do yin fazendo obstáculo à difusão do yang, encontrando essa excessiva condensação naturalmente sua imagem na congelação.

  • Se desde o início nos previnem desse perigo, é que não se deve esperar ter chegado ao estádio da acumulação para começar a dele nos precaver, convindo ao contrário saber decelar essa tendência apenas ela desponta.
  • A divisa é: pôr o pé sobre a geada, o gelo compacto chega.
  • A geada, como cristalização mínima, serve de primeiro indício à coagulação e ao endurecimento que vão seguir, o gelo, e o comentário simbólico do traço põe em valor a continuidade do processo que conduz, de modo lógico e portanto inelutável, do estádio inicial e por conseguinte subtil a seu acabamento mais patente.
  • A lição valerá também no plano da História: o aspecto espetacular do acontecimento não é senão o resultado de uma evolução subterrânea e progressiva, e mais cedo se tiver sabido repor esta, mais comodamente se agirá sobre o curso das coisas.

4. Ao apogeu que constituía, no seio da primeira figura, o quinto traço responde, de modo simétrico mas invertido, o apogeu que constitui, no seio desta figura, o segundo traço.

  • Mesma situação de centralidade e de equilíbrio no seio dos trigramas respectivos: lá, diz-nos WFZ, a capacidade yang tocava o Céu, a posição soberana, mas sem ainda ultrapassar esta, como no sexto traço, e aqui a capacidade yin emerge da terra, estádio do florescimento, mas sem já manifestar esgotamento.
  • Assim as características desse traço são completamente positivas: reto, quadrado, amplo.
  • O simbolismo é simples: a capacidade própria da terra é se manter reta e estável, concentrada sem se mover, e o que define seu ser próprio é a amplitude.
  • Mas sobretudo é nesse estádio que se manifesta a maneira natural por que se desdobra sua fecundidade, sendo então a divisa: sem que ela tenha de se exercer, não há nada de que não tire proveito.
  • Pois o que é o crescimento dos seres e das plantas, devido à terra, diz-nos o comentador, antes de WFZ Wang Bi no século três, o primeiro a ser sensível ao sentido filosófico dessa naturalidade, senão um processo que se desenvolve sozinho e por si mesmo, sem aplicação nem esforço, e cujo resultado advém sponte sua?

5. O segundo traço é o da plenitude e da radiação.

  • Em seu prolongamento, o terceiro expõe a que manifestação ocasional podem dar lugar essas qualidades e qual é seu acabamento legítimo.
  • É aqui que a divisa deve ser lida de perto, seguindo as sinuosidades do sentido: contendo essa radiação interior se é capaz de integridade, podendo acontecer que nos engajemos a serviço do rei, e sem nos atribuir os sucessos vamos até o fim.
  • Essa radiação interior é bem a do segundo traço, sendo ela que permite que nesse estádio de acabamento, o do primeiro trigrama, e apesar de uma posição desfavorável, traço yin num lugar yang, se possa preservar a integridade.
  • O avanço, característico do terceiro traço, se traduz aqui pelo motivo do engajamento a serviço do rei, ilustrando este a virtude do yin que, em vez de permanecer confinado em si mesmo, se abre à presença do yang, o rei, e coopera sob sua direção.
  • Não há até a modalidade do pode acontecer que, introduzindo esse motivo, que não deva ela mesma ser analisada cuidadosamente: essa eventualidade significa que um tal engajamento não corresponde necessariamente ao que implicava essa radiação interior e que se obedece então às necessidades do momento.
  • No entanto, desde que nos engajamos, vamos até o fim, como convém ao fim desse primeiro trigrama e como cabe também à Terra, cuja função é conduzir a existência a seu cumprimento, mas sem nos atribuirmos os méritos da empresa que, como deve ser, cabem ao yang.

6. Inversamente, o quarto traço é, sabe-se, o do recuo, encontrando sua imagem no saco que se fecha e se ata, sendo o comentário nem falta nem glória.

  • Se esse motivo da fechadura e do recolhimento sobre si, na partida do segundo trigrama, faz certamente eco ao primeiro traço da figura, da geada ao gelo, ele consegue no entanto tomar aqui um valor neutro e não mais negativo.
  • Pois, enquanto no nível do primeiro traço o recolhimento sobre si se operava de modo subterrâneo, literalmente falando, abaixo do segundo traço que é o do nível do solo, e no modo de um processo acumulativo que, desde que engajado, é inelutável e portanto ameaçador, no caso desse traço, que corresponde ao plano da atividade humana, trata-se de um recolhimento consciente e voluntário cuja única intenção é assegurar nossa segurança.
  • Esse traço ilustra, vê-se, a situação clássica do letrado chinês que, nas épocas de perturbação, escolhe a retirada e a obscuridade para tentar escapar à tirania do poder e salvar sua cabeça.
  • WFZ dele dá um comentário luminoso: nessas épocas de opressão, palavras perigosas, devendo compreender-se palavras que, porque dizemos o que pensamos, arriscam descontentar as autoridades, atraem sobre nós a infelicidade, e, em sentido inverso, palavras de fingimento, em que se esconde a opinião para não desagradar, se opõem à Via, a da exigência moral.
  • Mas se se fecha bem o saco e nada dele sai, os outros não podem então nada perceber através dele, e tal é o cúmulo da prudência.
  • Fechar o saco, escapar calando-se às suspeitas do príncipe e de seus esbirros, ou mais correntemente ainda às denunciações de seus vizinhos, é então a única maneira de preservar sua integridade nos dois sentidos do termo, tanto no plano físico quanto no plano moral, imaginando eu que muitos intelectuais chineses devem ter meditado, hoje como ontem, sobre a justeza dessa posição.

7. O quinto traço beneficia, como o segundo, de uma posição de centralidade e de equilíbrio no seio do trigrama superior, podendo portanto de novo exprimir plenamente, através do motivo da saia amarela, a virtude do yin e da Terra.

  • O amarelo, primeiro, recorda WFZ, é a cor mesma da terra, e entre os tons baços do preto e do branco e os luminosos do vermelho e do verde, cabe a ele encarnar, entre as cinco cores, o justo meio.
  • Quanto à saia, por relação ao yi, ela corresponde à metade inferior do corpo e, além disso, se encontra habitualmente escondida por diversos adornos.
  • Não apenas evoca, em relação à veste, uma posição inferior, como a da Terra em relação ao Céu, mas ainda, porque se dissimula ao olhar, simboliza uma virtude que guarda em si mesma sua radiação e sua beleza, cf. traço três, em vez de procurar mostrá-las e se prevalecer delas, cf. ainda esse mesmo terceiro traço em que não se procura se atribuir os méritos da empresa.
  • Essa reserva ilustra certamente, de um ponto de vista ideológico, a virtude atribuída ao yin e à Terra, à esposa e aos súditos, cuja vocação é seguir na sombra, em vez de se pôr em evidência.
  • Mas ela possui também um sentido filosófico que indica laconicamente o comentário simbólico desse traço, cf. sobre esse mesmo tema o último parágrafo do Zhongyong: o brilho da personalidade do Sábio, wen, deve-se ao equilíbrio que ele sabe manter em seu foro interior, zhong, e igualmente o que decora e enriquece sua personalidade, wen, o Sábio não o estende aos olhares, mas o guarda no fundo de si mesmo, zhong.
  • Assim, porque sabe permanecer insosso e discreto, a plenitude da capacidade que acumula em si se vê por si mesma.
  • É por isso que o caráter fasto desse traço não é o de uma felicidade que se procurou, mas é intrínseco à posição.

8. A virtude do yin, nesse estádio, é completa e não pode conhecer acréscimo, sendo seu único futuro possível, além da plenitude desse traço, o de seu esgotamento, provocando por compensação um retorno em força do yang.

  • WFZ interpreta, portanto, o sexto traço com que se acaba a figura segundo a mesma lógica da passagem ao extremo, apelando a uma transformação, que se via posta em valor a propósito do último traço yang, o sexto da primeira figura.
  • A divisa é para este: dragão combatendo na campanha, o sangue é negro e amarelo.
  • Esse dragão é bem o do puro yang que sai de seu enterramento, cf. o primeiro traço de Qian, e reemerge, e a campanha em que se desenrola o combate evocaria, segundo WFZ, o exterior do hexagrama, isto é, penso eu, o que se passa além mesmo do desenvolvimento da figura.
  • Poder-se-ia dizer: nos seus bastidores, aqueles em que se joga, à parte, entre duas cenas, as que ilustram os dois primeiros hexagramas, o episódio secreto do renovamento.
  • Como, diz-nos WFZ, o desdobramento do yin chegou a seu termo, é necessário que o yang tome um novo surto para o substituir.
  • Pois enquanto os seis traços yin de Kun se manifestavam assim completamente, os seis traços yang de Qian permaneciam na sombra sem por isso desaparecer, não esqueçamos que essas duas primeiras figuras, Qian e Kun, puro yang e puro yin, foram estabelecidas juntas e são inseparáveis na realidade.
  • Desde que uma dessas duas capacidades, chegando a seu apogeu, se esgota, a outra, que se encontrava tapada, surge de novo, de onde se seguem combate e ferimentos.
  • O sangue que então corre é o da luta inevitável que ergue um momento face a face o que está prometido a desaparecer, mas tarda a ceder o lugar, e as forças do renovo.

9. Ora, não no-lo escondamos: ao mesmo tempo que é inelutável, esse renovamento é dramático, conduz ao confronto.

  • Assim toda uma tradição do comentário se recusou a uma leitura antagonista desse traço, mesmo que forçando a letra do texto: esse combate não seria mais um verdadeiro combate, mas um acasalamento, e a campanha simbolizaria a Terra sobre a qual o dragão yang viria se deitar.
  • Desde então o sangue misturado, e não mais derramado, se torna o fruto de uma tal relação, o negro remetendo ao Céu e o amarelo à Terra, exprimindo a vitalidade que procede da gestação dessas duas energias e se encontra em medida de engendrar todos os seres.
  • Eis portanto que o motivo do sangrento combate se transforma em seu avesso, o de uma união procriadora.
  • Essas duas leituras, diametralmente opostas, remetem certamente a duas visões ideológicas contraditórias.
  • Uma, de inspiração Han e defendida outrora ainda por Shang Binghe, conduz a uma conceção lenitiva do desenrolar dos processos, notadamente do curso da História, e tenta riscar toda irrupção da violência, como se as dinastias se sucedessem sem perturbação nem ruptura e a transmissão da autoridade se operasse de pleno grado, tal é a ideologia do poder imperial na China, procurando fundar sua legitimidade na continuidade do mandato e no reinado da harmonia.
  • A outra reconhece, ao contrário, no desenrolar da História momentos de conflito que precisamente esse sexto traço simboliza, recordando-se que WFZ, como bem antes dele Wang Bi no século três, viveu uma época de grandes subversões em que a legitimidade imperial é batida em brecha e a própria China é invadida.

10. Mas o mérito da interpretação de WFZ não é tanto afirmar o caráter inelutável da crise, quanto conseguir integrá-la no desenrolar legítimo do processo.

  • Pois, sob seus ares de catástrofe, que tanto nos afetam, essa crise prepara secretamente uma nova ordem vindoura.
  • Certamente os primeiros que, nas grandes viragens da História, tentaram por sua iniciativa restabelecer a situação, encarnando assim o retorno do yang face ao esgotamento do yin, foram muitas vezes destruídos no combate que os punha às voltas com seus adversários.
  • Assim, diz-nos WFZ, Chen Sheng e Xiang Liang, que foram os primeiros a se levantar contra a tirania de Qin e se desmoronam com ele, ou Xu Shouhui e Zhang Shicheng na luta que engajam contra os Mongóis.
  • Tais destinos são comparáveis ao sangue derramado do dragão, o preço a pagar pelo renovo.
  • Mas na medida em que sabemos que uma lógica está em obra através mesmo da crise, como não cessa de nos indicar o Clássico, somos capazes de assumir pessoalmente esses momentos de provação, por mais dolorosos que sejam.
  • É por isso que WFZ, que se sabe ter passado a vida a estudar o Clássico da mudança, permaneceu ele mesmo confiante no meio das perturbações de sua época, e, em vez de ceder diante da invasão exterior e colaborar com os Manchus, se conduziu como resistente.

11. Mas pode-se pensar de modo ainda mais preciso a relação do curso do mundo e do engajamento humano?

  • Para isso, reconsideremos esse sexto traço em relação ao conjunto do hexagrama: enquanto seus quatro traços centrais concernem diretamente nossa conduta, e desenham assim a esfera de nossa atividade, os primeiro e sexto traços remeteriam, nos dois extremos da figura, aos planos que a ultrapassam, ao caminhar subterrâneo das coisas no primeiro traço e à irrupção de sua violência no sexto.
  • Com efeito, quer se trate de Kun ou de Qian, faz-nos notar WFZ, esses dois hexagramas se fundam sobre a totalidade do processo da realidade, se estendem até sua limite extrema.
  • Assim aquele que estuda o Clássico, num sentido de formação moral, imita o que pode utilizar dessas figuras, mas não pode ir até o fim de sua dimensão.
  • Desse modo os segundo e quinto traços evocam, em sua generalidade, o equilíbrio da regulação, e os terceiro e quarto, que correspondem mais particularmente à posição do homem, precisam a que se estende essa função de harmonização no nível humano.
  • O primeiro traço, em contrapartida, representa o que está enterrado abaixo do solo, e o sexto o que paira no horizonte, sendo impossível ao homem estender sua ação a tais níveis.
  • É por isso que o Clássico deles trata em termos de curso das coisas: enterramento ou bloqueio, os primeiro e sexto traços de Qian, cristalização ou conflito, os primeiro e sexto traços de Kun.
  • No caso de Qian, no entanto, precisa WFZ, o homem pode ainda, mesmo nesses estádios extremos, preservar sua moralidade interior e sua serenidade, enquanto nos dois extremos de Kun o gelo, no primeiro traço, e o sangue, no sexto, são sinais de que o curso das coisas está gravemente atingido, sendo apenas essas posições perigosas.
  • Mas, por outro lado, pois no caso de Kun como de Qian a capacidade evocada pelo hexagrama é pura e sem mistura, a figura dá conta apenas do desenvolvimento sponte sua que está inscrito na ordem das coisas, sem fazer dele recair a falta sobre o homem.
  • É por isso que, se no estádio em que o gelo se condensa como naquele em que os dragões se defrontam o consultante aprende a conhecer o destino e a estar atento à evolução secreta da realidade, tais estádios, não implicando a responsabilidade do homem, não são declarados nefastos.

12. Cabe, portanto, a essa segunda figura instaurar de modo discreto, pelo só efeito de sua estrutura, uma articulação essencial ao livro.

  • Ao mesmo tempo que Kun é estabelecido no mesmo plano que Qian, esse hexagrama assegura a transição com os outros.
  • É ele que reparte com maior precisão o que releva do homem e o que dele não depende, inscreve a conduta humana no seio do curso das coisas e põe em cena a relação do homem com seu destino.
jullien/1993/2.5.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki