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0 Introdução

HARMAN, Graham. Speculative realism: an introduction. Medford, MA: Polity, 2018.

1. Embora tenha apenas uma década, o Realismo Especulativo já é um dos movimentos filosóficos mais influentes na arte, na arquitetura e nas humanidades, objeto de livros de Peter Gratton, Steven Shaviro e Tom Sparrow, mas ainda há espaço para novas abordagens, e nenhuma havia sido escrita por um dos realistas especulativos originais, razão pela qual, consultado pela Polity Press sobre quem deveria redigir um novo panorama do tema, Graham Harman se ofereceu para a tarefa.

2. A primeira circunstância delicada é que o autor do panorama é também um de seus temas, como um dos quatro palestrantes do workshop inaugural, ao lado de Ray Brassier, Iain Hamilton Grant e Quentin Meillassoux, o que impõe o dilema entre falar de si insuportavelmente na primeira ou, pior ainda, na terceira pessoa, resolvido pelo uso da primeira pessoa apenas para recordações de ações pessoais e pela referência impessoal à posição filosófica como Ontologia Orientada a Objetos, o que comete certa injustiça com Ian Bogost, Levi R. Bryant e Timothy Morton, cujas posições divergem em pontos importantes, mas permite generalizar sobre os pressupostos da ala orientada a objetos em contraste com os de Brassier, Grant e Meillassoux.

3. A segunda questão delicada diz respeito à objetividade, pois o grupo original durou pouco e há hoje fortes desacordos filosóficos e até pessoais entre seus membros, já que Meillassoux, substituído por Alberto Toscano no segundo workshop, preferia enfatizar o materialismo de sua posição em vez do realismo, e sobretudo há uma oposição frontal entre a ala de Brassier e a orientada a objetos, a ponto de Brassier rejeitar hoje o nome Realismo Especulativo, que ele próprio cunhou, e seu discípulo Peter Wolfendale publicar mais de quatrocentas páginas contra a OOO, disputas já documentadas alhures e deixadas de lado num livro introdutório que pretende resumir com equidade as posições de Brassier, Grant e Meillassoux, sendo inevitável, como risco normal da vida intelectual, que alguns seguidores de Brassier desaprovem a apresentação crítica de suas ideias.

4. Em 27 de abril de 2007, o workshop Realismo Especulativo, na Goldsmiths, Universidade de Londres, reuniu quatro autores da tradição continental em palestras de uma hora por ordem alfabética, Brassier, Grant, Harman, acometido de grave infecção na garganta, e Meillassoux, único não anglófono, sob um nome cunhado por Brassier como compromisso necessário, num processo iniciado quando Brassier, que conhecera Harman ao convidá-lo para uma palestra sobre a quadratura de Heidegger, sugeriu um evento conjunto com Grant e depois recomendou Après la finitude de Meillassoux, lido de imediato por Harman, que então contatou Grant e Meillassoux, enquanto Toscano organizava o evento, e o nome Materialismo Especulativo, termo de Meillassoux, foi substituído por Realismo Especulativo em razão do antimaterialismo ardente da OOO.

5. A existência e a novidade do Realismo Especulativo, negadas por alguns críticos, são claras, a começar pelo realismo, que designa o compromisso com a existência de um mundo independente da mente humana, em oposição ao idealismo, cujo caso mais flagrante é Berkeley, para quem ser é ser percebido, e cuja versão mais influente está no idealismo alemão de Fichte, Schelling e Hegel e hoje em Žižek, enquanto entre realistas e idealistas há quem pretenda ocupar um terreno intermediário além de ambos, como Husserl e Heidegger, para quem o problema do mundo externo é um pseudoproblema, já que pensamento e mundo existem apenas em correlação mútua, posição adotada quase unanimemente pela filosofia continental, chamada primeiro filosofia do acesso em Tool-Being, de 2002, e depois correlacionismo por Meillassoux, que a remontou a Kant e a Hume, termo preferível por sua economia e base etimológica.

6. Os realistas especulativos originais estavam unidos pela rejeição do correlacionismo, cuja existência alguns críticos equivocadamente negam, desacordo que ajuda a explicar por que o Realismo Especulativo ainda é corrente minoritária no establishment continental representado nos Estados Unidos pela Society for Phenomenology and Existential Philosophy, enquanto na Grã-Bretanha a Society for European Philosophy se mostra mais aberta, a ponto de convidar Harman para uma conferência principal em York em 2011.

7. Outros críticos, sobretudo no círculo de Brassier, admitem o correlacionismo, mas negam que a oposição a ele baste para unificar um movimento, e é fato que os quatro projetos originais eram tão diferentes que não se mantiveram unidos por mais de dois anos, ruptura que Žižek julgou inevitável e sinal de limitação, ao dividir-se em realismo especulativo de Meillassoux, filosofia orientada a objetos de Harman, neovitalismo de Grant e niilismo radical de Brassier, embora quanto mais forte um gênero de pensamento mais variações ele gere, como mostram a fenomenologia e a psicanálise, e o interesse do Realismo Especulativo esteja justamente em que quatro projetos sem nenhum herói filosófico comum tenham uma unidade evidente diante do pano de fundo correlacionista, por serem todos realismos, ainda que em sentidos distintos, e todos especulativos, por chegarem a conclusões contraintuitivas ou mesmo estranhas.

8. Por equilíbrio, segue-se a ordem alfabética dos palestrantes de 2007 e dedica-se aproximadamente o mesmo número de páginas a cada uma das três orientações distintas da OOO, cuja apresentação é deliberadamente mais curta para evitar repetir ideias já publicadas, sem fingir falar na voz desinteressada de Deus, já que a preferência pela própria filosofia implica críticas às demais e os leitores merecem uma avaliação franca das diversas posições realistas especulativas.

9. O capítulo 1 acompanha Ray Brassier desde Nihil Unbound, de 2008, até artigos recentes que sugerem uma nova versão ainda inédita de sua posição, estilo de pensamento que no início não tinha nome específico, mas que nos últimos anos parece ter adotado o termo prometeísmo, reservando-se aceleracionismo ao pensamento estritamente político de seus discípulos Nick Srnicek e Alex Williams.

10. O capítulo 2 trata de Iain Hamilton Grant a partir de seu livro denso e inovador Philosophies of Nature After Schelling, de 2006, profundamente devedor de Deleuze, e de seu segundo livro, Idealism, escrito com Jeremy Dunham e Sean Watson, cuja aparente virada se explica porque idealismo não designa ali o oposto do realismo, mas o papel das ideias no poder produtivo da própria natureza, e não o habitual privilégio do sujeito humano, definição que, no entanto, não é aceita pela OOO.

11. O capítulo 3 aborda a Ontologia Orientada a Objetos, derivada sobretudo da influência conjunta de Heidegger e Bruno Latour, sem dúvida a vertente do Realismo Especulativo de maior impacto interdisciplinar em todo o mundo, o que constitui uma força evidente e não uma fraqueza.

12. O capítulo 4 trata do Materialismo Especulativo de Meillassoux, pensador lúcido e poderoso, embora até agora pouco prolífico, cobrindo as ideias básicas de Depois da finitude, a obra mais famosa, citada e traduzida do Realismo Especulativo, e trechos de sua estranha e importante tese de doutorado, A inexistência divina.

13. Uma breve conclusão divide os quatro pensadores em subgrupos, sustentando que Meillassoux e a OOO são opostos, assim como Brassier e Grant, enquanto as demais combinações implicam acordo sobre uma das duas questões mais fundamentais do Realismo Especulativo, e ao fim de cada seção há questões de estudo para estudantes e demais leitores.

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