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gusdorf:1967:2.2

2.2 Mito e Logos

GUSDORF, Georges. Les sciences humaines et la pensée occidentale. 14 volumes. Paris: Payot, 1966–1988. Tomo II: Les origines des sciences humaines (1967)

Capítulo II O diálogo do mythos e do logos

1. O século V grego consagra, na história da cultura ocidental, a primeira aplicação sistemática da razão refletida, quando a um gênero de vida justificado apenas pela autoridade da tradição se opõe uma inteligência que examina, confronta e submete fatos e normas ao arbítrio de um pensamento distinto, passagem da consciência mítica à intelectual que, embora esboçada alhures, realizou-se de modo exemplar em Atenas.

2. Desde as origens humanas, a aventura do conhecimento, inseparável da aventura da existência, afirma-se como busca de consolidação do real, reagrupando a diversidade dos seres no espaço e no tempo para facilitar o estabelecimento do homem na terra, substituindo a paisagem bruta por uma imagem do mundo e um estatuto da experiência, de que o discurso dos filósofos e cientistas será a transposição abstrata depurada ao longo de milênios.

3. A consolidação mais rudimentar da experiência supõe o recurso a uma realidade mais que real, portadora de sua própria garantia e cujo reconhecimento comum fornece os primeiros princípios da objetividade, de modo que nas origens pré-históricas a epistemologia da consciência mítica não comporta ciência nem razão no sentido de uma tomada de consciência refletida e formalizada do mundo.

4. O mito define um saber tradicional unitário e difuso, regra de vida e de conhecimento em que predominam as motivações humanas, fundando os comportamentos em condutas exemplares inauguradas pelos deuses, cuja repetição ritual garante a eficácia das empresas em acordo com os ritmos cósmicos, numa natureza que não se opõe ao homem como o não-eu ao eu, mas cujos seres participam de uma existência do mesmo tipo e ligada ao destino humano.

5. A passagem da pré-história à história da cultura realiza-se quando a consciência pré-refletida cede lugar a uma organização refletida do conhecimento, pois os temas míticos impõem-se como indicações tradicionais dispersas cuja síntese é assegurada sem problema pelo gênero de vida, numa unidade que não é questionada porque o pensamento não está individualizado e cada um participa diretamente da unanimidade comunitária.

6. O advento da exigência racional é correlativo de um novo meio de civilização, quando a existência em grande escala dos reinos e impérios exige um remembramento do espaço vital e mental, de modo que a reunião de tribos sob um mesmo soberano requer normas políticas e de inteligibilidade, e simultaneamente surgem a teologia de um Deus cada vez mais universal, as primeiras legislações racionais e as primeiras leis da natureza.

7. Constitui-se então em sua especificidade a ordem do conhecimento, pois o mito é um pensamento encarnado que não pode ser desligado da experiência vivida sem se tornar sombra de si mesmo, ao passo que o saber refletido se afirma segundo a ordem do discurso e tende à explicação sistemática.

8. O caminho do concreto ao abstrato é longo, e as primeiras racionalizações são formas intermediárias que conservam a matéria das representações herdadas, federando as tradições dispersas numa imagem total do universo em que um mesmo ritmo vital rege o céu dos deuses e a terra dos homens, segundo uma cosmobiologia que só perderá sua autoridade com a ciência galileana e constitui a mais antiga e tenaz síntese do saber humano.

9. Esse esquema total do conhecimento corresponde a uma etapa geral do espírito humano, presente no Oriente, no Extremo Oriente e até na América pré-colombiana antes de culminar na cosmologia grega, como biologia universal cujos ciclos englobam estações e existências humanas sob a causalidade soberana dos astros-deuses, cujas trajetórias constituem a primeira figura da ontologia racional, em que o microcosmo humano se acorda ao macrocosmo sideral e a astronomia é inseparável da astrologia.

10. O advento da cultura grega deve ser compreendido a partir das tradições milenares do Egito, da Palestina, da Síria, da Mesopotâmia, da Pérsia e da Índia, que exerceram influências certas através da Ásia Menor e do mundo egeu, de modo que o milagre grego não foi geração espontânea, mas uma mutação do espaço mental operada por poetas, sábios e filósofos da Jônia e de Atenas, que substituíram o fundamento do mito pelo arbítrio da razão.

11. Essa revisão dos valores promoveu a ideia de uma verdade do pensamento, verdade de todo pensamento elevada, segundo Husserl, à dignidade de valor absoluto, suscitando pelo reconhecimento de uma obrigação e responsabilidade comuns uma nova espécie de comunidade e fundando uma supranacionalidade em que se desenha a forma espiritual da Europa.

12. Há um contraste impressionante entre a importância incalculável desse episódio e as condições modestas de sua realização, pois os pais fundadores do pensamento só são conhecidos por fragmentos e anedotas, e mesmo Sócrates permanece enigmático, sabendo-se pouco do que ensinava, enquanto o gênio de Platão e os méritos de Xenofonte exageraram seu relevo e acentuaram sua oposição aos sofistas, que era antes uma rivalidade confraternal dentro de um mesmo conjunto.

13. Sócrates foi perseguido e morreu como membro do grupo dos sofistas, cuja liberdade intelectual desafiava as normas numa época de perigos para a cidade, e seu processo foi um entre outros esquecidos por falta de cronistas tão talentosos, pois a primeira libertação do espírito, a primeira Aufklärung, foi obra conjunta dos mestres sofistas, numa espécie de primeira revolução copernicana em que as representações passam a gravitar em torno da faculdade de julgar própria do homem responsável.

14. A afirmação dos sofistas não constitui uma iniciativa radical, mas prolonga o longo caminho da consciência helênica rumo à autonomia do espírito, já que o mito é um sentido que não sabe dizer seu nome e a passagem do mythos ao logos se faz pela retomada e sistematização das significações adormecidas, como leitura segunda que elucida o mistério sem dissolvê-lo e na qual o pensamento nasce para si mesmo tornando-se senhor de suas orientações profundas.

15. O privilégio da cultura grega está em permitir acompanhar, pelos textos de poetas e filósofos, uma promoção contínua do conhecimento, mais racionalização que advento súbito da razão, pois, segundo Werner Jaeger, não há linha divisória nítida entre pensamento racional e mítico, cuja fronteira passaria pelo meio da epopeia homérica, prolongada sem ruptura pela filosofia jônica da natureza, em que Empédocles pouco difere da Teogonia de Hesíodo.

16. O valor exemplar da cultura helênica deve-se à estreita correspondência entre o pensamento e os gêneros literários e artísticos, pois epopeia, historiografia, teatro, tragédia e eloquência atestam a mesma tomada de consciência formulada abstratamente pelos filósofos, unidade orgânica ausente na Idade Média, e numa consciência mito-poética em que as normas de inteligibilidade aparecem primeiro como divindades, Têmis, Dike, Moira e Nêmesis, antes de se tornarem princípios.

17. Segundo Jaeger, Anaximandro e Sólon discerniam na vida do universo uma norma suprema que só podiam exprimir pela ideia de justiça, a dike que dá sentido e ordem ao mundo e o salva do caos, conceito de ordem e harmonia que assegura uma ligação antropocósmica e reaparece na medicina hipocrática, onde termos jurídicos explicam fenômenos naturais e saúde e doença são equilíbrios ou desequilíbrios regulados por compensações.

18. O intelectualismo grego é o resultado de caminhos pelos quais a consciência imersa nas prenoções míticas se torna consciência da consciência e afirmação da autonomia do juízo, pois, como observa René Schaerer, a revolução socrática transpõe ao plano racional démarches já realizadas no mito com rigor intuitivo, cabendo a Sócrates, ou melhor, aos sofistas, o mérito de levar esse movimento ao limite de sua plena significação.

19. A tradição ocidental nunca perdoou a audácia dos sofistas, cujo nome, que outrora designava homens de sabedoria e razão, ganhou desde Platão sentido pejorativo, perpetuando a querela de Sócrates contra seus confrades, embora o escândalo que provocaram remeta ao escândalo sempre suscitado pela proclamação da verdade, percebida como desafio aos bons costumes e ao pacto social e punida como crime de lesa-majestade pública.

20. A afirmação sofista resume-se na fórmula de Protágoras segundo a qual o homem é a medida de todas as coisas, de que o preceito socrático do conhece-te a ti mesmo extrai a consequência, e, como diz Hegel, a consciência de si é a terra natal da verdade, de modo que todo juízo humano tem jurisdição universal e o dever de questionar as evidências aparentes, residindo a verdade antes na própria busca da verdade que em qualquer dogmatismo.

21. Não se tratou, como observa Wilhelm Nestle, de iniciativa arbitrária de personalidades frívolas, pois a cidade grega sentiu ameaçados seus fundamentos num combate entre antigo e novo, conservadorismo e progresso, prática e teoria, instinto e razão, comunidade e indivíduo, e, dirigindo-se a sofística à juventude, entre gerações, em que Estado, religião e família tiveram de afirmar-se contra a reivindicação da autonomia espiritual e moral do indivíduo.

22. A Aufklärung sofística durou apenas duas gerações e pode considerar-se encerrada com a morte de Sócrates em 399, mas sua repercussão abrange um domínio cultural muito mais vasto, eternizado menos pelos raros fragmentos sofistas que pelas obras de Sófocles, Eurípides, Aristófanes, Heródoto, Tucídides, Xenofonte e Platão, testemunhas da renovação da consciência ilustrada também por Sócrates e Péricles.

23. A época dos sofistas foi o primeiro momento em que se reuniram as condições de possibilidade de um conhecimento positivo do homem pelo homem, como mostra a coincidência entre a investigação de Heródoto e a medicina hipocrática, quando o esquema do Cosmos afrouxou sua pressão transcendente e o ser humano se tornou centro da perspectiva epistemológica, opondo-se às filosofias da natureza uma reflexão sobre a cultura, já que a ordem humana depende não da physis, mas do nomos variável de cidade para cidade.

24. A maioria dos sofistas veio de fora de Atenas, como Anaxágoras de Clazômenas, fundador da filosofia ateniense, que buscou explicações físicas e mecanicistas dos fenômenos astronômicos e biológicos numa dessacralização do real análoga à de Gassendi ou Bayle, amigo de Péricles e mestre de Eurípides, aparentado aos sofistas pelo heroísmo intelectual, que apontava o céu como pátria, foi banido de Atenas antes de Sócrates e mostrou indiferença pelo lugar de sua sepultura, já que o caminho do Hades é o mesmo em toda parte.

25. Anaxágoras prefigura o tipo do sofista, homem de toda parte por ser de lugar nenhum, que recusa o enraizamento nos estreitos limites intelectuais, morais e territoriais da cidade tradicional em nome de uma sabedoria ávida de universalidade, como o Hípias de Élis do Hípias menor de Platão, que se dizia competente em cálculo, geometria, astronomia, poesia e todos os ofícios, tendo fabricado ele próprio tudo o que vestia, e criador de uma técnica mnemônica e de uma pedagogia.

26. Esse retrato, justamente por ser caricatura, revela a pretensão a um humanismo total que antecipa Pico della Mirandola e as fomes epistemológicas dos gigantes de Rabelais, pois os sofistas são homens de universalidade aos quais nada de humano é alheio, e seu relativismo é o reverso de seu universalismo, já que a realidade humana só se conhece pelo estudo do presente e do passado, do aqui e do alhures, cujo contraste desfaz o sono dogmático da cidade tradicional.

27. Torna-se então possível, pela primeira vez, uma investigação racional e sistemática do fenômeno humano livre de pressupostos míticos ou religiosos, revelando uma natureza humana mais acessível que a física e infinitamente variada segundo tempos e lugares, conforme a fórmula de Merleau-Ponty de que o homem tem por natureza não ter natureza, de onde nascem a história, a geografia, a etnologia e uma medicina hipocrática que rompe com as magias milenares.

28. Embora os primeiros monumentos da nova ciência do homem não sejam obra dos próprios sofistas, foi seu espírito que os inspirou, e se Heródoto e Hipócrates não levaram suas disciplinas à perfeição, mantiveram o sentido de uma exigência, enquanto os sofistas, segundo Marrou, foram menos pensadores ou buscadores da verdade que pedagogos cujo ofício era educar os homens, primeiros professores de ensino superior numa Grécia que só conhecera treinadores, mestres de ofício e humildes mestres-escola.

29. A afirmação dessa vocação professoral é um sinal dos tempos, pois o desenvolvimento do conhecimento nasce de uma conversão do espírito e a reforma do saber deve ser primeiro reforma do entendimento, de modo que os sofistas, ao professarem a pedagogia, começaram pelo começo, iniciativa que bastaria para lhes garantir lugar de honra na história da cultura.

30. A arte pedagógica visa à formação do homem e do cidadão, ou mais exatamente do homem político, cujo manejo dos homens supõe domínio intelectual do domínio humano, e a ideia sofista de paideia designa uma educação liberal voltada à edificação da personalidade adulta, na qual o domínio de si passa pela comunicação com outrem, que, sem imprensa nem difusão de massa, mobiliza sobretudo as disciplinas oratórias.

31. A nova educação apoia-se na correção gramatical e no rigor dialético e culmina na retórica, arte do discurso que confere excelência ao político e ao advogado numa Atenas onde, segundo Fénelon, tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra, e os sofistas definiram o ideal do vir bonus dicendi peritus que se impôs a toda a cultura antiga, inclusive à apologética cristã e a Santo Agostinho, como coroamento da formação literária.

32. Essa arte formal, ligada ao equilíbrio da personalidade, aplica-se a um conteúdo concebido pela primeira vez como programa sistemático do saber, em que as disciplinas pitagóricas de dignidade transcendente, aritmética, geometria, música e astronomia, completam a formação oratória baseada em gramática, dialética e retórica, fazendo dos sofistas organizadores do primeiro e talvez único programa completo de educação definido pelo Ocidente.

33. Esse programa, mantido pelas gerações de retores e professores antigos, recebeu o nome de enkuklios paideia, educação circular por ser o círculo forma acabada e perfeita, que Quintiliano traduzirá por orbis doctrinae, unidade harmoniosa das disciplinas sem relação com a totalidade aditiva das enciclopédias, saber que é ao mesmo tempo forma e fundo, cultura geral e edificação da personalidade em busca do domínio intelectual e moral próprio de uma educação liberal.

34. A existência na França, até o limiar do século XX, de classes de retórica e de gramática atestava a vitalidade do ideal pedagógico sofista, cujos vestígios desapareceram por incompatíveis com a era industrial, sem que se tenha encontrado fórmula substituta, de modo que a anarquia cultural contemporânea realça a sabedoria educativa dos mestres sofistas.

35. O programa pedagógico dos sofistas, sua maior contribuição à cultura ocidental, resume e realiza seu humanismo militante, e deles se pode dizer o que se disse de Sócrates, que trouxeram o pensamento do céu dos deuses para a terra dos homens, sendo sua conversão radical das significações o ponto de origem de todos os estudos futuros sobre o fenômeno humano.

36. A tradição do conhecimento do homem pelo homem fundada pelos sofistas foi logo interrompida, pois o logos nunca suplantou o mythos, cuja resistência se traduziu nos processos de impiedade contra Aspásia, Anaxágoras, Protágoras, Sócrates e depois Aristóteles e Teofrasto, e o processo de Sócrates, eclipsando os demais, falseou a perspectiva histórica ao fazer do sofista perseguido o adversário de seus confrades, que, vencidos duas vezes em sua pessoa, viram-no triunfar em apelo diante da consciência universal sem eles e contra eles.

37. A Aufklärung sofística foi apenas um intermédio na longa cultura antiga, e seu intelectualismo radical, que buscava limpar o campo epistemológico de significações transcendentes em favor de um empirismo organizador, não se impôs, pois a filosofia clássica grega constituiu-se sob o gênio de Platão, que restaurou a transcendência no céu das Ideias e recorreu ao mito, enquanto Aristóteles, embora prolongasse o empirismo sofista como biólogo, sociólogo e crítico, impôs-se sobretudo como metafísico, eclipsando o naturalista genial que só teria iguais em Lineu e Darwin.

38. A pensamento helênico em seu mais alto cumprimento voltou-se à especulação ontológica, e se esta conservou em Platão e Aristóteles caráter racional, logo se assistiu ao declínio da racionalidade num retorno do recalcado em que, a partir do século III a.C., forças irracionais se espalharam pelo mundo greco-romano, o espírito de investigação foi ameaçado pelo ceticismo e pelo dogmatismo e o saber passou a depender de revelação, coração puro, fé cega e imaginação delirante.

39. A ascensão dos perigos místicos liga-se ao remembramento das significações operado por Alexandre, que aboliu o mundo estreito das cidades e abriu o Oriente à mistura de homens e espiritualidades, obrigando pensamento e cultura a mudarem de escala e gerando uma insegurança espiritual que, pela desproporção entre o novo espaço mental e os recursos da inteligência, impôs o recurso à vontade e ao irracional, enquanto a exigência de universalismo introduzida por Alexandre só lentamente prevaleceria, mesmo sob Roma, cujo quadro espiritual permaneceu o do helenismo alexandrino.

40. Festugière vê nessa degenerescência da cultura antiga uma demissão do espírito em que o antigo racionalismo grego, que libertara a ciência do mito e do apocalipse, cedeu lugar à desconfiança da razão e à confiança em meios de conhecimento estranhos a ela, fenômeno cuja chave não está nas próprias disciplinas, pois o hermetismo se insere numa grande corrente espiritual, talvez o fato mais considerável da história humana nos primeiros séculos da era cristã.

41. Para Festugière, haveria uma diminuição de vida no helenismo, como num corpo ferido que perdeu muito sangue, justificando um declínio ininterrupto do potencial cultural até os séculos obscuros, pois o racionalismo grego teria devorado a si mesmo, já que a dialética, sem o freio da observação do concreto, serviu para arruinar o edifício que construíra, terminando a aventura do pensamento grego no espetáculo melancólico de uma logomaquia.

42. A extraordinária riqueza do breve período ateniense pode fazer parecer perdido para a cultura o restante da história antiga, mas o juízo de Festugière parece excessivamente severo, talvez por privilegiar a experiência religiosa em função do advento do cristianismo, aspecto que não recobre toda a vida intelectual, e não se pode sustentar que o patrimônio cultural não se tenha enriquecido entre as mortes de Alexandre e Aristóteles e a de Santo Agostinho em 430.

43. No domínio do pensamento puro, o período assiste à afirmação de sabedorias de ambição universal destinadas a atravessar milênios, como o estoicismo, cuja concepção da natureza e do homem se tornou instrumento epistemológico na lógica, na física e sobretudo nas ciências humanas, o epicurismo, solidário do atomismo decisivo para a física científica e cujo renascimento acompanha a ciência moderna, e o neoplatonismo, também fundador de uma tradição de futuro.

44. A imagem do corpo ferido que perdeu sangue é enganosa ao evocar perda de substância, pois, dada a prodigiosa expansão geográfica, as responsabilidades do espírito eram muito mais pesadas nas monarquias helenísticas e no Império Romano que no restrito raio ateniense, de modo que o aparente enfraquecimento pode ser visto como expansão meritória da civilização alexandrina.

45. Houve um deslocamento do centro de gravidade da cultura da democrática Atenas para a monárquica Alexandria, acompanhado de mudança de espírito, pois, em vez de mestres solitários e sem recursos rodeados de poucos discípulos, as monarquias de Alexandria e Pérgamo organizaram a ciência como serviço subvencionado, centralizando pela primeira vez o conhecimento em instituições permanentes como o Museu de Alexandria, universidade, biblioteca imensa e conjunto de pórticos, jardins, estação botânica, zoológico e teatro anatômico, utopia da cultura realizada quase dois mil anos antes da Nova Atlântida de Francis Bacon.

46. Alexandria permaneceu capital da cultura por pelo menos sete séculos, numa era de eruditos, professores, bibliotecários, escoliastas, críticos e lexicógrafos que sucedeu à dos inventores solitários, mas que merece lugar de honra na história do saber, com os Elementos de Euclides, que dominam a geometria, o Almagesto de Ptolomeu, autoridade astronômica até os tempos modernos, e a obra de Galeno, que inspirou a medicina até o renascimento hipocrático e Vesálio.

47. Ao rol dos cientistas alexandrinos somam-se Estrabão, autor da mais completa geografia antiga, e os criadores dos estudos literários, com Aristarco, bibliotecário-chefe, e o batalhão de fundadores da gramática, da filologia, da prosódia e do comentário dos textos canônicos do Ocidente, além da versão grega do Antigo Testamento dita dos Setenta, de modo que no Museu se organiza pela primeira vez o labor da erudição e a cultura se define como museu imaginário das obras consagradas comentadas pelos mestres.

48. Esse aspecto filológico da obra alexandrina é subestimado por quem vê pedantismo nos gramáticos e escoliastas e não reconhece na hermenêutica uma forma privilegiada do conhecimento do homem pelo homem, impondo-se uma revisão que dê à filologia seu lugar de honra entre as ciências humanas, já que o meio alexandrino é o berço do ideal clássico de devoção aos textos canônicos e, como trabalho de escola segundo um ritual comunitário, a origem da escolástica ocidental.

49. Essas aquisições científicas e literárias completam-se com a contribuição mecânica e técnica de Arquimedes, também estudante em Alexandria, continuada por Herão de Alexandria, nomes associados a uma vasta expansão da engenharia civil e militar correlativa do desenvolvimento econômico e urbano, enquanto literatura, poesia, romance e belas-artes participam do refinamento geral do quadro de vida.

50. A civilização helenística não merece o juízo desdenhoso de que é objeto, pois, como sublinha Charles Picard, poucas épocas formam um conjunto tão importante e homogêneo de religião e arte, testemunha de um tempo de provações que preparou a transição entre o antigo e o moderno, com o nome de Alexandre ecoando das colunas de Hércules ao Extremo Oriente e com ideias-forças renovadas no urbanismo, na arquitetura e nas artes e influências científicas decisivas e duradouras.

51. Trata-se de reparar um erro judiciário da história da cultura, pois, segundo Picard, é um engano falar de decadência a propósito de um dos períodos mais abertos da Antiguidade mediterrânea, quando se reconstituiu em torno do Mare Nostrum uma grande civilização de poesia, religião e ciência a que Roma soube associar-se e sem a qual não se explicaria, desmentindo a ilusão de que o espírito ocidental, nascido na Atenas de Péricles, teria adormecido após Aristóteles como Barba-Ruiva em sua montanha mágica.

52. A concepção da história da cultura é dominada por um dogmatismo estético de que os alexandrinos, seus inventores, são paradoxalmente vítimas, pois o classicismo atribui valor exemplar a certos períodos e obras como se o tempo da arte e do pensamento repousasse sobre seus louros, subordinando a apreciação da cultura a preferências formais e à literatura, de modo que Platão e Tucídides relegam à penumbra Epicuro, Políbio, Arquimedes, Euclides ou Estrabão, tidos por decadentes apesar de suas obras imperecíveis.

53. O diálogo do mythos e do logos não segue uma evolução linear em que o logos sucederia ao mythos para logo se extinguir diante de seu retorno, pois a razão é uma conquista sempre ameaçada, um equilíbrio a reafirmar sob pena de definhar, que nunca elimina as resistências e antes se apoia nelas, sendo a transparência racional total uma miragem, ao passo que o aparecimento do logos consagra uma palavra dada da humanidade a si mesma que não pode ser esquecida, e a recorrência do mythos liga-se à própria natureza do espírito humano.

54. No imenso espaço-tempo da cultura antiga, mythos e logos implicam-se mutuamente segundo ritmos de alternância ou predomínio variáveis com as situações espirituais e as personalidades criadoras, e Euclides, Arquimedes, Estrabão e Ptolomeu testemunham a razão mesmo quando ela parece refluir, enquanto o ideal da paideia enciclopédica nunca se perde, reencarnando-se no aggiornamento cristão dos Padres da Igreja, mediadores da translatio studii medieval, e perpetuando-se em Bizâncio até o século XV antes de ser acolhido no Ocidente.

55. À leitura descontínua da história do saber pode-se opor uma leitura contínua, pois, apesar de crises e contradições, a cultura mantém-se como cenário vivo da consciência ocidental fiel a suas exigências primeiras, e a discordância dos tempos não exclui concordâncias, como a aliança, no prólogo do Evangelho de João, entre o mythos cristão nascente e o logos platônico.

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