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grassi:1970:2.1.1

2.1.1 Animal e humano

GRASSI, Ernesto. Macht des Bildes: Ohnmacht der rationalen Sprache. Zur Rettung des Rhetorischen. Colônia: DuMont Schauberg, 1970 (Versão ampliada e canônica em língua italiana: Potenza dell'immagine: Rivalutazione della retorica, Bolonha: Il Mulino, 1989). / Poder da Imagem. Impotência da Palavra Racional. Em Defesa da Retórica. São Paulo: Duas Cidades, 1978

II Suficiência e Insuficiência da Linguagem

I. Autorrealização humana e “logos”

1. Comportamento esquemático dos animais e “abertura para o mundo” do homem

1. A arte, conforme as experiências de Poe, Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Proust e Eliot, busca romper o mundo dos fenômenos naturais e cotidianos para revelar o originário que existe além dele, constituindo uma forma especial pela qual o homem encontra e constrói a ordem humana das coisas.

2. O primeiro problema consiste em determinar qual estrutura distingue a posição aberta do homem da posição do animal, de modo a tornar possível o surgimento de um fenômeno como a arte.

3. O segundo grupo de questões nasce do fato de que as manifestações sensoriais usadas pela arte despertam as paixões, enquanto as discussões puramente racionais não as suscitam, o que exige esclarecer em que bases prevalece no homem a paixão ou a razão.

4. A relação entre o impacto emocional das imagens sensoriais e o logos coloca a questão de saber se esses domínios devem permanecer separados, pois nesse caso a arte ficaria reduzida a uma função pedagógica e retórica, como no realismo socialista, ou a um formalismo puramente estético, e a ciência nada teria a ver com a fantasia.

5. A condição específica do homem deve ser confrontada com a dos animais por meio do exemplo do fenômeno da formação humana.

6. O animal nasce em um ambiente já dotado de portadores de significados que determinam seu comportamento e por isso não conhece processo de formação, ao passo que o homem, aberto ao mundo e desprovido de mundo próprio, precisa formar o seu mundo.

7. Segundo as investigações experimentais de Jakob von Uexküll, fundador da moderna ciência do comportamento e do ambiente, para o animal não existem objetos físicos enquanto tais, mas apenas portadores de significados vitais conferidos pela relação com um sujeito.

8. Como os sentidos de cada ser vivo reagem apenas a estímulos específicos convertidos em sinais, todo organismo possui um ambiente próprio, formado pela união de seu mundo de sinais e de seu mundo de ação, distinto do mundo exterior existente, de modo que a vida pode ser definida como a posse de um mundo próprio.

9. O carrapato, que não ouve, não vê nem sente gosto, reage apenas ao cheiro do ácido láctico e à temperatura de 37 °C, caindo e picando qualquer objeto que apresente esses dois sinais, seja ele nutritivo ou não.

10. O conceito de ambiente, hoje integrado ao vocabulário biológico e base da psicologia do comportamento que estuda os mecanismos inatos de liberação, designa a porção do mundo externo composta apenas pelos objetos aos quais o organismo reage infalivelmente segundo seu padrão inato, porção tanto mais pobre quanto mais distante do homem estiver a espécie na evolução.

11. A pesquisa sobre o comportamento constitui uma ciência rigorosa na medida em que estabelece experimentalmente os padrões básicos, buscando os limites máximos a que os estímulos liberadores podem ser reduzidos sem perder significado, e esses padrões abrangem não só fenômenos visíveis, mas também som, cheiro e tato.

12. Tanto as explicações mecânico-causais quanto as teorias comuns sobre o misterioso instinto animal tornam-se insustentáveis diante da demonstração de Lorenz de que animais de uma espécie reagem a sinais nunca vistos com sequências inatas de movimentos, como na fuga de gansos cinzentos e pardais diante da silhueta de uma ave de rapina.

13. Lorenz, von Holst e Tinbergen libertaram o conceito de instinto animal das vagas pretensões de uma psicologia animal, revelando experimentalmente os padrões inatos de comportamento e impondo uma separação rigorosa entre a investigação das formas objetivamente observáveis de comportamento e a especulação psicológica.

14. Já em 1909 Uexküll advertia contra o adorno do mundo interior animal com qualidades psíquicas indemonstráveis, e ao reconhecer que o animal nasce num ambiente fixo, interpretado de antemão pela espécie e possuído como mundo próprio, ele fundou a ciência do comportamento e produziu na biologia uma revolução semelhante à que o existencialismo trouxe depois à filosofia.

15. Zoologia, ciência do comportamento, antropologia e etnologia convergem na conclusão de que o homem precisa construir ele mesmo seu ambiente, desenvolvendo a faculdade de interpretar o mundo e tornando objetos de conhecimento os conceitos e ideias que orientam suas ações, processo que constitui o devir e a autoconstrução de seu ser.

16. A designação nietzschiana do homem como animal não fixado aponta sua tendência ao caos e à degeneração, possibilidade especificamente humana que os mitos antigos figuravam nos deuses que arrancavam a ordem do mundo ao caos.

17. A moderna antropologia e a etnologia sustentam que os homens, diferentemente dos animais, não possuem padrões estabelecidos para reconhecer seu ambiente, devendo buscar e construir sua forma, já que somente o mundo exterior interpretado alcança o significado de ambiente humano.

18. Enquanto o animal se ajusta ao desenrolar de círculos funcionais definidos, cada qual com lugar e tempo próprios, o comportamento humano mostra-se aberto, o que convém expor primeiramente por meio dos resultados das investigações morfológicas e não de modo filosófico e abstrato.

19. Pela distinção morfológica entre animais que permanecem no ninho e animais que o abandonam, o homem recém-nascido deveria pertencer ao segundo grupo, mas seu desamparo e sua incapacidade de locomoção e orientação o situam no primeiro, tornando-o zoologicamente uma contradição.

20. Esse duplo aspecto revela que o homem não nasce num ambiente, mas deve, por meio de seus sentidos abertos e em relação mútua com o mundo externo, inicialmente representado pela mãe, formar a si mesmo e a seu ambiente, sendo o recém-nascido um caso normalizado de nascimento prematuro cujo primeiro ano equivale a um ano embrionário fora do útero, dedicado ao aprendizado da percepção e do movimento.

21. Para Gehlen, o homem, apesar de sua carência de recursos físicos, espalha-se pelo mundo e subjuga a natureza não por adaptação a um ambiente natural prévio, mas como entidade cultural que, por meio de uma atividade previdente, planejada e coletiva, transforma ativamente quaisquer condições naturais em esfera cultural capaz de sustentar sua existência.

22. A relação essencial entre abertura para o mundo e cultura mostra que o estado original do homem não é um hipotético estado natural regido pela certeza dos instintos, como pretendem as teorias românticas, mas a atividade institucionalizante de conter o caos que o ameaça fundamentalmente.

23. As pesquisas etnológicas de Malinowski e Ruth Benedict, desenvolvidas por Schelsky no campo da sexualidade, demonstram que a cultura não é biologicamente condicionada e admite formas inteiramente diversas sobre uma base biológica comum, de modo que a separação entre prazer e instinto sexual, embora ameace o homem como entidade biológica, abre-lhe a chance cultural de dispor conscientemente de seus impulsos, fazendo da modelagem cotidiana dos impulsos, sobretudo sexuais, a estrutura mais ampla e antiga de formação de um mundo humano.

24. O significado cultural da sexualidade humana só pode ser avaliado ao se abandonar a ilusão de que as manifestações instintivas do homem são simplesmente naturais, pois investigações sobre povos primitivos mostram que a divisão de tarefas entre os sexos tida no Ocidente como determinada pela natureza é apenas uma entre muitas possíveis, como nas culturas em que a lavoura cabe à mulher por ser ela a geradora, evidenciando que aquilo que se chama natural é sempre resultado do que o homem fez ou foi compelido a fazer da natureza.

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