User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
girard:1985:1

1 Jó

GIRARD, René. La route antique des hommes pervers. Paris: Grasset, 1985.

I O caso de Jó

1 Jó vítima de seu povo

1. Do Livro de Jó julga-se saber pouca coisa, a saber, que o herói se lamenta interminavelmente por ter perdido os filhos e todo o gado e por coçar suas úlceras, males devidamente enumerados no prólogo como maldades que Satanás acaba de lhe infligir com a permissão de Deus.

2. Esse saber é ilusório, pois em nenhum momento dos Diálogos Jó menciona Satanás ou qualquer de seus malefícios, o que não se explica simplesmente por estarem presentes demais em seu espírito para exigir alusão.

3. Jó alude, e muito mais do que alude, a coisa inteiramente diversa, insistindo pesadamente numa causa de sua desgraça que não é nenhuma das mencionadas no prólogo, nem divina, nem satânica, nem material, mas humana, somente humana.

4. Ao longo dos séculos, os comentadores, antigos ou modernos, ateus, protestantes, católicos ou judeus, jamais levaram em conta essa causa e a silenciam sistematicamente, como se não a vissem, sem nunca se interrogar sobre o objeto das queixas de Jó, questão que julgam resolvida de uma vez por todas pelo prólogo, atendo-se religiosamente às úlceras e ao gado perdido.

5. Os exegetas, porém, há muito advertem seus leitores contra o prólogo, cuja historieta não estaria à altura dos Diálogos e não deveria ser levada a sério, mas jamais seguem o próprio conselho, pois nada ouvem nos Diálogos do que contradiz manifestamente o prólogo.

6. A novidade proposta não está escondida num recanto obscuro do Livro de Jó, mas é muito explícita e se espalha por numerosas e copiosas passagens nada equívocas.

7. Jó diz claramente do que sofre, de ver-se ostracizado e perseguido pelos que o cercam sem ter feito nada de mal, tornando-se o bode expiatório de sua comunidade, como mostra sua queixa de que os irmãos o mantêm à distância, as relações o evitam, os próximos e familiares desapareceram, os hóspedes o esqueceram, as servas o tratam como estranho, o servo não lhe responde e deve ser suplicado, seu hálito repugna à mulher, os irmãos o acham fétido, até os moleques o desprezam e zombam dele, e todos os íntimos e preferidos o têm em horror e se voltaram contra ele.

8. Jó lembra o bode trágico até no odor fétido que a mulher lhe censura, odor que reaparece de modo significativo em numerosos mitos primitivos.

9. A alusão ao bode real não deve suscitar mal-entendidos, pois bode expiatório não designa aqui o animal do rito do Levítico, mas o sentido em que todos empregam a expressão sem pensar nas circunstâncias políticas, profissionais e familiares, uso moderno ausente do Livro de Jó, onde porém figura o fenômeno, de forma mais selvagem, o do inocente que polariza sobre si o ódio universal, exatamente aquilo de que Jó se queixa ao descrever a malevolência que o leva ao limite, o bando que o assedia, que se ergue contra ele como testemunha de acusação e o calunia, cuja fúria o dilacera com dentes rangentes, cujos adversários afiam o olhar sobre ele e cujos ultrajes o atingem como bofetadas, amotinando-se juntos contra ele.

10. Entre as numerosas passagens reveladoras, a mais impressionante faz intervir um subgrupo que desempenha na sociedade de Jó o papel de bode expiatório permanente, pois Jó se torna motivo de riso de gente mais jovem cujos pais ele julgava vis demais para misturar aos cães de seu rebanho, banidos da sociedade dos homens, vaiados como ladrões, alojados nos flancos das ravinas, prole vil de seres sem nome rejeitados pelo país, que agora o ridicularizam em canções, fazem dele sua fábula, mantêm-se à distância com horror, cospem diante dele sem pudor e, porque Deus o abateu, soltam o freio da boca e lhe atiram pedras.

11. Os historiadores não sabem se se trata de uma minoria racial ou religiosa ou de uma espécie de subproletariado submetido ao regime das castas mais baixas da Índia, mas isso pouco importa, pois esses homens não interessam ao autor por si mesmos e servem apenas para que Jó se situe em relação a eles e se defina como bode expiatório desses bodes expiatórios, perseguido pelos que menos podem dar-se ao luxo da perseguição, vítima de todos sem exceção, bode dos bodes e vítima das vítimas.

12. Quanto mais Jó se obstina em silenciar sobre o gado perdido e os outros motivos confessáveis de queixa amavelmente postos à sua disposição pelo prólogo, mais se empenha em apresentar-se como vítima inocente dos que o cercam.

13. Jó queixa-se de males físicos, mas essa queixa particular liga-se sem dificuldade ao motivo fundamental de seu lamento, pois ele é vítima de brutalidades inumeráveis e de uma pressão psicológica insuportável.

14. A objeção de que a vida de Jó não está ameaçada e de que ele é protegido pelos amigos é inteiramente falsa, pois Jó pensa que se atenta contra sua vida, talvez sobretudo contra ela, e espera morrer em breve, não da doença que os médicos se gabam de diagnosticar, mas de morte violenta, imaginando a efusão de seu próprio sangue ao clamar que a terra não cubra seu sangue e que nada detenha seu grito.

15. Segundo a nota explicativa da Bíblia de Jerusalém, o sangue clama vingança a Deus enquanto não é coberto pelo pó do solo, e Jó, ferido de morte, quer que subsista um apelo permanente à vingança de sua causa, seu sangue sobre a terra e junto de Deus e o grito de sua prece.

16. A tradução e a nota estão em conformidade com as outras grandes traduções, mas a linguagem da nota permanece ambígua quanto a quem fere Jó de morte, que poderia ser Deus antes que os homens, embora o sangue da vítima certamente não clame vingança contra Deus, mas junto a Deus, como o sangue de Abel, primeira grande vítima exumada pela Bíblia, quando Javé diz a Caim que ouve o sangue de seu irmão clamar do solo.

17. Resta saber contra quem o sangue derramado clama vingança e quem poderia procurar abafar o grito de Jó e apagar suas palavras para impedi-las de chegar a Deus, questões elementares estranhamente jamais colocadas.

18. Jó volta incansavelmente ao papel da comunidade no que lhe acontece, mas não consegue fazer-se ouvir pelos comentadores fora do livro mais do que por seus interlocutores dentro dele, pois ninguém leva em conta o que ele diz.

19. A revelação do bode expiatório existe tão pouco para a posteridade quanto para os amigos, pois, embora se pretenda muito atento ao que diz Jó e se lamente que não seja compreendido, a preocupação de responsabilizar Deus por todas as desgraças humanas, sobretudo entre os que não creem nele, leva ao mesmo resultado, com apenas um pouco mais de hipocrisia que os amigos, já que para todos os que fingem ouvir Jó sem ouvi-lo suas palavras são vento, com a única diferença de que hoje não se ousa proclamar essa indiferença, ao passo que os amigos ainda ousam, perguntando-lhe se cessará de falar assim e de proferir palavras semelhantes a um grande vento.

20. O papel de vítima que Jó se atribui é necessariamente significativo num conjunto de textos, a Bíblia, que sempre e em toda parte põe as vítimas em primeiro plano, e é numa perspectiva comum, a da vítima cercada de numerosos inimigos, que se deve buscar a razão da semelhança surpreendente entre os discursos de Jó e os Salmos ditos penitenciais.

21. Sobre esses salmos trágicos, cuja forma extremamente condensada oferece a situação de que Jó se queixa, a de uma vítima inocente que fala quase sempre na iminência do linchamento, Raymund Schwager reconheceu com acerto que um bode expiatório no sentido moderno descreve as sevícias que sofre, com uma única diferença de grande consequência, a de que nos Salmos só a vítima fala, ao passo que nos Diálogos de Jó outras vozes se fazem ouvir.

22. Reunir as passagens que melhor revelam Jó como bode expiatório é reunir os textos mais análogos a esses Salmos, a ponto de serem intercambiáveis, e pôr enfim em relevo a vítima expiatória, formidável denominador comum de muitos textos bíblicos misteriosamente negligenciado por todos, objeto de uma expulsão intelectual que se deve situar no prolongamento da antiga violência física.

23. Para limpar o espírito da influência nefasta do prólogo e compreender enfim do que se trata em Jó, é excelente exercício reler alguns Salmos, como o 31, em que a vítima se diz escândalo para seus opressores, objeto de nojo para os vizinhos e de pavor para os amigos, evitada na rua, esquecida como um morto e um objeto de refugo, cercada de calúnias e terror por todos os lados, enquanto os outros se agrupam contra ela tramando tirar-lhe a vida.

2 Jó ídolo de seu povo

1. Nenhuma resposta direta é dada à questão de por que Jó se tornou a besta negra de sua comunidade, e talvez seja melhor assim, pois se o autor sugerisse com demasiada nitidez um elemento preciso, um incidente ou uma origem qualquer, julgar-se-ia saber e cessaria a interrogação, quando na realidade se saberia menos do que nunca.

2. Os Diálogos não guardam silêncio absoluto e estão cheios de informações, mas é preciso saber onde procurá-las, e sobre a escolha de Jó como bode expiatório os amigos nada dizem de interessante, pois querem torná-lo responsável pelas sevícias que sofre, sugerindo que sua avareza o perdeu ou que foi duro com o povo e abusou de seu poder para explorar fracos e pobres.

3. Jó passa por virtuoso, mas, como Édipo, poderia ter cometido um crime invisível, ou, se não ele, seu filho ou outro membro da família, já que um homem condenado pela voz pública não poderia ser inocente, mas Jó se defende com vigor e nenhuma acusação é finalmente mantida, perdendo-se as acusações na areia.

4. A censura de certos comentadores à resposta vigorosa demais de Jó, que careceria de humildade e justificaria o escândalo dos amigos, desconhece totalmente a natureza do debate, pois a indignação de Jó só se compreende em seu contexto próprio, definido por ele mesmo.

5. Jó não diz que jamais pecou, mas que nada fez para merecer sua desgraça extrema, pois ontem ainda era tido por infalível e tratado como santo e hoje todos o acabrunham, de modo que não foi ele que mudou, mas os homens ao seu redor, e o Jó que todos execram não pode diferir muito daquele que todos veneravam.

6. O Jó dos Diálogos não é o do prólogo, um enriquecido vulgar que perdeu todo o dinheiro e, passando do esplendor à miséria, decide meditar com os amigos sobre os atributos de Deus e a metafísica do mal, mas um grande chefe primeiro altamente estimado e depois bruscamente desprezado pela opinião pública, como mostra sua lembrança dos meses de outrora, quando, ao sentar-se na praça junto à porta da cidade, os jovens se retiravam, os velhos ficavam de pé, os notáveis e os chefes calavam-se, todos esperavam em silêncio seu parecer e recebiam suas palavras como a chuva tardia, mal ousando crer em seu sorriso, enquanto ele lhes traçava com autoridade o caminho como um rei entre suas tropas.

7. Antes de tornar-se bode expiatório, Jó viveu um período de popularidade tão prodigiosa que beirava a idolatria, o que mostra a total impertinência do prólogo, pois se Jó tivesse realmente perdido o gado e os filhos essa evocação do passado seria a ocasião por excelência de mencionar a perda, da qual, contudo, não se fala.

8. O contraste entre presente e passado não é o da riqueza à pobreza ou da saúde à doença, mas o do favor ao desfavor de um mesmo público, de modo que os Diálogos tratam não de um drama puramente pessoal, mas do comportamento de todo o povo em relação a uma espécie de homem de Estado cuja carreira se rompeu.

9. As acusações dirigidas a Jó, por duvidosas que sejam, são reveladoras, pois são sobretudo abusos de poder que se censuram ao potentado decaído, impossíveis num simples proprietário de terras, por rico que fosse, fazendo pensar no tirano das cidades gregas, como quando Elifaz lhe pergunta se Shaddai se voltou contra ele por sua piedade ou antes por sua malícia e iniquidades sem fim, por ter exigido penhores injustos dos irmãos, despojado os nus, negado água ao sedento e pão ao faminto, reduzido a nada a terra do pobre para instalar seu favorito, despedido as viúvas de mãos vazias e esmagado os braços dos órfãos.

10. O leitor moderno adota de bom grado a visão do prólogo por lembrar seu mundo, ou a ideia que dele faz, em que a felicidade consiste em possuir o máximo de coisas sem jamais adoecer, num frenesi eterno de gozo consumista, ao passo que nos Diálogos só contam as relações entre Jó e a comunidade.

11. Jó apresenta seu período triunfal como o outono de sua vida, estação imediatamente anterior ao inverno glacial da perseguição, o que sugere que a desgraça é recente e súbita, tendo o extremo entusiasmo por Jó se convertido de uma só vez em extremo desgosto, sem que até o último momento ele suspeitasse da reviravolta, ao recordar que seu elogio ressoava em todos os ouvidos por libertar o pobre e o órfão e que julgava morrer em sua glória, após dias numerosos como a palmeira, com as raízes junto à água, o prestígio sempre fresco e o arco retomando força em sua mão.

12. O mistério de Jó apresenta-se num contexto que não o explica, mas permite situá-lo melhor, pois o bode expiatório é um ídolo despedaçado, e a ascensão e a queda estão ligadas, extremos que se tocam e não podem ser interpretados separadamente, embora não se possa fazer do primeiro a causa do segundo, deixando pressentir um fenômeno social mal definido, mas bem real, de desenrolar não certo, mas provável.

13. O único ponto comum entre os dois períodos é a unanimidade da comunidade, primeiro na adoração, depois na detestação, sendo Jó vítima da reviravolta maciça e súbita de uma opinião pública visivelmente instável, caprichosa e alheia a toda moderação, tão pouco responsável por essa mudança da multidão quanto Jesus por uma mudança muito análoga entre o domingo de Ramos e a sexta-feira da Paixão.

14. Para que haja essa unanimidade nos dois sentidos é preciso que atue a cada vez um mimetismo de multidão, no qual os membros da comunidade se influenciam reciprocamente e se imitam uns aos outros na adulação fanática e depois na hostilidade ainda mais fanática.

3 O caminho antigo dos homens perversos

1. No último de seus três discursos, Elifaz de Temã alude claramente à existência de predecessores de Jó na dupla carreira de arrivistas todo-poderosos e de bodes expiatórios, ao perguntar-lhe se quer seguir o caminho antigo trilhado pelos homens perversos, arrebatados antes do tempo e com os alicerces afogados por um rio, que diziam a Deus que se afastasse, enquanto ele enchia de bens suas casas, e cuja queda alegra os justos e faz o homem íntegro zombar de sua grandeza reduzida a nada e de sua abundância devorada pelo fogo.

2. O caminho antigo dos homens perversos começa pela grandeza, pela riqueza e pelo poder, mas termina num desastre fulminante, exatamente as mesmas duas fases descobertas na aventura de Jó, o mesmo roteiro.

3. Jó poderia um dia figurar na lista desses anônimos de quem só se fala a meias palavras, por terem o nome apagado, sendo um desses homens cuja carreira ameaça terminar muito mal por ter começado bem demais.

4. Elifaz opõe e, por isso mesmo, aproxima as duas fases, vendo que formam um todo e não podem ser interpretadas separadamente, já que algo na ascensão desses homens prepara sua queda, de modo que toda a intuição sobre o caso de Jó se reencontra em suas palavras, tendo Jó já percorrido boa parte do caminho antigo dos homens perversos e estando no início da última etapa.

5. Os acontecimentos evocados por Elifaz parecem distantes e excepcionais, mas não a ponto de impedir o observador de reuni-los e reconhecer neles um fenômeno recorrente, uma via traçada por muitos homens antes de Jó, cuja vez chegou, sendo todos esses destinos trágicos marcados pelo perfil característico do ídolo despedaçado e necessariamente determinados pela metamorfose de uma multidão adoradora em multidão perseguidora.

6. Elifaz não poderia falar por alusões de acontecimentos situados no passado se os desastres dos homens perversos fossem imaginários, devendo evocar uma experiência conhecida de todos por ser a de toda a comunidade, já que a derrocada violenta desses homens permanece presente em todas as memórias, sendo essas reviravoltas impressionantes demais para cair no esquecimento e seu caráter estereotipado facilitando a lembrança.

7. Aos olhos de Elifaz e da comunidade, a perversidade dessas vítimas está plenamente demonstrada, como a culpa de Jó, pois uma vez renegados pela multidão os antigos ídolos já não podem justificar-se e estão condenados para sempre, devendo a unanimidade que hoje se faz contra Jó ter-se feito outrora contra eles.

8. É a mesma história que sempre recomeça, e a advertência de Elifaz é muito razoável, mas Jó não pode levá-la em conta sem renegar-se e confessar-se culpado.

9. Elifaz talvez se censure por mostrar-se amigável e fraterno demais com o criminoso que Jó é a seus olhos, falando abertamente de um processo de justiça popular que, longe de constituir desordem condenável, lhe parece legítimo, infalível e literalmente divino, com a consciência absolutamente tranquila, já que tudo lhe parece em ordem e é a própria ordem que se reafirma com um vigor que os três amigos julgam extremamente satisfatório.

10. Que os homens perversos sejam todos vítimas de violências populares confirma-se pelos últimos versos da citação, que aludem a uma forma violenta de rejeição social, com os justos que se alegram e o homem íntegro que zomba de sua grandeza reduzida a nada e de sua abundância devorada pelo fogo.

11. No contexto de uma sociedade aldeã, as alegrias dos justos e as zombarias dos homens íntegros não podem ficar sem consequências, dada a formidável eficácia da reprovação unânime num tal meio, de modo que, para produzir todos os desastres que se lhe atribuem, basta ao deus deixar agir esses justos que sempre invocam sua vingança.

12. No meio da multidão encontram-se a vítima e todos os seus bens, e o que se pode partilhar os amotinados já partilharam, talvez por sorteio para não se matarem entre si, enquanto o resto, inclusive o antigo possuidor, se consome em imensas fogueiras de alegria.

13. O desastre que espera os homens perversos no fim do caminho antigo deve assemelhar-se às festas primitivas cujo desenrolar, mesmo atenuado e ritualizado, lembra um fenômeno de multidão e termina sempre num simulacro de bode expiatório queimado ou afogado, e os velhos etnólogos que suspeitavam de violências mais extremas por trás dessas formas tinham razão, apesar de seus preconceitos, contra os pesquisadores contemporâneos que os julgam vítimas de imaginação romântica e colonialista, pois o rousseauísmo requentado da época atual descarta com demasiada desenvoltura os inúmeros testemunhos que contradizem sua paixão para inspirar confiança.

14. Muitas outras passagens sugerem que o acontecimento central da obra, a terrível aventura que acaba de começar para o herói, é um fenômeno recorrente de violência coletiva que ataca sobretudo os grandes e os tiranos, mas não exclusivamente, e que se interpreta sempre como vingança divina e intervenção punitiva da divindade.

15. Uma dessas passagens pertence ao discurso de Eliú, quarto pregador de Jó, que segundo a opinião mais geral não pertence aos Diálogos originais e provavelmente é obra de um leitor escandalizado pela impotência dos três primeiros guardiões da ordem pública, que despreza o enraizamento dos três na tradição e se gaba de triunfar onde eles fracassaram.

16. Eliú julga-se mais capaz apenas por ser mais jovem e desprezar o passado, e embora também procure reduzir Jó ao silêncio, limita-se a repetir num estilo menos saboroso o que os três já recitaram, pertencendo a um estágio mais decomposto da antiga tradição, mas diz coisas que tornam o tema oculto dos Diálogos mais manifesto do que nunca.

17. O tema de Jó opressor do povo, já presente nos três amigos, é ainda mais explorado por Eliú, e por trás de suas fórmulas político-religiosas transparece a violência popular.

18. Segundo Eliú, Deus quebra num instante os grandes sem inquérito e põe outros em seu lugar, pois conhece suas obras, derruba-os numa bela noite e eles são pisoteados, esbofeteia-os por sua maldade e acorrenta-os em público.

19. A tradução da Bíblia de Jerusalém sugere admiravelmente a identidade entre o deus e a multidão, pois é o deus que derruba os grandes, mas é a multidão que os pisoteia, é o deus que os acorrenta, mas sua intervenção é pública e se dá diante dessa mesma multidão, que talvez não tenha permanecido inteiramente passiva diante de espetáculo tão interessante, e os grandes são quebrados sem inquérito, como se suspeitava, estando a multidão sempre pronta a ajudar a divindade quando esta decide punir os maus, e logo surgem outros grandes para substituir os caídos, entronizados pelo deus, mas adorados pela multidão, que descobrirá pouco depois que também eles são falsos eleitos e não valem mais que seus predecessores.

20. Vox populi, vox dei, pois, como na tragédia grega, a ascensão e a queda dos grandes constituem um mistério propriamente sagrado cuja conclusão é a parte mais apreciada, sempre impacientemente esperada embora jamais mude.

girard/1985/1.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki