Heidegger
GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Heidegger urgente: Introdução a um novo pensar. São Paulo: Editora Três Estrelas, 2013.
- Introdução: Por que é urgente pensar com Heidegger
- O pensador do fim da metafísica
- O trajeto biográfico
- O contexto filosófico
- O primeiro Heidegger
- As intuições iniciais
- A linguagem e o caminho do novo pensar
- Ser e tempo: conceitos e temas
- A viravolta e a história da verdade do Ser
- De Ser e tempo a Tempo e Ser
- Abertura do ser-o-aí e abertura do Ser
- Pensar a história da verdade do Ser
- Pensar a essência da técnica
- Destinamento e perigo
- Como ler Heidegger
- Conclusão: Em busca de um pensamento por vir
Por que é urgente pensar com Heidegger
1. As linhas de força do pensamento de Martin Heidegger precisam ser apresentadas de modo a ensejar uma compreensão satisfatória do núcleo de suas ideias e de seus principais desdobramentos e consequências.
2. Segundo uma interpretação reconhecida nos estudos acadêmicos, a extensa e multifacetada produção teórica do filósofo alemão divide-se esquematicamente em dois grandes períodos, denominados primeiro e segundo Heidegger.
3. A primeira fase corresponde a um projeto de fenomenologia ontológica da existência, ontologia fundamental ou analítica da finitude, no qual o trabalho hermenêutico sobre a tradição da filosofia ocidental visa a uma destruição da metafísica, programa de que Ser e tempo, de 1927, e os escritos contemporâneos são característicos.
4. Ao buscar seu caminho num campo ainda desconhecido e tentar livrar-se das sombras do Deus metafísico, o pensamento contemporâneo enreda-se inescapavelmente em aporias, paradoxos e contradições que se anunciam como crise da razão, variante do nada desertificador prenunciado por Nietzsche no conceito de niilismo.
5. A crise abate-se sobre todos os domínios da vida espiritual, das ciências e artes à moralidade, à política e à religião, e, diante da fuga dos deuses após a morte de Deus, que ameaça o sagrado e insinua a morte do homem tal como o conhecemos, a esperança parece hoje inteiramente depositada no poder das tecnociências.
6. O pensamento pós-metafísico de Heidegger assume a tarefa de refletir sobre a essência do homem determinada em relação à verdade do Ser, num tempo em que a expansão planetária da tecnologia parece pôr essa essência em perigo, tarefa realizada tanto na analítica existencial do ser-o-aí quanto no pensamento da história da verdade do Ser, aberto a uma crítica profunda e atual da tecnologia moderna para a qual contribui decisivamente a confrontação com Nietzsche.
7. Se o desenvolvimento tecnológico está enredado numa escalada compulsiva e numa espiral infinita que, em vez de resolver impasses, impele cada vez mais à beira de catástrofes, como a ecológica, que ameaçam a possibilidade de uma autêntica vida humana na Terra, torna-se urgente pensar com Heidegger, ainda que contra ele, assim como ele pensou com e sobretudo contra Nietzsche.
8. A dinâmica das tecnociências escapa ao controle e ao planejamento das modalidades tradicionais de poder social, econômico e político, revelando, antes, imenso potencial para colonizar e submeter as diversas formas de organização social, numa reprodução coercitiva que é sintoma de perda de controle e expressão de um delírio de onipotência essencialmente moderno.
9. Impõe-se despertar dessa hybris conquistando pelo pensamento uma potência de segundo grau, a capacidade de subtrair-se à compulsão de percorrer sempre os mesmos caminhos que potencializam o perigo e aprofundam a alienação, despertar possível apenas por um outro pensar que ouse refletir sobre o pensamento calculatório, operacional e instrumental predominante nas ciências contemporâneas.
10. Originariamente o pensar não se separa do agir, pois age enquanto se exerce como pensar, sendo um agir em sentido especialmente elevado que não depende de aplicação para converter-se em ação nem está separado dela por abismo algum a ser transposto.
11. Exigir de Heidegger uma filosofia prática como gênero separado, nos moldes de uma ética pura ou aplicada, só faria sentido para um pensamento capturado pela racionalidade técnica e por suas divisões compartimentadas, ao passo que, para Heidegger, o pensar é ele próprio ético, no sentido não prescritivo de modo de ser ou de correspondência originária entre a essência linguageira do homem e a verdade do Ser.
12. Os recentes desenvolvimentos das tecnociências, que subvertem a autocompreensão humana como ser no mundo, ainda não alcançaram consciência de sua historicidade, de modo que uma ética efetivamente concernida por eles deve pensar adequadamente a essência da tecnologia, algo que nem a condenação reacionária e maniqueísta nem o deslumbramento ingênuo com o trans-humanismo, o pós-humanismo ou o sobre-humanismo permitem, por não brotarem de uma meditação sobre o homem como ser pensante nem de um compromisso com seu destino.
13. O horizonte desse compromisso só pode ser divisado por uma relação pensante entre o ser do homem e a essência da técnica, isto é, por um pensamento irredutível à compartimentação da racionalidade, refratário ao ativismo político e ao falatório estéril dos saberes insulares, e capaz de resgatar as ligações entre conhecer, sentir, imaginar, lembrar, cuidar e esperar.
14. Trata-se de um exercício permanente de reflexão e de recolhimento meditativo, marcado por elementos que distanciam a filosofia de Heidegger dos ativismos teórico e prático dominantes nas ciências e na filosofia atuais.
15. O primeiro desses elementos é a sobriedade, resgate prudencial da lucidez alcançado por permanente autorreflexão e autocrítica, atenta às circunstâncias e condições em que se desenrola a vida dos entes intramundanos com os quais o homem, como ser no mundo, mantém constante relação.
16. O segundo elemento é a liberdade diante das ilusões de onipotência, alcançável apenas pela retomada da modéstia quanto à capacidade de prever as consequências das ações possibilitadas pelo saber-poder, o que exige refletir se seremos agentes ou agidos na dinâmica da configuração técnica do mundo.
17. O terceiro elemento é a capacidade de renunciar ao uso compulsivo do poder tecnológico e a abertura a dimensões de responsabilidade que ultrapassam as relações inter-humanas, só entrevistas a partir da retomada do pensar como correspondência à verdade do Ser.
18. Enfrentar esses desafios, projetados para além dos humanismos tradicionais, contribui decisivamente para colocar o problema filosófico que hoje mais concerne, o de saber o que estamos fazendo de nós mesmos num tempo em que só as mutações são permanentes.
19. Em razão dessas tarefas, Heidegger revela-se um companheiro de viagem indispensável na travessia do século XXI.
