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giacoia:2001:1.2

1.2 Movimento II

GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche como psicólogo. São Paulo: Editora Unisinos, 2001.

1. O segundo movimento de interpretação busca uma compreensão mais profunda da importância da psicologia para Nietzsche, tendo como fio condutor até aqui a reconstituição da crítica ao privilégio concedido à consciência pela filosofia e pela psicologia tradicionais.

2. Essa sobrevalorização da unidade da consciência, que culmina em sua identificação com a totalidade do psíquico e com o núcleo da subjetividade, tem raízes remotas no platonismo em suas mais diversas formulações.

3. De um platonismo difuso teria se nutrido e consolidado a crença inveterada no privilégio da parte racional da alma, fonte do conhecimento verdadeiro, pelo qual se testifica nosso parentesco originário com o mundo das essências inteligíveis.

4. O intelecto, ou faculdade de conceber as ideias, seria a parte nobre e sublime da alma, que nos permite o acesso possível ao que é, em si, verdadeiro, belo e bom, o verdadeiro mundo do Ser, de uma realidade estável e eterna, que se opõe ao mundo aparente do devir e das ilusões originadas na experiência sensível.

5. As opiniões só nos fornecem mero simulacro de realidade, região das sombras insubsistentes entre as quais vagueia errante nosso corpo, nosso Eu empírico, prisão de nossa alma.

6. Nosso intelecto ou razão consistiria na parte imortal da alma, e o conhecimento inteligível seria o caminho ascendente que a conduziria de volta à sua pátria de origem, afastando-se das incertezas do conhecimento sensível e da fatal volubilidade das paixões.

7. Essa parte racional de nossa alma seria de origem divina, superior ao corpo e distinta dele, sendo mais propriamente o núcleo espiritual de nossa subjetividade.

8. Nutre-se aqui a força de uma concepção de filosofia como exercício ascético, vale dizer, como preparação para a morte, pela qual a alma se redimiria da prisão do corpo e retornaria à divindade de sua origem.

9. Nietzsche identifica esse traço ascético com uma espécie de pecado original da metafísica, pois como metafísica a filosofia se institui a partir da negação e desvalorização do sensível, do corpo, da materialidade, do movimento, do transitório, do devir e do histórico.

10. Essa oposição ascética entre sensível e inteligível, essência e aparência, eternidade e duração, apoia-se numa doutrina que postula a pertença da alma ao mundo das ideias.

11. Não existiria nenhuma possibilidade de partição do real em um mundo verdadeiro e um mundo aparente, original e simulacro, se não fosse porque a alma é em nós o princípio que nos liga ao verdadeiro mundo, ou seja, pelo caráter e natureza divina da nossa alma.

12. É precisamente o que há em nossa alma de divino, enquanto espiritual, que nos torna aparentados com o verdadeiro mundo das essências, cuja ideia fundamental é a ideia de Bem ou a ideia de Deus.

13. Portanto, a verdade é de origem divina e nós estamos ligados a ela pela natureza divina da nossa alma, e o que em nós é corpo é precisamente aquilo que deve ser afastado para que possamos ter acesso a esse reino puro das essências.

14. Para Nietzsche, a doutrina cristã da imortalidade da alma é uma interpretação vulgarizante do platonismo, e a extensão potencialmente universal do Cristianismo, depois da decadência do mundo helenístico e do império romano, prepara as bases para a consolidação do que viria a ser a moderna cultura ocidental.

15. A genealogia nietzscheana esforça-se por demonstrar a persistência desses mesmos pressupostos tanto no pensamento medieval quanto na filosofia moderna, sendo o dualismo de Descartes uma de suas mais significativas tentativas de transfiguração filosófica.

16. Além disso, Nietzsche pretende revelar como a crença nos preconceitos metafísicos não está presente apenas no racionalismo cartesiano e na filosofia que dele deriva, mas constitui espólio comum do pensamento ocidental, do qual não se desfaz nem a filosofia sua contemporânea nem mesmo a mais moderna, pretensamente neutra, ateísta e materialista ciência da natureza.

17. Segundo ele, também os modernos lógicos e físicos mais rigorosos, ainda mesmo que professem o mais intransigente ateísmo e creiam unicamente na realidade da matéria, permanecem reféns de ancestrais artigos de fé metafísicos que têm sua raiz na crença imemorial da unidade da alma e do Eu.

18. Para demonstrar essa asserção, a ousadia intelectual de Nietzsche recorre ao exame crítico justamente do que se autocompreende como o contrário absoluto do espiritualismo metafísico-religioso ínsito à doutrina do primado da consciência.

19. Por essa razão, o alvo da crítica genealógica é assestado na crença largamente dominante nos meios científicos da época, a saber, na versão moderna do atomismo materialista, cuja correlação aparentemente inusitada com a psicologia se busca compreender.

20. Grosso modo, o atomismo materialista pode ser caracterizado como a doutrina segundo a qual o inteiro conjunto da realidade, com inclusão de nosso universo anímico e espiritual e também da consciência, é composto de moléculas, átomos e partículas elementares de matéria.

21. Tais unidades elementares de matéria se combinam de modos diferentes, dando origem à totalidade dos fenômenos dos mundos interno e externo, e a inteligibilidade desse todo só pode ser fornecida pelas leis da matéria e do movimento, para além das quais nada de real existe.

22. Esse tipo de atomismo é uma doutrina perfeitamente materialista, que considera entidades como espírito, alma, intelecto e razão uma estruturação complexa e altamente elaborada de unidades elementares de matéria de natureza mais sutil e refinada.

23. Com o atomismo materialista, no âmbito da física moderna, a consciência científica teria ultrapassado o ingênuo atomismo metafísico de Demócrito e construído um modelo que permite uma interpretação global dos fenômenos naturais à altura dos progressos atuais da ciência.

24. Para Nietzsche, todavia, essa asserção, que de acordo com sua autocompreensão julga ter acesso ao próprio texto da natureza, ao contrário das teorias mais antigas que não passariam de interpretações mais ou menos falsificadoras daquele texto, permanece ela também inconscientemente refém das mesmas armadilhas da metafísica que pretende denunciar.

25. Paradigmático nesse sentido é o aforismo 12 da primeira parte de Para Além do Bem e do Mal, no qual Nietzsche afirma que, no que se refere ao atomismo materialista, esta é uma das coisas mais bem refutadas, e talvez não exista hoje na Europa, entre os eruditos, ninguém tão inculto que continue atribuindo a ele uma significação séria, exceto talvez para uso doméstico, como uma abreviatura dos meios de expressão.

26. Percebe-se que, desde o início, Nietzsche recusa à teoria atomista materialista o caráter de texto, pois ela também pertence ao âmbito da linguagem, não passando de meio de expressão.

27. Sua validade e sua utilidade se justificam por razões econômicas, como uma economia dos meios de expressão, na medida em que fornece um esquema abreviado para descrição de fenômenos empíricos.

28. Descrever a realidade empírica a partir da hipótese da combinação de partículas ou átomos de matéria é uma simplificação para fins de descrição e manipulação de certos fenômenos observáveis, o que não autoriza concluir que a própria realidade seja composta de tais átomos materiais.

29. A inferência pressupõe a petição de princípio de acordo com a qual seria possível conhecer essa estrutura básica do real independentemente de nossas hipóteses, ou, dito de outro modo, independentemente das condições subjetivas de nosso aparelho cognitivo, que se enraízam em derradeira instância na estrutura lógico-gramatical de nossa linguagem.

30. A refutação mais radical do atomismo materialista se dá graças sobretudo àquele polonês Boscovich que, junto com o polonês Copérnico, foi até hoje o maior adversário e o maior vitorioso contra a aparência sensível.

31. Copérnico e Boscovich aparecem aqui como adversários da aparência sensível, pois os modelos matemáticos empregados por ambos permitem a construção de hipóteses teóricas sobre os fenômenos naturais que ultrapassam os dados fornecidos pelos sentidos, ou seja, a aparência sensível.

32. Não, porém, no mesmo sentido em que se colocam para além da experiência sensível as hipóstases da metafísica tradicional, isto é, as ideias ou essências inteligíveis.

33. Os modelos de Copérnico e Boscovich também fornecem a moldura teórica para uma realidade inteligível distinta dos fenômenos fornecidos pelos sentidos, porém os efeitos que se podem extrair de tais modelos se encaminham numa direção inteiramente distinta da metafísica tradicional.

34. Eles representam momentos avançados na história da ciência ocidental porque desconstroem e desconstituem supostas evidências até então admitidas como verdades inquestionáveis.

35. A refutação físico-matemática do geocentrismo, para a qual contribuem decisivamente as hipóteses de Copérnico, tem contra si justamente o testemunho dos sentidos, pois vemos efetivamente que o Sol gira em torno da Terra, e para que se possa pôr em questão a prodigiosa força de convencimento de um testemunho dessa espécie é preciso dispor de uma teoria muito mais forte e consistente do que a evidência empírica imediata.

36. O mesmo caso ocorre com Boscovich, pois enquanto Copérnico nos persuadiu a acreditar, contra todos os sentidos, que a terra não está fixa, Boscovich ensinou-nos a abjurar também da crença na última coisa na Terra que estava fixa, a crença no material, na matéria, no átomo, nesse último resíduo de partículas terrestres, sendo esse o maior triunfo sobre os sentidos até então conquistado na Terra.

37. Se com Copérnico se dissolve a crença em que a Terra está fixa, atentando para a polissemia desse estar fixa, isto é, ser inabalável, segura e constante, então não se pode mais crer em nenhuma estabilidade no universo, que se tornou no mais radical sentido do termo infinito.

38. Caberia então a Boscovich abalar a crença na última coisa que, ainda depois dos imensos progressos da consciência ilustrada, estava fixa, a crença na existência do mundo físico, terrestre e material como o único mundo subsistente, não se podendo mais admitir a existência de nenhuma realidade supraterrestre, de nenhum mundo espiritual ou metafísico.

39. Essa inversão da crença metafísica tradicional consistiria no único artigo de fé ainda fixo para os herdeiros dos progressos das Luzes, os representantes atuais da consciência científica.

40. Mas é preciso ir ainda mais longe e declarar guerra também contra a necessidade atomística, que ainda tem uma perigosa sobrevivência em regiões onde ninguém suspeita, numa guerra impiedosa à faca, do mesmo modo que aquela proverbial necessidade metafísica.

41. Necessidade metafísica é uma expressão que recebe destaque no texto na medida em que denota um procedimento argumentativo que Nietzsche considera grosseiramente circular, consistente em tentar explicar a existência de alguma coisa ou faculdade por uma espécie de necessidade da existência da mesma.

42. Um dos exemplos mais ilustrativos seria, para Nietzsche, a explicação dada por Schopenhauer para a existência e sobrevivência da metafísica, que existiria por força de uma necessidade metafísica porque o ser humano tem uma necessidade de metafísica, e como se percebe de imediato a suposta explicação não esclarece estritamente nada, tratando-se de uma mera confissão cifrada da ignorância disfarçada pela habilidade retórica e pelos malabarismos mentais dos metafísicos.

43. Da mesma forma, dizer que o atomismo existe em função de uma necessidade de reduzir a matéria às suas estruturas elementares não significa fornecer nenhuma explicação do atomismo materialista, mas simplesmente constatar a sua existência e mais nada, fazendo uma petição de princípio no próprio fenômeno que se pretende explicar.

44. Explicar a origem da necessidade do atomismo materialista sem recorrer a essa mesma necessidade como fato representa um combate ainda mais aguerrido e radical contra a metafísica, que ainda mesmo nessa versão do materialismo se encontra aninhada.

45. Esse fóssil metafísico da necessidade atomista continua presente da maneira mais perigosa em terrenos onde ninguém a suspeitaria, da mesma maneira como sobrevive aquela necessidade metafísica, que é ainda mais funesta que a necessidade atomística.

46. É necessário dar um basta a uma outra forma de atomística, ainda mais nefasta, que o Cristianismo doutrinou o mais longamente e da melhor maneira, a atomística da alma.

47. É preciso ter presente que, para Nietzsche, o Cristianismo é o platonismo popularizado, de modo que o que se nomeia aqui são os dois adversários maiores, Platão por um lado e o Cristianismo por outro, e é por causa disso que Nietzsche afirma que o atomismo anímico é a doutrina mais prolongadamente ensinada.

48. Sendo assim, a versão materialista do atomismo ainda não é o solo mais profundo a que a crítica pode chegar, porque há um ponto ainda mais radical que o atomismo materialista, que é o atomismo psíquico, o atomismo da alma.

49. Permite-se designar com a expressão atomismo anímico aquela crença que concebe a alma como indestrutível, eterna, indivisível, como mônada e como átomo, crença que deve ser expulsa da ciência, sem que por isso seja necessário desembaraçar-se da própria alma e renunciar a uma das hipóteses mais antigas e veneráveis, coisa que costuma ocorrer à inabilidade dos naturalistas, os quais apenas tocam na alma e a perdem.

50. Do mesmo modo como o atomismo materialista acredita na unidade elementar e atômica da matéria como elemento último da realidade, o atomismo psíquico acredita na alma como sendo simples, indivisível, indestrutível, eterna e mônada, princípio substancial, de modo que ambos têm um núcleo comum, a crença na categoria de unidade e de substância.

51. O atomismo anímico, postulando a alma como simples, elementar e indivisível, conclui que ela não pode se decompor e, por conseguinte, não perece, é eterna.

52. Essa é a mesma crença que constitui o elemento nuclear do ensinamento platônico-cristão, a alma como princípio imortal aparentada com as ideias eternas, que por causa disso é capaz de conhecer as essências puramente inteligíveis, a verdadeira realidade situada além do mundo transitório, do simulacro, da aparência, do corpo e da inconstância das paixões.

53. A condição de que essa alma se volte para a sua pátria de origem e a ela retorne é a negação desse mundo das sombras e, mais precisamente, do corpo, sendo a ascese, o caminho da sabedoria filosófica, a condição dessa conversão.

54. Por conseguinte, o atomismo anímico é um dos mais fundamentais artigos de fé da história do pensamento ocidental, na medida em que é a doutrina mais longamente ensinada e, portanto, mais bem consolidada, incorporada ao nosso pensamento e ao nosso discurso.

55. Eis a razão pela qual fazer a crítica do atomismo psíquico é uma tarefa absolutamente necessária, desde que se pretenda descer à raiz de nossos preconceitos e pré-juízos.

56. Para levar a cabo tal tarefa, a filosofia e a psicologia podem tomar como aliados os cientistas Boscovich e Copérnico, que trilharam caminhos pelos quais foram conduzidos a uma ciência dos fenômenos astronômicos descomprometida tanto com relação à metafísica como com relação à suposta evidência empírica mais grosseira.

57. O que Boscovich prova, recorrendo a noções dinâmicas como campo de força e ação a distância, é que os fenômenos do movimento e das relações entre pontos de força situados num campo podem ser explicados a partir de noções e conceitos de acordo com os quais as forças produzem seus efeitos independentemente de sustentação num resíduo elementar e residual de matéria, num átomo de onde tais efeitos se irradiariam.

58. Boscovich demonstra isso recorrendo a modelos e cálculos físico-matemáticos, ou seja, de acordo com procedimentos validados pelos rigorosos procedimentos e métodos da razão científica.

59. Desse modo, do ponto de vista do desenvolvimento da própria física e da mecânica, a partir do emprego de modelos matemáticos para a construção de hipóteses físicas e astronômicas, é possível construir uma teoria da ação a distância baseada na noção de campo de força que prescinde da hipótese acerca da existência de átomo de matéria.

60. Esta é a razão pela qual a refutação do atomismo materialista não é uma mera pretensão da filosofia, mas é passível de demonstração científica, estando em sintonia com o desenvolvimento da própria ciência.

61. Analogamente, no interior da filosofia, uma crítica do conhecimento levada às suas últimas consequências pode prescindir da hipótese do atomismo anímico, isto é, pode prescindir da hipótese de uma unidade substancial, simples e indecomponível, da alma e do Eu.

62. Ao fazer a autocrítica do conhecimento, Nietzsche ao mesmo tempo desconstrói o objeto tradicional da psicologia racional, abrindo caminho para uma outra psicologia desembaraçada do ônus ontológico da alma substancial.

63. A ingenuidade dos naturalistas consiste em pretender substituir a alma por partículas elementares de matéria sem perceber que tais unidades são sucedâneos e transfigurações da mesma hipóstase.

64. Por essa razão, no momento em que os naturalistas pretendem ter apanhado a alma pela anatomia, pela fisiologia cerebral e pela decodificação do genoma, eles de novo imediatamente a perdem e, com ela, também a possibilidade de abandonar o território minado da metafísica da unidade.

65. Não é necessário desembaraçar-se da alma e, com isso, renunciar a uma das hipóteses mais antigas e veneráveis, coisa que costuma ocorrer à inabilidade dos naturalistas, os quais apenas tocam a alma e a perdem, mas está aberto o caminho que leva a novas formulações e refinamentos da hipótese da alma.

66. Conceitos tais como alma mortal, alma como pluralidade do sujeito e alma como estrutura social dos impulsos e dos afetos querem ter doravante direito de cidadania na ciência.

67. Da mesma forma como Freud, que postulava para o psíquico um domínio próprio de objetos, conceitos e métodos, também para Nietzsche hipóteses do tipo alma mortal, alma entendida como pluralidade do sujeito e como estrutura social de impulsos e de afetos passam a ser plausíveis, desde que a identificação do psíquico com o consciente tenha sido desconstituída e que tenha sido abjurada a crença na unidade substancial da alma, até mesmo em suas formas remanescentes mais inusitadas, como no atomismo anímico.

68. Ao pôr fim à superstição que até agora proliferava com uma frondosidade quase tropical em torno da representação da alma, o novo psicólogo se desterrou a si mesmo desde logo, por assim dizê-lo, a um novo deserto e a uma nova desconfiança, podendo ser que os psicólogos antigos vivessem de modo mais cômodo e mais divertido, mas por fim ele se sabe justamente com isso também condenado a inventar e, quem sabe, talvez a encontrar.

69. Mais uma vez é necessário ter presente o jogo de palavras entre inventar e encontrar, chamando a atenção para o aspecto heurístico e lúdico, mas também arriscado e ousado, das construções de hipóteses científicas.

70. O novo psicólogo abandonou a superstição da unidade e conseguiu se desembaraçar do feitiço ou do fetiche da alma substancial, tornando-se por isso mesmo capaz de pensar a alma e, com ela, a unidade subjetiva de uma outra maneira, por exemplo, como estruturação hierárquica dos impulsos e afetos, e com isso ele se desterrou para um deserto, isolando-se do convívio possível com os seus pares, que persistem na identificação do psíquico com a consciência.

71. Privado do diálogo, não lhe resta outra alternativa senão inventar, já que a tradição não pode mais lhe fornecer aquilo de que necessita, e porém quem sabe se a invenção não é exatamente o caminho da descoberta, quem sabe se Erfindung não é exatamente aquele caminho ao longo do qual talvez se possa finden, isto é, encontrar alguma coisa.

72. Como ficções úteis, tais hipóteses cumprem uma importante função heurística, possibilitando um alargamento de horizontes para o psiquismo, e a tarefa do novo psicólogo é ousar, ensaiar procedimentos que estejam à altura do grau de desenvolvimento alcançado pelo mais avançado conhecimento científico e, com isso, ser capaz de pensar modalidades variadas de constituição da unidade do sujeito vedadas pela crença na unidade substancial da alma.

73. E se a tradição platônico-cristã se erigiu sobre a base da crença no primado da alma, e se essa tradição ruiu, então por que não tomar como fio condutor o complexo campo de fenômenos constituído pelo corpo, que pode servir de paradigma para a constituição de uma hipótese sobre a unidade do sujeito muito mais rica e plausível que o atomismo psíquico.

74. O psicólogo Nietzsche desconstitui as evidências até então assentes sobre as quais se fundamentava o edifício teórico da psicologia racional e, ao fazê-lo, provoca a destruição da crença imemorial na unidade do sujeito e na unidade da consciência, que para Nietzsche é inconscientemente induzida pela função gramatical do sujeito.

75. De modo absolutamente desconcertante, a crítica da psicologia racional se vincula com o projeto de dissolução dos preconceitos da razão inscritos na estrutura da linguagem.

76. Muito mais tarde, em um mundo milhares de vezes mais ilustrado, veio com espanto aos filósofos a segurança e a certeza subjetiva no manuseio das categorias da razão, e eles concluíram que elas não poderiam derivar da empiria, pois a inteira empiria estaria em contradição com elas, perguntando-se de onde derivam elas.

77. Na Índia como na Grécia cometeu-se o mesmo engano, pois se concluiu que temos que já ter habitado alguma vez um mundo mais elevado e que temos que ter sido divinos, pois temos a razão.

78. De fato, nada teve até aqui uma força de convencimento mais ingênua do que o erro do Ser como foi formulado pelos Eleatas, pois ele tem a seu favor cada palavra e cada sentença que pronunciamos, e mesmo os adversários dos Eleatas ainda sucumbiram à sedução de seu conceito de ser, como Demócrito quando inventou seu átomo.

79. A razão na linguagem é uma enganadora personagem feminina, e Nietzsche teme que não nos desembaraçaremos de Deus porque ainda cremos na gramática.

80. É a essa mesma sedução da gramática a que sucumbiu o projeto cartesiano de omnibus dubitandum, que instaura a filosofia moderna, pois também Descartes permaneceu enfeitiçado pelos erros da razão petrificados na linguagem ou na superstição dos lógicos.

81. Contra estes, Nietzsche observa que um pensamento vem quando ele quer, e não quando eu quero, de maneira que é uma falsificação do conteúdo de fato dizer que o sujeito eu é a condição do predicado penso.

82. Isso pensa, mas que isso seja precisamente aquele antigo e proverbial eu é, dito de maneira suave, apenas uma hipótese, uma afirmação e sobretudo nenhuma certeza imediata.

83. Por fim, já se faz demais com esse isso pensa, pois já esse isso contém uma interpretação do processo e não pertence ao próprio processo, inferindo-se aqui segundo o hábito gramatical que pensar é uma atividade e que a cada atividade pertence alguém que atua.

84. Mais ou menos segundo idêntico esquema, a antiga atomística buscou para a força que produz efeitos ainda aquela partícula de matéria onde ela assenta e a partir de onde ela produz efeitos, o átomo, e cabeças mais rigorosas aprenderam finalmente a passar sem esse resíduo terrestre, e talvez algum dia nos acostumemos também da parte dos lógicos a passar sem aquele pequeno isso no qual se volatilizou o venerável velho Eu.

85. Nosso raciocínio é permanentemente induzido pela força ancestral do hábito inveterado, mesmo nas mais remotas regiões do rigoroso conhecimento científico, pelo irresistível poder de atração presente na estrutura formal da proposição atributiva.

86. A partir das categorias lógico-gramaticais de sujeito e predicado, subsistência e inerência, inferimos em termos de substância e atributos, causas e efeitos, e com base nisso construímos nossa interpretação global do universo sustentada por essas hipóstases, procedendo como se tais ficções reproduzissem a estrutura do real e não fossem justamente interpretações dos processos que observamos.

87. Nosso conhecimento consciente só pode ser constituído a partir desse esquema transcendental de formulação e interpretação de nossas representações, todavia não se pode confundir tais esquemas semióticos com uma realidade ontológica, pois nosso Eu e nosso si mesmo é muito mais que sua superfície e fachada, ou seja, muito mais que a ilusão de unidade da consciência.

88. Se pode parecer o contrário, é que a tanto nos desencaminha a sedução da gramática.

89. Porém, como visto acima, o novo psicólogo se encontra desterrado num deserto de silêncio, privado do convívio de seus semelhantes, e seu elemento vital se encontra no campo da reflexão, sobretudo na reflexão acerca das possibilidades e dos limites da razão e da linguagem.

90. Se a interlocução e o diálogo no campo da filosofia e da psicologia ainda não são possíveis para ele, então sua ousadia talvez o conduza a procurar apoio e alianças também entre os perdulários da criação linguística, entre os escritores e os poetas.

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