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Gandillac
Maurice de Gandillac
Post-scriptum a “Genèses de la modernité”
- Os recentes acontecimentos conferem um sabor algo arcaico às múltiplas alusões feitas, no texto sobre A Utopia de Thomas More, à URSS e às democracias populares.
- Tais acontecimentos comprometeram duradouramente o ideal comunista e tornaram irrisórias as belas promessas de uma libertação do indivíduo, de sua harmonização com a natureza e do maravilhoso passage da pré-história à história.
- Sob formas diversas, muitas das quais, como os massacres de 1914-1918, Auschwitz, Dresden e Hiroshima, nada têm a ver com o mau uso da utopia e apenas prolongam as ancestrais barbáries acrescentando-lhes os atrozes aperfeiçoamentos da alta técnica, o século conheceu destruições massivas, iguais ou superiores às piores atrocidades de um passado sombrio, em irrisória compensação por seus indubitáveis progressos médicos.
- Isso não significa que tenham sido totalmente ocultados os temas de paz e concórdia que se tentou valorizar em Pierre Abelardo, Raymond Lulle, Nicolau de Cusa e Guillaume Postel, precursores do abade de Saint-Pierre, de Emmanuel Kant, do candido presidente Wilson e de alguns idealistas bem rapidamente fora de combate.
- Qualquer que seja a resposta dada à questão, resta que, em matéria de frutuosas peregrinações através das ilhas bem-aventuradas, salvo as puerilidades da ficção científica com suas fantásticas andanças fora de nosso tempo e de nosso espaço, aliás mais belicosas em geral que pacíficas, o século pode certamente vangloriar-se de ter lançado humanos ao deserto lunar e robôs interrogadores até as extremidades de nosso pequeno Sistema solar, mas no tempo em que se anunciam, talvez em simetria com os lendários Dilúvios e os míticos engolimentos de terras civilizadas, possíveis, prováveis ou seguras catástrofes: desertificação dos solos e ruptura das camadas protetoras na alta atmosfera.
- Na falta de uma revolução ou de uma revelação que o autor de A Cidade de Deus situava apenas no fundo da consciência ou em um além onde se separa o joio do trigo, pode-se ainda esperar da ciência e da técnica os novos mirabilia que, entre Campanella e Descartes, profetizava o autor de A Nova Atlântida?
- É a Ernst Bloch, encontrado em Cerisy em 1959 e acolhido na Sorbonne como doutor honoris causa, que, contra todo desânimo, o velho homem que assina essas linhas tomará emprestada sua última palavra.
- Completando, com efeito, e corrigindo a docta ignorantia do Cusano, o autor de Prinzip Hoffnung acrescentou-lhe, de teor mais estimulante, essa esperança indestrutível, nutrida de conhecimento e lastreada de coragem, que se nomeará com ele, na antiga língua sábia de nossa Europa, uma docta spes.
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