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0 Introdução

GABRIEL, Markus. Fields of Sense: A New Realist Ontology. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2015.

Introdução

1. Segundo a sabedoria comum, a ontologia trata do que existe, ou do que realmente existe, independentemente de nossas opiniões prévias sobre a composição da realidade, razão pela qual desde os eleatas tem fama de afrontar o senso comum, apresentando a resposta sobre o significado de ser como visão sobre-humana que transcende as opiniões dos mortais iludidos pelo movimento dos corpos, pelos corpos mesoscópicos estáveis ou pela pluralidade das coisas, e combinando-se com a metafísica numa investigação da natureza fundamental da realidade em oposição à aparência, realidade tratada como domínio unificado chamado o mundo.

2. Nessa divisão de trabalho pouco clara, a ontologia, investigação do ser, fica subordinada à metafísica, investigação da realidade unificada em contraste com a aparência e considerada a mais substancial por tratar do próprio conceito de substância, empreendimento iniciado com os pré-socráticos e ainda vivo, cujas reviravoltas dependem da distinção fundamental entre como as coisas realmente são e como nossa presença entre elas as distorce em aparências ilusórias, de modo que ambas lidam com o mesmo domínio de objetos, o que realmente existe.

3. Apesar dos esforços dos últimos duzentos anos para superar a dicotomia entre realidade unificada, o mundo, e aparência, a mente, de Kant a Heidegger, Carnap, Wittgenstein, Rorty e Derrida, a ontologia contemporânea regressou a variantes sobretudo materialistas da metafísica pré-socrática, repetindo a fórmula da natureza fundamental da realidade e a definição de Russell da realidade como tudo o que se mencionaria numa descrição completa do mundo, e embora seus métodos sejam mais refinados que os de Demócrito, sua imagem do mundo lembra a velha ideia de átomos no vazio com estrutura quantificacional projetada sobre o material físico bruto, apoiando-se, como em Carnap, Quine e David Lewis, na premissa materialista de que a física define o que fundamentalmente existe e de que basta subtrair as projeções humanas, premissa que precisa admitir a realidade das próprias ilusões que desmascara.

4. A tendência de buscar a realidade aquém da ilusão explica também o debate sobre composição mereológica, isto é, se a realidade em si consiste em qualquer composição possível de porções de matéria, incluindo partes temporais de objetos quadridimensionais, segundo a ideia de que, se a realidade é física e o espaço-tempo quadridimensional, a mesa atual é só uma parte temporal da mesa inteira estendida no tempo, como diz uma amante num romance de Ferdinand von Schirach a quem nunca está inteiramente presente.

5. Há vários diagnósticos sobre o que deu errado nessa discussão, pois enquanto G. E. Moore despertou a filosofia de seu torpor metafísico apontando para suas mãos, ontólogos atuais debatem seriamente se além das mãos há punhos ou se punhos são só mãos dispostas em forma de punho, e Sebastian Rödl atribui a confusão a uma concepção equivocada do tempo, Eli Hirsch propõe aplicar à ontologia a distinção entre metafísica descritiva e revisionária para proteger asserções existenciais triviais, embora ainda trate ontologia e metafísica como a mesma investigação, e Graham Harman recorre à insistência de Heidegger em não minar ontologicamente a coisa por baixo, buscando uma realidade fundamental minúscula, nem por cima, fundando as coisas mesoscópicas em estruturas eidéticas gerais como a consciência transcendental.

6. Jonathan Schaffer usa muitos termos para a grande substância única integrada, como cosmos, realidade, mundo como um todo e universo material inteiro, alegando para ela apoio intuitivo e empírico, mas suas razões intuitivas se reduzem à etimologia grega de cosmos, que remete a uma concepção de ordem e não ao universo material inteiro, e à existência de uma série de televisão dos anos 1980 apresentada por Carl Sagan, argumento que dispensa comentário e provavelmente é irônico.

7. O suposto apoio empírico de Schaffer consiste em que o cosmos é postulado pela física e é objeto da cosmologia, mas postular uma entidade não equivale a ter evidência empírica dela, assim como a caça às bruxas postula bruxas sem prová-las, e seu único argumento genuíno, de que só visões radicais da composição mereológica recusariam o cosmos, não mostra que a intuição ou a ciência exijam tal entidade, e mesmo concedendo sentido ao termo obscuríssimo cosmos, expressão de um sentimento oceânico de unidade com um suposto todo, ele poderia ser apenas um domínio entre muitos.

8. Na escala do microfundamentalismo metafísico, muitas questões da ontologia atual dependem de decisões sobre a realidade dos espécimes de tamanho moderado de bens secos, na expressão de Austin, ou do objeto genérico de Cavell, das antigas torres e varas tortas às maçãs, mesas e cadeiras modernas, mas, como lembra Cavell, não se deve generalizar a partir desses exemplos a ponto de câmaras de bolhas, governos ou casos amorosos parecerem ontologicamente deficientes.

9. O terreno da ontologia é imenso em suas ramificações históricas e atuais, e novas disciplinas como a metametafísica e a metaontologia buscam um terreno metodológico comum, mas muitos pressupostos dessas discussões são irreparavelmente falhos, razão pela qual se busca nova luz sobre as questões da ontologia e da metafísica renunciando a duas ideias, a associação entre ontologia e metafísica e a de que há ou deve haver uma totalidade unificada do que existe, chamada mundo, ser ou realidade, o que exige antes uma compreensão preliminar dos termos empregados.

10. A ontologia é a investigação sistemática do significado de existência, ou da própria existência à luz desse significado, abandonando-se o conceito de ser por ser notoriamente ambíguo entre usos existenciais, identitários e copulativos e por ter sido associado às modalidades de possibilidade e atualidade, como se objetos possíveis tivessem ser sem existência, invenção filosófica para explicar a criação divina e a quase existência de possibilia, impossibilia, futuro e inexistência intencional favoráveis ao meinongianismo, aceitando-se a objeção kantiana de que os vários sentidos de ser não compõem uma categoria nem um gênero supremo, de modo que não há questão do ser assim como não há questão do banco, já que margem de rio e Bank of America não são manifestações da mesma coisa, embora persistam problemas sucessores do antigo enigma do ser, formuláveis em termos de existência.

11. A metafísica combina uma teoria da realidade versus aparência com uma teoria da totalidade, investigação do mundo como mundo, que pode conceber a totalidade como entidade máxima, como o universo espaço-temporalmente estendido, como substância complexa à maneira de Spinoza ou como totalidade dos fatos, sendo igualmente metafísicas a totalidade como ideia reguladora projetada por nossa conceitualização em Kant, como horizonte último em Husserl ou como pressuposto discursivo da comunicação em Habermas, todas oriundas do desejo de desvelar a realidade em si, independente do que lhe acrescentamos ao pensá-la, convertendo-a na totalidade do que de qualquer modo é o caso, a concepção absoluta da realidade de Bernard Williams, unificada por ser o que é independentemente das atividades de sujeitos cognoscentes e agentes, num dualismo entre realidade em si e aparência para nós.

12. Esse dualismo gera manobras conhecidas para transpor o abismo ou mostrar que ele não prejudica a teoria, mas mesmo quem o mantém enfrenta a pergunta pelo domínio que une ambos no domínio total do que existe, e, a menos que se eliminem as aparências negando sua existência, é preciso acomodá-las numa imagem do mundo mais ampla enquanto se opera no projeto metafísico.

13. Todas as teorias metafísicas concordam que há uma realidade total unificada, o mundo, unificada ao menos por nela coexistir tudo o que existe, o que corresponde tecnicamente à quantificação irrestrita, ao passo que as aparências seriam geradas por níveis contextuais, vagos e desordenados de quantificação restrita, de modo que, se o domínio irrestrito coincidir com os objetos da microfísica, geladeiras e cerveja se tornam aparências, meras somas mereológicas arbitrárias de micropartículas, das quais se fala de modo restrito, como quando a pergunta se há cerveja significa, no uso comum, se há cerveja na geladeira ou perto da festa, e não se a cerveja existe em absoluto.

14. A quantificação irrestrita pretende satisfazer o desejo metafísico ao perguntar pela existência real ou última de um objeto ou de sua espécie, sem mais, independentemente dos parâmetros contextuais impostos por nosso interesse em cerveja e geladeiras, opondo-se assim a quantificação restrita, as aparências, à existência pura e simples, correspondente à realidade última ou fundamental.

15. Defende-se o niilismo metametafísico, a tese de que a metafísica literalmente não fala de nada, sem objeto nem domínio de referência, também chamado visão do não mundo, segundo a qual o mundo não existe, o que não equivale ao niilismo metafísico de que nada existe, ainda uma tese metafísica, nem nega que se possa distinguir significativamente realidade de mera aparência, apenas recusa que todas as realidades sejam unificadas por um traço geral, como a existência ou a existência real, que permitisse traçar uma linha clara entre como as coisas são e como as representamos.

16. Conforme a concepção de metafísica adotada, a negação da existência do mundo será entendida como recusa de uma entidade unificada chamada mundo, realidade ou natureza, de um domínio unificado de fatos ou esfera de objetos abrangente, ou de que a quantificação absolutamente irrestrita exista ou tenha sentido, sustentando-se ainda que mesmo havendo quantificação irrestrita não haveria ganho de conhecimento metafísico ou ontológico, já que a existência não está relevantemente ligada à quantificação nem à teoria dos conjuntos, não sendo um conceito particularmente matemático ou lógico, pois há objetos vagos, desordenados e incompletos, como meia torta, que não se ajustam à ideia de objetos discretamente individuados num domínio independente da atividade humana, e a unificação individuante não exige o conceito matemático de um.

17. Apesar do niilismo metametafísico e de argumentos semelhantes aos de Putnam contra o realismo metafísico, sustenta-se um realismo ontológico pleno, uma nova ontologia realista, ilustrável pelo Etna, diante do qual o velho realismo metafísico afirma haver realmente um vulcão naquela região do espaço-tempo independentemente de nossa relação com isso, isto é, uma única descrição complexa que o individua sem envolver nossos órgãos dos sentidos nem nada que acrescentemos à sua pura condição de montanha num universo semanticamente frio, associando realismo a independência da mente, ao passo que o antirrealismo insiste em que criamos o vulcão ao individuá-lo.

18. Um antirrealismo sobre vulcões poderia apoiar-se num antirrealismo geral sobre montanhas e vales, conceitos supostamente relativos a interesses e perspectivas de criaturas de pé sobre a Terra, já que um marciano que andasse sobre a mão esquerda e desafiasse a gravidade poderia parecer descer a montanha ao vir do vale, ou como no argumento de um personagem de Tabu, de Schirach, de que a Suíça, com as montanhas esticadas, seria quase tão grande quanto a Argentina, reduzindo as montanhas a modos de uma substância abrangente, e se o realismo for atado à máxima independência da mente, tais argumentos minam muitas categorias até o construtivismo radical, mas o antirrealismo tem um ponto passível de interpretação realista que não converte montanhas, governos, casos amorosos e elétrons em questão de convenção, como pretende Putnam, pois compreender sua existência não exige mencionar nenhum ato oculto de constituição, convenção ou decisão.

19. O velho realismo falha também por excluir a realidade da mente ao definir o real como o metafisicamente objetivo, acessível apenas na terceira pessoa, sem razão para que a mente seja menos real que proteínas ou elétrons por depender da mente em algum sentido, e porque, além de existirem a subjetividade e suas ilusões, a serem estudadas pelo autoconhecimento e não negadas, as mentes trazem a relatividade conceitual no sentido de Putnam, o fato de descrevermos situações de modos diferentes conforme o que contamos como objeto ou como real, que o velho realismo tem dificuldade em acomodar.

20. O novo realismo ontológico afirma que toda perspectiva sobre o Etna é tão real e está tão lá fora quanto o próprio Etna, pois o fato de ele parecer montanha para mim e vale para o marciano é um fato relacional que envolve o próprio Etna, e não só a mim ou ao marciano, de modo que ser realista não exige uma realidade independente da mente ou da perspectiva, e o realismo se opõe antes ao construtivismo, já que o fato de construirmos critérios de identidade dos objetos indica que os próprios objetos não precisam estar sujeitos a esses critérios, e a linguagem da construção, ao distinguir nossa contribuição da contribuição das coisas, ignora que nossas construções podem individuar objetos que não são construções.

21. Simplificando, o velho realismo metafísico interessa-se exclusivamente pelo mundo sem espectadores e o construtivismo pelo mundo dos espectadores, oscilando entre pôr entre parênteses fenomenologicamente o mundo sem espectadores e negá-lo, enquanto o novo realismo ontológico ocupa um meio-termo ao reconhecer a existência de perspectivas e construções como relações que envolvem o mundo.

22. A visão do não mundo impede, porém, essa simplificação, pois rejeita de saída a ideia de um mundo de um lado e uma mente de outro, já que nem mente nem mundo podem ser suficientemente unificados para formar uma dualidade, o que se defende como pluralismo ontológico e epistemológico, segundo os quais não há domínio unificado de existência independente da perspectiva nem domínio unificado do saber humano como tal, o que não implica ceticismo nem que ninguém saiba nada, mas que a unificação das formas de saber não pode ser obtida por sua relação geral com um mundo cujos setores corresponderiam a diferentes formas de saber, sendo o pluralismo epistemológico uma posição liberal que admite uma pluralidade de formas de saber proposicional sem um método privilegiado de averiguação e justificação numa prática discursiva chamada ciência.

23. O vocabulário tradicional é substituído por equivalentes ontologicamente realistas, como sentidos em vez de perspectivas, a partir de uma leitura contestável de Frege em que os sentidos são modos objetivos de apresentação associados a objetos de qualquer tipo e, mais controversamente, propriedades dos objetos e não maneiras de olhá-los, situando-se a teoria do sentido primariamente na ontologia, como reconstrução do significado de existência, e só derivadamente na teoria do conhecimento ou do significado linguístico, de modo que, para Frege, existir é cair sob um conceito e os conceitos se individuam por seus sentidos, não havendo objetos aquém de seus modos de apresentação nem abismo categorial entre sentidos e objetos, nem reino de mera extensão abaixo desse limiar, sendo os sentidos propriedades ou traços dos objetos, como sugeriu Mark Johnston, o que afasta Frege do atomismo lógico russelliano, que postula indivíduos de individuação misteriosa que só entram no pensamento ao serem nomeados, ideia já rejeitada no Teeteto de Platão.

24. Defende-se uma variante ontológica do descritivismo contra a objeção de Kripke, que mostrou que o descritivismo irrestrito não é a melhor teoria da referência porque podemos nos referir a objetos com descrições ruins e revisá-las após o contato, o que prova apenas que podemos referir com descrições inadequadas, não que os objetos existam independentemente de todas as descrições que valem para eles, de modo que o descritivismo ontológico, teoria da identidade dos objetos e não do significado linguístico, não conflita com a teoria da referência, sendo a diferença entre objetos e sentidos funcional e não substancial e injustificada a inferência de Kripke a espécies naturais, pois os objetos se individuam por descrições que valem objetivamente para eles independentemente de alguém apreender esses fatos, fazendo os sentidos parte do mobiliário da realidade, que por isso pode aparecer sem ser distorcida, como a estrela que daqui parece um ponto minúsculo, o que revela algo de como as coisas são e permite leis ópticas objetivas e o estudo do equipamento sensorial de outras espécies sem salto de fé numa subjetividade alienígena.

25. Em vez de domínios de objetos fala-se de campos de sentido, estruturas em que objetos aparecem independentemente de nossas projeções de critérios de identidade, ao contrário da tendência de pensar as demarcações de domínios ou conjuntos por predicados construídos, e como essas estruturas de campo existem independentemente de como fixamos os critérios para identificá-las, mesmo onde nos referimos explicitamente a nossos modos de pensar, a posição merece o nome de realismo ontológico, ontológico por derivar de uma análise do conceito de existência.

26. A esse realismo ontológico associa-se um realismo epistemológico, no sentido de compromisso com um acesso desimpedido ao que existe, que nos casos paradigmáticos é saber, em concordância com o antigo argumento fenomenológico de que mesmo numa alucinação global cartesiana estamos confrontados com um mundo de acesso imediato, pois toda explicação com intermediários epistêmicos, como dados sensoriais, estados neurais ou representações mentais, precisa explicar nosso acesso à interface, que faz parte de como as coisas realmente são, de modo que o ceticismo da interface só mostra que confundimos o acesso imediato à interface com o acesso imediato a outra coisa, nunca que não temos acesso imediato a nada.

27. Os cenários céticos alucinatórios oferecem uma explicação alternativa que não se exclui pela simples insistência na explicação preferida ou em sua superioridade como inferência da melhor explicação, pois a melhor explicação é a verdadeira e, numa alucinação global cartesiana, seria a que menciona a alucinação, mas isso não justifica recuo cético, antes evidencia a confiança em nossa capacidade de descobrir o que é o caso ao sermos imediatamente confrontados com ele.

28. Como há tanta realidade a explicar na alucinação quanto na experiência verídica, não há ameaça epistemológica específica à abertura genuína à realidade no caso verídico, e o caso alucinatório é tão aberto à realidade quanto qualquer outro, com a diferença de que o sujeito pode não sabê-lo e tirar conclusões equivocadas, a menos que se defina a realidade de modo a excluir por estipulação a realidade das alucinações.

29. Laura, neurocientista futurista perfeita que sabe tudo sobre alucinações a partir do cérebro, sofre de uma condição que a faz alucinar a Virgem Maria com vestido azul e coroa dourada, mas, ateia radical, não conclui que vê Maria, e graças a seu saber toma o vestido azul como evidência direta de um evento ou conjunto de eventos neurais específicos, sem ser enganada pela alucinação, caso semelhante ao de identificar como estrela distante um ponto no céu noturno, de modo que cenários de alucinação global apenas apontam nossa falibilidade, sem estabelecer intermediários epistêmicos em todos os níveis que impeçam dar sentido a uma abertura não problemática.

30. O argumento da facticidade, presente na retomada da filosofia especulativa por Quentin Meillassoux e no ataque de Paul Boghossian à inteligibilidade do construtivismo, sustenta que toda explicação que pretende separar um sistema representacional daquilo que representa acaba supondo que ele tem acesso imediato a algum estrato de informação, podendo apenas mostrar que a natureza dessa informação difere das expectativas do sistema, como na crença de que computador e mesa aparecem no campo visual por interagirem causalmente com os sentidos, cuja explicação real envolve bilhões de neurônios, longa história física e evolutiva e a história da tecnologia, sendo toda explicação mais complicada que os achados fenomenológicos sem minar sua confiabilidade nem sua exatidão.

31. Não há como unificar o saber humano num conceito de saber humano como tal que pudesse ser minado ceticamente para fundar epistemologias construtivistas ou idealistas, nem se pode concluir justificadamente que estamos isolados do mundo, não só porque não há mundo como domínio unificado, mas porque isso contrabalança a força da unificação epistemológica, sendo o conceito de saber maximamente unificado a contrapartida epistemológica da tentativa metafísica de unificar a realidade.

32. É difícil fazer ontologia sem falar das modalidades, e uma nova concepção modal coerente com a visão do não mundo rejeita os mundos possíveis como resquício metafísico, substituindo-os por uma pluralidade de mundos atuais, os campos de sentido, que coexistem sem formar um mundo do qual seriam partes ou ao qual se relacionariam como descrições a um mundo plano de fatos sem descrição, e que não se identificam com os mundos de Nelson Goodman nem são descrições igualmente boas de um domínio subjacente, como na relação entre variância de quantificadores e realismo em Eli Hirsch, cujas formulações sobre maneiras de dividir o mundo em objetos sugerem enganosamente um mundo unificado cuja ordem rastreamos, gerando preocupações infundadas sobre a adequação de nossas atividades epistêmicas, já que estas teriam de fazer parte do mundo ou do absoluto, em concordância provisória com a observação irônica de Putnam de que mente e mundo juntos compõem mente e mundo, que ainda precisa ser qualificada por usar a ideia de mundo sem perguntar se ele existe ou é uma totalidade.

33. Pelo argumento da lista, supondo apenas três objetos, x, y e z, com fatos verdadeiros como serem um urso, um coelho e uma floresta e o urso tentar matar o coelho, e finitos fatos, uma lista de todos eles seria uma imagem do mundo que, se o mundo for o domínio que tudo abrange, teria de fazer parte dele, alterando-o ao acrescentar objetos, como o autor da lista, e fatos, como haver uma lista da totalidade dos fatos, exigindo sempre nova lista, incompletude que não é mero defeito de nossas descrições, e dizer que o mundo era completo antes de ser pensado seria uma mudança ad hoc do significado de mundo, excluindo arbitrariamente dele a capacidade de descrevê-lo para preservar sua integridade, como se um universo epistêmica e semanticamente frio fosse melhor forma de o mundo ser totalidade dos fatos do que o mundo descrito por alguns de seus habitantes.

34. Por trás da ideia de que a realidade deve ser concebida como absolutamente neutra para sermos bons realistas está a decisão injustificada de tratar a aparência como ontologicamente efêmera, vendo o pensamento como efeito colateral menor de um longo tempo biológico evolutivo em si sem sentido, mas a ausência de razão teleológica para o universo gerar animais pensantes é irrelevante para a ontologia.

35. A zoontologia, ideia de que compreender o ser é compreender a vida e a morte, parece sustentar nosso senso evolutivamente inato de realidade, mas, embora os humanos se interessem pela vida e por sua relação com as atividades epistêmicas, isso não é central para a ontologia, sendo um traço paroquial do que existe que alguns objetos estejam vivos ou façam ontologia, ainda que nossa forma de vida dê carne concreta e colorida ao esqueleto lógico das descrições dos fatos.

36. Um fato é uma constelação de objetos unida por uma descrição que vale para eles, como 7 e 5 somarem 12 sob as leis da aritmética, verdade situada abaixo de qualquer concepção representacional, e muitas descrições nos chegam por nosso equipamento sensorial, como as descrições visuais coloridas e temporalizadas do campo visual objetivo da espécie, entidades lógicas e não linguísticas, que variariam numa visão panorâmica como a da baleia de Melville, com olhos nos quatro lados da cabeça ou na temporalização de uma mosca, assim como a primeira concepção articulada de tempo, segundo Michael Theunissen, se baseava na duração da vida humana, mas isso não torna o acesso à realidade irremediavelmente perspectivista, pois dispomos de descrições abstratas de nossas perspectivas sensoriais, pertencentes ao sentido do pensar, de modo que sensação e percepção têm forma de descrições verdadeiras quando valem para seus objetos, um pensamento verdadeiro é um fato, embora a maioria dos fatos sejam verdades independentes da mente, como a Lua ser menor que a Terra, e enquanto o pensamento verdadeiro é imediatamente fato e propriedade de seu objeto, sem sujeito e facilmente compartilhável, o falso só é fato por acidente, pelo fato de ser falso, e constitui um sujeito cuja explicação exige uma teoria da subjetividade.

37. Nos capítulos epistemológicos privilegia-se a descrição do pensamento verdadeiro, seguindo McDowell no propósito de exorcizar o ceticismo em vez de partir do pensamento verdadeiro-ou-falso, metodologia justificada por estar mesmo o pensamento falso inserido em fatos que o descrevem como falso por alguma razão, faltando ainda uma teoria do pensamento falso que faça justiça à pluralidade de suas categorias, como ideologia, ilusão e alucinação, o que abre espaço para reabilitar a psicanálise não como desmascaramento do pensamento verdadeiro, crítica feita sob o nome de psicologismo, mas como instrumento de descrição do reino do falso, assim como outras formas de teoria crítica e a fenomenologia no sentido setecentista e oitocentista de teoria geral do erro, desde que à altura da epistemologia realista atual e sem que fitar o abismo do falso leve à falsa ideia de que o pensamento tende a falsificar-se ou a opor-se à realidade.

38. O resultado da filosofia do século XX é uma virada realista que une todas as tradições ocidentais, revelando-se equivocadas as orgias construtivistas de autonegação cética da verdade, adiamento do compromisso, meta-reflexividade, epoché de ordem superior ou relativismo dos jogos de linguagem, incapazes de acomodar o argumento da facticidade, pois se sempre há um ponto em que é preciso parar de cavar ou subir, nenhuma metodologia que pressuponha poder sempre fazer mais uma pergunta é ainda opção.

39. Elizabeth Anscombe observou com precisão que é preciso distinguir o fato de sempre haver um ponto em que se deve parar de perguntar do fato de que se deve parar sempre no mesmo ponto.

40. Para Anscombe, filósofos antigos e medievais julgavam demonstrável que os humanos agem sempre com um fim e até com um único fim, argumento estranho, já que alguém pode simplesmente fazer o que faz, com ou sem razão ou propósito, sem que se exija uma razão para o propósito nem um propósito final único, e embora os antigos quisessem mostrar que a cadeia não pode prosseguir indefinidamente, ela pode parar onde para, sem precisar terminar num fim intrinsecamente final e comum a todas as ações, havendo em Aristóteles uma passagem ilícita de que todas as cadeias param em algum lugar para a de que há um lugar onde todas devem parar.

41. Não há ponto geral em que se deva ou se costume parar, nem o princípio incondicionado buscado por Platão e Aristóteles, de modo que a ontologia aqui defendida é um realismo anárquico, sem princípio geral organizador, a menos que se chame a visão do não mundo de princípio metodológico, na medida em que define um espaço limitado de orientação ao proibir todo movimento que conduza a uma imagem do mundo ou nela se funde.

42. É importante não esquecer o justificado lembrete de Heidegger de que é preciso superar a ontoteologia, entendida como associação entre metafísica, teoria da totalidade irrestrita, e ontologia, investigação do significado de existência, ainda presente em muitos argumentos que tratam ambas quase como sinônimas, sendo a crítica da metafísica de Heidegger e da filosofia francesa pós-heideggeriana correta quando dirigida contra a ontoteologia e falsa quando se converteu em hipérbole construtivista pós-moderna, ficando em aberto se Lyotard, Lacan ou Derrida foram pós-modernos nesse sentido, ao passo que Richard Rorty teve momentos plenamente pós-modernos, o que sugere que o pós-modernismo foi uma invenção americana, se é que ocorreu, talvez um simulacro fugaz que afirmava ser tudo um simulacro fugaz.

43. Heidegger e Hans Blumenberg tinham razão ao apontar que a ontoteologia ainda molda as imagens de mundo atuais pelo próprio fato de serem imagens de mundo, mas, como Wittgenstein ao relacioná-las à mitologia, concluíram erroneamente que a filosofia não deve apresentar-se como série de argumentos ou teoria, quando superar a ontoteologia pressupõe compreender suas falácias e oferecer outros argumentos nas regiões que ela abriu, substituindo a metafísica por disciplinas sucessoras como a ontologia, pois a metafísica estrutura nosso modo geral de ver as coisas ao sugerir que deve haver uma boa imagem do mundo, gerando a luta entre explicações científica e religiosa do mundo, fruto de uma filosofia equivocada da ciência e ainda mais da religião, já que nem ciência nem religião podem ser imagens do mundo, e se dependessem disso teriam de ser substituídas por outras práticas.

44. Fica em aberto como pensar os modos específicos de apreender fatos reunidos sob ciência, arte ou religião, tratando-se apenas de ontologia e de partes da epistemologia para esboçar a nova ontologia realista dos campos de sentido, cujos argumentos podem revelar-se falhos ou insuficientemente desenvolvidos, pois nenhum livro, filosófico ou não, pode ter cada palavra no lugar certo e cada argumento como refutação definitiva de todos os oponentes, e a relação com os interlocutores, incluindo futuras partes temporais de si, é a abertura de um diálogo real, sem pretensão de esgotar o campo da ontologia, como escreve Schelling no fim de seu Ensaio sobre a Liberdade, obra romântica e de difícil acesso, mas das mais importantes da história da ontologia.

45. Schelling afirma que manterá no futuro o curso adotado no tratado, onde, mesmo sem a forma externa do diálogo, tudo surge como diálogo, admitindo que muitas coisas poderiam ter sido definidas com mais precisão e protegidas contra má interpretação, o que em parte omitiu de propósito, e que quem não puder aceitá-lo assim não deve aceitar nada dele e buscar outras fontes.

46. A reivindicação de conhecimento por teses e análises de conceitos filosóficos pressupõe definir seu significado até um grau determinado por parâmetros contextuais de clareza, pois não há clareza absoluta, como mostrou Leibniz nas Meditações sobre o Conhecimento, a Verdade e as Ideias, já que ela exigiria conhecimento intuitivo adequado de todos os átomos semânticos das definições dos conceitos usados na análise de outros, ideal impossível que não pode orientar a filosofia nem outra ciência, sendo cada argumento filosófico um caminho pela selva indefinida das possibilidades, cuja plausibilidade decorre da clareza obtida à luz da possibilidade de mudar modos de pensar arraigados e nocivos.

47. A era das imagens do mundo que nos acompanha desde o período axial é governada por hábitos de pensamento nocivos a serem superados como outras formas de dogmatismo e cegueira, em vista de um progresso na consciência da liberdade, e as objeções que a nova ontologia provoca são necessárias para esclarecer o terreno que ela delineia.

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