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0 Introdução

GABRIEL, Markus. Ich ist nicht Gehirn: Philosophie des Geistes für das 21. Jahrhundert. Berlin: Ullstein Verlag, 2015. / Eu não sou meu cérebro. Petrópolis: Vozes, 2021.

1. Somos seres vivos espirituais que, acordados e conscientes, pensam, sentem, temem e esperam, conversam, fundam Estados, votam em partidos, fazem ciência e arte, apaixonam-se, enganam-se e são capazes de saber o que é o caso, e embora as neurociências revelem em parte quais áreas cerebrais se ativam diante de imagens ou de pensamentos determinados e algo da neuroquímica dos estados e perturbações emocionais, resta saber se essa neuroquímica dirige toda a vida e o comportamento espirituais e conscientes, se o Eu consciente é apenas a interface de usuário do cérebro, mero espectador que nada contribui para o comportamento, e se a vida consciente é só um palco onde se encena uma peça na qual não se pode intervir livre e conscientemente.

2. O fato aparentemente evidente de sermos seres vivos espirituais que levam uma vida consciente suscita inúmeros enigmas, dos quais a filosofia se ocupa há milênios no ramo hoje chamado filosofia do espírito, mais relevante agora do que nunca.

3. Muitos consideram a natureza da consciência um dos últimos grandes enigmas não resolvidos, pois não se sabe por que em algum produto da natureza deveria, por assim dizer, acender-se a luz, nem como a tempestade de neurônios sob o crânio se relaciona com a consciência, questões tratadas pelas subdisciplinas da filosofia da consciência e da neurofilosofia.

4. Esclarecer sem pressupostos os fundamentos filosóficos de conceitos centrais como consciência, autoconsciência e Eu, frequentemente usados sem conhecimento de sua origem e por isso fonte de confusões, serve de base para defender a liberdade da vontade contra a ideia corrente de que Deus, o universo, a natureza, o cérebro ou a sociedade nos tornariam não livres às nossas costas, pois somos livres de ponta a ponta por sermos seres vivos espirituais, sem deixar de pertencer ao reino animal, nem meras máquinas de copiar genes com um cérebro implantado nem anjos extraviados num corpo, mas os seres livres e espirituais que há milênios julgamos ser e que lutam também politicamente por suas liberdades.

Partículas de Matéria e Organismos Conscientes

1. Um desafio de nosso tempo é a cientificização da imagem do ser humano em busca de um saber objetivo sobre quem ou o que ele é, mas o espírito humano se interpõe por escapar até agora à investigação das ciências naturais, razão pela qual há décadas se tenta estabelecer as neurociências como as ciências naturais do espírito humano.

2. Talvez se exija das neurociências mais do que podem oferecer, já que até há pouco ninguém pensaria que um neurologista ou neurobiólogo fosse o especialista no espírito humano, e é duvidoso que as neurociências em geral ou a pesquisa cerebral em particular possam informar sobre o nosso Si.

3. Abrir novas perspectivas para a filosofia do espírito de modo acessível e em continuidade com intelecções antigas é possível porque o autoconhecimento está há muito no centro da filosofia, e sua pré-história ajuda a entender a origem tanto dos problemas reais quanto dos pseudoproblemas que nos ocupam.

4. Saber em que medida adaptar a imagem do ser humano ao progresso tecnológico exige examinar com mais rigor que no cotidiano os conceitos de nosso autorretrato, como consciência, espírito, Eu, pensamento e liberdade, pois só assim se percebe onde se é levado a terreno escorregadio quando se assegura que não há vontade livre ou que o espírito humano é apenas uma espécie de tensão superficial do cérebro ou, como chegaram a supor Francis Crick e Christof Koch antes de restringirem a hipótese, disparos neuronais sincronizados na faixa de 40 Hz.

5. Ao contrário do mainstream da atual filosofia da consciência, às vezes indevidamente chamada em alemão de filosofia do espírito, adota-se uma posição antinaturalista contra o naturalismo, que pressupõe que tudo o que existe pode ser investigado pelas ciências naturais e em geral admite ao menos implicitamente o materialismo, a tese de que só há objetos da implacável realidade material-energética, o que se torna problemático para a consciência, ainda inexplicada e talvez inexplicável pelas ciências naturais e estudada pelas ciências humanas e sociais, pois implicaria que a República Federal da Alemanha, os mundos romanescos de Houellebecq, o luto pelos mortos, pensamentos, sentimentos e o número π seriam materiais ou não existiriam realmente.

6. O antinaturalismo parte de que nem tudo o que existe é materialmente constituído ou investigável pelas ciências naturais e de que há realidades imateriais, intelecção do senso comum acessível a todos, pois quem considera alguém amigo, nutre sentimentos por ele e ajusta seu comportamento a isso não toma a amizade por coisa material, nem a si mesmo apenas por coisa material, embora não fosse quem é sem um corpo adequado, que não teria se as leis naturais ou a evolução biológica tivessem sido outras.

7. A disputa entre naturalismo e antinaturalismo importa não só à filosofia acadêmica e à relação entre ciências naturais e humanas, mas a todos, sobretudo numa época de alegado retorno da religião, vista com razão como bastião do imaterial, pois quem ignora precipitadamente as realidades imateriais, como o naturalismo atual, acaba incapaz de entender a religião, tomando-a desde o início por superstição ou história de assombração, e mostra-se deficiente a ideia de que todos os processos inter-humanos poderiam ser compreendidos e controlados por avanços científicos, tecnológicos e econômicos.

8. No século passado muitos pensadores quiseram despedir-se do Esclarecimento e do racionalismo ou apontar criticamente seus limites, como Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento, para quem a Modernidade seria um acidente fadado a terminar no totalitarismo, mas a Modernidade só é deficitária enquanto se apoia na convicção materialista de que no fundo só há partículas de matéria distribuídas por leis naturais num gigantesco recipiente-mundo até que, após bilhões de anos, surjam organismos conscientes como enigma, pois assim jamais se entenderá o espírito humano, intelecção que levou os gregos a inventar a filosofia.

9. Recuperar uma filosofia do espírito antinaturalista exige abandonar a ideia de que se deve escolher entre uma visão de mundo científica e uma religiosa, ambas equivocadas por princípio, contra o grupo de críticos da religião histórica e teologicamente mal informados reunidos sob o nome de Novo Ateísmo, como Sam Harris, Richard Dawkins, Michel Onfray e Daniel Dennett, que opõem religião como superstição a ciência como verdade gélida e sem retoques, quando não há visões de mundo coerentes e a religião não se identifica com superstição, assim como a ciência não se identifica com Esclarecimento.

10. A perspectiva antinaturalista sobre nós mesmos como seres conscientes e espirituais pretende ligar-se às grandes tradições do autoconhecimento desenvolvidas na história do espírito, não apenas no Ocidente, tradições que não desaparecerão porque uma pequena elite tecnológica e econômica lucra com a Modernidade e julga dever expulsar a superstição religiosa, real ou suposta, e com ela o espírito das ciências humanas, pois a verdade não se restringe às ciências naturais e se encontra também nas ciências sociais e humanas, na arte, na religião e em condições cotidianas, como ao descobrir que o ar-condicionado do trem de alta velocidade falha com frequência excessiva no verão.

A Década do Cérebro

1. A história recente da ideia de que as neurociências seriam a disciplina diretriz de nossa autoinvestigação é notável e reveladora, pois em 1989 o Congresso dos Estados Unidos decidiu inaugurar uma década de pesquisa sobre o cérebro, proclamada publicamente por George H. W. Bush em 17 de julho de 1990 com o objetivo oficial de compreender melhor, por métodos da pesquisa cerebral, relações médicas no plano da neuroquímica para desenvolver medicamentos contra Alzheimer ou Parkinson.

2. A proclamação de Bush termina de modo solene e pomposo, como é usual no gênero, declarando a década iniciada em 1º de janeiro de 1990 como a década do cérebro e conclamando funcionários e povo americano a celebrá-la com programas, festividades e atividades apropriadas.

3. Com uma década de atraso, surgiu na Alemanha, sob o patrocínio do então ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália, Wolfgang Clement, uma iniciativa semelhante intitulada Década do Cérebro Humano, lançada por cientistas renomados num congresso na Universidade de Bonn.

4. O comunicado de imprensa dessa iniciativa começa com a frase pouco defensável de que dez anos antes seria pura especulação poder um dia observar o cérebro pensando, o que é estranho porque é absurdo supor que se possa ver um ato de pensamento, sendo visíveis no máximo áreas cerebrais tomadas como condições necessárias desses atos, e resta saber se se pretende literalmente ver o cérebro processar pensamentos, isto é, ver e não apenas ter ou compreender pensamentos, ou apenas, modestamente, observar o cérebro em atividade sem com isso ler pensamentos.

5. George Bush não é pesquisador do cérebro, de modo que o êxito só pode ser político ou consistir em canalizar mais recursos públicos para a pesquisa cerebral, o que nada tem a ver com poder observar o cérebro pensando.

6. Procedimentos de imagem como a ressonância magnética funcional, aludida pela declaração alemã, são um avanço absoluto e não invasivo da medicina, que permite visualizar o cérebro vivo por modelos computacionais, e não diretamente, sem intervenção maciça no órgão, mas vêm ligados à promessa irrealizável e propriamente absurda de tornar visível o pensamento, pois pensar, entendido como ter conscientemente pensamentos, envolve muito mais que processos cerebrais visualizáveis, e estes podem ser tornados visíveis em certo sentido, mas não o pensamento.

7. As duas décadas do cérebro, encerradas oficialmente em 31 de dezembro de 2010, caracterizaram-se por não se limitar ao progresso médico e prometer autoconhecimento, investindo as neurociências da pretensão de servir como disciplina diretriz da autoinvestigação humana ao localizar pensamento, consciência, Eu e o próprio espírito num objeto observável no espaço-tempo, o cérebro ou sistema nervoso central, ideia chamada neurocentrismo, que, assim como o eurocentrismo colonialista, hoje insustentável diante de outras superpotências, vinculava o ápice do pensamento à Europa ou ao Ocidente, situa agora o pensamento no cérebro, movido por uma fantasia de onipotência pouco científica e pela esperança de controlá-lo pelo mapeamento, como sugere o Brain Activity Map de Barack Obama.

8. A ideia fundamental do neurocentrismo é que ser um ser vivo espiritual consiste apenas em ter um cérebro adequado, resumindo-se na fórmula Eu é cérebro, segundo a qual o significado de Eu, consciência, si, vontade, liberdade ou espírito não deve ser buscado na filosofia, na religião ou no senso comum, mas na investigação neurocientífica do cérebro, de preferência aliada à biologia evolutiva, ao que se opõe a tese crítica diretriz: Eu não é cérebro.

9. Além dos conceitos fundamentais da filosofia do espírito, examina-se a vontade livre, perguntando se somos livres ou se há boas razões para nos concebermos como biomáquinas movidas pela fome de vida que nada buscam além de transmitir seus genes, sendo que somos de fato livres, sobretudo por sermos seres vivos espirituais.

10. Para esclarecer isso convém retomar reflexões da filosofia do espírito antiga e recente, pois ainda não chegou à esfera pública que a filosofia do espírito deste jovem século desaconselha o neurocentrismo.

11. A filosofia tentou por algum tempo dar base teórica ao neurocentrismo e participou com entusiasmo da década do cérebro, revelando-se assim que está longe de ser evidente que o Eu seja o cérebro, pois a filosofia do espírito tem uma história em que conceitos como o Eu e o espírito foram introduzidos e depois fizeram carreira própria em outras áreas, como a psicologia, sendo muitas vezes atacados, até por filósofos profissionais, sem que se saiba de onde provêm e a que intelecções seus introdutores os ligavam.

12. Muitos resultados da filosofia do espírito dos últimos duzentos anos já contrariam o neurocentrismo, e pensadores antigos não estão errados por terem vivido no passado, assim como a filosofia do espírito de Platão nada perde por ter surgido na Atenas antiga, em meio a uma alta cultura a que devemos algumas das mais profundas intelecções sobre nós mesmos, e Homero, Sófocles, Shakespeare ou Elfriede Jelinek podem ensinar mais sobre nós do que as neurociências, que tratam do cérebro, condição necessária mas não suficiente da vida consciente, de modo que julgar entender plenamente o espírito ao entender o cérebro seria como julgar entender plenamente o andar de bicicleta ao entender as pernas.

13. Uma fraqueza central da identificação do Eu com o cérebro é fazer parecer que o cérebro apenas simula um Eu e um mundo exterior, já que só conheceríamos as imagens mentais que ele faz da realidade, tornando toda a vida espiritual uma ilusão ou alucinação, tese do neuroconstrutivismo, segundo o qual as capacidades espirituais se identificam com regiões cerebrais que constroem imagens mentais das quais não podemos nos desprender para compará-las com a realidade, ideia sintetizada nos versos de Rilke sobre a pantera, para quem é como se houvesse mil barras e, atrás delas, nenhum mundo.

14. Contra isso surgiu, entre outros, o chamado novo realismo, cuja ideia fundamental já fecundou o debate sobre o alcance do neuroconstrutivismo, como mostra a edição da revista Gehirn und Geist intitulada A Grande Ilusão, que, com referência à filosofia do espírito e numa entrevista com Alva Noë, questiona o neuroconstrutivismo.

15. No plano da autoinvestigação humana, a década do cérebro fracassou de modo bastante completo, como registrou o Süddeutsche Zeitung ao concluir que o ser humano permanece ilegível, sendo tempo de repensar quem ou o que é o espírito humano e de apresentar os contornos de uma filosofia do espírito para o século XXI.

16. Compreender essas reflexões não exige familiaridade com o debate anterior sobre o novo realismo e a crítica ao neuroconstrutivismo, pois, contra a justa impressão de leitores interessados mas não especialistas de que obras filosóficas só se entendem após inúmeras leituras prévias, a exposição pretende ser acessível sem pressupostos ao informar sempre sobre as ideias fundamentais relevantes do pano de fundo.

Liberdade Espiritual no Escaneamento Cerebral?

1. O objetivo é defender um conceito de liberdade espiritual que inclui a capacidade de nos enganarmos e sermos irracionais, mas também a de descobrir o que é o caso, pois na filosofia, como em qualquer ciência, formulam-se teorias, dão-se razões e invocam-se fatos a serem reconhecidos e compreendidos sob certa luz, consistindo uma teoria em considerações verdadeiras ou falsas, e ninguém é infalível, sobretudo no autoconhecimento, como Sófocles mostrou drasticamente em Édipo Rei.

2. O neurocentrismo e seus precursores, a visão de mundo científico-natural, o estruturalismo e o pós-estruturalismo, são teorias filosóficas, e embora seus defensores aparentem apoiar-se em descobertas científicas indubitáveis e em fatos reconhecidos por especialistas, como se a identidade entre Eu e cérebro decorresse dos achados empíricos da pesquisa cerebral, suas suposições de largo alcance formulam pretensões genuinamente filosóficas, não delegáveis a outra ciência, e por não o reconhecerem explicitamente imunizam-se contra a crítica.

3. Também o neurocentrismo usa conceitos como consciência, pensamento, Eu, espírito e vontade livre, que, por sua pretensão de absolutidade não fundamentável empiricamente, são e permanecem conceitos filosóficos, com cuja ajuda descobrimos relações sobre nossa biologia e sobre o universo em que a Terra gira a velocidade vertiginosa há tempos vertiginosamente longos.

4. A compreensão dos conceitos com que nos descrevemos como seres espirituais foi moldada por uma história milenar do espírito, da cultura e da linguagem, desenvolvida de modo complexo na tensão entre compreensão da natureza, literatura, jurisprudência, artes, religiões e experiências sócio-históricas, que simplesmente não pode ser descrita na linguagem das neurociências, sendo disciplinas como neuroteologia, neurogermanística ou neuroestética golens teóricos pavorosos, na fórmula de Thomas E. Schmidt no Die Zeit, pois se uma disciplina se legitimasse por observar o cérebro durante a investigação de seus objetos, seria preciso uma neuroneurociência e talvez uma neuroneuroneurociência.

5. Não parece casual que a década do cérebro tenha sido proclamada logo após a queda do Muro em 1989, no fim iminente da Guerra Fria, nem que se tratasse apenas de apoio político à pesquisa médica, pois a ideia de observar o cérebro, e com ele o cidadão, pensando significa também uma nova possibilidade de controle para a sociedade de vigilância e o complexo industrial-militar, além das conhecidas promessas de controle dos consumidores e de novos mecanismos de manipulação por medicamentos de base neurocientífica e pela publicidade.

6. Como mostrou Felix Hasler em Neuromitologia, a década do cérebro gerou novos lobbies, a ponto de hoje mais estudantes de universidades americanas tomarem psicofármacos do que fumarem cigarros, e a maior resolução e detalhamento das imagens cerebrais prometem contribuir para o que Christoph Kucklick chama revolução do controle, caracterizada por não sermos apenas explorados, mas também interpretados individual e precisamente, na sociedade granular.

7. A pergunta sobre quem ou o que é o enigmático Eu revela-se assim não só filosófica, mas politicamente relevante e concernente ao cotidiano de cada um, como quando se diz que o amor é idêntico a um neurocoquetel ou que nosso comportamento de vínculo social remonta a remotos tempos pré-históricos em que nossos ancestrais evolutivos treinaram padrões ainda hoje determinantes.

8. Por trás disso escondem-se fantasias de alívio, pois é bastante incômodo ser livre e contar com a liberdade dos outros, e de bom grado se aceitaria que as decisões nos fossem tiradas e a vida passasse como um filme, de preferência belo, diante do olho espiritual interior, já que, como diz Stanley Cavell, nada é mais humano que o desejo de negar a própria humanidade.

9. Contra isso, o conceito de espírito vai de par com o conceito de liberdade também usado no âmbito político, liberdade que não é só um valor muito abstrato defendido sem se saber bem o que significa nem apenas a liberdade de mercado de escolher entre produtos, mas se funda em sermos seres vivos espirituais, impossíveis de compreender plenamente quando se tenta cientificizar a imagem do ser humano segundo o modelo das ciências naturais.

10. Já se está no centro do tema porque refletir sobre si mesmo é parte de nossa forma de vida, e não só temos consciência de muitas coisas do ambiente e impressões e vivências conscientes, incluindo sentimentos, mas também consciência da consciência, chamada pelos filósofos de autoconsciência, que não se confunde com autoconfiança.

11. Somos hoje literalmente soterrados por supostos conhecimentos sobre nós mesmos, pois as neurociências, a psicologia evolutiva, a antropologia evolutiva e muitas outras disciplinas naturais, ou alguns de seus representantes, afirmam quase diariamente ter avançado no autoconhecimento ou estar à beira da descoberta decisiva.

12. Na série Filosofia no Escaneamento Cerebral da rádio Deutschlandfunk chega-se a cogitar que não o espírito humano, mas o cérebro dirige as decisões e que a vontade livre seria comprovadamente ilusória, e outra emissão pretende que a pesquisa cerebral sustenta uma tese supostamente kantiana de que não podemos conhecer o mundo como é em si, citando em apoio o filósofo da consciência de Mainz Thomas Metzinger, defensor da aproximação entre filosofia e neurociência.

13. Segundo a afirmação atribuída a Metzinger, filosofia e pesquisa cerebral concordam que a percepção mostra não o mundo, mas um modelo do mundo, um recorte ínfimo, altamente processado e ajustado às necessidades do organismo, sendo espaço, tempo, causa e efeito gerados pelo cérebro, e embora exista naturalmente uma realidade, ela não pode ser experienciada diretamente, apenas circunscrita.

14. A maioria dos filósofos dedicados à teoria do conhecimento e da percepção rejeitaria hoje essa afirmação, incoerente por pressupor que o próprio modelo do mundo é experienciado diretamente, pois se também ele tivesse de ser circunscrito indiretamente não se saberia que há um modelo de um lado e um mundo modelado de outro, e saber que se faz um modelo da realidade é saber algo sobre ela, de modo que não precisamos sempre de modelos nem estamos presos neles, e não há razão para que o modelo ou o pensamento de que chove em Londres, que não precisa ser circunscrito para ser tido, não pertençam à realidade, razão pela qual o novo realismo afirma que os pensamentos não são menos reais que aquilo sobre o que pensamos e que podemos conhecer a realidade sem nos contentarmos com modelos.

15. O conceito de liberdade espiritual retoma o que Sartre chamou existencialismo, imagem da liberdade com origem na Antiguidade e rastros no Iluminismo francês, em Kant, no idealismo alemão de Fichte, Schelling e Hegel, em Marx, Kierkegaard, Nietzsche, Freud e muito além, tradição que a filosofia contemporânea promove sobretudo nos Estados Unidos em nome de Kant e Hegel, com algum papel para Kierkegaard e Nietzsche, mas até agora evitando Camus e Sartre.

16. Esses nomes representam uma ideia comum chamada neoexistencialismo, que em forma atualizada deve dispensar o lastro que carregava nesses pensadores e afirma que o ser humano é livre na medida em que precisa fazer uma imagem de si mesmo para ser alguém, esboçando autorretratos de quem é, quer e deve ser e orientando-se por eles na forma de normas, valores, leis, instituições e regras diversas, pois precisa interpretar-se para saber o que fazer, desenvolvendo inevitavelmente valores como pontos de orientação que não o tornam nem não livre nem dogmático.

17. O decisivo é que frequentemente esboçamos autoimagens falsas e distorcidas e as tornamos até politicamente eficazes, pois o ser humano é o ser que representa como está inserido em realidades que o ultrapassam, concebendo visões de sociedade, visões de mundo e sistemas metafísicos de crença que pretendem tornar disponível tudo o que existe num panorama gigantesco, sendo até onde se sabe o único ser vivo a fazê-lo, sem que isso o valorize ou desvalorize os demais, e não se trata de embriagar-se triunfalmente com a liberdade e brindar como senhor do planeta ao antropoceno bem-sucedido, mas de iluminar o espaço da liberdade espiritual em vez de contribuir para seu obscurecimento pela marginalização das ciências humanas na esfera pública democrática.

18. Muitos resultados da filosofia do espírito do século XX e do atual século XXI permanecem pouco conhecidos do grande público, sobretudo porque métodos e argumentos repousam em pressupostos complicados e numa linguagem técnica muito diferenciada, sendo a filosofia nesse aspecto uma ciência especializada como a psicologia, a botânica, a astrofísica, a romanística ou a pesquisa social estatística, o que é bom.

19. À filosofia cabe ainda a tarefa que Kant chamou Esclarecimento, papel no espaço público expresso na distinção kantiana entre o conceito escolástico de filosofia, a troca acadêmica de argumentos rigorosos e logicamente afiados com base numa linguagem técnica, e o conceito cósmico, a obrigação de dar ao público a visão mais ampla possível das consequências de nossas reflexões para a imagem do ser humano, conceitos que devem andar juntos para se criticarem mutuamente, conforme a ideia fundamental do Esclarecimento kantiano e um papel que a filosofia já exercia na Grécia antiga.

O Eu como Pendrive

1. Apesar de já ter chegado ao público a intelecção de que as possibilidades cognitivas das neurociências quanto à imagem do ser humano são limitadas, o Human Brain Project, fortemente criticado e financiado pela Comissão Europeia com mais de um bilhão de euros, pretende reunir o conhecimento atual sobre o cérebro humano e simulá-lo em computador.

2. Representações completamente exageradas da capacidade da inteligência artificial atravessam o espírito do tempo em filmes como Her, Lucy, Transcendence, Chappie e Ex Machina, que fundem fantasiosamente cérebro e computador, como o protagonista que se apaixona por um software aparentemente superinteligente com problemas existenciais, o que se torna imortal e onipotente ao carregar seu Eu numa plataforma computacional e espalhar-se pela internet, e a protagonista que, controlando conscientemente cem por cento da atividade cerebral sob uma nova droga asiática, transfere seu Eu para um pendrive e se torna imortal como puro conjunto de dados num suporte.

3. Além da fantasia de alívio de identificar o Eu com a coisa cerebral sob o crânio, o desejo de imortalidade e invulnerabilidade desempenha papel decisivo na visão de mundo atual, que apresenta a internet como plataforma da imperecibilidade onde se espera um dia carregar o espírito purificado do corpo para navegar para sempre como fantasma de informação no espaço binário infinito.

4. Mais sobriamente, os cientistas do Human Brain Project esperam avanços médicos de uma melhor compreensão do cérebro, mas o projeto também anuncia em sua página, sob a rubrica Visão, que uma neurociência artificial baseada em modelos computacionais, que dispensa cérebros reais e assim resolve problemas éticos, tem o potencial de revelar os mecanismos detalhados que levam dos genes às células e circuitos e, por fim, ao conhecimento e ao comportamento, a biologia que nos faz humanos.

5. O progresso científico e tecnológico deve ser saudado, e seria irracional condená-lo por ter gerado problemas como bombas atômicas, mudança climática e vigilância mais precisa dos cidadãos por coleta secreta de dados, pois os problemas da Modernidade criados por nós só podem ser enfrentados com mais progresso, sem que se possa prever se serão resolvidos ou se a humanidade se extinguirá, o que depende também de reconhecê-los e descrevê-los adequadamente, já que subestimamos dificuldades como a superprodução de plástico ou a poluição devastadora da China, que já afeta centenas de milhões de pessoas, e mal compreendemos outras, como a complexa situação socioeconômica do Oriente Próximo.

6. Não se quer voltar à Idade da Pedra nem sequer à tecnologia do século XIX, e a crítica lamurienta do progresso só beneficia quem anseia pelo fim da civilização, refletindo antes seus próprios medos e seu mal-estar na cultura, como diria Freud, pois para os nativos digitais é quase impensável escrever uma carta não eletrônica ou organizar o trabalho sem e-mails, embora haja, como sempre, medo das novas tecnologias e de sua exploração ideológica, que marca os debates sobre a revolução digital, o abuso e a vigilância de dados na internet.

7. O progresso tecnológico geral não traz apenas desvantagens, pois é bom escrever e-mails e estar conectado a amigos ao redor do globo, dispensar a videolocadora, pedir pizza, reservar férias on-line e informar-se antes sobre hotéis, praias ou exposições, e nossa civilização tecnologicamente equipada e cientificamente progressiva não é em si um contexto de ofuscamento, como pensam os críticos pessimistas da cultura na esteira de Adorno, embora haja hoje, como em todas as épocas, ofuscamentos.

8. O progresso científico-tecnológico atual tem lados sombrios, problemas caseiros de dimensão insuspeitada, como guerras cibernéticas, destruição ambiental, superpopulação, drones, cyberbullying, atentados preparados em redes sociais, bombas atômicas e crianças entupidas de neurofármacos por distúrbios de atenção ora reais, ora imputados, mas o progresso digital deve ser saudado na medida em que for compatível com o progresso na consciência da liberdade, de que falava Hegel, enquanto no autoconhecimento se registram retrocessos notáveis de natureza ideológica, uma forma de ilusão que prolifera alegremente enquanto ninguém se insurge, sendo a crítica da ideologia uma das funções principais da filosofia no conjunto da sociedade, responsabilidade a que não se deve fugir.

Neuromania e Darwinite – a Exemplo de Fargo

1. O médico britânico Raymond Tallis fala de neuromania e darwinite como autointerpretações equivocadas atuais da humanidade, sendo a neuromania a crença de que nos conhecemos sabendo cada vez mais sobre o sistema nervoso central e o funcionamento do cérebro, e a darwinite o complemento que acrescenta nosso profundo passado biológico ao sustentar que o comportamento tipicamente humano só se entende reconstruindo sua vantagem adaptativa na luta pela sobrevivência entre as espécies, de modo que o neurocentrismo é a combinação de ambas, a ideia de que só nos compreendemos como seres espirituais investigando o cérebro à luz de sua pré-história evolutiva.

2. Um exemplo admiravelmente irônico de darwinite está num episódio da série Fargo, em que o psicopata e matador de aluguel Lorne Malvo, interpretado por Billy Bob Thornton, é detido por um policial que o reconhece, mas logo solto porque se apresentara numa página da internet como pastor e a polícia toma ingenuamente a presença virtual da paróquia por verdadeira, e quando o policial lhe pergunta como concilia sua conduta com a consciência moral, Malvo pergunta por que os seres humanos distinguem tantos tons de verde, questão que a futura esposa do policial responde explicando que a seleção natural favoreceu essa paleta para reconhecer inimigos e presas em matas densas na época da caça, o que em geral é correto e sem o que nossa espécie talvez não existisse.

3. Com sua resposta, Malvo quer comunicar que é um caçador e justificar sua conduta lembrando que descendemos de caçadores e assassinos e que seu matar seria uma espécie de necessidade natural, defendendo assim uma forma crassa de darwinismo social, posição filosófica segundo a qual todo comportamento inter-humano pode ser entendido, explicado e justificado pelos parâmetros de sobrevivência das espécies investigados pela biologia evolutiva.

4. Embora o darwinismo só tenha surgido na segunda metade do século XIX, certas ideias do darwinismo social são muito mais antigas, discutidas já por Platão no primeiro livro da República, onde Trasímaco define a justiça como nada além da vantagem do mais forte, e retomadas na primeira metade do século XIX por Schopenhauer em O Mundo como Vontade e Representação, que descreveu de modo protodarwinista social a paixão e todos os processos sociais ligados à sexualidade como comportamento de corte, junto com acentuado desprezo pela humanidade e misoginia, tendo ele mesmo, para dizer o mínimo, dificuldades com o outro sexo.

5. Explicações desse tipo estão hoje por toda parte, sobretudo no comportamento amoroso, explicado por categorias biológicas, porque se quer ter descoberto que o ser humano é apenas um animal e não se quer ser ingênuo a ponto de crer-se fora do reino animal, talvez por má consciência diante dos outros animais que observamos em zoológicos e grelhamos alegremente com uma cerveja na mão em belas noites de verão, querendo convencer-nos de que o homem não é exceção e apenas por acaso é também um ser espiritual, provavelmente o único que sabe ser um ser vivo e certamente o único que despedaça mecanicamente outros seres vivos, os enfia em seus intestinos e os vira na grelha enquanto discute a mais refinada forma de preparo.

Espírito – Cérebro – Ideologia

1. Os processos de delegar o autoconhecimento a disciplinas científico-naturais recém-criadas são ideológicos e, portanto, fantasias desencaminhadas, constituindo um sistema de representações e pretensões de saber no campo do autoconhecimento que confunde produtos da liberdade espiritual com processos naturais e biológicos, não sendo de admirar que essa ideologia atual se empenhe em abandonar o conceito de liberdade humana e preferisse que não houvesse produtos da liberdade espiritual.

2. Esse objetivo seria alcançado se o Anfitrião de Kleist, a Missa Solemnis, o hip-hop dos anos noventa ou a construção do Empire State Building fossem reconstruídos como variantes um pouco mais complexas do impulso lúdico difundido no reino animal, ponto do qual as ciências naturais ainda estão infinitamente distantes, como se admite no final de O Manifesto, em que onze neurocientistas destacados falam do presente e do futuro da pesquisa cerebral na revista Gehirn und Geist.

3. Segundo o Manifesto, mesmo que um dia se esclareçam todos os processos neuronais subjacentes à compaixão, à paixão ou à responsabilidade moral, a autonomia dessa perspectiva interior se mantém, assim como uma fuga de Bach nada perde de seu fascínio quando se entende como foi construída, devendo a pesquisa cerebral distinguir o que pode dizer do que excede sua competência, como a musicologia, que tem algo a dizer sobre a fuga, mas deve calar sobre sua beleza singular.

4. Exemplo representativo do neurocentrismo, a tese Eu igual a cérebro, é o livro do pesquisador holandês Dick Swaab, Nós Somos o Nosso Cérebro: Como Pensamos, Sofremos e Amamos.

5. Logo no início da introdução, Swaab afirma que tudo o que pensamos, fazemos e deixamos de fazer ocorre pelo cérebro, cuja construção, a de uma máquina fantástica, decide nossas capacidades, limites e caráter, de modo que somos nosso cérebro, e a pesquisa cerebral já não é só a busca das causas de doenças cerebrais, mas da resposta à pergunta sobre por que somos como somos, uma busca por nós mesmos.

6. Para os neurocêntricos, portanto, a pesquisa cerebral deixa de ser apenas a investigação do funcionamento de um órgão, aliás muito útil, e pretende, segundo Swaab, lançar-se à busca por nós mesmos.

7. A busca por nós mesmos, o projeto do autoconhecimento, fracassa inteiramente quando se pensa ser o próprio cérebro, pois sem um cérebro saudável não estaríamos aí, não poderíamos pensar, estar acordados ou viver conscientemente, mas disso não se segue, sem passar por muitos argumentos adicionais, que sejamos idênticos a ele.

8. A distinção entre condições necessárias e suficientes ajuda a ver que não precisamos ser idênticos ao cérebro mesmo não existindo sem ele, assim como ter geleia e pão é necessário mas de modo algum suficiente para um pão com geleia, já que, estando a geleia na geladeira e o pão na caixa de pão, é preciso ainda uni-los corretamente, por exemplo com manteiga.

9. Algo semelhante ocorre com o cérebro, pois não somos idênticos a ele porque temos um corpo com muitos outros órgãos feitos de outros tipos de células e porque não seríamos nem de longe quem somos sem interação social com outros seres humanos, sem a qual não teríamos linguagem nem sobreviveríamos, já que os humanos estão longe de ser solipsistas natos capazes de consciência sem jamais terem se comunicado com outros.

10. Esses fatos culturais não se explicam examinando um cérebro, exigindo considerar ao menos uma multiplicidade de cérebros em organismos completos, o que torna a questão para sempre complexa demais do ponto de vista neurocientífico, pois nem um único cérebro, por sua marca individual e plasticidade, pode ser descrito completamente, e tentar investigar com métodos neurobiológicos a estrutura sociocultural de uma metrópole chinesa atual ou mesmo de uma aldeia da Floresta Negra é não só utópico, mas supérfluo, já que há muito dispomos de outros métodos oriundos da longa história do autoconhecimento do espírito humano, como filosofia, literatura, música, arte, sociologia, psicologia, o variado ramalhete das ciências humanas e as religiões.

11. A filosofia do espírito trata há pouco mais de cem anos centralmente da relação entre espírito e cérebro, questão aguçada no início da Modernidade por Descartes, retomando em roupagem moderna a antiquíssima pergunta grega sobre a relação entre corpo e espírito ou alma, o problema corpo-alma, do qual o problema cérebro-espírito é uma variante, e cuja formulação mais geral pergunta como pode haver vivência espiritual subjetiva consciente num universo inconsciente, frio e puramente objetivo regido por leis naturais, o que o filósofo australiano David Chalmers chamou de problema difícil da consciência, ou seja, como nossa perspectiva aparentemente provinciana se encaixa num universo que excede toda imaginação.

12. Essa abordagem gera problemas sobretudo na questão filosófica central de quem somos, e a filosofia permite desmascarar falácias difundidas, como a de que o Eu é produzido pelo cérebro, talvez como vantagem adaptativa de cérebros evolutivamente bem-sucedidos que geram consciência, pois se o Eu é produzido pelo cérebro não pode ser estritamente idêntico a ele, já que o que é produzido por algo não é idêntico a esse algo, sendo preciso decidir entre produção, como ilusão útil à sobrevivência ou interface de usuário do organismo, e identidade, clareza que falta drasticamente a Sam Harris em Free Will, onde afirma que o Eu é produzido pelo cérebro e por isso não é livre.

13. Não funciona afirmar indiscriminadamente que não somos livres porque o cérebro toma decisões inconscientes e, ao mesmo tempo, que somos idênticos ao cérebro, pois então seríamos novamente livres, já que o cérebro não dependeria de decisões inconscientes de outro sistema, e se o cérebro me dirige e eu sou o cérebro, o cérebro dirige a si mesmo, isto é, eu dirijo a mim mesmo, de modo que a liberdade não estaria ameaçada, mas explicada, tendo-se admitido liberdade em algum ponto, ainda que talvez não no nível das decisões conscientemente calculadas.

Cartografia da Autointerpretação

1. A crítica ao neurocentrismo é apenas uma das intenções, ao lado de cartografar a paisagem espiritual do autoconhecimento pela exposição de conceitos centrais da filosofia do espírito, esclarecendo como se relacionam consciência, autoconsciência, Eu, percepção e pensamento e como entraram em nosso vocabulário.

2. Trata-se também de autoconhecimento positivo, isto é, de quem somos, e a tese positiva principal do neoexistencialismo afirma que o espírito humano produz uma pluralidade aberta de faculdades, todas espirituais, porque por essas autointerpretações obtém uma imagem de si mesmo, gerando uma pluralidade de realidades espirituais num processo de estrutura historicamente aberta que não se deixa apreender na linguagem da neurobiologia, não porque tenhamos línguas diferentes, mas porque o espírito humano não é um fenômeno puramente biológico.

3. A faculdade de conceber também falsas imagens do mundo e de si leva à ideologia, mas é decisivo que mesmo as falsas autoimagens digam algo sobre quem as toma por verdadeiras, pois é experiência cotidiana que os seres humanos imaginem muitas coisas, formem uma imagem de si, de suas habilidades e capacidades, e a submetam à prova no diálogo com outros, amigos e inimigos.

4. O espectro da produção de realidades espirituais vai de uma compreensão mais profunda de nós mesmos na arte, na religião e na ciência, que inclui as ciências humanas, sociais, tecnológicas e naturais, até as mais diversas formas de ilusão, como ideologia, autoengano, alucinação e doenças mentais, e dispomos, entre outras coisas, de consciência, autoconsciência, pensamento, um Eu, um corpo e um inconsciente.

5. Esses conceitos são elementos de uma imagem que o espírito humano faz de si mesmo, e o espírito não é uma coisa subjacente a essas autoimagens nem possui realidade tão independente delas que pudesse ser comparada com elas, pois só existe fazendo-se autoimagens e torna-se sempre aquilo que faz de si, razão pela qual tem uma história, a história do espírito.

6. A Modernidade, época atual da história do espírito, produziu o neurocentrismo, aparentemente em sintonia com seu grande motivo fundamental, o esclarecimento pela ciência, mas esquecemos cada vez mais a historicidade dessa época e a possibilidade de que fracasse e pereça, sendo necessária mais e não menos Modernidade, o que inclui a intelecção da historicidade de nossas autoimagens, tema central da filosofia dos últimos duzentos anos que não pode ser negligenciado no conceito de espírito.

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