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gaboriau:1962:1-c-34

1.C.34 Ponto de partida na “époche” husserliana?

1. Husserl segue a lógica de uma exigência inelutável ao julgar que, para conduzir efetivamente à terra prometida da filosofia, a démarche do Cogito precisa ser radicalizada, ainda que suas numerosas exposições da epoché difiram entre si muito mais do que as diversas exposições da dúvida em Descartes.

2. Apesar dessa diversidade, é possível apreender os traços distintivos da epoché e, em seguida, definir o seu sentido.

3. A epoché não é uma dúvida, isto é, uma decisão de permanecer na indecisão, mas uma recusa de participação, na qual o mundo continua a apresentar-se como existente enquanto o eu se abstém de tomar posição sobre seu ser, o que implica um desdobramento entre o eu ingênuo, engajado no mundo, e um eu fenomenológico, espectador desinteressado que nem afirma, nem nega, nem duvida.

4. A epoché é definitiva, ao passo que a dúvida cartesiana é apenas provisória, e, sem ser ceticismo, pretende como esta ser método para fundar uma ciência verdadeira do mundo, com a diferença de que, enquanto em Descartes a dúvida cede lugar à certeza, em Husserl a ciência se estabelece no interior da própria epoché.

5. A epoché é estritamente universal, enquanto a dúvida cartesiana é apenas uma tentativa de dúvida universal detida pela impossibilidade de duvidar do eu pensante, pois a suspensão husserliana atinge todos os componentes do mundo sem exceção, inclusive o próprio eu, tanto enquanto corpo quanto enquanto alma.

6. Essas divergências decorrem de uma diferença na própria posição do problema, já que para Descartes a existência do mundo é incerta e exige uma dúvida a ser vencida pela certeza, ao passo que para Husserl essa existência, de que não se duvida, é incompreensível e exige uma suspensão permanente de toda tomada de posição, de modo que a epoché é o questionamento do próprio sentido de existir.

7. Ambas as aplicações particulares do questionar humano constituem perguntas especiais, sem dúvida muito elevadas e características, mas de modo algum primitivas, pois sua importância não lhes confere o privilégio de serem iniciais.

8. Quanto à solução, para Descartes o problema metafísico é um problema de conhecimento que consiste em fundar seu valor objetivo, recorrendo à veracidade divina como garantia da correspondência entre as ideias em mim e as coisas fora de mim, enquanto para Husserl trata-se de conhecer o sentido possível do ser em si de um mundo que extrai todo o seu ser da consciência e só nela aparece.

9. Em termos cartesianos, a questão husserliana consiste em saber se a noção de um mundo dotado de ser real e existente em si é uma ideia clara e distinta, e para isso seria absurdo recorrer a Deus, que pode garantir o valor objetivo de uma ideia já reconhecida como clara e distinta, mas não dispensa o exame interior dessa mesma ideia.

10. A solução não pode, portanto, ser buscada na teologia, mas na egologia, mediante a análise dos vividos de consciência pelos quais as coisas exteriores são dadas, sobretudo como realmente existentes, tarefa infinitamente mais complexa do que Descartes supunha.

11. Essa tarefa é inelutável na linha do Cogito, pois a noção de ser, que Descartes julgava tão clara que se obscurece ao ser definida, exige clarificação, e embora tais esclarecimentos sejam desejáveis, já que o sentido do ser não é dado de imediato, partir daí pode ser um mau começo, do tipo que nunca chega a lugar algum.

12. Aquilo a que se chega por esse caminho merece ao menos consideração, ainda que a razão para recusar um ponto de partida independa, enquanto tal, de suas consequências.

13. A radicalização husserliana da démarche cartesiana deve-se sobretudo a uma radicalização do problema do conhecimento, em que a redução ao eu pensante questiona não apenas a certeza, mas antes de tudo o sentido do conhecimento, sendo a primeira tarefa clarificar o sentido e o modo de ser do mundo no entendimento, e não demonstrar que um mundo fora de mim lhe corresponde.

14. Mantendo-se na epoché e prolongando a explicitação da consciência, percebe-se que provar um mundo fora de mim é um contrassenso, pois a consciência aberta pela epoché radical é não só o lugar do conhecimento, mas o lugar e a fonte do ser, de modo que o ponto de partida coincide com o ponto de chegada e só há ser na consciência porque só ali essa expressão tem sentido.

15. A epoché deve ser mantida porque, fora dela, o eu pode viver e dedicar-se à ciência positiva, mas não filosofar, já que seu interesse apaixonado pelo mundo constituído perturba a maneira como o processo de constituição lhe aparece, daí o recuo preconizado, embora esse próprio recuo seja ainda, secretamente, sustentado por outro interesse.

16. Esse interesse pelo ser é tão forte que nada pode eliminá-lo, constituindo por isso o ponto de partida buscado, uma interdimensão do cogito que se manifesta fenomenologicamente em toda interrogação e que jamais pode ser escamoteada.

17. Quem interroga é também um espectador que se desprende para melhor considerar, abstraindo de modo universal porque se interroga diante de todas as coisas e sobre elas, mas seu ponto de partida não é determinado por nenhuma problemática particular, cartesiana ou husserliana, pois o inter-rogare basta por si e identifica-se com o inter-esse, referência ao ser em qualquer nível de curiosidade.

18. A curiosidade propriamente metafísica interroga o ens enquanto ens, numa atitude de neutralidade que exclui no primeiro ato a dúvida, pois esse ato é apresentação e as ciências não trazem o nada como objeto, mas um objeto preexistente que o metafísico seria imprudente em recusar a priori.

19. O ponto estritamente primitivo da investigação metafísica não é um ponto fixo, mas uma oscilação interrogativa que percorre todo o ser sem se deter em nada, e cuja projeção em qualquer plano não impede que haja sempre lugar para uma questão propriamente metafísica sobre o ens enquanto ens.

20. Tal questão já possui um sentido metafísico que é a alma de toda pergunta, em qualquer lugar onde seja posta, pois é o ser que lhe dá sentido e, inversamente, o sentido do ser, nesse ponto de partida, não é senão aquilo que provoca a interrogação, de modo que o ser enquanto ser é aquilo que faz questão enquanto tal e que se busca justamente por não ser possuído tanto quanto seria desejável.

21. Importa arrancar a filosofia do fixismo arbitrário inaugurado por Descartes e alimentado por um humanismo cientificista que mutila a estatura do homem e da ciência, reconhecendo que à metafísica é preciso elevar-se por uma epoché entendida como abstração necessária acima do interesse natural pelas coisas, mas sem nenhuma negação prévia do que todos tomam por assegurado, pois é ilegítima a epoché que implique uma negação do ser, e se diz sim à abstração, mas não ao artifício.

22. Se se admite que a experiência, a técnica e a ciência têm por objeto um setor do mundo existente, é inconsequente exigir que o primeiro ato metafísico seja uma estéril negação do ser, já que o próprio do metafísico não é afirmar ou negar o ser, afirmação que encontra preexistente nos demais saberes, mas considerá-lo e examiná-lo criticamente, o que supõe vê-lo, e por isso partir da consideração de meu ser ou de meus pensamentos, à maneira cartesiana, conduz à psicologia e permanece na Física, quando a Metafísica tem por objeto o ser qualquer que seja, enquanto tal.

23. Assim como a epoché husserliana possui um sentido legítimo e obrigatório como abstração e desprendimento, também a dúvida tem lugar na metafísica num sentido vizinho ao de Descartes, pois a questão da existência do ser deve igualmente ser posta como questão primordial, desde que considerada no nível de desprendimento em que se examina o ser apresentado pelos demais saberes antes de recusá-lo ou declará-lo inexistente.

24. É um fato positivo, atestado por todos, que essa própria questão, como toda questão particular, implica a projeção de uma relação com o ser sem a qual a dúvida, por mais primitiva que se pretenda, não poderia constituir-se, e sua oscilação trai essa relação.

25. A formulação mais adequada do ponto de partida não é duvido, logo sou, determinação psicológica, nem cogito, logo me abstraio, mera condição para a visão, mas interrogo, logo sou inter-esse, questiono, logo confiro, examino, logo vejo, de modo que o ponto de partida é uma apreensão interrogativa e referencial cujo objeto é verdadeiramente o ser.

26. No próprio ato dessa apreensão a metafísica engrena, tendo por ponto de partida o ser a que se refere e se interessa, pressuposto atestado pelos outros e objeto a estudar, de modo que toda questão humana pode dar lugar a uma prospecção metafísica ao se considerar, além da preocupação particular, sua dimensão existencial, sendo o mundo o lugar dessa questão que, em todas as coisas, visa um ponto preciso: o sentido do mundo e o que nele há de real em definitivo.

27. É necessário ultrapassar a posição do homem como sujeito característica dos tempos modernos, que permite às filosofias mais opostas reivindicar a herança de Descartes, pois idealismo, materialismo e existencialismo só se desenvolvem e se enfrentam em favor de um mesmo niilismo em que o ser já não é nada.

28. O homem que cogita sem perceber que a menor dúvida depende de um valor de ser reduz o mundo a representação, em vez de tomar-se inicialmente pelo que é, pequeno ser mergulhado no ser e interrogando os entes, cuja superioridade reside precisamente na fome de real que impulsiona toda sua carreira metafísica, sendo curioso o humanismo que pretende engrandecê-lo privando-o a priori de sua vocação mais alta ao saber metafísico.

29. A energia da promoção decisiva do homem está no próprio pensamento, desde que sua visada seja correta ou corrigida, pois a porta é estreita, como Descartes parecia pressentir em suas precauções, cujos conselhos, uma vez retificados, permitem apelar de Descartes a Descartes ao afirmar que todo o método consiste na ordem e disposição das coisas a que se deve voltar o espírito, reduzindo gradualmente o obscuro ao simples e elevando-se por graus a partir da intuição das coisas mais fáceis.

30. Somente nisso consiste a perfeição e a habilidade humana, e a observância dessa regra é tão necessária a quem quer abordar a ciência quanto o fio de Teseu a quem pretende penetrar no labirinto.

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