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MARION, Jean-Luc. Sur la théologie blanche de Descartes: Analogie, création des vérités éternelles et fondement. Paris: Presses Universitaires de France, 1981 (Coleção Épiméthée).
1. Uma questão sobre Descartes — a criação das verdades eternas e a analogia perdida
1. A grandeza de um pensamento mede-se tanto pelas afirmações que sustenta quanto pelas questões de que se alimenta, pois as afirmações perdem a força quando suas provas são contestadas, ao passo que as questões se renovam e se fortalecem quando são postas em questão.
2. A resposta realiza o questionamento filosófico ao prolongá-lo, e a originalidade de uma filosofia reside no deslocamento que a questão suscitadora de suas teses produz no campo conceitual herdado, deslocamento que se pode compreender remontando das respostas à inquietação que lhes deu origem.
3. A pretensão cartesiana de inovar em continuidade com a tradição encontra sua expressão mais singular na criação das verdades eternas, pois, enquanto a originalidade do método, da dúvida, do cogito e das provas da existência de Deus reside sobretudo na função que assumem no conjunto da filosofia, a tese de 1630 faz a própria ordem racional depender de um ato divino incondicionado e abre uma questão que o abandono da doutrina pelos sucessores de Descartes deixou por reconstituir.
4. A questão da analogia pode conferir unidade à criação das verdades eternas e à metafísica das Meditações, uma vez que as cartas de 1630, ao contestarem a univocidade do ente, levam a equivocidade ao ponto de abrir um abismo entre o finito e o infinito tanto na ordem do ente quanto na do conhecimento, enquanto a obra de 1641 procura assegurar um fundamento infinito à ciência humana e ao ente finito em meio a essa separação.
5. A hipótese de que a analogia orienta o pensamento cartesiano mesmo quando sua doutrina é recusada apoia-se na possibilidade de a questão teológica subsistir filosoficamente sob o novo vocabulário da relação entre finito e infinito e na familiaridade de Descartes com a tradição escolástica, mediada em especial por Suárez e pelo ensino jesuítico.
6. Assim como o confronto das Regras com Aristóteles permite compreender a ontologia cinzenta cartesiana como uma subversão da ontologia aristotélica, o confronto da criação das verdades eternas com a questão da analogia permite entrever uma teologia branca que, pelo próprio desaparecimento da analogia, redefine a relação entre o saber humano e o divino e determina as condições do conhecimento da alma, do mundo e de Deus.
2. Uma questão sobre a metafísica — a criação das verdades eternas e o fundamento buscado
1. O advento do pensamento cartesiano constitui um acontecimento tríplice para a metafísica, pois prolonga uma questão herdada da teologia medieval, encerra a mediação analógica e abre a busca do fundamento.
2. A continuidade entre Descartes e o pensamento medieval estende-se à questão teológica da analogia, surgida do problema dos nomes divinos, de modo que a própria metafísica moderna, embora separe a teologia racional da revelada, permanece ligada a essa questão, como mostra a oposição entre a tendência cartesiana à equivocidade e as diferentes tendências à univocidade em Spinoza, Malebranche e Leibniz.
3. A questão da analogia sobrevive à perda de suas formulações explícitas nas tendências à univocidade ontológica de Suárez, espiritual de Bérulle e epistemológica de Mersenne, Kepler e Galileu, até que Descartes, ao contestar essas três vias e levar a equivocidade ao ponto de ameaçar a validade do saber humano, encerra a mediação analógica e abre a busca de um fundamento absoluto que garanta a ciência de fora e permaneça estranho ao saber que torna possível.
4. As Meditações abrem a questão do fundamento ao reunir a ruína das bases recebidas do saber, a certeza do ego pensante que exerce a função de fundamento e a imensidade divina que a cumpre em última instância, de modo que a coexistência do ego e de Deus como instâncias fundadoras revela a indeterminação do fundamento mesmo quando ele já opera e mantém aberta sua busca como questão do infinito desconhecido.
5. A criação das verdades eternas põe em jogo o sentido da obra cartesiana e da metafísica moderna ao articular a desaparição da analogia com a busca do fundamento.
