Amor/Amizade
COMTE-SPONVILLE, André. Dictionnaire Amoureux de Montaigne. 1st ed ed. Québec: Librairie Plon, 2020.
1. Montaigne prefere a amizade ao amor e a paixão ao casal, ao contrário do que se pode preferir raciocinando em suas próprias categorias, mas justamente por isso ajuda a compreender por que o casal feliz, onde amor e amizade tendem a se unir, é tão buscado, precioso e insubstituível, pois os grandes pensadores esclarecem sobre nós mesmos até quando não se consegue lhes dar inteira razão.
2. Amor e amizade são pensados por Montaigne em conjunto e pela diferença entre ambos, ficando o casal para o fim.
3. O capítulo Da Amizade, talvez o texto mais célebre de todos os tempos sobre o tema, contém exagero e injustiça, e o livro VIII da Ética a Nicômaco, em que Aristóteles afirma que sem amigos ninguém escolheria viver, retrata melhor as amizades reais, ao passo que a relação de Montaigne com La Boétie, intensa, breve, fusional e magnificada pelo luto, não deve ser aceita cegamente.
4. A amizade supera o amor para Montaigne, que a vê voar alto e desdenhosa acima dele, e, como em Aristóteles, ela é dimensão da condição humana voltada para a sociedade, abrangendo em sentido amplo até a família, onde porém as relações de respeito entre pais e filhos e de afeição conflituosa entre irmãos são impostas e não escolhidas, ao passo que a amizade fora da família é a produção mais própria da liberdade voluntária, caracterizada sobretudo por sua diferença em relação ao amor.
5. A afeição pelas mulheres, embora escolhida, não pode ser comparada à amizade, pois seu fogo é mais ardente e áspero, mas temerário, volúvel, febril, sujeito a acessos e remissões e limitado a uma parte de nós, enquanto a amizade é um calor geral, temperado, constante e sereno, todo doçura e polimento.
6. À aspereza do amor opõe-se a doçura da amizade, e a diferença diz respeito também à duração, pois os amantes querem gozar um do outro, o que condena a paixão à infelicidade se impedida ou à extinção se satisfeita, ideia que Sartre retomará ao fazer do prazer a morte do desejo, pouco crível a não ser no curto prazo, mas próxima do sentimento de Montaigne.
7. O amor é apenas um desejo enlouquecido do que nos foge, que se desvanece ao entrar na convergência das vontades e se perde na fruição por ter fim corporal e sujeito à saciedade, enquanto a amizade é gozada à medida que é desejada e cresce na própria fruição, por ser espiritual e a alma se apurar pelo uso.
8. A ideia de que, assim que as mulheres são nossas, deixamos de ser delas, porque só prendem se o gozo não amortecer o ardor, aproxima-se do Banquete de Platão, em que o eros, desejo do que falta, se extingue na posse por saciedade, conduzindo quase de Platão a Schopenhauer, do sofrimento da falta ao tédio do que já não falta.
9. A amizade pertence antes à philia aristotélica, gozo espiritual e alegria, já que amar é alegrar-se, sem falta, salvo no luto, e sem saciedade, de modo que sua ausência de orgasmo não é fraqueza, mas força.
10. Distinguem-se dois tipos de amizade, as comuns e habituais, muito difundidas, meras relações e familiaridades nascidas de ocasiões ou conveniências, e a amizade soberana, raríssima, em que as almas se misturam tão totalmente que apagam a costura que as uniu, a ponto de os dois amigos, pois não se pode ter mais que um, serem uma só alma em dois corpos, segundo a definição atribuída a Aristóteles.
11. As amizades comuns são muitas vezes decepcionantes e exigem prudência, o que dá razão à frase atribuída a Aristóteles, ó meus amigos, não há amigo, que só parece contraditória porque a palavra amigo muda de sentido, significando que entre os amigos comuns não há amigos soberanos, constatação banal e dolorosa, já que essa amizade excepcional, possível talvez uma vez em três séculos, quase ninguém conhece.
12. A raridade dessa amizade tranquiliza sem consolar, pois é raro amar a esse ponto, ser amado assim e mais raro ainda que ambos coincidam, e toda amizade é recíproca mas nem sempre simétrica, com assimetrias que pesam e se invertem com os anos, além do longo tempo necessário para conhecer-se, enganar-se e desenganar-se, das ameaças da decepção, da rotina, do cansaço e do envelhecimento, sendo a transparência apenas um sonho que seria mais uma mentira.
13. Pascal ilumina sombriamente esse ponto ao observar que ninguém fala de nós em nossa presença como em nossa ausência e que poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse o que o amigo diz dele sinceramente e sem paixão, pois o mal não está em denegrir os amigos pelas costas, mas na incapacidade de perdoar-lhes a opinião sincera que fazem de nós e que nos ocultam ou embelezam por nos saberem suscetíveis.
14. A amizade louvada por Montaigne, que faz sonhar, aparece antes como ideal do que como realidade.
15. Nesse nobre comércio, os favores e benefícios que alimentam as outras amizades não contam, pois a fusão das vontades é tal que, assim como ninguém aumenta a amizade por si mesmo ao se socorrer, os amigos perfeitos perdem o sentimento dos deveres e banem palavras de divisão como benefício, obrigação, gratidão ou agradecimento, já que tudo lhes é comum, vontades, pensamentos, bens, mulheres, filhos, honra e vida, não podendo emprestar nem dar nada um ao outro.
16. La Boétie era casado e nada indica qualquer comunidade sexual, mas a mulher e os filhos do amigo eram tão caros a Montaigne quanto se fossem seus, porque a relação entre ambos era do mesmo tipo que a de cada um consigo mesmo, tema do alter ego já presente em Aristóteles de modo mais matizado, o que explica que uma amizade tão fusional só possa ser vivida a dois.
17. A amizade perfeita é indivisível, pois cada um se dá inteiro ao amigo sem nada restar para distribuir, ao contrário das amizades comuns, que se repartem segundo qualidades diversas, e ter dois amigos assim tornaria insolúveis os conflitos de socorro, de serviços contrários ou de segredos, já que a amizade única descose todas as outras obrigações, permite confiar ao amigo, que não é outro, mas eu mesmo, o segredo jurado, e torna desmedido pretender triplicar-se quando já é milagre duplicar-se.
18. Essa fusão lembra o mito de Aristófanes no Banquete, de seres duplos cindidos que o casal reuniria, o chamado amor fusional, no qual não se pode crer nem entre amigos nem entre amantes, pois ninguém consegue ser um em vez de dois, seria triste se conseguisse, sendo a dualidade tão deliciosa, e mentiroso pretendê-lo, já que ela permanece, como sugerem o pedido de La Boétie moribundo por um lugar, o encolhimento progressivo de sua presença nos Ensaios e o silêncio quase total sobre o conteúdo vivido da amizade, sem que a hipótese de uma relação homossexual consumada pareça convincente, e Montaigne, inconsolável, continuou contudo a viver e de modo antes feliz, pois a alma do sobrevivente permanece inteira.
19. No amor, que conhece por experiência, Montaigne suspeita que os poetas exageram, como Virgílio, cuja Vênus nua e ofegante é mais bela que a real, enquanto na amizade julga os filósofos aquém da experiência, num quiasmo em que os poetas supervalorizam o amor e os filósofos subestimam a amizade, nova confirmação indireta da superioridade desta.
20. O amor distingue-se pela participação dos sentidos corporais, razão para preferi-lo, enquanto a amizade se satisfaz com o exercício das almas, e Montaigne, em quem o corpo pode muito, é sensível a essa dimensão física sem confundir amor e sexo, querendo que andem juntos sem hipocrisia, loucura nem cinismo, sem fazer-se anjo nem besta.
21. Escaldado na juventude pelas fúrias que os poetas descrevem, Montaigne aprendeu que é loucura entregar-se ao amor de modo furioso e indiscreto, mas também que é covardia praticá-lo sem amor, como comediante que só põe as palavras, pois disso não se pode esperar fruto que satisfaça uma bela alma, já que Vênus sem Cupido é tão inconcebível quanto maternidade sem filhos.
22. Pouco dado às relações venais, Montaigne preferia seduzir preservando a reputação das amantes e aguçando o prazer pela dificuldade e pelo desejo, apreciava mulheres de espírito e sobretudo de graças corporais, cortejava-as com tato, respeito e às vezes timidez, lamentando ter perdido ocasiões, sem aprovar a temeridade desdenhosa dos jovens da geração seguinte, grosseria que não é de hoje.
23. Sobre a identidade das mulheres que amou ou que o amaram há silêncio total, pois ele se recusa ao prazer de contar e às vanglórias sobre os favores das damas, deixando entrever apenas sofrimentos e decepções em sua vida amorosa.
24. Montaigne conduziu essas relações com consciência e justiça, mostrando apenas a afeição que sentia, com seus nascimentos, vigores e declínios, prometendo pouco e cumprindo mais, guardando fidelidade até diante da inconstância declarada delas, nunca rompendo enquanto restava um fio de apego nem chegando ao desprezo e ao ódio, embora às vezes manifestasse cólera breve diante de astúcias e subterfúgios.
25. Sem remorso, mas com alguma amargura por ter sido enganado, Montaigne vê nisso deslealdade mais que desgraça, não morreria de ciúme e ama sinceramente e sensualmente, apaixonadamente às vezes, mas nunca loucamente, desconfiado dos exageros poéticos e preferindo o meio-termo entre o amor louco e o amor morno.
26. Montaigne gostava do amor sem se esquecer nele, conservando juízo e discrição, com alguma emoção e nenhum devaneio, admitindo a devassidão, mas não a ingratidão, a traição ou a crueldade, e encontrou nele a justa moderação entre a ociosidade estagnada e a ocupação penosa, pois o amor é uma agitação desperta, viva e alegre que aquece sem perturbar e só prejudica os loucos.
27. O Grande Amor parece ter sido vivido antes com La Boétie, o que reconduz à amizade, a menos que se trate de um amor que termina em amizade, conforme a definição estoica citada de Cícero, segundo a qual o amor é o desejo de ligar-se em amizade a quem nos atrai pela beleza.
28. Amor e amizade não seriam então incompatíveis, e o fato de a fórmula surgir a propósito da pederastia grega dá o que pensar, embora La Boétie fosse feio e Montaigne não dispense no amor a beleza corporal, de modo que se pode amar apaixonadamente sem desejar sexualmente e desejar sem amar apaixonadamente, e justamente por amor e sexo serem coisas distintas é tão bom vivê-los na mesma relação, possibilidade aberta a homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais.
29. O casal feliz merece ser glorificado, porque nele se goza do outro inteiro, corpo e alma, partilha-se a vida, conhece-se e é-se conhecido como por ninguém, ama-se sem ilusões e deseja-se sem ausência, alegrando-se com a existência, a presença, o desejo e o amor do outro, felizes os amantes de qualquer sexo que se tornam amigos e permanecem amantes.
30. Essa ideia, que Montaigne ajuda a pensar, ele próprio nunca a formulou nem provavelmente a viveu, como sugere seu luto de trinta anos pelo amigo desaparecido.
