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Dicionário filosófico

COMTE-SPONVILLE, André. Dictionnaire philosophique. Nouvelle éd. revue et augmentée ed. Paris: PUF, 2013.

1. Um Dicionário Filosófico nasce do amor pela filosofia e pelas definições.

2. Nenhuma língua pensa, mas só se pensa numa língua, graças a ela e às vezes contra ela, razão pela qual as palavras são necessárias e insuficientes, simples ferramentas a serviço não da retórica, mas de bem pensar e bem viver, início da própria filosofia, que, segundo a fórmula cartesiana de bem julgar para bem fazer, supõe saber de que se fala, o que exige experiências, oferecidas pelo mundo e pela vida, e definições, que cabe inventar ou reinventar.

3. Uma palavra não tem sentido absoluto ou eterno, mas apenas o que lhe dá o uso, variável segundo contextos, situações, indivíduos e problemáticas, sobretudo em filosofia, que procede por discursos e raciocínios dobrando as palavras a seu uso, embora a compreensão exija um acordo ainda que aproximado e provisório sobre certas definições, de modo que a filosofia toma seus vocábulos da língua comum para torná-los mais precisos, rigorosos e claros, enriquecê-los ou recriá-los, num trabalho infindável em que nenhuma definição basta, mas sem o qual nada se alcança.

4. O livro nasceu da admiração por duas obras-primas, o Dicionário Filosófico de Voltaire e as Definições de Alain, modelos a imitar e desafios a enfrentar, cuja conjunção difícil foi mais um motivo para tentar o projeto, sustentado do começo ao fim pelo prazer, já que ninguém é obrigado a fazer um livro nem a entediar-se.

5. Esses modelos indicam o registro e o público do Dicionário, alheio aos pedantes, cujo propósito não é histórico nem erudito, mas expor livremente um pensamento na ordem ou desordem alfabética, com a única exigência de definir aquilo de que se fala.

6. O projeto inicial de uma coletânea de definições ampliou-se até tornar-se, como em Voltaire, um acerto de contas em ordem alfabética de tudo o que se deve pensar sobre este mundo e o outro, livro infinito em direito, sem pretensão de exaustividade e jamais terminado, cuja extensão é nada diante do que poderia ter sido, guiado pelo enciclopedismo manejável de Voltaire, mais que pela desmedida da Enciclopédia, e pelo desejo de ser útil e breve, já que é preferível ser incompleto a ser enfadonho.

7. O volume não substitui os dicionários disponíveis, sobretudo os coletivos dirigidos por André Lalande e Sylvain Auroux, mais consultados, assim como estes não podem substituí-lo, pois toda língua é comum, mas nenhuma filosofia o é.

8. Não houve obrigação de registrar todas as significações atestadas pelo uso, nem receio de afastar-se do sentido mais corrente, pois em filosofia cada um é senhor de suas definições, como lembra Espinosa ao visar a natureza das coisas e não o sentido das palavras, já que um dicionário filosófico obedece ao pensamento e não ao uso, sob a dupla exigência de um pensamento singular que não se afaste demais das significações recebidas, desconfiando dos neologismos vaidosos e dos barbarismos e preferindo dar um sentido mais verdadeiro às palavras da tribo.

9. Por jogo, retomaram-se a maioria das 118 entradas do Dicionário Filosófico de Voltaire, excetuados os nomes próprios, e quase todos os 264 termos das Definições de Alain, escolhendo-se o restante de modo necessariamente subjetivo, com privilégio da linguagem filosófica sem nela se encerrar, pois uma palavra é filosófica por seu lugar num pensamento e a linguagem comum, quando basta, vale mais que o jargão.

10. Os nomes próprios ficaram de fora, matéria para outro livro, e entre os termos derivados de nomes de sistemas ou escolas só se mantiveram aqueles cujo conteúdo excede o pensador epônimo, como platonismo, epicurismo e estoicismo, e não aristotelismo ou hegelianismo, pois o alvo é a filosofia e não sua história, os conceitos e não os sistemas.

11. A extensão de cada verbete não mede a importância da noção, como mostra o verbete Precaução, mais longo que Prudência por colocar mais problemas de definição e não por ser mais importante, e as noções já tratadas em outras obras, como o Pequeno Tratado das Grandes Virtudes e as Apresentações da Filosofia, foram percorridas rapidamente para evitar repetições.

12. Diante de referências inumeráveis, indicam-se entre parênteses apenas as obras e passagens mais indispensáveis, menos como referências do que como conselhos de leitura.

13. A ordem alfabética, mera desordem cômoda, permite circular livremente pela obra, que, como dizia Voltaire do seu dicionário, não exige leitura contínua e oferece em qualquer página matéria de reflexão, ainda que para corrigir suas fraquezas, pois os livros mais úteis são aqueles de que os leitores fazem a metade, desenvolvendo, corrigindo e fortalecendo o que lhes é apresentado em germe.

14. A nova edição, revista, corrigida e aumentada em cerca de um terço, mantém os princípios da primeira, pois um dicionário filosófico à maneira de Voltaire tem a filosofia não por objeto exterior, mas por conteúdo, a do próprio autor, pessoal e discutível, embora proponha a cada vez, diferentemente de Voltaire, uma verdadeira definição útil também a quem não partilha sua orientação, já que a língua pertence a todos e o pensamento a ninguém, e as 1.654 definições visam menos convencer do que dar o que pensar.

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