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Chestov

Leon Chestov (1866-1938)

Marie-Madeleine Davy

Léon Chestov não pertence a nenhuma confissão particular, mas sua reflexão se volta de preferência para os problemas religiosos — e seu próprio drama foi o de uma tomada de consciência progressiva do mistério.

  • O objetivo da filosofia, dirá ele, é “aprender a viver no desconhecido”.
  • A audácia é a qualidade fundamental desse filósofo — ela o introduz na zona da tragédia, via estranha na qual não existe nenhuma possibilidade de retorno.
  • Nascido em Kiev como Lev Izaakovič Schwarzmann, após estudos de direito na Universidade de Moscou instalou-se em Petersburgo e obedeceu à sua vocação de escritor; emigrado para a França em 1920, prosseguiu até sua morte em Paris suas pesquisas de filosofia religiosa.
  • Sofreu a influência de Pascal, Nietzsche, Dostoiévski, Ibsen e Tchekhov — e foi Husserl que lhe deu acesso a Kierkegaard.
  • Dedicou a Berdiaev um importante estudo — “Nicolás Berdiaev. A gnose e a filosofia existencial” —, publicado na Revue philosophique em 1948.

“Admirável” monotonia dos temas

Em seus diversos livros, Chestov considera, sob formas diferentes, problemas idênticos — Camus falou de sua “admirável monotonia”, não do estilo, mas dos temas.

  • Expressando-se contra as opiniões admitidas, é-lhe necessário repetir-se, tudo colocar em questão e duvidar.
  • Ao falar de Shakespeare, acusa Hamlet de se apegar às ligações lógicas entre as coisas — o importante lhe parece residir na tormenta que ele suporta e que o aperfeiçoa.
  • Inspirando-se em Tertuliano, que opõe a sabedoria de Atenas à de Jerusalém, Chestov opta pela Revelação bíblica.
  • Insurge-se contra as ciências livresca que destroem a espontaneidade — somente a vida ensina a arte de viver, a condição de ter uma experiência do instante, o que só é possível na medida em que a existência é vivida intensamente.
  • O relato do Gênesis reveste aos olhos de Chestov uma grande importância — o que ele chama de mito da falta original pesa sobre o homem com um peso inevitável.
  • Não se trata de uma desobediência a Deus, mas de uma escolha — a do saber — e, por isso mesmo, de uma renúncia à liberdade criadora.
  • A ruptura introduz a lógica às custas da verdadeira liberdade — e o homem só é capaz de reconquistá-la a uma única condição: tentar a aventura, partir sem saber o que poderá descobrir e recusar energicamente as consolações falaciosas.
  • Abraão é o modelo dessa busca sem condições de uma Terra prometida: “Deus exige o impossível, ele não exige senão o impossível.”

“Mistério impenetrável do ser individual”

A condição humana se situa, segundo Chestov, além das categorias morais e psicológicas — as oposições entre o bem e o mal são elas próprias fictícias.

  • O verdadeiro conflito se situa no ser individual, constantemente dilacerado entre o velle (querer) e o posse (poder) — pois o que ele quer, é incapaz de realizar.
  • Mesmo numa sociedade perfeitamente organizada em que reinasse a justiça, o conflito permaneceria, pois tem sua sede no próprio homem — nenhuma solução exterior poderia resolver esse dilaceramento.
  • O homem aparece assim abandonado ao absurdo, esmagado pela fatalidade — mas na medida em que penetra em seu interior, torna-se possível lutar contra o cansaço, o tédio, o medo, a inércia e as concessões.
  • Daí a importância do “mistério impenetrável do ser individual”.
  • Poucos homens são capazes de entrar nessa zona da tragédia — a maioria prefere a facilidade e a banalidade da vida cotidiana.
  • Quando o homem está só, o fluxo que antes o submergia se retira, seu olhar e seu entendimento se modificam — ele percebe num relâmpago, senão a verdade, ao menos seu reflexo que o transfigura; o eu convencional explode e ele alcança um estado de nudez.
  • Retomando a frase do herói das Memórias do subsolo de Dostoiévski — “dois vezes dois fazem quatro” —, Chestov dirá: “Eis o muro!” — e demonstra a necessidade de abater esse muro para prosseguir uma rota sem obstáculo.
  • Os homens mais sábios aceitam os paradoxos e os enigmas; os homens ordinários pretendem apreender tudo, inclusive o sentido da vida e o da morte.
  • Chestov reconhece que uma verdade descoberta pela primeira vez pode parecer “tão feia, tão penosa de ver quanto um recém-nascido” — mas pouco a pouco sua aparência se transforma e ela se impõe pela beleza.
  • O poeta e o artista, ao se abandonarem à sua intuição, descobrem segredos que frequentemente escapam aos indivíduos racionais, amantes da lógica.

O pensamento de Chestov influenciou alguns filósofos e poetas, mas não teve o impacto que normalmente deveria ter tido — em razão de sua exigência de autenticidade.

  • Impõe-se a todos que recusam os sistemas, as doutrinas e os usos pertencentes à consciência comum.
  • Para apreendê-lo e dele se nutrir, é preciso ser capaz de viver, de forma dinâmica, a dimensão vertical que apavora os homens ávidos de horizontalidade.
  • O mais fiel discípulo de Chestov foi Benjamin Fondane — morto gaseado em Auschwitz em 1943 —, que retoma os temas chestovianos mostrando que o abandono da terra firme é a própria condição do existente.
  • Um de seus melhores prefaciadores e tradutores foi Boris de Schloezer, que soube valorizar, em suas introduções, o gênio de um filósofo livre que pôde, por sedução do Absoluto, separar-se da totalidade e tornar-se um “vidente” do homem novo — aquele que Nicolas Berdiaev chamava de “o homem do oitavo Dia”.
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