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chauvire:1989:5

5 Declínio

CHAUVIRÉ, Christiane. Ludwig Wittgenstein. Paris: Seuil, 1989.

Declínio da filosofia, filosofia do declínio

1. Perguntas absurdas sobre quem se é, por que, de onde vem e para onde vai o que é, assediam o pensamento como monstros instantâneos de uma mitologia abstrata nascidos das figuras interrogativas da linguagem, enigmas ilegítimos para os quais não se pode conceber resposta exata, pois se se pudesse, elas não se poriam nem teriam interesse.

2. A paz nos pensamentos é o fim a que aspira o filósofo.

3. Wittgenstein desenvolveu, se não criou, o tema de que a filosofia tende a anular-se ou a superar-se em algo diferente dela, minando o empreendimento filosófico pela base ao questionar o próprio questionamento filosófico, pois, apresentando-se como terapia da doença filosófica, prepara sua própria anulação ao desejar a transformação da forma de vida ou da cultura que segregou a filosofia, até tornar inútil o movimento de pensamento que tornou desejável essa metamorfose, a qual depende de fatores sobre os quais a filosofia não tem domínio.

4. Como os filósofos edificantes Kierkegaard, Nietzsche e Heidegger, Wittgenstein produz uma obra reativa e terapêutica diante da tradição, preferindo aforismos e pensamentos fragmentários a tratados e doutrinas, contra os filósofos construtores que agem como se houvesse uma philosophia perennis de problemas impostos pela natureza das coisas e não pela natureza da linguagem, e relativiza a própria atividade filosófica a uma forma de vida, a nossa, cujo núcleo são os jogos de linguagem, de modo que a filosofia, elemento perverso desses jogos, é uma produção cultural tão efêmera quanto a cultura que a segrega, podendo não existir numa cultura futura, o que torna relativa também sua própria filosofia terapêutica, destinada a desaparecer com a tradicional.

5. O Tractatus, preso em sua própria condenação da filosofia ao silêncio, termina por sua autoanulação, depois de mostrar que os problemas filosóficos nascem da má compreensão da lógica da linguagem, que a única filosofia legítima seria uma crítica da linguagem esgotada nessa atividade, que sobre os problemas da vida a filosofia nada pode nem deve dizer, e que, sem resposta possível, esses problemas não são problemas, conclusão negativa que constitui a resposta.

6. Abandonando a ideia normativa de uma lógica subjacente à linguagem, a segunda filosofia desenvolve uma crítica dos problemas filosóficos nascidos de um uso patológico da linguagem ordinária, sem reformá-la, e um programa terapêutico que clarifica a gramática das expressões correntes que desviaram para questões ilegítimas e geraram confusões conceituais, para chegar a uma visão panorâmica da linguagem em ordem e de seu bom funcionamento.

7. Nessa visão os problemas filosóficos desaparecem por si mesmos, pois a filosofia terapêutica não apenas invalida as doutrinas enquanto doutrinas, sendo ela atividade crítica, mas trabalha a linguagem em profundidade para bloquear os mecanismos que geram os problemas, realizando a ideia de uma autossuperação da filosofia que, partindo da invalidação das doutrinas, chega à anulação do próprio questionamento filosófico.

8. A oposição entre ciência e filosofia, que no Tractatus coincide com a oposição entre o uso legítimo da linguagem, que diz o dizível, e o uso ilegítimo, que tenta dizer o indizível, refere-se também à oposição entre o esquema pergunta-resposta da ciência, em que todo problema tem verdadeira solução e o progresso vai de perguntas a respostas, e o esquema pergunta-pergunta da filosofia, em que a ilusão de uma resposta nasce da semelhança formal entre questões científicas e filosóficas, sendo informativa numa pseudorresposta filosófica apenas a tomada de consciência de uma regra gramatical, de modo que não há conclusão nem resultado, mas uma nova prática da filosofia como questionamento das questões, já que é melhor responder a uma questão filosófica com outra questão.

9. Os problemas filosóficos surgem quando a linguagem gira em falso e o discurso filosófico se constitui como jogo de linguagem autônomo absolutizado pelos filósofos, assim como para Valéry surgem quando há uma parada sobre a linguagem que lhe tira a transitividade e a transparência, temas instrumentalistas próximos ao da linguagem em férias, cuja terapia consiste em recolocar a linguagem ao trabalho, dispondo fatos conhecidos num novo arranjo em que os problemas não possam surgir, de modo que a segunda filosofia está mais próxima de Valéry que a primeira, fascinada pela forma lógica única e pela clarificação lógica dos enunciados, substituindo-se à oposição entre corpo de teses e atividade crítica a oposição entre explicar e descrever.

10. À crítica valeryana, de veia nominalista, da hipóstase que separa a palavra de suas aplicações e gera os ídolos da palavra em si, corresponde em Wittgenstein a crítica da busca do universal, da necessidade de generalidade, da explicação unitária e da ilusão essencialista, numa inversão tática dos valores platônicos que substitui a busca da essência pela consideração dos casos particulares e dos exemplos.

11. Assim como Valéry desdramatiza a angústia metafísica e proíbe-se o espanto diante do ser, Wittgenstein recusa transformar a angústia em pathos filosófico, reconhecendo em Heidegger o impulso humano de arremeter contra as fronteiras da linguagem, como no espanto de que algo exista, que não pode exprimir-se como pergunta nem admite resposta, embora mostre certa simpatia por essa tendência, que indica algo, como já sabia Santo Agostinho.

12. Valéry não vê sentido em falar de progresso em filosofia, situando-o antes na superação do pensamento pelo ato e no desaparecimento da filosofia, e para o primeiro Wittgenstein o progresso estaria também numa regressão, compreender que não há respostas, enquanto para o segundo, se a filosofia não progride desde Platão, é porque a linguagem permaneceu idêntica e continua a desviar para as mesmas questões, enquanto houver um verbo ser que parece funcionar como comer e beber, adjetivos como idêntico, verdadeiro ou possível e se falar de fluxo do tempo e extensão do espaço.

13. Para Wittgenstein o progresso estaria no desaparecimento dos problemas, para Valéry na abolição da filosofia no ato ou nas produções científicas e artísticas, já que, próximo de William James, todo problema não solúvel por um ato é aparência de problema, e ambos concordam na necessidade de um trabalho de elucidação que conduza a filosofia a seu termo, mas divergem, pois Valéry, mais próximo do positivismo, julga que basta formular um problema com precisão científica para que se dissipe, ao passo que Wittgenstein, que considera os problemas mais profundos não serem problemas, demonstra constante consideração por sua importância e profundidade, que exige uma terapia longa e minuciosa, problema por problema, e teria desaprovado a desenvoltura de Valéry diante da filosofia e sua fascinação pelo modelo científico.

14. A profundidade dos problemas filosóficos é uma metáfora organicista aplicada à linguagem, medida pelo enraizamento do problema na linguagem e na forma de vida, o que exige apreendê-lo pela raiz, pois uma apreensão superficial deixa a dificuldade intacta e os problemas da vida só se resolvem em profundidade.

15. É o enfeitiçamento exercido pelos problemas filosóficos que explica sua importância e exige uma terapia que trabalhe profundamente a língua, oposta à evacuação brutal e cirúrgica de Valéry e de Carnap, pois a profundidade do desamparo filosófico, do qual a angústia metafísica é epifenômeno afetivo, revela o risco permanente de derrapagem que a linguagem encerra, donde a filosofia como luta contra a linguagem e sua mitologia cativante, numa destruição que não atinge o grande e o importante, mas castelos de cartas, como o presente do conto de fadas que parece mágico no castelo encantado e à luz do dia é um banal pedaço de ferro.

16. Ao tema do enfeitiçamento corresponde em Valéry o da aura mágica das palavras filosóficas, pois a metafísica nasce dos contos de fadas, dos sonhos e dos instantes encantados em que o conjunto das coisas parece propor-se, em que se forma a ficção do Todo e as palavras ser e real adquirem sentido misterioso, tornando-se pergunta o que naturalmente é resposta.

17. A palavra corrente adquire virtude mágica assim que o filósofo a utiliza, e reconduzir as palavras de seu uso metafísico ao uso cotidiano é o principal dever do filósofo-terapeuta, de modo que minar pela raiz os problemas filosóficos é destruir uma atmosfera de conto de fadas e deixar o maravilhoso pelo solo firme da positividade.

18. A terapia deve respeitar a naturalidade, o caráter orgânico e a espontaneidade do bom funcionamento da linguagem, sem reformá-la segundo um modelo lógico procustiano, visando uma visão sinóptica de fatos conhecidos dispostos de outro modo que libere o entendimento das imagens obsessivas e alivie a cãibra do espírito, com o fim pacificador de trazer paz aos pensamentos, sem nada de positivista, pois não se trata de mostrar a falsidade de teses, mas de libertar-se de dependências supersticiosas, ao passo que Valéry, mais positivista, quer evacuar a noção de mistério, como se a vida não tivesse mais mistério que a nuca para o olho, sinal talvez da perda do problema que Wittgenstein diagnosticava em Russell.

19. A autossuperação da filosofia opera-se de dois modos, conforme se trate da filosofia anterior a desconstruir ou da filosofia terapêutica praticada nas Investigações.

20. O questionamento das questões e a terapêutica gramatical dissipam as confusões conceituais no desaparecimento dos problemas, sem que o horizonte de um acabamento se desenhe nitidamente.

21. Na perspectiva spengleriana do declínio da cultura, prevê-se o advento de outra cultura em que a terapêutica filosófica não teria razão de ser por não haver mais problemas filosóficos, de modo que, sem doente, não haveria necessidade de médico e a palavra filosofia talvez perdesse todo sentido.

22. Estabelecido um novo modo de pensar, os antigos problemas desaparecem e torna-se difícil reapreendê-los, pois residem no modo de expressão e caem com a antiga vestimenta.

23. A tendência hoje combatida perecerá sob a pressão de outras tendências, e então não se compreenderá mais a argumentação contra ela nem por que foi preciso dizer tudo isso.

24. A solução do problema da vida é uma maneira de viver que faça desaparecer o problema.

25. A tentativa filosófica que deseja uma forma de vida sem filosofia contém uma vontade mais ou menos deliberada de autossuperação, pois não está claro se se prefere ver o trabalho continuado por outros ou uma mudança na maneira de viver que torne essas questões supérfluas, razão pela qual não se poderia fundar uma escola.

26. Se o empreendimento pode parecer suicida, não se devem esquecer seus aspectos criativos, pois a filosofia terapêutica retrabalha a língua inventando jogos de linguagem artificiais mais simples, casos intermediários e ares de família, variações virtuosísticas e experiências de pensamento que exigem tanta imaginação e talento literário quanto a criação poética, já que só pensando coisas ainda mais loucas que os filósofos se resolvem seus problemas, por exemplo forjando conceitos fictícios que ensinam a compreender os nossos.

27. Para Valéry, a filosofia só pode superar-se tomando consciência de sua presença difusa e implícita nas produções culturais, na ciência e nas artes, e assumindo seu verdadeiro estatuto de obra de arte, pois a verdadeira filosofia é invisível, nunca está nos escritos dos filósofos, sente-se em todas as obras humanas alheias à filosofia e evapora-se quando se quer filosofar, sendo um erro contar como filósofos apenas os filósofos.

28. Engenheiro de formação e em parte autodidata em filosofia, Wittgenstein sempre sustentou que a arte tinha tanto a ensinar quanto a ciência em filosofia, e que havia mais filosofia nos westerns e romances policiais do que na revista Mind.

29. A terapia filosófica anteciparia o que aconteceria cedo ou tarde sob a influência de outros fatores, a mudança de cultura, assinalando sua própria inutilidade ou eficácia limitada, já que age sobre o funcionamento da língua e não sobre as formas de vida, e anunciando conscientemente uma situação em que será supérflua e esquecida, num niilismo pessimista oposto ao otimismo de Valéry, que vê na arte a verdade da filosofia e nela deve abolir-se, mas tratar os monumentos da metafísica, esvaziados de valor de verdade, como sinfonias e falar de amadores de Espinosa como de amadores de Bach é um diletantismo que o engajamento apaixonado de Wittgenstein não aceitaria, pois Valéry dessacraliza a tarefa filosófica que Wittgenstein sublima na ideia de filosofia terapêutica.

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