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4 Mundo

Antropologia Filosófica. Ernst Cassirer. Trad. Vicente Felix de Queiroz. Editora Mestre Jou, 1972

O MUNDO HUMANO DO ESPAÇO E DO TEMPO

1. O espaço e o tempo constituem a trama em que toda realidade está entretecida, pois nada real pode ser concebido fora de suas condições, e no pensamento mítico eles jamais são formas puras ou vazias, mas grandes forças misteriosas que governam todas as coisas, inclusive a vida dos deuses.

2. Descrever o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais importantes de uma filosofia antropológica, e, como sua aparência não é a mesma para todos os seres orgânicos e a diferença entre o homem e os antropoides superiores não se explica pelos métodos psicológicos correntes, é preciso seguir a via indireta da análise das formas da cultura.

3. Existem camadas hierarquizadas de experiência espacial e temporal, das quais a mais baixa é o espaço orgânico, em que os animais se orientam por impulsos corporais inatos sem qualquer imagem mental do espaço, seguida do espaço perceptivo dos animais superiores, composto de elementos ópticos, táteis, acústicos e cinestésicos, e, por fim, do espaço simbólico, no qual o homem, inferior aos animais no espaço da ação, alcança por um processo mental complexo a ideia do espaço abstrato, que lhe abre um novo campo de conhecimento e uma direção inteiramente nova da vida cultural.

4. A natureza do espaço abstrato sempre impôs aos filósofos as maiores dificuldades, levando Demócrito a chamá-lo de não ser dotado de realidade, Platão a considerá-lo um conceito híbrido e Newton a separá-lo do espaço sensível, enquanto Berkeley o denunciava como ficção, objeção irrefutável em termos sensualistas, já que pontos e linhas não são objetos físicos nem psicológicos, mas símbolos de relações abstratas cuja verdade diz respeito a proposições e juízos, e não a coisas.

5. Antes de chegar a esse ponto, a filosofia e a ciência percorreram várias etapas, a primeira das quais é a da vida primitiva, em que quase não há vestígios de espaço abstrato, pois o espaço primitivo é um espaço de ação centrado em necessidades práticas imediatas e mesclado de sentimentos pessoais, sociais e emotivos.

6. O espaço pragmático do homem primitivo, enquanto campo de ação técnica, não difere em estrutura do espaço do homem civilizado, mas, quando se torna objeto de representação e reflexão, aparece como uma noção sincreticamente vinculada ao sujeito, concreta, egocêntrica, antropomórfica e dinâmica, muito distante do espaço objetivo, mensurável e abstrato da cultura avançada.

7. A passagem do espaço da ação ao espaço teórico da geometria, homogêneo e universal, que abstrai da heterogeneidade dos sentidos e é condição para a ideia de um ordem cósmica unitária, é quase impossível para a mentalidade primitiva, como mostra o nativo que percorre com exatidão todos os meandros de um rio, mas é incapaz de descrevê-lo ou traçar seu mapa, porque sua familiaridade é mera apresentação e manipulação habitual, ao passo que o conhecimento pressupõe a representação, que situa o objeto num sistema geral de relações.

8. A primeira grande generalização rumo à concepção de uma ordem cósmica ocorreu na astronomia babilônica, cujo pensamento transcendeu a esfera prática para abarcar o universo, e seu fundamento esteve na descoberta de uma álgebra simbólica, nascida da confluência entre sumérios e acádios, povos de línguas sem parentesco, cujo esforço para decifrar os textos sumérios levou os babilônios a serem os primeiros a compreender o sentido e o uso de um simbolismo abstrato.

9. Toda operação algébrica pressupõe símbolos fixos para as operações e as quantidades, sem os quais não seria possível combinar grandezas indeterminadas nem derivar delas novas combinações, e esse simbolismo surgiu de modo imediato e necessário na escrita dos textos acádios, dotando os babilônios desde o início do instrumento mais importante para o desenvolvimento algébrico.

10. A astronomia babilônica representa apenas a fase inicial da conquista intelectual do espaço, pois o pensamento matemático nasceu imerso na atmosfera mítica, e o espaço, transportado da terra ao céu, permaneceu impregnado de poderes mágicos, divinos e demoníacos dos quais o homem buscava extrair o reflexo e a ordem de seu mundo humano, de modo que a astronomia só pôde surgir como astrologia, caráter que conservou até Kepler, até que o espaço geométrico substituísse o mítico e essa forma falsa de pensamento simbólico preparasse o simbolismo verdadeiro da ciência moderna.

11. Compreender esse simbolismo científico em sua plena significação foi uma das tarefas mais difíceis da filosofia moderna, e Descartes não começou pelo cogito, mas pelo ideal de uma mathesis universalis fundado na geometria analítica, graças à qual todo conhecimento do espaço pôde ser traduzido na linguagem dos números, tornando mais claro o caráter lógico do pensamento geométrico.

12. O mesmo progresso se verifica na passagem do espaço ao tempo, que, apesar das diferenças, partilha com ele um fundo comum, pois o tempo é primeiro pensado como condição geral da vida orgânica, um processo contínuo em que nada retorna idêntico e no qual passado, presente e futuro formam um todo indivisível, de modo que nenhum estado momentâneo de um organismo pode ser descrito sem referência à sua história e a seu estado futuro.

13. Ainda que se admita, com Hering e Semon, que a memória seja uma função geral de toda matéria orgânica, na qual cada estímulo deixa vestígios que influenciam as reações futuras, a memória no sentido humano exige mais que resíduos latentes, pois supõe um processo ideacional de reconhecimento e identificação em que as impressões passadas são ordenadas, localizadas e referidas a pontos distintos de um tempo concebido como ordem serial geral.

14. A memória como simples reprodução de eventos passados também ocorre nos animais superiores, mas permanece controverso em que grau ela depende de processos ideacionais comparáveis aos humanos.

15. Cabe indagar se os chimpanzés agem como se pudessem lembrar, recordar e reconhecer experiências anteriores, se podem antecipar, esperar e preparar-se para acontecimentos futuros e se resolvem problemas com a ajuda de processos simbólicos análogos aos símbolos verbais humanos.

16. Mesmo admitindo processos ideacionais nos animais, o decisivo é sua forma, pois a recordação humana não é simples retorno ou cópia pálida de impressões passadas, mas ressurreição criadora e construtiva do passado, que organiza, sintetiza e reúne os dados da experiência num foco de pensamento, distinguindo-se de todos os fenômenos da vida animal ou orgânica.

17. Embora muitos casos de memória comum possam ser explicados pela simples associação de ideias e certos psicólogos a meçam pela retenção de sílabas sem sentido, Bergson combateu essas teorias mecânicas mostrando que a memória é um fenômeno mais profundo de interiorização, intensificação e interpenetração de todos os elementos da vida passada, ideia que converteu em pedra angular de sua metafísica.

18. Numa fenomenologia da cultura, a memória simbólica aparece como reconstrução da experiência passada em que a imaginação se torna elemento necessário do genuíno recordar, como em Poesia e verdade de Goethe, que buscava a verdade de sua vida dando forma poética aos fatos dispersos, na poesia entendida por Ibsen como juízo sobre si mesmo e reinterpretação da própria vida, e nos autorretratos de Rembrandt, que encerram toda a história de sua personalidade.

19. As Confissões de Santo Agostinho oferecem outro tipo de memória simbólica, pois sua conversão é apresentada como reflexo do drama religioso universal da queda e redenção do homem, e, por só poder compreender a própria vida na linguagem simbólica da fé cristã, ele se tornou grande pensador religioso e fundador de um novo método de introspecção e autoexame.

20. Além da relação do presente com o passado, o tempo humano possui uma dimensão ainda mais característica, o futuro, que domina desde as primeiras etapas do desenvolvimento das ideias como expectativa e se acentua na vida adulta, em que se vive mais em dúvidas, temores e esperanças do que em recordações, e, embora filósofos, poetas e religiosos tenham advertido contra essa fonte de incerteza, pensar no futuro e viver nele é parte necessária da natureza humana.

21. Em certo sentido, a referência ao futuro não ultrapassa os limites da vida orgânica, pois os instintos animais são impulsos dirigidos a um futuro muitas vezes remoto, cujos efeitos pertencem à geração seguinte e não são percebidos pelo próprio animal que os realiza.

22. Tais instintos não provam nenhuma consciência do futuro nos animais inferiores, mas nos superiores o caso é duvidoso, pois muitos observadores falam de previsão e, nos experimentos de Wolfe, o animal que aceita o sinal em lugar da recompensa real parece antecipar conscientemente sua troca futura por alimento.

23. São poucos os casos em que se pode apontar nos antropoides o reconhecimento de uma contingência futura, e a consideração mais clara de um acontecimento futuro ocorre quando ele é um ato planejado do próprio animal, que pode dedicar longo tempo a um trabalho preparatório que, por si só, não o aproxima visivelmente de sua finalidade.

24. Embora a antecipação e o planejamento não estejam inteiramente fora da vida animal, no homem o futuro deixa de ser mera imagem e torna-se ideal, ultrapassando o âmbito prático da prudência rumo a um futuro simbólico e profético que corresponde ao passado simbólico, cuja expressão mais alta está nos profetas de Israel, para quem o futuro não era fato empírico a predizer, mas tarefa ética e religiosa e promessa, negação do mundo empírico que contém a esperança de um novo céu e uma nova terra e constitui um grande ato de integração na vida ética e religiosa do homem.

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