4.2 Sujeito-objeto na Filosofia do Renascimento
CASSIRER, Ernst. Individu et cosmos dans la philosophie de la Renaissance. Paris: Minuit, 1983.
O PROBLEMA DO SUJEITO E DO OBJETO NA FILOSOFIA DO RENASCIMENTO
II
1. A psicologia renascentista, em sua forma científica e filosófica, mostra apenas os primeiros passos do gigantesco movimento espiritual do qual surgiria o novo conceito de subjetividade, pois não consegue reunir numa verdadeira unidade os dois momentos contrários que a engendram, limitando-se a levar ao extremo a velha luta entre espiritualismo e naturalismo pelo domínio da alma, em que o espiritualismo florentino rebaixa a natureza e o naturalismo de Pomponazzi, ao unir alma e vida, esvazia o espírito e as funções intelectuais e éticas superiores, de modo que quem afirma a imortalidade do espírito nega a natureza e quem concebe a natureza como unidade fechada nega a imortalidade, exclusão recíproca enraizada no modo substancial de conceber a oposição, que faz de natureza e espírito duas partes do ser em disputa pela totalidade da realidade, sendo o espírito para Telésio uma região da natureza dominada pelo calor e pelo frio e a natureza para Ficino o grau mais baixo do ser, sujeito à providência e ao fatum, até que a relação entre alma e corpo, natureza e espírito passa a ser pensada não como substancial, mas como funcional, mudança que a metafísica da época não pôde realizar sozinha e que exigiu o auxílio da investigação exata e empírica e da teoria da arte, cuja união, um dos momentos mais fecundos do Renascimento, criou um novo sentido da legalidade natural e converteu a antinomia entre liberdade e necessidade em correlação, já que conhecimento e criação artística, superando a mera cópia do dado, são construção arquitetônica do cosmos e, quanto mais conscientes de sua função formadora, mais compreendem a lei a que se submetem como expressão de sua liberdade, de modo que o objeto deixa de ser mero obstáculo ao eu para tornar-se o termo em que suas forças produtivas se verificam e em cuja necessidade o eu reconhece a força e a direção de sua espontaneidade, pensamento idealista já presente em Nicolau de Cusa mas plenamente realizado apenas pelo novo conhecimento científico e pela nova intuição artística.
2. O primeiro testemunho da transformação do conceito de natureza encontra-se menos na teoria do que na mudança do sentimento da natureza a partir do século XIII, pois a lírica de Petrarca liberta a natureza da atmosfera lúgubre e demoníaca da dogmática medieval e faz da paisagem espelho vivo do eu, libertação que é também limitação, já que a natureza, valendo como meio de expressão da vida interior infinita e multiforme do homem moderno, possui apenas realidade indireta e refletida, e o poeta, recorrendo a ela para exprimir-se, logo é devolvido a si mesmo num desmedido sentimento do próprio eu, oscilação patente na subida ao Mont Ventoux, onde, alcançado o cume, em vez de contemplar a paisagem, lê nas Confissões de Agostinho a advertência contra os homens que se esquecem de si ao admirar montanhas, mares e astros, divisa agostiniana do retorno à interioridade que parece vedar todo acesso à natureza, de modo que o sentimento petrarquiano da natureza permanece na mesma tensão de seu sentimento do mundo, vendo natureza, homens e história sob novo esplendor e julgando essa luz causa de cegueira e erro, como mostra o título medieval De contemptu mundi dado ao livro de seu conflito interior, talvez a primeira expressão da alma moderna, e sua relação apaixonada mas culpada com a natureza, a vida mundana e a glória resulta numa relação não ingênua, mas sentimental, em que a natureza é sentida e gozada como fundo mais sombrio ou mais brilhante do eu.
3. Às gerações do Quattrocento e do Cinquecento coube estabelecer o conceito de natureza a partir dela mesma e assegurar-lhe existência objetiva antes de renovar a questão de sua relação com a consciência e o espírito, e a opinião dominante, desde Burckhardt, atribui essa conquista à intuição sensível e empírica, ao progressivo descobrimento do mundo pela observação objetiva das formas naturais, pelo acúmulo de material observado, pelo espírito de coleção que criou jardins botânicos e zoológicos e por uma descrição exata e sistemática que, com o De plantis de Cesalpino, inaugura a botânica científica, caminho aparentemente seguido também pela filosofia da natureza, pois Telésio, antecipando Bacon, exige que a natureza seja conhecida segundo seus próprios princípios e não pelas categorias aristotélicas, encontrando-os nos fenômenos constantes do calor e do frio, que, atuando sobre uma matéria entendida como substrato físico da mudança, engendram toda a diversidade regulada do devir, e proclama a percepção sensível como meio decisivo do conhecimento, entendida literalmente como contato entre sujeito e objeto, de modo que o espírito é substância animada modificada por influências externas propagadas pela luz ou pelo ar até culminarem no tato, sentido dos sentidos, e mesmo o pensamento e a inferência são um tocar à distância, pois o raciocínio consiste em conservar e renovar internamente os movimentos recebidos, relacionando estados presentes e passados e antecipando o futuro, não como força livre de um intelecto ativo, mas como continuação mecânica de impressões, sem diferença essencial entre sentir, representar, recordar e saber, sendo o intelecto apenas um sentido mediato, imperfeito, sombra e cópia da impressão real.
4. O naturalismo renascentista, em sua primeira forma sistemática, orienta-se assim num sentido rigorosamente empirista e sensualista, mas seus sucessores logo abandonam a observação exata e o método descritivo, pois a autonomia da ciência empírica, conquistada por Telésio contra o aristotelismo e as ciências ocultas, perde-se tão logo alcançada, invadindo a magia natural os tratados de Bruno e dando título ao De sensu rerum et magia de Campanella, o que mostra que esse empirismo não tem força para constituir-se como sistema da experiência pura e converte-se em teosofia ou mística, sem caminho direto para a ciência moderna, razão pela qual se enganava Campanella ao defender Galileu em nome de Telésio, já que o caminho de Leonardo e Galileu, que busca as razões na experiência, conduz ao idealismo matemático, enquanto o sensualismo remonta ao animismo, e este não é acidente histórico, mas consequência do pressuposto teórico comum da filosofia italiana da natureza, segundo o qual conhecer é tornar-se uno com o objeto, o que exige identidade de natureza entre cognoscente e conhecido como membros de um mesmo complexo vital e faz de toda percepção um ato de fusão em que se intui no objeto a mesma vida do próprio eu, de modo que o pampsiquismo é corolário e premissa da teoria do conhecimento, como na Panpsychia de Patrizi, que censura Aristóteles por animar apenas os astros, quando a vida está presente indivisa em tudo, no mínimo e no máximo, e só o animado possui ser real e valor, assim como em Telésio, para quem todo pensamento se funda na analogia sensível, fundada metafisicamente na unidade essencial dos seres, e em Cardano, para quem os metais são plantas enterradas e as pedras crescem e amadurecem, concepção que não só admite mas exige a magia como coroamento da ciência natural, definida por Pico como suma da sabedoria natural e parte prática da ciência, que nada tem de milagroso e apenas serve às forças vivas da natureza, sondando a simpatia universal e unindo céu e terra como o lavrador une o olmo à videira, desde que seu fundamento se busque na própria natureza e na observação de suas regras e não em potências demoníacas, sentido fixado por Giambattista Porta, para quem a natureza, pela atração do semelhante e repulsão do dessemelhante, é origem de todas as forças mágicas, e aprofundado por Campanella, que pretende reduzir a magia natural, tratada historicamente por Porta, a suas causas últimas e a um princípio único, encontrado na faculdade de sentir comum a todas as partes do ser em graus diversos, determinação ontológica originária que as liga imediatamente e quase a priori, que não nasce nem perece e não pode faltar a nada, pois nada procede do inanimado que já não tenha sensibilidade e vida.
5. Do ponto de vista metodológico, o interesse pelo mundo sensível e a aspiração de apreendê-lo e esgotá-lo diretamente não apenas não originaram o conceito moderno de natureza como o entravaram, pois, enquanto a matemática e os modos de pensar dela nascidos não forneceram critérios à experiência, o empirismo renascentista careceu de medida objetiva e de princípio de seleção entre as observações, alinhando fatos em profusão caótica e oferecendo um conceito de experiência heterogêneo e inconsistente, que unia os primeiros fundamentos da descrição e experimentação exatas a tentativas de racionalizar a magia natural, distinta da demoníaca por recusar forças sobrenaturais e limitar-se à observação e comparação indutivas, mas sem a crítica analítica de todo experimento genuíno, de modo que experiência e milagre se compenetravam, como em Porta, celebrado por Kepler como inventor do telescópio e fundador da óptica científica, mas também fundador da Accademia dei Secreti e compilador incansável das ciências ocultas, e em Campanella, que define a experiência como mero acúmulo de experimentos, empirismo que codifica e não supera a magia e que só poderia valorizar os casos particulares após uma crise interna e uma seleção de seus elementos fundamentais, separação entre o necessário e o contingente, a legalidade e a arbitrariedade fantástica realizada não pelo sensualismo, mas pelo intelectualismo matemático aliado à teoria da arte, pois matemática e arte coincidem na exigência fundamental da forma, como mostram a ligação direta de Leonardo com Nicolau de Cusa e o apelo de Galileu a Michelangelo, Rafael e Ticiano em favor de sua concepção do intelecto humano, estabelecendo-se assim uma nova síntese e uma nova correlação entre sujeito e objeto, em que a reflexão sobre a liberdade e a força criadora do homem exige como complemento e confirmação a necessidade imanente dos objetos naturais.
6. Esse duplo processo revela-se plenamente nos manuscritos de Leonardo, nascidos da luta contra as ciências mentirosas que prometem ao homem domínio direto da natureza e de suas forças ocultas e desprezam o único caminho verdadeiro, o da matemática, cuja recusa alimenta confusão e contradições sofísticas, o que o separa dos espíritos exaltados da filosofia da natureza que buscam as razões mais altas sem fundamento seguro, preferindo sonhos sobre coisas grandes e incertas a razões seguras e naturais, e inverte a medida valorativa medieval das ciências, para a qual, como em Salutati, o direito superava a medicina por ocupar-se de leis eternas de origem divina e não de coisas materiais, substituindo a dignidade do objeto pela forma e pela certeza do saber como único fundamento de divisão, de modo que a matemática se torna o centro do conhecimento e nenhuma investigação pode chamar-se verdadeira ciência sem passar pelas demonstrações matemáticas, e embora Leonardo pareça às vezes oscilar entre matemática e experiência como fundamento, chamando a sabedoria filha da experiência e o experimento único intérprete entre a natureza e o homem e atribuindo o erro não aos sentidos, mas aos juízos falsos e aos desejos vãos, não há para ele dualismo entre abstrato e concreto, razão e experiência, que se compenetram e completam, pois a experiência só se cumpre na matemática e esta só frutifica naquela, já que não há experiência verdadeira sem análise dos fenômenos em suas condições elementares e não há análise sem demonstração e cálculo matemáticos, sendo o próprio mundo dos fatos um tecido de razões que só o pensamento distingue e cujo valor o experimento revela ao isolar os fatores de um fenômeno complexo, de modo que a experiência é o primeiro para nós e os princípios matemáticos o primeiro por natureza, e, como a natureza encerra infinitas razões jamais dadas na experiência, o caminho da investigação consiste em reduzir, pela relação constante entre experiência e matemática, a profusão incerta dos fenômenos a medida e regra fixas, convertendo o contingente em legal e necessário e conquistando o critério que faltara à filosofia da natureza para separar experiência metódica e especulação, verdadeiro e falso, possível e fantástico, de modo que o espírito conhece a meta e os limites de seu saber e escapa à incerteza que o lançaria desesperado ao ceticismo.
7. O papel de Leonardo na constituição das ciências exatas não se esgota nos resultados particulares de estática e dinâmica que antecipou, como indicações sobre a inércia, a ação e reação, o paralelogramo de forças e velocidades, a alavanca e o princípio das velocidades virtuais depois formulado por Lagrange, mas reside sobretudo no novo planejamento dos problemas e num novo conceito de necessidade dotado de validade universal, expresso na definição da necessidade como mestra, tutora, tema, inventora, freio e regra eterna da natureza, que fica subordinada à razão como a uma lei nela infusa e jamais transgredida, de modo que para arrancar-lhe os segredos já não bastam os sentidos e o sentimento imediato da vida, mas apenas o pensamento e o princípio de causa erigido em princípio de dedução matemática, ponto a partir do qual se compreende sua influência sobre Galileu, que, se em Leonardo a enunciação das leis é por vezes vacilante mas seu conceito é firme, continua e desenvolve essa obra ao sustentar que a natureza não só contém necessidade, mas é toda ela necessidade, traço que a distingue da ficção e da criação poética, e ao combater tanto a filosofia especulativa da natureza quanto Aristóteles e a escolástica por confundirem a filosofia com um produto da fantasia como a Ilíada ou o Orlando furioso, quando ela está escrita no grande livro da natureza, legível apenas por quem conhece suas figuras matemáticas e sua vinculação necessária, única relação rigorosa de causa e efeito capaz de esclarecer a conexão lógico-matemática do ser e do acontecer, embora Leonardo e Galileu cheguem a esse resultado por caminhos diversos, pois Galileu relega a arte ao último lugar ao separar verdade objetiva e ficção, enquanto Leonardo vê na arte instrumento indispensável e de igual valor de verdade para apreender a realidade, sem arbitrariedade subjetiva, regida pela mesma necessidade, distinguindo, como Goethe, o estilo, enraizado na essência das coisas visíveis e inteligíveis, da maneira individual e contingente, e fazendo da visibilidade e inteligibilidade da forma o limite de todo conhecimento humano e do percurso completo e sistemático das formas visíveis, nítidas e precisas o objeto supremo de uma ciência em que o artista e o investigador abarcam o mundo do olho.
8. Ignorar esse caráter fundamental do problema de Leonardo e substituí-lo por questões posteriores das ciências exatas leva a medir sua ciência com medida falsa, como nas críticas opostas de Croce, que o iguala a Galileu e Newton mas nega sua importância para o mundo interior e o conhecimento especulativo, e de Olschki, que o acusa de temer toda generalização dedutiva ou indutiva e contentar-se com demonstrações intuitivas por sinais, juízos que, partindo do idealismo especulativo ou do positivismo moderno, esquecem a fantasia sensível exata de que fala Goethe, dotada de regras e medidas imanentes, cuja força na investigação empírica Leonardo demonstrou de modo ímpar, pois nela a fantasia não se soma à percepção, mas é seu veículo vivo, que lhe indica o caminho e lhe confere significação, força e segurança, de modo que seu ideal científico se orienta para o saber ver e abstração e visão colaboram indissoluvelmente, como mostra a observação pictórica da contração e dilatação da pupila depois tratada teoricamente, e sua imagem da natureza aparece como ponto de transição metodicamente necessário em que a abstração científica conquista sua legitimidade pela visão artística, distante tanto do sentimento subjetivo indiferenciado quanto das meras distinções conceituais abstratas, já que a necessidade objetiva se descobre na própria intuição, e assim a necessidade, antes concebida como reino da natureza oposto à liberdade e ao espírito, torna-se selo do próprio espírito, admirável lei suprema que obriga os efeitos a participar de suas causas e eleva o entendimento humano à contemplação divina, domínio descoberto pela contemplação artística no sentido da afirmação goethiana de que o belo manifesta as leis secretas da natureza, sendo a proporção, em sua legalidade íntima, o vínculo entre natureza e liberdade, no qual o espírito repousa como em algo objetivo e encontra a si mesmo e sua própria regra.
9. O paralelismo absoluto entre teoria da arte e teoria da ciência constitui um dos motivos mais profundos do Renascimento, cujas grandes conquistas resultam quase todas de uma nova posição diante do problema da forma e de um novo sentimento da forma, pois, como mostrou Borinski a propósito da poética, a Idade Média nunca rompeu com a Antiguidade, mas recebeu dela sobretudo conteúdos, ao passo que a revolução renascentista se revela na forma, da existência, do sentir e do viver ao classicismo na poesia, na arte, na sociedade e no Estado, primado que se manifesta primeiro na lírica, na Vita Nuova de Dante e nos sonetos de Petrarca, onde o sentimento da forma, liberador, estimula um sentimento da vida ainda medieval e a expressão lírica descobre e cria a realidade interior infinita, transformando progressivamente conteúdos herdados dos trovadores e da escolástica, sobretudo do averroísmo, e manifesta-se igualmente na lógica, onde o novo sentido linguístico humanista, buscando purificar o latim das deformações escolásticas, conduz em Valla a uma nova dialética, fazendo da clareza e simplicidade da língua caminho para a do pensamento, da doutrina do discurso doutrina da estrutura do pensar e da estilística modelo da doutrina das categorias, a ponto de a eloquência reivindicar tudo o que pertence à filosofia, de modo que o vínculo comum dos humanistas é o sentir artístico, que determinou também o novo conceito de natureza da ciência renascentista e funda em Leonardo uma unidade real entre criação artística e obra científica, pela qual ele supera a oposição entre gênio e natureza ainda presente em Alberti, que advertia o pintor contra confiar no próprio engenho sem o modelo natural, e iguala a força criadora do artista à do pensamento científico, sendo a ciência segunda criação pelo intelecto e a pintura segunda criação pela fantasia, ambas valiosas por descobrir a verdade empírica das coisas, mudança impossível enquanto natureza e liberdade fossem pensadas em categorias éticas e religiosas como alternativa da vontade entre natureza e graça, conflito central do discurso de Pico sobre a dignidade do homem, superado por Leonardo porque a natureza, contemplada pela arte, deixa de ser reino do informe e da mera matéria e torna-se reino das formas perfeitas, regido pela necessidade da pura proporção, afim ao espírito e presente nos números, sons, pesos, tempos e lugares, pela qual a natureza é redimida e enobrecida e deixa de ser potência hostil, pois sua infinitude é a das infinitas razões matemáticas, inabarcáveis em extensão mas compreensíveis em seus princípios, idealidade que eleva o espírito a sua altura suprema e anula as barreiras medievais entre natureza e espírito e entre intelecto humano e divino, consequência que Galileu extrai ao distinguir saber extensivo, nulo diante da multiplicidade dos objetos, e intensivo, no qual o espírito humano compreende as verdades matemáticas com certeza igual à divina, pois, embora Deus conheça infinitamente mais delas, as poucas que o homem compreende igualam-se às divinas em certeza objetiva por apreender-se sua necessidade.
10. Fica assim estabelecida a relação entre realidade e fantasia artística, natureza e gênio, sem conflito, pois a fantasia genuína não aspira a ficções fora da natureza, mas adota suas leis imanentes e eternas, que, manifestadas na suprema liberdade de suas condições particulares, revelam o belo objetivo, de modo que a força criadora do artista, produtora de uma segunda natureza, consiste em descobrir e mostrar a lei e não em inventá-la, separando na visão e na representação o contingente do necessário e trazendo à luz a essência das coisas, e a teoria científica da experiência de Kepler e Galileu subordina-se à mesma exigência de exatidão fixada pela teoria da arte, passando ambas pelas mesmas fases, pois o afrouxamento renascentista do vínculo medieval entre o belo e o bem, que prendia a arte à teologia e à metafísica e prenunciava a autonomia estética fundamentada três séculos depois, corresponde ao fortalecimento do vínculo entre o belo e o verdadeiro, e assim como Leonardo condena quem imita a maneira alheia e estuda autores em vez das obras da natureza, tornando-se neto e não filho dela, Galileu combate o método escolástico de interpretar autores em vez de fenômenos, sustentando ambos que as razões que regem os fenômenos não se captam pela apreensão sensível, mas exigem a espontaneidade da inteligência, já que o eterno e necessário não resulta do acúmulo de experiências, mas o espírito deve partir de si para reencontrá-lo nos fenômenos, conhecendo as verdades necessárias por si mesmo ou nunca, de modo que todo experimento supõe um esboço intelectual que antecipa uma legalidade natural depois elevada à certeza pela experiência, sendo as leis objetivas hipóteses que a experiência confirma ou refuta, relação entre intelecto e sentidos que é o paralelo exato da relação entre a fantasia do pintor e a realidade das coisas, pois a força do engenho artístico e científico consiste em ensinar a ver o objeto em sua verdade e precisão e o gênio descobre a necessidade da natureza, ideia que só a Crítica do juízo formularia ao definir o gênio como dom natural pelo qual a natureza dá a regra à arte, mas cujo caminho já estava traçado e que permitiu ao Renascimento superar a magia, a mística e as ciências ocultas, conquistando pela união de matemática e teoria da arte o que nem a observação sensível nem o abismar-se no interior da natureza alcançaram, a nova ideia moderna de natureza, plenamente manifesta na Harmonia do mundo de Kepler como síntese do espírito teórico e artístico, para quem as leis da harmonia se reencontram no visível por ter sido criado segundo os arquétipos eternos da ordem e da medida, e reconhecida até por Galileu, que, embora distinga cuidadosamente o empírico do metafísico e o lógico do estético, admite uma raiz comum ao espírito artístico e científico como dois modos de formação e concede primazia à força formadora dos grandes artistas, confessando-se, diante das descobertas da humanidade e de uma estátua ou pintura de Michelangelo, Rafael ou Ticiano, confuso e abatido por seu saber apenas compreender o já encontrado, motivo que retoma a imagem ética e religiosa do espírito humano como segundo criador, verdadeiro Prometeu sob Júpiter, mais que alegoria, símbolo do que o Renascimento é e pretende ser como movimento espiritual.
11. Ao descobrir esse novo conceito de natureza, o Renascimento enriquece sua consciência histórica e encontra, através da filosofia helenística tardia, o caminho do idealismo de Platão, numa verdadeira anamnese da doutrina platônica renovada a partir dos próprios princípios do pensamento, comparável à gênese da teoria das ideias narrada no Fédon, onde Platão, após buscar na juventude a ciência das causas pela apreensão sensível como os antigos fisiólogos, percebe que esse caminho não conduz à verdade dos seres e, temendo cegar a alma como quem olha diretamente o sol num eclipse, refugia-se no logos, tomando por verdadeiro o que com ele concorda, ruptura com toda a filosofia grega da natureza que atinge até o nous de Anaxágoras, reduzido a mera força motriz, e cujo refúgio no logos é refúgio na matemática, a segunda navegação rumo ao reino das ideias, fases que o conceito renascentista de natureza repete, pois começa pela percepção imediata, e a tese de Telésio do conhecimento como contato lembra a ironia platônica contra os que querem agarrar o ser com as mãos, aspiração que deixou a filosofia naturalista impotente para conceber a legalidade universal da natureza e a fez recair na mística e na teosofia, até que só o retorno ao logos libertou as ciências naturais, sendo os logoi platônicos as ragioni de Leonardo, às quais ele dá primazia sobre a observação ao afirmar que nenhum efeito existe sem razão e que, entendida a razão, a experiência se torna dispensável, e informando a investigação de Galileu, para quem as leis fundamentais se referem a casos ideais nunca plenamente realizados, como a inércia ou a espiral de Arquimedes, sem prejuízo de sua verdade, concordância que torna secundária a questão das vias históricas pelas quais o platonismo autêntico chegou a ambos, sendo notável que Leonardo, vivendo no foco do neoplatonismo florentino, tenha permanecido imune a ele e só se ligue ao verdadeiro Platão pela exigência de que não o leia quem não é matemático, enquanto Galileu apela constantemente à doutrina platônica da ciência e deriva da anamnese seu a priori, o da per sè, expressão da espontaneidade do espírito e da autonomia da razão teórica que rompe o círculo da magia, de modo que a irrupção no conhecimento objetivo da natureza e o retorno à Antiguidade clássica são simultâneos, como na fórmula de Warburg sobre a época de Fausto, em que o homem de ciência procura entre a prática mágica e a matemática cosmológica um lugar para a reflexão entre o eu e o objeto, reconquistando Atenas através de Alexandria, meta comum da teoria da arte e da ciência exata, alcançada pelo retorno ao logos platônico e à exigência socrática de dar razão, que traz consigo uma nova concepção do conhecimento oposta à da filosofia da natureza, que pretendia fundar gnoseologicamente a magia no princípio da identidade entre sujeito e objeto, segundo o qual conhecer é tornar-se a coisa conhecida para Campanella ou unir-se ao cognoscível para Patrizi, sendo a magia o aspecto prático pelo qual o sujeito não só compreende como domina o objeto e submete a natureza a sua vontade, cume da filosofia que Pico chamaria de ciência por excelência, caminho vedado à ciência exata e à teoria da arte, dominadas pela vontade de forma pura, que exige delimitação, unidade e contorno preciso e opõe ao impulso de dissolver o indivíduo no todo o impulso de distinção e especificação, já que nem a arte nem a matemática podem fazer o sujeito entrar no objeto ou dissolver este naquele, pois o pensamento lógico-matemático e a imagem estética só são possíveis mantida a distância entre ambos.
12. A cooperação dessas duas forças espirituais transforma também a concepção teórica da sensibilidade, pois Leonardo, partindo de sua fantasia sensível exata, parece conferir à pintura a dignidade de cume da filosofia que Pico atribuía à magia, afirmando que quem despreza a pintura não ama a filosofia nem a natureza, e afasta-se assim de Platão, que rejeitava as artes plásticas como arte das sombras e mera imitação do dado, e até o idealismo especulativo de Nicolau de Cusa, sem tratar autonomamente o estético, eleva a dignidade da sensibilidade em sua teoria do conhecimento, ligando-se a Platão justamente nas passagens da República em que certas percepções, por suas contradições, desafiam o pensamento e impelem a alma a buscar o sentido das coisas na dianoia, mas estendendo essa função estimulante a toda a experiência, pois o intelecto só toma consciência de si e de seu poder quando provocado pela sensibilidade, e seu aparente descenso ao sensível é elevação deste até ele, encontrando na alteridade do mundo sensível sua unidade e identidade e no aparente estranho sua perfeição e autocompreensão, de modo que a experiência deixa de ser polo oposto da razão científica para tornar-se seu meio e campo de aplicação, e em Leonardo e Galileu a oposição se resolve em reciprocidade e diferença de direção, como no método de Leonardo, que parte do experimento para demonstrar pela razão por que o fenômeno se produz necessariamente assim, percorrendo em sentido inverso o caminho da natureza, que começa pela razão e termina na experiência, e no método resolutivo e compositivo de Galileu, num processo circular do fenômeno às razões e destas ao fenômeno que supera a distinção platônica entre o caminho ascendente do dialético e o descendente do matemático, iluminando a relação entre teoria e aplicação, pois, se Platão reconhecia uma matemática aplicada e, ao exigir que os astrônomos salvassem os fenômenos celestes por movimentos regulares, dava à aplicação da matemática à natureza sentido metodológico preciso, essa ciência dos fenômenos era para ele apenas propedêutica, voltada não ao mundo sensível, mas ao retorno da alma ao pensamento puro, enquanto no Renascimento o mundo da experiência conquista independência e o ideal só se realiza, verifica e justifica no empírico, de modo que a doutrina do movimento, mero paradigma imperfeito para Platão, torna-se a meta de toda a matemática pura, a mecânica, paraíso das ciências matemáticas para Leonardo, e com Galileu o movimento, identificado com a ideia, deixa o mundo de sombras da gênese e eleva-se ao ser puro por obedecer a leis constantes e necessárias, possuindo, como a própria massa material, idealidade demonstrável em leis matemáticas, o que eleva a experiência a conhecimento rigoroso e cria uma ciência inteiramente nova de um objeto antiquíssimo, resultado em que convergem as tendências realista e idealista do Renascimento e que permitiu atribuir nova dignidade à sensibilidade, transformada pela teoria em intuição pura, transformação que marca também a cosmologia, já que a nova concepção da natureza e do movimento exige um novo conceito do mundo e impõe, à medida que o problema do movimento ocupa o centro da investigação, a transformação radical da doutrina dos elementos e do universo.
