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cassin:eikos
eikos, ou como o provável é a medida da verdade
CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
- A investigação de to eikos parte da análise de uma família semântica grega centrada na noção de semelhança e aparência.
- O verbo phrazô, em sua forma perfeita eoika, indica aquilo que parece, que se assemelha.
- Dessa raiz derivam termos ligados tanto à imagem quanto ao juízo.
- Desde a origem, o campo semântico articula percepção, comparação e inferência.
- A noção de eikôn não se limita à imagem visual.
- Ela designa igualmente representação, comparação e indicação.
- A imagem já contém uma dimensão cognitiva implícita.
- Ver e compreender não são ainda separados.
- Os verbos eiskô e eikazô explicitam a passagem da semelhança à conjectura.
- Eiskô significa tornar semelhante ou comparar.
- Eikazô designa representar por imagem, mas também deduzir e conjecturar.
- A comparação torna-se procedimento cognitivo.
- A noção de eikasia manifesta essa ambiguidade constitutiva.
- Ela significa tanto imagem quanto conjectura.
- Aplica-se a práticas tão diversas quanto a adivinhação e a medicina.
- O conhecimento por eikasia não é demonstrativo, mas plausível.
- Forma-se assim um grupo semântico que transpõe a semelhança para o domínio intelectual e moral.
- A imagem deixa de ser apenas sensível.
- Ela passa a orientar juízos e avaliações.
- A semelhança torna-se critério prático.
- Os termos epieikês e epieikeia exemplificam essa transposição ética.
- Literalmente, significam aquilo que está de acordo com o semelhante.
- Eles não designam apenas o que convém.
- Em Aristóteles, tornam-se conceitos técnicos da equidade.
- A epieikeia define uma virtude prática superior à aplicação estrita da lei.
- Ela permite corrigir a generalidade da norma.
- Exige consideração dos casos singulares.
- Está ligada ao caráter do homem virtuoso, o spoudaios.
- A equidade se opõe à justiça legal enquanto aplicação mecânica.
- O dikaion e a dikaiosyne permanecem no plano da regra geral.
- A epieikeia introduz flexibilidade e discernimento.
- O semelhante orienta o justo além da letra da lei.
- O núcleo decisivo dessa família conceitual é to eikos.
- Trata-se da nominalização do particípio perfeito neutro.
- To eikos designa o que parece, o que se assemelha.
- Ele não é o verdadeiro, mas o que parece verdadeiro.
- To eikos não deve ser confundido com uma aproximação da verdade.
- A tradução por verossimilhança impõe indevidamente o modelo da verdade.
- O grego não pressupõe o verdadeiro como norma.
- O provável constitui um regime próprio.
- A característica fundamental de to eikos é seu caráter comparativo.
- O mais provável prevalece sobre o provável.
- Não há critério absoluto.
- O julgamento é sempre relativo e competitivo.
- Esse regime é o da retórica judiciária.
- A acusação e a defesa se enfrentam no terreno do provável.
- Nenhuma delas prova a verdade.
- Elas disputam a superioridade do plausível.
- Os exemplos das Tetralogias de Antifonte ilustram esse funcionamento.
- A acusação afirma que algo é provável.
- A defesa responde que o contrário é ainda mais provável.
- A verdade factual permanece indecidida.
- A conclusão retórica nunca é uma conclusão de verdade.
- Ela produz persuasão.
- A crença do ouvinte depende da peithô.
- A pistis designa tanto convicção quanto confiança.
- A força do discurso não se mede pela verdade, mas pela credibilidade.
- O êxito depende da confiança no orador.
- A prova retórica é inseparável da relação interpessoal.
- O logos opera performativamente.
- A valorização aristotélica da retórica encontra aqui seu fundamento.
- O verdadeiro e o justo têm maior força natural.
- Contudo, podem fracassar na prática.
- A técnica retórica torna-se necessária.
- A technê rhêtorikê não cria a verdade.
- Ela descobre o que é persuasivo em cada caso.
- Ela opera no domínio do endechomenon pithanon.
- O possível persuasivo substitui o verdadeiro demonstrado.
- A consequência decisiva é que o provável pode ser mais eficaz que o verdadeiro.
- É possível perder mesmo tendo razão.
- A retórica compensa essa fragilidade prática da verdade.
- O logos torna-se instrumento político essencial.
- Essa lógica do provável encontra sua expressão mais elevada na poesia.
- A poesia não descreve o que aconteceu.
- Ela descreve o que poderia acontecer.
- Seu domínio é o do provável ou do necessário.
- O provável se alia ao geral e ao necessário.
- Ele não se prende aos fatos singulares.
- Ele exprime estruturas universais da ação humana.
- Por isso, a poesia é mais filosófica que a história.
- A história permanece no nível do particular.
- Ela relata acontecimentos contingentes.
- Ela não atinge o universal.
- Seu saber é menos inteligível.
- A poesia prefere o provável ao possível sem persuasão.
- O impossível provável é superior ao possível inverossímil.
- A coerência interna prevalece sobre a factualidade.
- A semelhança funda a inteligibilidade.
- O próprio improvável pode ocorrer.
- O provável não exclui a exceção.
- Ele estrutura a expectativa, não a realidade empírica.
- O mundo permanece aberto ao inesperado.
- Em retórica e em poética, o provável torna-se medida do verdadeiro.
- A semelhança substitui a adequação factual.
- O real é avaliado segundo sua inteligibilidade.
- O logos não reflete o mundo, mas o torna compreensível.
- To eikos exprime, assim, uma ontologia implícita.
- O real é aquilo que pode ser acreditado.
- A verdade se mede pela capacidade de persuasão.
- A semelhança torna-se critério do ser.
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