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1 A apoptose da crença

BRASSIER, Ray. Nihil Unbound: Enlightenment and Extinction. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2007.

1.1 A imagem manifesta e o mito de Jones: Wilfrid Sellars

1. Em Filosofia e a imagem científica do homem, Wilfrid Sellars diagnostica a situação da filosofia contemporânea como o confronto entre duas imagens concorrentes do homem no mundo, a imagem manifesta, pela qual o homem se concebeu até agora com o auxílio da reflexão filosófica, e a imagem científica, recente mas em contínua expansão, do homem como sistema físico complexo, muito diferente da manifesta e destilada de discursos como a física, a neurofisiologia, a biologia evolutiva e a ciência cognitiva.

2. O contraste entre as duas imagens não opõe senso comum ingênuo e razão teórica sofisticada, pois a imagem manifesta não é domínio da imediatez pré-teórica, mas um construto teórico sutil, refinamento disciplinado e crítico do quadro originário em que o homem se encontrou pela primeira vez como ser capaz de pensamento conceitual, conquista teórica tão significativa quanto qualquer conquista científica posterior, como mostra o célebre mito de Jones.

3. Em Empirismo e filosofia da mente, Sellars propõe a fábula de ancestrais rylianos que dispõem de linguagem, mas não de concepção de estados mentais complexos, explicando comportamentos como a raiva apenas por termos disposicionais operacionalmente definidos, como mal-humorado, insuficientes para comportamentos mais complexos, até que Jones, gênio teórico, postula episódios internos semelhantes à fala, os pensamentos, com as mesmas propriedades semânticas e lógicas dos enunciados públicos, episódios de sensação modelados nos objetos perceptivos externos e estados duradouros como intenções, crenças e desejos, invocados como causas do comportamento por meio de atitudes proposicionais expressas em orações completivas, teoria de poder explicativo muito superior ao behaviorismo que os indivíduos aprendem a aplicar a si mesmos, internalizando-a como meio indispensável de articular a experiência em primeira pessoa, e cujos descendentes filosóficos, Sellars incluído, percebem que as atitudes proposicionais mantêm relações lógicas de implicação e dependência inferencial semelhantes aos modelos dedutivo-nomológicos da explicação científica, revelando a infraestrutura racional do pensamento humano e fazendo de crenças, desejos e intenções os tipos psicológicos básicos de toda teoria da cognição.

4. Sellars atribui a essas entidades psicológicas um papel funcional justamente para deixar em aberto seu estatuto ontológico, já que os episódios de pensamento estão nos animais que usam linguagem como os impactos moleculares nos gases e não como fantasmas em máquinas, de modo que o estatuto epistemológico dos pensamentos em relação às falas públicas é análogo ao das moléculas em relação ao comportamento observável dos gases, com a diferença de que os pensamentos são introduzidos como tipos puramente funcionais cujo estatuto ontológico e empírico ainda está por determinar.

5. O alcance fundamental da imagem manifesta é antes normativo que ontológico, pois ela fornece o quadro em que os humanos se pensam como partilhando as intenções comunitárias que oferecem os princípios e padrões que tornam possíveis o discurso significativo e a racionalidade, indexando a comunidade dos agentes racionais, cujo componente primário é a noção de pessoa como lugar de agência intencional, e, embora seja um quadro teórico disciplinado e crítico, uma espécie de imagem científica correlacional e não postulacional, não pode ser simplesmente tomada ou deixada, pois é o pré-requisito ineludível da capacidade de se identificar como humano, a ponto de o homem não sobreviver se ela não sobreviver, de modo que Sellars, ecoando Kant, lhe concede prioridade prática, se não teórica, sobre a imagem científica, como fonte da norma de propositividade racional, e define a tarefa filosófica como integração estereoscópica das duas imagens, enriquecendo a teoria científica com a linguagem da intenção racional para ligá-la diretamente aos propósitos humanos.

1.2 A instrumentalização da imagem científica

1. A imagem manifesta continua a fornecer o quadro de grande parte da filosofia contemporânea, abrangendo as principais escolas continentais, fenomenologia, existencialismo, teoria crítica, hermenêutica e pós-estruturalismo, e as correntes anglo-americanas da análise do senso comum e da linguagem ordinária, unidas, apesar de suas diferenças, pela hostilidade à ideia de que a imagem científica descreve o que realmente existe e pode minar a autoconcepção manifesta do homem como pessoa, e pela convicção de que as entidades postuladas pela ciência são ferramentas simbólicas para orientar-se no mundo e não descrições de objetos reais, concepção instrumentalista corolário inevitável do primado da autocompreensão manifesta, partilhada por Heidegger e Wittgenstein, para quem as entidades científicas derivam de uma compreensão pré-científica mais originária, seja o ser-no-mundo ou os jogos de linguagem, restando apenas um passo para denunciar a imagem científica como excrescência cancerosa da manifesta.

2. Sellars recusou com firmeza essa instrumentalização, mostrando que o primado metodológico da imagem manifesta como quadro originário do qual surgiu a científica não legitima atribuir-lhe primado substantivo, já que a dependência metodológica não mina a autonomia substantiva da imagem científica, e cabe acrescentar que construir a teoria científica como eflorescência do substrato fenomenológico ou pragmático do ser-no-mundo é endossar um reducionismo filosófico da ciência que, ao contrário do reducionismo científico, de princípios explícitos, evita delinear os critérios pelos quais as estruturas científicas se reduziriam às da imagem manifesta, silenciando sobre o abismo entre a afirmação trivial de que a teoria científica superveniente sobre a prática pré-científica e a demonstração nada trivial de como a mecânica quântica seria função da capacidade de manejar martelos.

3. Sellars nunca cedeu a esse reducionismo filosófico grosseiro nem à tentação oposta de substituir a imagem manifesta pela científica, que privaria os humanos do que os torna humanos, mas os próprios termos de sua síntese pressupõem a incorrigibilidade da caracterização da propositividade racional própria da teoria jonesiana da agência, modelo questionado por filósofos que propõem integrar a imagem manifesta na científica, como Paul Churchland, ex-aluno de Sellars, para quem a imagem manifesta é revisável justamente por ser conquista especulativa corrigível, sem garantia de que a propositividade racional indique algo real fora dela, de modo que, apesar de sua importância cultural, ela não pode ficar ao abrigo do exame crítico, e a aura de autenticidade incorrigível conferida pelo idioma das atitudes proposicionais oculta seu caráter especulativo, já que o juízo introspectivo espontâneo é um hábito adquirido de resposta conceitual a estados internos e a certeza de que a mente é sede de crenças e desejos pode estar tão equivocada quanto a certeza visual do homem antigo de que a esfera celeste gira diariamente.

4. Enquanto Sellars julgava possível a integração estereoscópica unindo o discurso mecanicista da causação à linguagem racional da intenção, Churchland propõe suprimir esta por um aprimoramento neurocomputacional da imagem científica que anexaria a imagem manifesta e obrigaria a rever a autocompreensão como agentes racionais autônomos ou pessoas, tentativa viciada por uma tensão epistemológica fundamental, pois, embora rejeite como Sellars a concepção instrumentalista da ciência e se declare realista científico, seu realismo é minado a cada passo por sua concepção pragmatista da representação.

1.3 Catástrofe cognitiva: Paul Churchland

1. No artigo canônico de 1981, Materialismo eliminativo e as atitudes proposicionais, Churchland define o materialismo eliminativo como a tese de que a concepção comum dos fenômenos psicológicos é uma teoria radicalmente falsa, tão defeituosa que seus princípios e sua ontologia serão deslocados, e não suavemente reduzidos, por uma neurociência completa, no quadro da qual poderão ser reconstituídas a compreensão mútua e até a introspecção, teoria muito mais poderosa e mais integrada à ciência física.

2. A tese de que a psicologia do senso comum pode ser falsa provocou alarme, sobretudo entre filósofos que dedicaram a carreira a integrá-la à ciência natural, a ponto de Jerry Fodor afirmar que seu colapso seria a maior catástrofe intelectual da história da espécie, declaração que, vinda de filósofos da mente pouco inclinados ao apocalipse, mostra que a verdade ou falsidade da hipótese eliminativista ultrapassa uma subdisciplina técnica e afeta a cultura humana em geral, já que Churchland propõe nada menos que uma revolução cultural, a reconstrução da autoimagem manifesta à luz de um novo discurso científico, e está em jogo o futuro da autocompreensão humana.

3. A hipótese eliminativista reduz-se a quatro teses, a de que a psicologia popular é uma teoria e por isso avaliável em termos de verdade e falsidade, a de que codifica também práticas avaliáveis por sua eficácia em relação às funções que deve cumprir, a de que se revelará irredutível à neurociência emergente e a de que sua substituta neurocientífica será prática e teoricamente superior.

4. Dadas essas premissas, a psicologia popular revela-se profundamente insatisfatória em três aspectos, por não explicar nem prever muitos fenômenos, como as fragmentações cognitivas causadas por lesões cerebrais, a etiologia e a tipologia das doenças mentais e os mecanismos da descoberta científica e da criação artística, por ser teoricamente estagnada, sem acompanhar a aceleração da evolução cultural nem as novas exigências cognitivas das sociedades tecnológicas, e por estar cada vez mais isolada e anômala em relação às ciências naturais, conceitualmente irredutível à neurociência cognitiva.

5. Os críticos do materialismo eliminativo responderam negando que a psicologia popular seja uma teoria no sentido científico, avaliável em termos de verdade e falsidade ou condenável por não explicar fenômenos anômalos, negando que seja estagnada ou anacrônica diante da evolução tecnológica ou julgável por um padrão superior de eficácia prática e contestando que a redução seja o único meio de garantir a integridade da ciência natural.

6. Em vez de retomar uma a uma as premissas e objeções, a hipótese eliminativista é considerada sob quatro ângulos, a natureza da alternativa neurocomputacional de Churchland, a acusação de que o materialismo eliminativo é autorrefutante, a tensão latente entre seu realismo científico e seu irrealismo quanto à explicação popular da representação e a acusação de que ele e a ciência reducionista não reconhecem a realidade da consciência fenomênica.

1.4 A alternativa neurocomputacional

1. Churchland define a psicologia popular como o quadro conceitual pré-científico e comum que todos os humanos normalmente socializados usam para compreender, prever, explicar e manipular o comportamento dos humanos e dos animais superiores, com conceitos como crença, desejo, dor, prazer, amor, ódio, medo, memória, raiva, simpatia e intenção, que encarna a compreensão básica da natureza cognitiva, afetiva e propositiva das pessoas e constitui a concepção do que é uma pessoa.

2. Foi Sellars quem forneceu a base para caracterizar a psicologia popular como teoria quase científica centrada na noção de pessoa, mas introduzindo as atitudes proposicionais como tipos funcionais de estatuto ontológico indeterminado, ao passo que para Churchland atribuir eficácia causal a tipos funcionais já é dotá-los de estatuto ontológico, e o problemático não é a explicação funcional dos tipos psicológicos, mas a premissa de que a psicologia popular oferece um catálogo confiável do funcionamento psicológico, desconfiança que o leva a propor, contra a abordagem de cima para baixo centrada no comportamento linguístico, uma abordagem de baixo para cima que parte de modelos neurobiologicamente realistas de comportamentos sensório-motores rudimentares para chegar às formas mais sofisticadas de cognição linguisticamente mediada.

3. Churchland propõe substituir a psicologia popular, que concebe a cognição como meio intrinsecamente linguístico estruturado pela dança sentencial das atitudes proposicionais, por um modelo conexionista em que a cinemática interna da cognição se exprime em padrões de ativação de populações de neurônios e sua dinâmica em transformações vetoriais guiadas por configurações aprendidas de conexões sinápticas, sendo o vetor de ativação a unidade básica de representação e a transformação vetor a vetor a operação computacional fundamental, de modo que uma teoria deixa de ser sistema linguaformal de proposições ligadas por implicação lógica e passa a ser uma partição determinada do espaço vetorial em divisões prototípicas relativas a entradas tipicamente reiteradas.

4. Apesar de sua pretensão de maior plausibilidade biológica, esse modelo de ativação vetorial prototípica permanece uma idealização computacional que perpetua a distinção funcionalista entre tipos psicológicos e sua instanciação material, configurada agora como distinção entre espaço de pesos e espaço vetorial, pois a configuração dos pesos sinápticos determina a partição do espaço vetorial, mas só esta se identifica com a teoria pela qual a rede representa o mundo, de modo que, segundo Churchland, as pessoas reagem de modo semelhante ao mundo não por terem configurações sinápticas semelhantes, mas espaços de ativação particionados de modo semelhante, como árvores de perfil semelhante e ramificações idiossincráticas.

5. As pretensões de maior realismo biológico desse modelo foram contestadas, pois Churchland invoca uma semelhança entre redes neurais e estrutura cerebral sem especificar em que consiste nem qual seu critério, e a analogia entre unidades da rede e neurônios não garante que a instanciação de um protótipo vetorial pela rede seja isomórfica à instanciação de um tipo psicológico pelo cérebro, além de que, como mostram John Marshall e Jennifer Gurd, a patologia revela fragmentações do funcionamento psicológico que constituem categorias funcionais com diferentes instanciações neurológicas, já que etiologias físicas diversas podem gerar distúrbios cognitivos idênticos, de modo que a função cognitiva, ligada à estrutura neurológica, não se reduz a ela, e Churchland, embora tenha razão em defender uma abordagem de baixo para cima, enfrenta duas dificuldades.

6. A primeira dificuldade é que a semelhança empírica entre cérebros e redes neurais não garante que estas sejam superiores a modelos cognitivos menos realistas neurologicamente, pois está em questão o próprio critério de realismo, neurobiológico ou psicológico, cuja coincidência Churchland não pode simplesmente supor.

7. A segunda dificuldade é que, sem compreender a natureza da correlação entre função psicológica e estrutura neural, a suposta semelhança entre arquitetura neural e arquitetura de rede nada esclarece sobre a relação desta com a arquitetura funcional abstrata da cognição, já que, embora algum grau de plausibilidade biológica seja desejável, os dados empíricos não bastam para identificar os traços funcionais salientes da cognição.

8. Deixando essa questão de lado, é preciso considerar uma objeção ainda mais danosa frequentemente levantada contra o materialismo eliminativo, a de que sua própria formulação é fundamentalmente incoerente.

1.5 O paradoxo do eliminativismo

1. Sellars foi talvez o primeiro a discernir na infraestrutura lógica do discurso psicológico popular, com suas relações de implicação inferencial, o que depois se brandiu como emblema de sua irredutibilidade à explicação neurobiológica ou física, a inscrição das atribuições de crença e desejo num espaço normativo e conceitual de razões irredutível ao espaço natural e material de causas, distinção que levou muitos filósofos a atribuir à psicologia popular um estatuto quase transcendental e ineliminável e motiva a tentativa mais popular de refutação decisiva do eliminativismo, segundo a qual o materialista eliminativo, ao negar a existência de crenças e de sentido, precisa crer no que afirma e querer dizer o que diz, de modo que sua crença de que não há crenças é uma crença e a inteligibilidade de sua tese depende do sentido que nega, incorrendo em contradição performativa, tentativa duvidosa do ponto de vista lógico e suspeita por razões filosóficas mais amplas.

2. Do ponto de vista formal, o argumento eliminativista segue a estrutura familiar da redução ao absurdo, supondo o quadro da psicologia popular, argumentando a partir dele e de premissas empíricas suplementares até sua negação e concluindo por redução, sem anomalias evidentes, de modo que quem o denuncia como autorrefutante corre o risco de condenar todos os argumentos por redução por começarem supondo o que negam, e para que a objeção fosse válida teria de invalidar toda redução ao absurdo, o que nada na tentativa de refutação sugere como fazer, sendo de suspeitar que a falha está na objeção e não no argumento eliminativista.

3. O truque decisivo dessa refutação está na tese de que a crença eliminativista de que não há crenças é uma crença e de que sua inteligibilidade depende do sentido que nega, pois a inteligibilidade do eliminativismo não depende da realidade da crença e do sentido assim construídos, já que o eliminativista nega justamente que as crenças sejam a forma necessária do conteúdo cognitivo e o sentido proposicional o meio necessário do conteúdo semântico, e Churchland não afirma que não há sentido, mas que a experiência espontânea de compreender o que se quer dizer em termos de atitudes proposicionais não é guia confiável para a cinemática e a dinâmica subjacentes do sentido, segundo as quais toda frase declarativa a que um falante assente é apenas uma projeção unidimensional, pelas áreas de Wernicke e Broca, de um sólido de quatro ou cinco dimensões de seu verdadeiro estado cinemático, que carrega informação significativa sobre essa realidade interna, mas reflete apenas uma pequena parte dela e é inadequada para representá-la em todos os seus aspectos cinemáticos, dinâmicos e até normativos.

4. A invocação de um aspecto normativo dessas dinâmicas multidimensionais se revelará problemática para Churchland, mas importa reter que ele não nega todo sentido, impressão encorajada por algumas formulações descuidadas, mas sustenta que crenças e proposições são possibilitadas por representações cuja estrutura multidimensional não se reflete adequadamente na estrutura de uma atitude proposicional e cuja semântica não se encapsula sententialmente, de modo que a disputa entre eliminativismo e psicologia popular concerne à natureza das representações e não à sua existência, já que o eliminativismo propõe outra explicação delas sem negar que ocorram.

5. O caráter de petição de princípio da objeção da autorrefutação torna-se evidente ao ver como ela poderia bloquear o deslocamento de qualquer quadro conceitual, transcendentalizando espuriamente o princípio explicativo que nele detém o monopólio, como no exemplo de Patricia Churchland do vitalista que refuta o antivitalista alegando que, se não há espírito vital, o falante não é animado por ele, logo está morto e sua tese é ruído sem sentido, pois em ambos os casos se invoca o critério de inteligibilidade cuja pertinência está em questão, a vida ou o sentido, para descartar o desafio, quando o antivitalismo não nega os fenômenos da vida, mas uma explicação do que têm em comum, assim como o eliminativismo não nega os fenômenos do sentido ou da consciência, mas um modo específico de explicar seus traços.

6. A tese decisiva é que as possibilidades de inteligibilidade não são mapeadas exaustivamente por um registro conceitual específico, sobretudo o do senso comum supostamente pré-teórico, que, segundo Churchland e Sellars, é teoricamente saturado, ainda que a longa familiaridade torne invisível seu caráter especulativo, e à medida que os recursos científicos, alheios ao senso comum, se aplicam à investigação da mente, invadem o domínio dos fenômenos do sentido, que para muitos filósofos guardam a chave do que torna humano, de modo que a questão é se a ciência é constitutivamente incapaz de explicar o sentido ou se é a autoridade das intuições pré-científicas sobre o sentido que deve ser questionada, cabendo distinguir essa questão ampla da prioridade cognitiva entre explicação científica e autocompreensão pré-científica da questão mais estreita da consistência interna do eliminativismo, cujas vicissitudes não dão necessariamente razão aos defensores da primeira.

1.6 Do superempírico ao metafísico

1. O problema mais grave do eliminativismo de Churchland reside na tensão latente entre seu compromisso com o realismo científico e sua adesão a um naturalismo metafísico, que se compreende pela relação em dois níveis entre o paradigma de ativação vetorial prototípica e os relatos linguaformais que pretende deslocar, pois, de um lado, Churchland afirma empiricamente sua excelência explicativa com base em virtudes superempíricas, simplicidade conceitual, unidade explicativa e coesão teórica, e, de outro, pressupõe implicitamente essa excelência como garantida a priori por uma justificativa adaptacionista da congruência entre representação e realidade.

2. Embora o modelo de Churchland permaneça representacional, com protótipos vetoriais no lugar das atitudes proposicionais, a representação já não opera sob a norma da verdade como correspondência, e as teorias se discriminam por virtudes superempíricas, que seriam os critérios básicos do cérebro para distinguir informação de ruído, o que obriga Churchland a atribuir graus de adequação neurocomputacional entre representação e representado sem reintroduzir uma diferença substantiva entre representações verdadeiras e falsas, já que todas as teorias, incluindo a psicologia popular, são partições do espaço vetorial do cérebro, tensão entre a insistência em diferenças de grau de virtude superempírica e a convicção de que o paradigma vetorial é tão superior que exige a eliminação da psicologia popular, de modo que o argumento oscila entre a mera conveniência empírica e a necessidade lógica de uma superioridade intrinsecamente metafísica.

3. Como noções semânticas populares como verdade e referência deixam de garantir a adequação entre representação e realidade, concebida popularmente como correspondência entre palavras e mundo, todos os paradigmas teóricos são neurocomputacionalmente iguais, nada numa partição do espaço vetorial explicando por que uma teoria é melhor que outra, e todos se avaliam apenas por suas virtudes superempíricas, isto é, pela eficiência com que permitem ao organismo adaptar-se, de modo que, se todas as teorias são ativações vetoriais e o paradigma vetorial dispensa a verdade teórica, as teorias devem ser julgadas pragmaticamente pelo grau de eficiência adaptativa, como reconhece Churchland ao afirmar que, ao abandonar as formulações ingênuas do realismo científico, é preciso ir na direção do pragmatismo e não do instrumentalismo positivista, já que a verdade talvez não seja o produto principal da atividade cognitiva, cuja função parece ser a administração cada vez mais fina do comportamento do organismo.

4. Churchland explica explicitamente por que o paradigma vetorial é melhor que seus rivais populares e propõe uma fórmula precisa de excelência teórica, medida por virtudes pragmáticas, máxima coesão explicativa diante de máxima heterogeneidade empírica com mínimo gasto conceitual, sendo uma teoria melhor que outra quando oferece maior coesão e unidade com menos meios conceituais para sintetizar maior variedade de dados.

5. Não se vê, porém, como a eficiência adaptativa de um organismo, revelada pelas virtudes superempíricas de sua representação do mundo, poderia ser lida na microestrutura neurocomputacional de seu cérebro, nem em que sentido simplicidade, unidade e coerência acompanham necessariamente no nível neurológico o comportamento reprodutivamente vantajoso, já que Churchland apenas estipula que essas virtudes são traços constitutivos da arquitetura funcional do cérebro, sem argumentar por que a configuração aprendida de uma rede seria necessariamente restringida por elas, e chega a apresentar dados em sentido contrário, como redes que param de aprender presas num mínimo local, de modo que demonstrar a necessidade neurocomputacional das virtudes superempíricas exigiria mostrar que são restrições informacionais intrínsecas à codificação vetorial e não considerações reguladoras extrínsecas impostas pela interação com o ambiente, linha de argumento que o coloca diante de duas alternativas pouco atraentes.

6. A primeira alternativa decorre de que, como o próprio Churchland admite, a transdução informacional pela qual o cérebro processa os estímulos é fisicamente limitada pelas fronteiras do organismo, além das quais está o mundo, de modo que integrar as virtudes superempíricas ao processo neurocomputacional empurrando a codificação cerebral para além dessas fronteiras, como traços constitutivos do mundo, o obrigaria a afirmar que o mundo físico é neurocomputacionalmente constituído, e como para ele percepção e concepção são contínuas, resultaria um idealismo empírico em que o cérebro representa o mundo sem ser condicionado por ele, já sempre representado, sem explicar como o cérebro faz parte do mundo nem como o mundo o produziu.

7. A segunda alternativa seria abandonar a noção de uma fronteira física absoluta entre o mundo e a informação já codificada pelas partições vetoriais, permitindo que o mundo físico entre no cérebro e desempenhe papel intrínseco na atividade neurológica, mas isso obrigaria Churchland a abandonar o dualismo representacionalista entre cérebro e mundo e sua perspectiva deliberadamente neurocêntrica em favor de uma perspectiva metaneurológica, isto é, metafísica, ameaçando a distinção categorial entre processador e processado, rede e mundo, fundamento de seu reducionismo neurobiológico e de todos os seus argumentos eliminativistas.

8. Churchland não pode assim efetuar uma redução neurocomputacional da virtude superempírica sem gerar um idealismo neurológico nem reintegrar o cérebro neurocomputacional no domínio mais amplo da virtude superempírica sem abandonar o eliminativismo, e, mesmo supondo uma redução bem-sucedida e não idealizante, ao afirmar que simplicidade, unidade e coerência são traços funcionais constitutivos da neuroanatomia, estaria a um passo escorregadio de afirmar que os cérebros representam corretamente o mundo por necessidade evolutiva, tendo representações verdadeiras, exatamente o que jurara abjurar ao dizer que a seleção natural não se importa se um cérebro tende a crenças verdadeiras, desde que o organismo exiba comportamento reprodutivamente vantajoso.

9. Tudo depende de as virtudes superempíricas serem precondição ou subproduto do comportamento reprodutivamente vantajoso, e Churchland sugere a primeira hipótese por um idealismo neurocomputacional latente, enquanto a evidência evolutiva aponta para a segunda e para uma explicação menos neurocêntrica da representação, segundo a qual é incontroverso que redes bem-sucedidas exibem essas características, mas como fato de etologia cognitiva, inteligível apenas no âmbito macrofísico da biologia evolutiva e da relação entre organismo e ambiente, e não no âmbito microfísico e informacional do funcionamento cerebral, sendo de esperar que esse fato macrofísico tenha um análogo microfísico codificado neurologicamente, uma vez suspensa a premissa de uma cisão representacional absoluta entre as duas dimensões, fisicamente contíguas e ligadas por pressuposição recíproca.

10. A codificação neurocomputacional da virtude superempírica não basta para vindicar Churchland, cuja explicação se baseia na premissa idealista de que a representação neurocomputacional é precondição necessária do sucesso adaptativo e de que a função neurocomputacional determina a etologia evolutiva, de modo que, sem uma explicação não circular de como os fatos macrofísicos da etologia sobrevêm aos fatos microfísicos do cérebro, as virtudes superempíricas usadas para discriminar teorias permanecem características extraneurológicas, reveladas apenas na análise etológica do comportamento cognitivo do organismo no mundo e não na análise neurológica da microestrutura cerebral.

11. A tensão entre as declarações de humildade empírica do eliminativismo e suas pretensões metafísicas latentes revela-se quando se percebe que as virtudes pragmáticas ou superempíricas não podem ser explicadas exclusivamente em termos neurocomputacionais, excedendo o âmbito neurocêntrico da economia neurocomputacional, e ao tentar acomodá-las Churchland se afasta das premissas empíricas rígidas que dão ao eliminativismo sua justificativa naturalista em direção a uma posição em que o paradigma vetorial assume as características de um a priori metafísico, deslocando o argumento pela eliminação da psicologia popular da avaliação empírica para o imperativo metafísico.

12. Se Churchland tivesse razão ao sustentar que simplicidade ontológica, coerência conceitual e poder explicativo estão entre os critérios mais básicos do cérebro para distinguir informação de ruído, um quadro conceitual tão barroco, obscuro e supostamente incoerente quanto a psicologia popular teria sido eliminado por rotina evolutiva, poupando-o de militar brilhantemente por seu deslocamento, já que, se as virtudes superempíricas fossem endógenas e intrínsecas à microestrutura cerebral, seria neurofisiologicamente impossível a um organismo encarnar uma teoria inteiramente desprovida delas, de modo que, paradoxalmente, a suposição eliminativista estreita a margem de distinção superempírica entre teorias e enfraquece o argumento contra a psicologia popular, que, por mais defeituosa que seja, não pode ser tão deficiente em virtudes superempíricas quanto Churchland precisa para tornar incontroversa sua eliminação e explicar a superioridade dramática que atribui ao paradigma vetorial.

13. Enquanto afirma que todas as teorias são neurocomputacionalmente iguais por exibirem maior ou menor distinção superempírica, o eliminativismo insinua que o paradigma vetorial é mais igual, mais pragmático e mais virtuoso que todos os paradigmas populares anteriores, superioridade que não pode residir num aumento quantificável da eficiência informacional, já que Churchland parece aceitar a tese de Quine da subdeterminação das teorias pela evidência e nega que haja uma medida absoluta e teoricamente neutra de superioridade adaptativa, pois toda teoria, ao transformar os dados que pretende explicar, desloca as metas empíricas, sendo perfeitamente concebível que versões mais refinadas da psicologia popular ofereçam aos organismos todas as vantagens discriminatórias, conceituais e explicativas do paradigma vetorial.

14. A superioridade putativa do paradigma vetorial é então metaempírica num sentido mais que pragmático, irredutível às virtudes superempíricas, isto é, metafísico, pois Churchland supõe implicitamente que só ele fornece uma explicação universal da cognição que engloba todas as outras, de modo que todas as teorias são ativações vetoriais, mas a teoria vetorial da ativação vetorial é mais igual por ser a precondição das demais, ao mesmo tempo o último de uma sequência histórica empírica e a precondição latente que explica o verdadeiro caráter dessa sequência, protótipo universal do qual os outros modelos seriam meras instanciações, ou, em hegelês, ativações vetoriais em si, mas ainda não em si e para si, já que Churchland afirma ter encontrado a instanciação material do paradigma de Kuhn na partição prototípica do espaço vetorial, tanto factum metafísico quanto dado empírico, fato empírico e precondição para que algo conte como fato empírico, dado intra-histórico e ao mesmo tempo a priori supra-histórico que permitiria reconhecer as mudanças de paradigma como configurações cambiantes no espaço vetorial.

15. Churchland não pode oferecer uma explicação coerente da relação entre rede e mundo porque carece de recursos para estabelecer essa correlação independentemente de seu paradigma vetorial, já que um modelo de representação não pode ser ao mesmo tempo representação do mundo e o que estabelece a possibilidade dessa representação, dicotomia que se torna inescapável na tensão entre seu realismo sobre a representação científica e seu pragmatismo sobre a gênese da representação em geral, problema que vicia todo naturalismo filosófico que extrai sua explicação da ciência de algum adaptacionismo evolutivo, pois, como insiste Fodor, o êxito das explicações adaptacionistas do funcionamento orgânico não autoriza aplicá-las ao funcionamento cognitivo.

16. O problema do naturalismo de Churchland não é ser metafísico, mas ser uma metafísica empobrecida, inadequada para fundar a relação entre representação e realidade, sintoma de um problema mais amplo do modo como o naturalismo enquadra sua relação com a ciência, já que falar vagamente de tornar a filosofia consistente com as melhores ciências desvia a atenção do trabalho filosófico necessário para tornar suas descobertas metafisicamente coerentes, e o objetivo deve ser uma metafísica digna das ciências, para a qual nem o empirismo nem o pragmatismo bastam, pois a ciência não deve deferir à entronização empirista da experiência nem à hipóstase naturalista da natureza, ambas alheias a seu modus operandi subtrativo, que subtrai a natureza da experiência para revelar o vazio objetivo do ser, de modo que, se a tarefa principal da filosofia contemporânea é extrair as implicações especulativas últimas da lógica do Iluminismo, ela não deve inventar provas sofísticas da inviolabilidade transcendental da imagem manifesta, nem instalar-se no naturalismo em busca da promoção a ciência cognitiva, nem buscar uma síntese entre as duas imagens, mas acelerar a demolição científica da imagem manifesta derrubando os suportes pseudotranscendentais que a sustentam, e é justamente a tentativa de preservar um papel normativo para as virtudes superempíricas que vicia o eliminativismo de Churchland.

1.7 A aparência da aparência

1. Churchland não é o Anticristo, e os adornos pragmáticos do eliminativismo o privam dos meios conceituais para precipitar o apocalipse cultural, o que não favorece os defensores da psicologia popular, que, mesmo não sendo tão monolítica nem tão desadaptada quanto ele afirma e devendo sobreviver como conjunto de estratégias sociais pragmáticas, terá papel cada vez mais insignificante no desenvolvimento da ciência cognitiva, e a conquista notável de Churchland, ao lado de Dennett, é ter introduzido uma cunha filosófica irrecusável entre a autoconcepção fenomenológica e os processos materiais que a produzem, desmentindo o princípio dos princípios da fenomenologia, formulado por Husserl, segundo o qual toda intuição doadora originária é fonte legítima de conhecimento e tudo o que se oferece originariamente na intuição deve ser aceito simplesmente como se apresenta, mas apenas nos limites em que se apresenta.

2. A força crítica do projeto de Churchland está em mostrar que os limites invocados pela fenomenologia para circunscrever a legitimidade das intuições originárias não podem ser fenomenologicamente transparentes, já que são traçados teoricamente, e que o eliminativismo, seja qual for seu defeito, é perfeitamente concebível, o que as pretensões transcendentais da fenomenologia não podem admitir, bastando essa concebibilidade para minar a suposta indubitabilidade da experiência do sentido e a incorrigibilidade das intuições doadoras originárias, já que o sentido linguaformal é quase certamente gerado por processos não linguísticos e as intuições fenomenológicas são condicionadas por mecanismos intuitivamente inacessíveis, de modo que o resultado de sua obra é que não se é como se experimenta ser.

3. Ao assinalar a incomensurabilidade entre a consciência fenomênica e os processos neurobiológicos que a produzem, Churchland põe em dúvida a transparência que muitos filósofos atribuem à consciência como aparência da aparência, para os quais a distinção entre aparência e realidade não se aplica à consciência, pois, como diz Searle, nela a aparência é a realidade, noção que encerra uma circularidade embutida, já que dispensa justificação ao supor que todos sabem como é algo aparecer, princípio pelo qual as aparências só podem ser compreendidas em seus próprios termos, os do ponto de vista fenomenológico de primeira pessoa, cuja evidência vem da própria experiência consciente, mas quanto mais se tenta descrever a pura aparição sem acréscimos objetivantes, mais se recorre a um registro figurado e metafórico, a ponto de muitos fenomenólogos concluírem que só a linguagem poética é adequada à dimensão não proposicional da significatividade, forjando um vínculo com a hermenêutica literária para conter a ameaça de que descrever a aparição exige supor algo inaparente nas aparências, um sentido originário não proposicional, quando seria melhor admitir que os fins da descrição fenomenológica são mais bem servidos pela literatura que pelo sequestro dos recursos conceituais da filosofia para preservar um santuário da experiência fenomênica, pois quanto mais se examina a experiência originária independentemente da linguagem, mais pobres se tornam as descrições, o que mostra não que a consciência se reduz ao linguisticamente articulável, mas que abriga uma realidade sublinguística inacessível à descrição de primeira pessoa e independente do sujeito da consciência, mapeável apenas pela perspectiva objetiva de terceira pessoa, já que, como mostra Metzinger, as formas mais rudimentares de conteúdo fenomênico não podem ser individuadas fenomenologicamente por falta de critérios de identidade transtemporal, de modo que se discriminam diferenças finas sem identificar os conteúdos individualmente, e só os correlatos neurais e funcionais mínimos, analisados matematicamente, podem fornecer esses critérios, sendo possível a neurofenomenologia e impossível a fenomenologia.

4. Em Sweet Dreams, Dennett identifica o dilema dos defensores da transparência incondicional do fenomênico, pois, se os traços constitutivos da aparição enquanto tal são não relacionais e não funcionais, resistentes à articulação conceitual, nem o sujeito de primeira pessoa pode apreendê-los, separado sempre de sua experiência imediata por uma mediação, já que toda descrição de um representatum fenomênico o converte em representandum de outro, crítica da qualiafilia que converge com a crítica de Derrida a Husserl, segundo a qual uma aparência absolutamente transparente e não relacional é tão incoerente quanto a consciência como autopresença absoluta, de modo que a própria experiência fenomenológica mostra que não há acesso privilegiado a todas as propriedades da aparência e que a consciência admite a distinção entre traços apreendidos e traços que escapam, sob pena de recair num solipsismo absoluto como o de Michel Henry, restando decidir se essa dimensão não manifesta transcende a descrição objetiva, como no ser inobjetivável do primeiro Heidegger, ou é acessível à descrição de terceira pessoa das ciências, como nos processos inconscientes e subsimbólicos de Churchland e Metzinger, opção preferível por pressupor menos, embora comprometida por uma aliança com o pragmatismo que vicia o realismo científico, de modo que a aparição da aparência deve ser compreendida como fenômeno gerado por processos neurobiológicos subpessoais e perfeitamente objetiváveis, sendo o próprio sujeito fenomenológico, segundo Metzinger, uma aparência gerada por processos inaparentes, subversão da autoconcepção como sujeitos diante da qual os filósofos fiéis ao cânone racional de Kant e Hegel denunciaram as consequências bárbaras do racionalismo científico irrestrito, sendo irônico que os que veem na crítica a tarefa da filosofia estejam entre os defensores mais firmes da imagem manifesta, como na crítica da razão iluminista de Adorno e Horkheimer.

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