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Freud

BOUVERESSE, Jacques. Philosophie, mythologie et pseudo-science: Wittgenstein lecteur de Freud. Combas [France]: Editions de l’Eclat, 1991.

  • Apresentação
  • Prefácio
  • Capítulo I — Wittgenstein: discípulo de Freud?
  • Capítulo II — O problema da realidade do inconsciente
  • Capítulo III — O «impulso generalizador», ou O filósofo apesar de si mesmo
  • Capítulo IV — Razões e causas
  • Capítulo V — A mecânica da mente
  • Capítulo VI — O «princípio da razão insuficiente» e o direito ao absurdo
  • Capítulo VII — A «mensagem» do sonho
  • Conclusão

Prefácio de Vincent Descombes (edição inglesa)

Prefácio

1. Na versão original, o ensaio de Jacques Bouveresse traz um título e um subtítulo bastante explícitos, Filosofia, mitologia e pseudociência: Wittgenstein lê Freud. O subtítulo delimita o tema, isto é, os juízos de Wittgenstein sobre Freud e sua empresa, e o título anuncia três registros de invenção intelectual, dos quais apenas a ciência possui uma contrafação chamada pseudociência.

2. Não se pode falar em pseudofilosofia, porque tudo o que se apresenta como filosofia é filosofia, e a má filosofia chega a ser até mais representativa das tentações filosóficas típicas; tampouco se pode falar em pseudomitologia, pois o mito, que não resulta de atividade especializada, é simplesmente aquilo que se conta e se transmite como mito, cabendo no máximo falar de uma mitologia pobre ou insípida.

3. O assunto principal do livro dispensa introdução, pois consiste no comentário de todos os textos em que Wittgenstein menciona Freud e na discussão da literatura sobre o tema em alemão, inglês e francês; já o contexto francês em que a obra foi escrita e recebida, evidente para o leitor francês, exige explicação na tradução americana.

4. Os juízos de Wittgenstein incidem sobre a psicanálise tal como Freud a definiu e difundiu, mas o título de Bouveresse, ao cogitar as designações de filosofia, mitologia ou pseudociência, abrange também a psicanálise tipicamente francesa de Jacques Lacan, apresentada como um “retorno a Freud”.

5. No início do século, os filósofos franceses reagiram à psicanálise com indiferença, com críticas morais ou psicológicas ou com tentativas de interpretação filosófica, como as de Sartre e Merleau-Ponty, que, embora acolhessem psicanalistas em Les Temps Modernes, criticavam respectivamente o determinismo e o naturalismo freudianos.

6. Os primeiros psicanalistas franceses, sem filiação intelectual e pouco atentos à opinião dos filósofos, aproximaram-se da vanguarda e sobretudo dos surrealistas, que se apropriaram seletivamente de Freud em defesa da paixão desinibida, homenagem que o próprio Freud, de gostos literários conservadores, recebeu com cautela.

7. Próximo dos surrealistas desde a juventude, Lacan inverteu a relação entre psicanálise e filosofia, de modo que passaram a ser os filósofos, e não mais os psicanalistas, os obrigados a justificar sua reticência.

8. Lacan apropriou-se da ideia freudiana de que a psicanálise constituía uma revolução intelectual comparável às de Copérnico e Darwin, o que a apresentava não apenas como hipótese científica, mas como fonte de uma reviravolta cultural.

9. Os abalos intelectuais podem ser medidos numa escala que vai da simples mudança de paradigma num campo à revolução intelectual que transforma os princípios de raciocínio em todas as disciplinas. Os limites da filosofia só são ultrapassados quando há ruptura mental e inversão de valores, isto é, mudança de vontade, e é nesse ponto que o juízo de Wittgenstein sobre a psicanálise vai além do da maioria dos filósofos.

10. Para Lacan, Freud não compreendeu plenamente a radicalidade de sua descoberta, que só a versão lacaniana libertaria da biologia. A revolução freudiana seria mais grave que a copernicana, a qual, ao apenas deslocar o centro, continuou a exaltá-lo e permaneceu compatível com a religião tradicional.

11. Quanto a Darwin, longe de negar ao homem um lugar à parte, a ideia de evolução reforçou a crença humana de estar no topo da escala dos seres.

12. O que Freud pôs em questão, segundo Lacan, foi a própria possibilidade de o ser humano ser centro de algo. O inconsciente atesta a impossibilidade da identidade consigo e faz do homem um sujeito dividido pela linguagem entre o que pode demandar e o que continua a desejar, transformação que interessa diretamente às questões filosóficas presentes em Wittgenstein.

13. Ao pretender que a teoria freudiana pertencesse ao mesmo tempo à ciência dura e à loucura, Lacan produziu o que Roustang chamou de “delírio científico”. Contra Sartre, Merleau-Ponty e Ricoeur, sustentou um ideal de ciência modelado na física matemática e afirmou que Freud jamais rompeu com o programa científico de sua época, enfatizando mais a autoridade da ciência do que resultados efetivamente obtidos.

14. Lacan também comparou Freud a Erasmo, pois ambos teriam modificado a relação do homem com o significante e alterado assim o curso da história humana, um pela crítica filológica e o outro pela descoberta de que “o isso fala” nos sintomas e atos falhos, o que faz do freudismo uma revolução de consequências infinitas, superior a qualquer hipótese científica ou sistema filosófico.

15. A rivalidade entre filósofos e psicanalistas no mercado intelectual parisiense levou Lacan a elevar a aposta, exigindo para a psicanálise o privilégio de uma construção que transcendesse a filosofia e fosse validada pela conjunção de experiência e formalização, ainda que o divã nada tenha a ver com os esquemas algébricos e topológicos. Essa construção deveria ainda demonstrar a realidade do inconsciente como um novo continente.

16. Como a hipótese do inconsciente é a pedra angular do aparato freudiano, a questão decisiva é saber se Freud apresentou uma hipótese científica ou, como pensa Wittgenstein, inventou uma “maneira de falar”. Nesse ponto, é Freud quem tem uma concepção clássica de ciência, próxima à do Círculo de Viena, enquanto Wittgenstein sustenta uma visão mais heterodoxa.

17. Para o freudiano, e mais ainda para o lacaniano, uma “maneira de falar” seria algo degradante, mas para Wittgenstein propor um novo sistema de expressão, erigindo uma imagem poderosa em Urphänomen de toda uma classe de fatos, é algo engenhoso. Essa invenção só se torna condenável quando é confundida com a ciência sujeita a controle empírico, confusão que, somada à pretensão de explicação global, constitui a marca da pseudociência.

18. Os juízos de Wittgenstein incidem não apenas sobre a obra de Freud, mas também sobre sua recepção na cultura contemporânea, como se a psicanálise fosse antes um fenômeno coletivo do que a ideia original de um pensador, e o fato de a maioria acreditar que o freudismo é uma descoberta científica diz algo profundo sobre a época.

19. A mitologia não se distingue da ciência como o saber dos ignorantes se distingue do saber dos cientistas, já que Wittgenstein não considera grosseiros os primitivos estudados por Frazer. O que a distingue é seu caráter englobante e imperioso, que exige adesão incondicional, recusa de antemão toda refutação experimental e persuade de que as coisas devem ocorrer de certo modo, mesmo quando parecem ocorrer de outro.

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