Introdução ao filosofar (3)
(Bornheim1976)
A POSTURA DOGMÁTICA E A CRÍTICA
1. A existência dogmática, descrita a partir da infância, vive dentro de um mundo desde sempre dado e já feito, um mundo absoluto onde tudo é pleno e justo, e o Drama começa quando a criança cresce e vê seus pais de cima, experimentando sua própria transcendência.
2. A atitude dogmática aceita o mundo como uma moldura desde sempre constituída, com uma compreensão implícita do horizonte total, sempre imperguntado, que possibilita todo comportamento, e a dúvida, quando ocorre, diz respeito apenas a um aspecto da realidade, deixando o horizonte total intacto e inabalável.
3. Husserl denomina essa compreensão implícita do mundo de “tese geral” (Generalthesis), que pode ser especificada em uma tríplice dimensão: a gnosiológica, que supõe que o mundo pode ser conhecido; a ontológica, que afirma a existência do mundo; e a axiológica, que reconhece o mundo como dotado de valor e sentido positivo.
- A tese geral não é uma afirmação lógica, mas um ato de fé, uma crença fundamental, que permite ao homem viver em um mundo de ideias feitas sem assumi-las em sua radicalidade.
- A dimensão axiológica é a mais fundamental, pois afirma o valor da tese geral, fundamentando as dimensões gnosiológica e ontológica, uma vez que o mundo tem um valer próprio e independente.
4. Dentro da postura dogmática, a tese geral nunca é posta em dúvida, mas isso não exclui a possibilidade de duvidar de aspectos particulares da realidade, do conhecimento ou do valor, dúvidas que só são compreensíveis a partir da aceitação implícita da tese geral, que lhes dá sentido.
5. A tese geral condiciona toda atividade humana, seja o fazer técnico, a ação ou o conhecimento, fornecendo um sentido possibilitador, e o homem só abandona a postura dogmática quando julga que a realidade, basicamente, perdeu seu sentido.
6. O comportamento prático só é possível a partir de um sentido que o fundamente, e o fazer técnico se compreende como participante de uma rede de relações que supõe um mundo já dado, sendo o produto do obrar humano acessível apenas dentro deste mundo.
7. A ação, mesmo a não-conformista ou reformatória, supõe uma forma ou estrutura que a torne possível, e uma revolução social só se impõe a partir da crença preliminar de que o homem e a sociedade têm sentido, deixando a tese geral imperguntada; sem a admissão de um sentido básico, toda ação se torna absurda.
8. A postura crítica caracteriza-se por questionar os fundamentos da ação, pondo-os em dúvida, e o homem de ação, ao contrário, dá por resolvido o pressuposto de toda ação, voltando as costas para o fundamento e orientando-se para a construção prática.
9. A filosofia, como mundo às avessas, não serve para nada no sentido prático imediato, mas problematiza a validez da tese geral para legitimar criticamente o mundo da ação prática, abandonando a postura dogmática em favor de uma postura crítica.
10. O dogmatismo do comportamento prático aplica-se também à atividade teorética não-filosófica, pois o conhecimento empírico e a ciência processam-se dentro do horizonte dogmático da tese geral, podendo duvidar de aspectos, mas nunca da totalidade do real.
11. O cientista aceita implicitamente a existência, a acessibilidade e o valor de seu objeto, e suas dúvidas parciais são condição para o progresso da ciência, mas nenhuma ciência pode justificar-se com seus próprios meios, pois isso é uma tarefa própria da filosofia, que questiona os fundamentos da ciência.
12. O que caracteriza globalmente a postura dogmática é a atitude de aceitar como evidente um repertório de crenças, ideias e convicções, um “mundo de ideias” que é o solo pré-encontrado da existência, e essa aceitação se dá dentro da dimensão do esquecimento, sem inquietação quanto aos seus pressupostos.
13. A postura dogmática caracteriza-se pela indiferença ontológica, movendo-se no plano ôntico, em contato com os entes, sem passar ao plano ontológico, e esquecendo a diferença entre o ser e o ente, que é suposta por toda e qualquer diferenciação.
14. A indiferença ontológica barra o acesso à problemática filosófica, que só se impõe a partir da superação dessa indiferença, e a vocação filosófica se mede pela intensidade com que se coloca o problema do ser.
15. A questão que se impõe é como o homem abandona a postura dogmática para assumir a filosófica, como supera o esquecimento fundamental e toma consciência da tese geral esquecida, ou seja, como consegue superar a dogmaticidade.
