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Dialética de Platão a Hegel

BORNHEIM, Gerd. Dialética. Teoria e prática. Porto Alegre: Editora Globo, 1983.

A DIALÉTICA DE PLATÃO A HEGEL

37. Para Platão e Hegel, a dialética tem dimensões ontológicas e metodológicas, com a preocupação fundamental na realidade divina, mas a diferença básica é ontológica: em Platão há uma dicotomia estrita entre os dois mundos, enquanto Hegel busca suprimir essa dicotomia numa síntese monista, estendendo o processo espiritual a toda a realidade.

38. Há uma necessidade metafísica que conduz de Platão a Hegel, e a contradição só cresce em importância na medida em que a Metafísica entra em crise, e a palavra dialética desfruta de lugar privilegiado exatamente em Platão e Hegel, no ponto inicial e terminal da História da Metafísica.

39. A Metafísica é habitada por uma exigência monista, e o processo de entificação do ser faz com que o outro, o finito, seja diminuído, e a Metafísica, como ciência das coisas divinas, silencia sobre a individualidade e o sensível, sendo o monismo a realização de sua própria definição, e Hegel afirma que seu sistema é a verdade da Metafísica.

40. A contradição, no passado metafísico, era a terra proibida, mas com o monismo hegeliano, ela passa a ser valorizada, pois é o que deve ser eliminado para que o monismo se realize, e a Metafísica da identidade, em Hegel, busca a máxima auto-realização, conservando a contradição no idêntico, e a luta contra a contradição se verifica na questão do sensível e da alteridade.

41. A Fenomenologia do Espírito descreve o itinerário do sensível ao Saber absoluto, transcendendo o sensível, e a alteridade é redutível ao Mesmo, caracterizando a Metafísica da identidade, mas Hegel inaugura a crise da Metafísica ao dar importância à contradição, e ele supera o passado metafísico ao não resolver a contradição logicamente, mas ontologicamente, como um processo assimilatório da contradição pela identidade.

42. Hegel esbarra numa ambiguidade radical: a identidade é fundamento, mas a contradição também assume o papel de fundamento, pois a identidade só tem vida pela contradição, e nessa ambiguidade reside a crise da Metafísica, onde o finito surge como um problema novo, e o fundamento sofre um processo de relativização, perdendo seu caráter absoluto.

43. A crise da identidade metafísica não significa que ela seja um sem-sentido, mas que ela passa a se relacionar ao plano do finito, e a identidade óntica leva a emprestar dimensão ontológica à contradição, e o abandono da identidade metafísica se faz a favor do pensamento da diferença ontológica, modificando o modo de entender o processo dialético.

44. Na Metafísica, o processo é um meio para a transfinitização, mas com a destituição da totalidade, deve-se pensar o processo em si mesmo, e em Hegel, quando Deus precisa do finito para ser, o processo já ocupa o primeiro lugar, mas ele continua metafísico porque o processo é transposto para o plano da Ideia, e o sentido pleno da contradição só se manifesta se se ficar na dimensão da finitude do finito.

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