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Bultmann
BLEICHER, Josef. Contemporary hermeneutics: hermeneutics as method, philosophy and critique. London: Routledge, 1990.
- A análise heideggeriana da estrutura existencial do Dasein, referida sobretudo à interpretação transcendental da compreensão, projeta possibilidades da existência humana e informa a formulação do círculo hermenêutico, desenvolvimento seminal que orientará a exposição da filosofia hermenêutica de Gadamer, cuja reflexão sobre a objetividade científica, a historicidade da compreensão e o papel da linguagem e da tradição elabora ainda mais o insight de Heidegger, sendo a teoria gadameriana da experiência hermenêutica particularmente relevante como contraponto ontológico às preocupações metodológicas e epistemológicas da hermenêutica tradicional de matriz diltheyana
- A significância de Bultmann reside em sua tentativa de aprofundar a análise metodológica do Dasein por meio da filosofia hermenêutica de Heidegger, seguindo a liderança deste, centrando-se seu problema na dialética entre a linguagem mitológica em que o kerygma, a mensagem do advento de Deus em Jesus Cristo, encontrou expressão no Novo Testamento, e a compreensão existencial do intérprete
- O círculo hermenêutico manifesto na exegese afirma-se com o intérprete tendo de ser crente para compreender, enquanto compreender a mensagem é necessário para adquirir a fé
- Essa formulação permaneceria ainda nos limites de uma concepção psicologista da compreensão voltada a alcançar o sentido intencionado pelo autor tal como o ouvinte original o teria compreendido, de modo que o intérprete ainda abordaria as Escrituras como objetivação de uma mente e, de certa forma, interrogaria o objeto para obter respostas às suas questões
- A limitação dessa concepção da tarefa hermenêutica aparece de modo mais evidente na exegese da Bíblia, sendo que, na realização de Bultmann, a desmitologização do Novo Testamento, a interpretação histórica e filológica é instrumental para determinar a mensagem que ele contém, o que pode significar atravessar o véu mítico de explicações cosmológico-escatológicas já não aceitáveis para o homem moderno
- Se aceita uma definição adicional de mito como algo que exprime outra possibilidade de existir, retorna-se ao terreno da interpretação existencial de Heidegger: a interpretação das concepções míticas em relação às autocompreensões que as fundamentam e nelas se exprimem
- O homem toma posse de sua origem e de seu destino através da linguagem do mito
- Não é o sentido intencionado pelo autor, mas aquele contido no texto — que não remete a si mesmo mas a um acontecimento — que dirige a compreensão
- A compreensão existencial consiste na submissão ao conteúdo de um texto, e a interpretação da Bíblia assume a forma circular de compreender um texto que exprime uma crença em Jesus Cristo e que foi formulado pela Igreja antiga, sendo necessário, para compreender o texto, crer no que ele exprime, o que só pode ser conhecido através de sua compreensão
- Há, contudo, um nível adicional de mito considerado por Bultmann que exige a desmitologização do próprio mito, estágio em que o cientista e depois o filósofo são suplantados por aquele que ouve o chamado, responde a ele e começa a tornar sua existência significativa
- A desmitologização assume aqui a forma de uma interpretação de conceitos como pecado à luz de nossas esperanças, isto é, o conhecimento de que o futuro em Cristo já começou
- Assumir a responsabilidade pelo próprio futuro é, portanto, consequência da decisão de aceitar a fé oferecida
- Os insights metodológicos aplicáveis a todas as áreas de interpretação deriváveis da obra de Bultmann são resumidos por ele mesmo em referência ao termo Vorverständnis, pré-compreensão, que representa a reformulação metodologicamente orientada da estrutura prévia da compreensão em Heidegger
- Bultmann formula: uma relação viva precedente com a matéria em questão, que encontra expressão em um texto direta ou indiretamente e que guia o sobre-o-quê de toda investigação, é a precondição de toda interpretação compreensiva, sendo tal investigação sempre guiada por uma compreensão preexistente e preliminar da existência humana, isto é, uma compreensão existencial definida
- A preocupação com a objetividade dos resultados da interpretação, tão fundamentalmente dependentes da pré-compreensão do sujeito, levou Betti a rejeitar a interpretação existencial de Bultmann
- Bultmann formula sua posição de modo incisivo: o mais subjetivo é sempre a interpretação mais objetiva, isto é, aquela em que quem é tocado pelas questões referentes à própria existência está em posição de perceber as reivindicações do texto
- Seria inteiramente inadequado exigir do intérprete que suprimisse sua individualidade para alcançar conhecimento objetivo, ainda que preferências pessoais quanto ao resultado do trabalho interpretativo devam ser tratadas como decorrência de uma posição dogmática a ser eliminada
- Bultmann conceitua nitidamente a diferença entre estar livre de pressupostos, Voraussetzungslosigkeit, e estar livre de preconceito, Vorurteilsfreiheit, sendo a segunda condição sine qua non de qualquer tentativa de permanecer na órbita do conhecimento objetivo, enquanto a primeira é uma ideia ilusória e mal concebida, originada em visões cientificistas sobre a natureza do verdadeiro conhecimento
- A pré-compreensão, como elemento central do sistema de pressupostos, não precisa ser eliminada, mas deve ser elevada à consciência para ser criticamente examinada no curso da compreensão de um texto, arriscada; em suma, exige-se permitir-se ser questionado durante a investigação do texto e escutar suas reivindicações
- O engajamento da própria compreensão existencial na extração da mensagem contida em um texto, o que modificará a compreensão precedente, é auxiliado pelo uso hábil das abordagens metodológicas desenvolvidas pela teoria hermenêutica, sendo o uso da análise formal aplicável não só à literatura profana mas igualmente aos textos bíblicos
- Aqui entra em jogo uma pré-compreensão específica: no Dasein humano vive um conhecimento existencial sobre Deus como a questão da felicidade, da salvação, do sentido do mundo e da história, como a questão da autenticidade de toda existência humana
- Essa pré-compreensão guia a interpretação da revelação de Deus, sem a qual não se saberia o que fazer da promessa de salvação
- Possivelmente a crítica mais fundamental dirigida à hermenêutica existencial de Bultmann diz respeito à sua negligência de qualquer reflexão sobre a linguagem em geral, sendo precisamente a preocupação com a linguagem o que caracteriza os debates modernos dentro da filosofia hermenêutica
- Bultmann permanece nos limites de uma abordagem centrada nas objetivações e não na linguagem, o que o leva a ignorar que, no curso da desmitologização, a linguagem do mito é substituída por outra linguagem
- O último estágio desse processo se realiza ao relacionar a decisão existencial às reivindicações da Palavra de Deus
- Com Bultmann, o caminho se afastou da linguagem em direção a uma compreensão anterior e mais autêntica que a linguagem, movimento que a virada linguística na filosofia hermenêutica busca contestar
- A hermenêutica teológica de Fuchs e Ebeling refere-se ao kerygma como um acontecimento de linguagem ou um acontecimento de palavra, sendo hermenêutica entendida como uma teoria das palavras destinada a facilitar a proclamação da Palavra de Deus no presente e o uso do texto para a compreensão da experiência presente, constituindo ela própria um trazer da Notícia
- É uma teoria da palavra na medida em que a compreensão parte dela: a existência é existência através da palavra e na palavra, segundo Ebeling
- A primazia na nova hermenêutica teológica desloca-se do texto para a palavra, não sendo mais o caso de o intérprete subordinar-se ao texto
- Enquanto para Bultmann o texto permanece o objetivo último da interpretação, Fuchs vai um passo além e argumenta que o texto, por sua vez, nos interpreta, fornecendo uma crítica de nossa autocompreensão em termos da autocompreensão que o texto nos dirige
- A pré-compreensão é absorvida em uma autocompreensão que representa a meta do processo interpretativo: o texto se desdobra, se manifesta, naquilo que diz sobre nós, podendo-se ver aqui a interpretação ocorrendo menos como compreensão do que como linguagem, na medida em que o texto se interpreta a si mesmo por aquilo que tem a dizer sobre nós
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