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ESCREVER

Roland Barthes - ESCREVER: VERBO INTRANSITIVO?

  • Durante séculos a cultura ocidental pensou a literatura através da Retórica, teoria autêntica da linguagem que reinou desde os Górgias até a Renascença, sendo completamente destruída quando o racionalismo se transformou em positivismo no fim do século XIX.
    • Com o desaparecimento da Retórica, literatura e linguagem deixaram de ter base comum; a literatura deixou de ser considerada linguagem, e aos linguistas restou apenas a Estilística, disciplina filológica secundária de estatuto incerto.
    • A situação está mudando: escritores a partir de Mallarmé, como Proust e Joyce, empreenderam exploração radical do escrever fazendo de suas obras uma busca do Livro total; a Linguística, sobretudo após o impulso de Roman Jakobson, desenvolveu-se para incluir a poética no seu escopo.
    • A nova perspectiva comum à literatura e à Linguística aproxima as tarefas do criador e do crítico, que estão começando a inter-relacionar-se e talvez a fundir-se.
  • Essa nova união entre literatura e Linguística pode chamar-se semiocrítica, ciência que implica a escrita como sistema de signos e cujo objeto são as próprias relações entre o escritor e a linguagem.
    • A semiocrítica não deve ser identificada com a Estilística; sua perspectiva é muito mais ampla e implica perpétuo retorno às verdades provisórias da Antropologia linguística.
    • Um dos ensinamentos da Linguística contemporânea é o de que não existe língua arcaica nem conexão entre simplicidade e idade da língua; quando se buscam certas categorias linguísticas na literatura moderna, não se está dizendo que o escritor retorna à origem da linguagem, mas que a linguagem é a origem para ele.
    • A língua não é simples instrumento do pensamento; o homem não existe antes da linguagem enquanto espécie ou indivíduo, e é a linguagem que dá a definição do homem, não o inverso.
    • A Linguística sugere que se distingam os níveis de análise e se descrevam os elementos distintivos de cada um, estabelecendo a distinção do fato, não o próprio fato; os fatos culturais, diferentemente dos físicos e biológicos, são sempre duplos — referem-se a algo mais.
    • A cultura é um sistema geral de símbolos governado pelas mesmas operações; toda a cultura é uma linguagem, e é possível prever uma única ciência geral da cultura apoiada em diversas disciplinas.
    • O postulado da homologia sustenta que a estrutura das sentenças, objeto da Linguística, encontra-se também, homologicamente, na estrutura das obras; o discurso não é simples sequência de sentenças — é ele próprio uma grande sentença.
  • A temporalidade é a primeira categoria linguística confrontada com a situação do escritor, e o tempo linguístico tem sempre seu centro gerador no presente da enunciação.
    • Benveniste demonstrou que muitas línguas, especialmente no grupo indo-europeu, possuem duplo sistema temporal: o do discurso, que se adapta à temporalidade do falante com a enunciação como momento gerador; e o sistema histórico ou narrativo, que se adapta ao relato de eventos passados sem intervenção do falante e que não dispõe de presente e futuro.
    • O tempo específico do sistema histórico é o aoristo ou seu equivalente, como o passé simple ou o pretérito; esse é precisamente o único tempo que falta ao sistema temporal do discurso.
    • A temporalidade está marcada por todos os signos que se referem ao tempo impessoal do evento ou ao tempo pessoal do locutor, não apenas pela marca morfológica dos verbos.
    • Uma narrativa popular e a história da França recontada nos livros escolares são narrativas puramente aorísticas; O Estrangeiro de Camus, escrito em pretérito composto, é forma perfeita de autobiografia do narrador.
    • Michelet fez todo o tempo histórico girar em torno de um ponto do discurso com que se identificava — a Revolução —, produzindo história sem aoristo; inversamente, o pretérito pode servir para significar a despersonalização do discurso.
    • A distinção entre o sistema temporal do discurso e o sistema temporal da história é completamente diferente da distinção tradicional entre discurso objetivo e discurso subjetivo; somente a relação entre o falante e sua enunciação determina o sistema temporal do discurso.
    • A literatura realista tornava esses fatos de linguagem imperceptíveis ao manter uma ideologia totalitária do referente; a literatura contemporânea está descobrindo sutilezas relativas à temporalidade, buscando distinguir o presente do falante, de plenitude psicológica, do presente da locução, móvel e em que evento e registro se tornam absolutamente coincidentes.
  • A pessoa é a segunda categoria gramatical importante tanto para a literatura quanto para a Linguística, sendo toda língua organizada por Benveniste em dois pares de opostos.
    • A correlação de pessoalidade opõe a pessoa, eu ou tu, à não-pessoa, ele, signo da ausência; dentro desse primeiro par, a correlação de subjetividade opõe o eu ao não-eu, o tu.
    • A polaridade das pessoas não envolve igualdade nem simetria: eu está sempre em posição de transcendência em relação a tu, pois eu é interior ao enunciado e tu lhe é exterior; contudo, eu e tu são reversíveis entre si, o que não se aplica à não-pessoa, ele, que nunca pode transformar-se em pessoa.
    • O eu linguístico deve ser definido de modo estritamente apsicológico: é apenas a pessoa que enuncia a presente ocorrência de discurso contendo a ocorrência linguística eu.
    • O ele, ou não-pessoa, nunca reflete a ocorrência de discurso; situa-se fora dela; não é uma pessoa reduzida e afastada, mas absolutamente não-pessoa, marcada pela ausência do que constitui linguisticamente o eu e o tu.
    • O discurso clássico alterna enunciação pessoal e impessoal com muita rapidez, produzindo consciência ambígua que mantém a pessoalidade do que é dito enquanto quebra continuamente a participação do locutor no enunciado.
    • Em romances escritos em ele, muitas enunciações são ainda discursos da pessoa quando o conteúdo da elocução depende do sujeito; o verbo parecer, por exemplo, funciona como marco da ausência de pessoa.
    • O método para determinar a oposição pessoal/impessoal é a reescrita: se o ele pode ser trocado por eu sem qualquer outra alteração na enunciação, o discurso é pessoal.
    • No romance tradicional, a alternância rápida de pessoal e impessoal produz consciência proprietária; quando o narrador é explicitamente um eu, confundem-se o sujeito do discurso e o sujeito da ação relatada, como se aquele que hoje fala fosse o mesmo que agia ontem.
    • Certos escritores contemporâneos como Philippe Sollers em Drame tentam distinguir, no nível da narrativa, a pessoa psicológica e o autor do texto; o recurso absoluto a uma ocorrência de discurso para determinar a pessoa chama-se nun-egocentrismo, por Damourette e Pichon; Robbe-Grillet abre Dans le labyrinthe com admirável declaração de nun-egocentrismo: je suis seul ici maintenant.
    • O percurso do eu no processo de comunicação não é homogêneo: o eu de quem escreve eu não é o mesmo eu lido pelo tu; essa dissimetria da linguagem, explicada por Jespersen e depois por Jakobson sob o nome de shifter ou superposição de mensagem e código, está começando a perturbar a literatura.
  • O verbo escrever contemporâneo está passando de transitivo para aparentemente intransitivo, sinal de importante mudança de mentalidade que encontra melhor explicação na noção de diatese ou voz do que na de intransitividade propriamente dita.
    • A diatese designa o modo pelo qual a ação afeta o sujeito do verbo; no indo-europeu, a oposição dialética fundamental não se faz entre ativa e passiva, mas entre ativa e média.
    • Seguindo o exemplo clássico apresentado por Meillet e Benveniste, sacrificar é verbo ativo se o sacerdote sacrifica a vítima por outro, e está na voz média se o próprio ofertante executa o sacrifício; na ativa, a ação se passa fora do sujeito; na voz média, o sujeito se afeta ao agir, sempre estando dentro da ação mesmo se há objeto envolvido.
    • Definida assim, a voz média corresponde exatamente à situação do verbo escrever contemporâneo: escrever é fazer-se centro da ação da fala, afetando-se a si mesmo; é deixar o escritor no escrito não como sujeito psicológico, mas como agente da ação.
    • Guillaume distingue dois passés composés: o diriment, com auxiliar avoir, que supõe interrupção da ação por iniciativa do falante; e o intégrant, com auxiliar être, que indica entidade semântica que não pode ser liberada por simples iniciativa do sujeito.
    • O verbo escrever era tradicionalmente ativo com pretérito formalmente diriment; está tornando-se verbo de voz média com pretérito intégrant — de modo que, se a língua seguisse a literatura, caberia dizer não j'ai écrit mas je suis écrit, como se diz je suis né ou il est mort.
    • O escrever subjetivo, ainda o escrever romântico, é ativo: o agente não é interior mas anterior ao processo de escrever, e aquele que escreve não escreve para si, mas como procurador de alguém exterior e antecessor.
    • No verbo escrever atual de voz média, o sujeito é contemporâneo do texto, sendo criado e afetado por ele; o narrador em Proust é caso típico — ele só existe ao escrever.
  • O problema central da literatura moderna coincide com a problemática do verbo na Linguística: assim como temporalidade, pessoa e diatese definem o campo posicional do sujeito, a literatura moderna tenta estabelecer um novo estatuto no escrito para o agente do escrever.
    • O objetivo desse esforço é substituir a ocorrência de discurso pela ocorrência de realidade, o referente que vem sendo o álibi mítico dominante na ideia de literatura.
    • Recorrendo às categorias fundamentais da linguagem — pessoa, tempo e voz —, coloca-se no centro da problemática da interlocução, examinando as relações entre o eu e aquilo que não tem a marca do eu.
    • O pronome, o mais cambiante dos shifters, pertence estruturalmente à fala; é sobre esse escândalo que se deve trabalhar hoje em Linguística e em literatura.
    • A pesquisa aponta para uma dimensão histórica: o septenium medieval prescrevia duas grandes áreas, os segredos da natureza, o quadrivium, e os segredos da linguagem, o trivium — gramática, retórica e dialética; do final da Idade Média até hoje essa oposição se perdeu, passando-se a considerar a linguagem apenas como instrumento.
    • Hoje revive algo dessa antiga oposição: a pesquisa da linguagem liderada pela Linguística, a Psicanálise e a Literatura corresponde à exploração do cosmos, pois a literatura é em si uma ciência, ou pelo menos um conhecimento, não mais do coração humano, mas da linguagem humana.
    • Diferentemente da Retórica, cujo objeto eram as formas e figuras secundárias, a literatura contemporânea pondera sobre as categorias fundamentais da linguagem, sem as quais ela não existiria.
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