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DEBATE ESCREVER
Barthes - Debate sobre o Ensaio: Escrever, verbo intransitivo?
- Georges Poulet abre o debate observando que a distância entre sua posição e a de Roland Barthes não é de oposição frontal, mas de mal-entendido entre vizinhos que habitam andares diferentes de um mesmo edifício.
- A palavra linguagem, que Poulet evita pronunciar, tornou-se recentemente de extrema importância, acompanhada de fenômenos negativos correspondentes.
- Quase todas as vezes em que Barthes empregou a palavra linguagem, Poulet poderia substituí-la pela palavra pensamento sem incongruência, e vice-versa.
- Onde Barthes fala, seguindo Saussure, num significante relacionado ao significado e num significante do qual se poderia falar mesmo sem falar em significado, Poulet vê um continente sem conteúdo ou com todos os conteúdos, análogo a um pensamento com todos os pensamentos.
- O abismo que os separa poderia ser transposto, se ambos quisessem.
- Barthes responde que o que os separa é exatamente a linguagem, e acrescenta que os autores revelam mais através das palavras que evitam do que das que empregam.
- Não emprega a palavra pensamento não por considerá-la obscena, mas porque ela não é suficientemente obscena; para ele, a linguagem é obscena, e é por isso que sempre retorna a ela.
- Jan Kott introduz dois exemplos de duplicidade da linguagem literária e observa que a característica do tempo presente é a literatura ter-se transformado deliberadamente na crítica da linguagem.
- A frase les avocats sont durs, dirigida a Kott durante o jantar pelo sr. Donato, é exemplo de enunciado que se torna enunciação e mensagem que se dirige à estruturação da própria mensagem, nos termos de Jakobson.
- A frase surrealista les éléphants sont contagieux é outro exemplo dessa duplicidade.
- O problema da dissimetria na linguagem, o je sempre novo para quem o pronuncia mas sempre igual para o receptor, constitui a grande ruptura entre o teatro de Tchecov e o teatro anterior.
- Uma conversa telefônica com Ionesco sobre os pronomes aqui e aí é típica das peças de Ionesco; e embora seja impossível dizer je suis mort, Kott imagina uma peça de Ionesco terminando com j'ai mort.
- Jean Hyppolite questiona se o pacte de la parole mencionado por Barthes se mantém na escrita ou se esta transforma a interlocução num fantasma de si mesma.
- O exemplo de Proust em Contre Sainte-Beuve ilustra como a escrita se dirige ao fantasma da mãe numa interlocução que altera profundamente o pacto da fala, transformando-a em mímica desse pacto.
- Em La Jalousie, de Robbe-Grillet, Hyppolite pergunta se há interlocução real ou apenas fantasma, e se o pacte de la parole se mantém ou é apenas imitado.
- Barthes responde que uma análise homológica da pessoa ao nível dos signos do discurso em La Jalousie seria magnífico assunto para uma tese, e que se está começando a investigar os signos discursivos do destinatário mesmo em narrativas em monólogo.
- Mesmo numa narrativa em monólogo há sempre signos específicos do tu, do destinatário.
- Barthes reconhece que Hyppolite indicou a área de um problema muito importante: a relação entre a narrativa, ou fantasma, e a interlocução.
- Lucien Goldmann, como sociólogo, identifica uma ruptura radical dentro da cultura francesa entre o existencialismo e o estruturalismo, observando que o elemento comum da nova corrente de pensamento a-histórico é a linguagem.
- Morazé comparou Château en Suède de Sagan e Séquestrés d'Altona de Sartre: ambas tratam do desaparecimento da história, mas enquanto em Sartre isso é tragédia, em Sagan é indiferença.
- Para Sartre, a questão essencial era concordar com a história; para a postura intelectual atual, a história não importa.
- Althusser, em Pour Marx e Lire le Capital, conseguiu eliminar a história do pensamento marxista; Goldmann vê nisso uma mutação ideológica importante.
- Sua hipótese é que a linguagem foi privilegiada por mudar mais lentamente do que estruturas de conteúdo e estruturas literárias, e que o problema era eliminar o pensamento e o conteúdo, restando apenas a linguagem e o sujeito falante.
- Goldmann concorda que o eu que fala e o eu que escreve não são homólogos, mas questiona a conclusão de que o homem deva ser definido em termos de linguagem, pois o homem faz também outras coisas que não podem ser reduzidas à linguagem, como comer.
- Para Goldmann, a perspectiva estruturalista deve ser analisada pelo sociólogo para verificar se não constitui caminho pelo qual o sujeito coletivo concebe o estatuto do homem em termos de certa ideologia.
- Tzvetan Todorov responde a Goldmann em dois pontos: a definição do homem pela linguagem e a afirmação de que a linguagem muda mais lentamente do que a literatura.
- O homem não só fala, mas é a única criatura que fala, enquanto muitas outras comem; isso distingue a linguagem de outras atividades.
- Reduzir a linguagem a vocabulário e sintaxe ignora o discurso; há uma tipologia do discurso ainda por elaborar que poderia explicar mudanças tão grandes quanto as da literatura, pois a literatura é apenas um tipo de discurso.
- Richard Macksey observa que Goldmann distorceu o pensamento de Althusser sobre a história, que nunca a eliminou mas tentou repensá-la dentro de uma epistemologia coerente.
- Althusser tenta resgatar Marx do monismo dialético de Hegel, substituindo o sujeito absoluto como princípio genético único por uma estrutura concreta preexistente.
- Isso evita os problemas do essencialismo de Hegel, mas cria um tipo diferente de desenvolvimento entre conjuntos, reconhecido como causa de rupturas no processo histórico.
- Goldmann precisa sua crítica a Althusser reconhecendo que o próprio Althusser admite que o problema da mudança é dos mais difíceis.
- No trabalho em colaboração com Balibar, há três páginas sobre como a máquina tomou o lugar do fazer à mão, mas nenhuma explicação sobre como a máquina surgiu.
- Quando interpelado sobre esse problema, Althusser reconheceu que talvez um dia venha a ser resolvido pela pesquisa, recusando-se a dizer que o homem se define pelas relações de produção.
- Nesses três volumes, nenhum elemento do tornar-se fica claro, apenas o fato de que é um problema difícil.
- Barthes lembra que livros recentes importantes colocam o problema da história em novos termos, e que não se pode dizer que a história foi simplesmente deixada de lado.
- O livro de Foucault sobre a loucura não carece de dimensão histórica, embora seja uma nova dimensão histórica.
- Está em processo de criação novas definições do processo histórico.
- Paul de Man critica o tratamento que Barthes dá à história, identificando nele um mito histórico otimista que precisa de um progresso histórico para justificar um método que ainda não consegue se justificar por seus resultados.
- A substituição da fenomenologia pela psicanálise representa, para Barthes e Donato, um progresso histórico com possibilidades otimistas para a história do pensamento.
- As análises estilísticas específicas oferecidas por Barthes não apresentam progresso em relação às dos formalistas russos ou americanos, que empregavam métodos empíricos sem o vocabulário ou o arcabouço conceptual de Barthes.
- Ao referir-se a fatos da história literária, Barthes apresenta uma concepção falsa do classicismo e do romantismo dentro de um mito tipicamente francês.
- Na autobiografia romântica e mesmo na narrativa do século XVII, a complicação do ego já era tratada explícita e tematicamente de modo muito mais complexo do que no romance contemporâneo.
- De Man vê em Barthes, mais na noção de temporalidade do que na de história, uma submissão da consciência a uma reificação vinculada ao otimismo que considera perturbador.
- Barthes responde admitindo a dimensão mítica que sempre conferiu à história literária, reconhecendo que o passado atua para ele como uma espécie de psicanálise.
- Para Barthes, o romantismo inclui tudo o que se disse a respeito do romantismo; o passado histórico é uma substância pegajosa da qual tenta se desligar vivendo o presente como combate ou violência contra esse tempo mítico imediatamente anterior.
- Barthes não se desculpa dessa posição, apenas a explica, reconhecendo que isso não basta.
- Piero Puca, como filólogo clássico, celebra o retorno da Retórica a uma posição importante na literatura moderna, lembrando que o mundo clássico a tinha como matéria essencial na escola secundária e produziu Platão, Longino e Santo Agostinho.
- Aristóteles escreveu não só uma Poética, mas também uma Retórica; os antigos não só viram a Retórica em imagens e figuras, mas entenderam que a poesia poderia ser insanidade e loucura, também forma de criação.
- Barthes agradece a extensão do problema e esclarece que sempre concebeu a Retórica de modo amplo, incluindo todas as reflexões sobre as técnicas gerais das obras.
- A Poética de Aristóteles é também um estudo formal, no sentido mais profundo, de todas as obras miméticas, e é nessa perspectiva que se deve pensar hoje as obras literárias.
- Vernant questiona Barthes sobre o problema da voz média, perguntando se o desaparecimento dessa categoria linguística na evolução do indo-europeu foi acidental e se o teatro literário atual pode representar uma inversão desse processo histórico.
- Benveniste mostrou que a oposição fundamental original é entre voz ativa e média, não entre ativa e passiva; a voz média designa o tipo de ação em que o agente continua envolvido na ação realizada.
- No grego antigo, a voz média tornou-se vestígio cujo estudo apresentava problemas para os linguistas; a conclusão psicológica, que Benveniste não formulou, é que o pensamento em grego ou indo-europeu não possui a ideia de agente como fonte da ação, e que na Grécia não existe a categoria de vontade.
- A evolução do mundo ocidental, através da linguagem, das leis e de um vocabulário da vontade, constituiu precisamente a ideia de sujeito como agente, fonte das ações, assumindo-as e sendo responsável por elas.
- Vernant pergunta se o que se vê no domínio literário é uma inversão completa dessa evolução e se isso ocorre no nível literário ou apenas no nível metafórico.
- Barthes responde que uma das tarefas da literatura militante é tentar compensar, muitas vezes por métodos violentos e difíceis, o desaparecimento de categorias linguísticas ao longo da história.
- O escritor não pode agir diretamente sobre as formas da língua, nem inventar novos tempos verbais; ao ultrapassar a sentença ou o discurso, encontra certa liberdade para resistir e violar.
- Barthes reconhece a ambiguidade de sua posição, mas a mantém.
- Richard Schechner argumenta que o teatro está sendo expelido da literatura e que os estruturalistas têm a oferecer à crítica teatral o mesmo que oferecem à literatura, mas de modo diferente.
- A linguagem na literatura é descrita como implosiva, voltada às suas próprias leis; no teatro, a linguagem é explosiva, matriz da ação.
- Um texto teatral se situa em duas matrizes de ação: a que lhe deu origem e a que dele se origina na representação; nenhuma peça que não seja continuamente representada permanece na consciência.
- Schechner pergunta se Barthes considera a realização do texto apenas adjunto circunstancial do produto literário ou parte integrante do projeto literário, e exige que, se parte integrante, Barthes explique sua visão tanto do gesto quanto da linguagem e a relação entre as leis linguísticas e o mundo gestual.
- Barthes responde que os gestos humanos constituem um sistema semiótico e que os problemas encontrados nesse nível são mais ou menos os mesmos colocados por qualquer sistema de signos.
- Barthes não se sente inclinado a desenvolver o problema do gesto porque o sistema gestual no teatro burguês é inteiramente naturalista; num teatro do tipo chinês ou japonês, onde os gestos são desnaturalizados em benefício de um código muito forte, surgiriam problemas interessantes.
- O cinema, arte nascida num período dominado por estética e ideologia naturalistas, ainda não experimentou uma arte codificada.
- Sobre Molière, Barthes percebe nele todos os mitos da dramaturgia burguesa moderna; metodologicamente, uma vez que o teatro é um sistema semiótico como outro qualquer, os instrumentos e conceitos da Semiologia devem em geral aplicar-se a ele.
- Macksey acrescenta que Barthes já contribuiu com Christian Metz à Semiótica do cinema em seu ensaio Rhétorique de l'image em Communications.
- Derrida concorda com Barthes que a literatura de hoje não é uma recriação de fato da experiência passada da voz média, mas um esforço para pensar a aventura que foi a história ocidental e a história da Metafísica.
- Ao buscar o presente do tempo discursivo, Derrida não o encontra: esse presente não está no tempo da enunciação, mas num movimento de temporalização que coloca a diferença e torna o presente produto de uma síntese original que só se produz no movimento que o retém e o apaga.
- Se não há presente puro enquanto tempo da enunciação pura, a distinção entre tempo histórico e tempo discursivo se torna frágil; o tempo histórico já está implícito no tempo discursivo da enunciação.
- O je, para funcionar como ato de linguagem, deve ser constituído pela possibilidade de repetição; se a repetição é original, então não há o novo, o inédit, na linguagem; o falante está sempre ausente de sua linguagem.
- Husserl distinguiu dois tipos de falta de sentido: o nonsense de a minhoca está de, que viola as regras da gramática lógica pura; e o contrassenso de o círculo é quadrado, que as respeita mas carece de objeto possível.
- Je suis mort respeita as regras da gramaticalidade; tem um sentido ainda que obviamente falso; não é nonsense mas contrassenso inteligível; e a condição necessária para que a pessoa viva fale é sua possibilidade de dizer significando estou morto.
- Consequentemente, a certeza conferida à dissimetria da linguagem e ao pacte de la parole fica questionada: Derrida pergunta se é possível distinguir esse pacto do fantasma, e se as coisas são realmente tão claras quanto pareciam após a intervenção de Hyppolite.
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