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EREIGNIS E LINGUAGEM
AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015:165-166.
- O Pensamento do Ereignis a Partir da Linguagem como Palavra As-sue-ta, Reconduzida ao Próprio
- A questão acerca de uma linguagem em que o destinante já não se subtrai no que é destinado:
- Tal linguagem seria aquela em que o dizer já não se esconde no que é dito
- Tal linguagem seria aquela em que a pura língua dos nomes não decai nas instâncias concretas de discurso
- A determinação negativa do que essa linguagem não é:
- Não se trata de uma língua que fique junto de si, no silêncio
- Não se trata de um tema que nunca chegue a se declinar em seus “casos”
- A determinação positiva do que advém à linguagem segundo Heidegger:
- Mostra-se a ocultação como tal, o puro destinar sem destino
- O que advém à linguagem não são simplesmente palavras nem sequer um puro nome não proferido
- O que advém à linguagem é, antes, a própria diferença entre língua e fala
- O que advém à linguagem é “a pura — e em si intransmissível — destinação do dizer à fala” (“die Bewegung der Sage zur Sprache”, GA12:Sprache, 261)
- A questão suscitada por essa determinação:
- Significa isso que o pensamento do Ereignis é, como o Absoluto de Hegel, pensamento da pura declinação?
-
- A formulação explícita de Heidegger em Identidade e Diferença (GA11):
- “Para Hegel, a coisa do pensamento é o pensamento (Gedanke) como conceito absoluto”
- “Para nós, a coisa do pensamento, provisoriamente nomeada, é a diferença como diferença” (GA11:Ident., 37)
- O pensamento hegeliano e a palavra no conceito absoluto:
- Para Hegel, trata-se de pensar o fato de a palavra se tornar igual a si mesma ao ser proferida na totalidade das instâncias de discurso
- Trata-se da palavra integralmente com-preendida, con-cebida: o conceito absoluto
- O pensamento heideggeriano e a experiência da diferença:
- Heidegger quer pensar em si mesma a diferença entre dizer (Sage) e linguagem (Sprache)
- Heidegger procura uma experiência da linguagem que experimente aquele Es que, destinando-se à palavra, fica ele próprio sem destino
- Trata-se daquele agente de transmissão que, em toda instância de linguagem e em toda transmissão, permanece intransmitido
- O Próprio e a diferença absoluta:
- Este é o Próprio, o se que nunca alcança o nominativo e é, por isso, sem nome
- Não se trata do conceito absoluto, do ser que se tornou igual a si no ser outro
- Trata-se da absoluta diferença, da apropria diferença reconduzida a si
- A proximidade essencial e a divergência entre pensamento do Absoluto e pensamento do Ereignis:
- A resposta do homem à diferença:
- Toda linguagem humana é necessariamente histórica e destinada (Sprache, 264)
- Só des-falando (Entsprechen) e arriscando o silêncio o homem pode corresponder à diferença
- O homem nomeia no não-dizer, cala dizendo (“im Nichtsagen nennen, Erschweigen” — GA6T1:Nietzsche, I, 471)
- A Natureza Linguística do Pronome Impessoal Es e a Compreensão do Ereignis
- A origem genitiva do pronome impessoal es:
- Es é, originariamente, um genitivo (genitivo de er)
- Exemplos do uso originário: es ist Zeit significa “é tempo disso”; Ich bin’s zufrieden significa “estou satisfeito com isso”
- Com o tempo, o genitivo es deixou de ser percebido como tal e tornou-se, no uso linguístico, equivalente a um nominativo
- O paralelo com o pronome impessoal italiano si:
- Si representa um dativo ou um acusativo (latim sibi, se)
- Um pronome que indica uma predicação de pertença torna-se sujeito de um sintagma verbal que se apresenta como impessoal
- A implicação para o pensamento heideggeriano:
- Se es é um genitivo e não um nominativo, compreende-se por que Heidegger, ao pensar o es gibt Zeit e o es gibt Sein, deva pensá-lo como um Ereignis
- O Ereignis é pensado como apropriação e como as-sue-tude (as-sue-fazione)
- A natureza do Ereignis a partir do genitivo:
- No Ereignis, tempo e ser co-pertencem, são apropriados a um mesmo
- O Ereignis, como es, como genitivo, não existe nem se dá
- Es não existe como entidade lexical, tal como não existe o si
- A impossibilidade de o pensamento resultar em uma entidade lexical:
- O pensamento que quer pensar o Próprio não pode resultar em uma entidade lexical, em algo existente
- O pensamento que quer pensar o se não pode resultar em uma entidade lexical, em algo existente
- O Próprio, o ethos do homem, e sua relação com o destino e o nome:
- O Próprio, na medida em que é ele mesmo o que destina, permanece não nomeado na filosofia
- O Próprio é sem nome, isto é, sem destino
- O Próprio é uma transmissão intransmissível
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